17.8.07

Número 218

CONDENADOS

 

Está na resolução n° 245 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran): a partir de agosto de 2009, todos os carros zero quilômetros deverão sair das montadoras já equipados com rastreadores e bloqueadores antifurtos. De acordo com as autoridades, tais equipamentos permitem recuperar até 90% dos veículos furtados. Com isso, ao proprietário será facultado gastar mais (contratando o controle do veículo 24 horas por dia, via satélite), ou menos (caso opte por um bloqueio simples, via celular) para buscar seu carro de volta. Prender ladrões e receptadores, aplicando corretamente os impostos, nem pensar.

 

Esta fórmula invertida de resolver o problema da segurança pública, isto é, repassando a (dupla) conta e o gerenciamento para o cidadão, poderá servir de modelo para os demais órgãos governamentais. Afinal, temos culpa de nascer no Brasil. E culpa maior em caso de mérito –   como é a situação dos afortunados que conseguem comprar um carro novo. Nos moldes do Contran, viriam estas outras resoluções:

 

Resolução da Secretaria de Obras: a partir de tal data, toda construção residencial seria obrigada a conter, em seu projeto, grades em todas as janelas e portas. Mais: cerca elétrica e arame farpado; alarme com sensores de presença em cada peça e monitoramento (operado por empresas ou via celular); canil e guarita na calçada. Afinal, mais de 90% das casas arrombadas não contam com a metade destas garantias.

 

Resolução da Secretaria de Comércio e Serviços: a partir de tal data, só receberia alvará de funcionamento o estabelecimento que apresentasse, em seu projeto, um sistema de monitoramento interno via circuito fechado de TV. Além disso, deveria conter portas com detector de metais, botões anti-pânico em locais estratégicos e guarita à prova de balas. Para o caso de bares e restaurantes, seria exigida a apresentação dos diplomas de Ninja de seus garçons; aos cozinheiros, Curso de Atirador de Facas. Heliporto e telefone vermelho dentro de uma queijeira – para falar direto com o Batman. As estatísticas indicam que mais de 90% dos casos de assalto seriam evitados com tais equipamentos.

 

Resolução do Conselho Tutelar: a partir de tal data, todo bebê que nascesse em lar brasileiro deveria ganhar uma pulseira de rastreamento via satélite. Nela, um chip programável informaria aos pais, com preços módicos, a freqüência da criança nas aulas, com quais amiguinhos ela tem andado e se foi ao banheiro hoje (e quanto tempo lá permaneceu). Para o caso das mães que trabalham fora, informaria se chegou perto do fogão e tomadas elétricas; ou mesmo se ficou todo o tempo na frente da TV. Pesquisas indicam que mais de 90% dos casos de delinqüência juvenil, acidentes domésticos e prisão de ventre seriam prevenidos.

 

Outros projetos: a obrigatoriedade de cintos de castidade para todas as mulheres, a fim de prevenir estupros. Detectores de mentira individuais, para escapar de estelionatos. Coletes à prova de bala em qualquer traje (principalmente uniformes escolares), para escapar de balas perdidas. Toque de recolher nas doze badaladas.

 

Então, no momento em que todas estas portarias entrassem em vigor – agosto de 2009, quem sabe, junto com a inspiradíssima resolução 245 do Contran –, os governantes poderiam, enfim, abrir de vez as portas das prisões. Teria sido mais fácil e barato monitorar, cercear e enjaular todo mundo.

 

Exagero ou premonição?

9.8.07

Número 227

ÓRFÃOS

 

É complicado ser órfão no Dia dos Pais: um patinho feio que será esquecido por todos os anúncios e cartões da data. Pai morto não ganha furadeira ou espeto de churrasco. E, muito menos, pagará a conta do presente que o filho lhe comprar. Mas existe muita gente que encontra mais motivos para chorar do que para sorrir no segundo domingo de agosto. À revelia dos departamentos de marketing.

 

Entre os amigos pessoais que perdi e a maior tragédia aeronáutica do Brasil, nenhum outro Dia dos Pais me avizinhou com tantos falecimentos como esse de 2007. Dos tantos órfãos que surgiram ao meu redor, embalados por fatalidades pessoais e coletivas, cada qual sofrerá a dor da separação de modo particular, apanhado pela fatalidade em momentos distintos da existência.

 

Como é o caso de um pequeno amigo, bebê lindo e de olhos azuis, que ganhou do pai os mais afetuosos abraços do mundo, mas terá essa lembrança impressa apenas no coração, e não na memória. Quem lhe deu a vida partiu muito cedo, antes mesmo de ganhar, em retribuição, o valioso porta-lápis pintado com tinta têmpera na sala de jardim de infância. Caberá à mãe, aos tios e amigos, a incumbência de contar as histórias do pai, para garantir-lhe a presença. Justo (injusto!) um pai conhecedor de tantas histórias que mereciam ser compartilhadas.

 

No dia dezessete de julho, data do vôo TAM3054, muitas outras crianças também perderam os pais. E o fato de algumas serem crescidas, levando para adiante boas lembranças paternas, não será de modo algum suficiente consolo. Ao contrário, receberam da vida um ensinamento duro e precoce: o de que o papai super-homem não é invencível. Todo cuidado será necessário para que o medo não seja a companhia destes pequenos.

 

Igualmente, jovens e adolescentes, às pencas, acabaram por se despedir para sempre de seus velhos nada velhos no aeroporto. Com isso, deixarão de receber preciosos conselhos que fariam questão de ignorar para, mais tarde, compreender. Sobre seus ombros, pesará o amadurecimento instantâneo imposto pela orfandade. Já tendo passado por isso, mesmo que em outro momento da vida, garanto: Quando morre o pai, parecemos envelhecer décadas em um instante. Torço para que todos suportem a carga.

 

Porém, de todas as mortes que assaltaram minha (nossa) rotina nesses dias, existe uma que traz consigo a maior de todas as dores. Ela é uma orfandade ao contrário: a que se impõe ao pai no sepultamento do filho. Afinal, na medida em que o homem se torna perpétuo em sua descendência, morre seu futuro quando o destino lhe ceifa o herdeiro. Esta é a maior provação pela qual pode passar um pai.

 

Sou pai, e temo mais pela vida dos filhos, do que pela minha própria. Desde que o primeiro me chegou ao colo, ainda na sala de parto, conheci a maior alegria do mundo. Ela só encontra magnitude rival com a responsabilidade que nasce junto com aquela vida que ajudamos a gerar. Cumpro meu encargo enfrentando o desgaste da educação, o tolhimento da liberdade, as renúncias voluntárias. Nenhum sacrifício, diga-se.

 

Nesse Dia dos Pais, quero me solidarizar com os órfãos, crianças e jovens, marcados em perdas recentes. E, principalmente, com os pais que se despediram de seus filhos muito antes da hora, dor imensa. Vocês não estão estampados em nenhum cartaz de loja. Mesmo assim, conhecem como ninguém o significado das palavras presente e lembrança.

2.8.07

Número 226

A LINHA TÊNUE

 

Bezerra entra na loja de armarinhos do Turco. Primeira vez. Seu ar é de desconfiado. Freguesa, é sua Madalena – comprara lá desde os lençóis do enxoval, passando pelas fraldas dos filhos e, mais recentemente, os guardanapos escolares dos netos. Mãos para trás, os olhos para o alto, um leve cantarolar nos lábios. Em poucos passos já está no balcão, diante de Aziz, que lhe sorri encantador.

– Bom dia, freguês! – ele abre os braços com as mãos espalmadas para cima. – O que procura, seja o que for, temos por bom preço!

Bezerra responde o cumprimento com um meio sorriso. Solta as mãos. Fixa o olhar no vidro do balcão. Percorre com o dedo indicador os diversos escaninhos lotados de carretéis. Estaria, na verdade, atrás de algo muito difícil: uma linha a qual todos se referiam, mas que nunca mais vira. Uma linha tênue. Teria dessas?

– Depende, freguês. Depende... – puxa de cima da mesa o carretel de linha verde. – Dessa aqui, por exemplo, agora mesmo levaram um pouco: é a linha tênue que separa a boa intenção da incompetência. Interessa?

Sem tirar os olhos da vitrine, Bezerra nega com a cabeça. Dá duas batidinhas de unha e aponta para a cor de laranja. Ergue o olhar.

– Está mais para essa...

– Ah, a linha que separa a letargia da classe média da ignorância diante do perigo constitucional. Faz tempo que ninguém a percebe. Perdoe a curiosidade, mas o senhor está desconfiando de algo?

– Não, não. Gosto do tom, apenas. Tem bastante dela, ainda?

– Carretel único, freguês, bem no fim – desconversa. – Mercadoria que não gira, comerciante algum repõe.

O Turco puxa a gaveta para si em busca de alternativas:

– Olha, para ser franco, bastante tenho dessa, amarela – apanha o carretel e alcança para Bezerra. – Vê se gosta: é a linha tênue que separa a pretensão de inocência da investigação isenta. Faz anos que está na moda!

– Vê a minha idade, seu Turco! – franze o cenho, olha nos olhos. – E homem velho liga para moda?

Aziz corre com as mãos atrás de algo melhor para oferecer. Pára na linha preta. Muda de idéia: apanha a cinza. Ela separaria a consciência crítica da informação pura e simples.

        Gostei. Meu genro, por exemplo, nem faz idéia que ela possa existir.

Nesse momento, Bezerra tira uma pequena amostra de linha do bolso. Coloca sobre o vidro. Vai ao assunto:

– Essa, a linha tênue que separa a ação política descomprometida da corporação partidária, o senhor tem para vender?

O Turco olha em volta. Estão a sós. Pede licença, sai de trás do balcão. Fecha a porta de vidro da loja. Tranca. Passa correndo e pede com as mãos que o aguarde, diz que está no estoque. Ruma para os fundos.

Bezerra fecha as mãos e comemora. Pega o telefone celular. Busca na agenda do aparelho o nome do amigo repórter de jornal. Chama o número e desiste. Guarda o celular. Pára defronte a vitrine de lingeries, passeia com os olhos.

Espia a porta por onde sumiu Aziz. Volta a apanhar o telefone. Disca para casa. Toca diversas vezes. Ninguém atende. Caminha até a porta de vidro com as mãos nas costas. Ainda segura o celular. Cantarola. Retorna para o balcão. Repara: O Turco levou a amostra! Liga para o repórter. Toca uma vez. Duas, três vezes.

Escuta uma sirene. Parece que é a Polícia.

26.7.07

Número 225

DOIS PEITOS, DUAS MEDIDAS

 

Sou igual a muitos: Adoro o esporte e tudo o que ele traz de positivo para a sociedade. Por isso, acompanho com atenção Copas do Mundo, Olimpíadas, Fórmula 1, Campeonatos Nacionais de Futebol e, claro, Jogos Pan Americanos. Quando este interesse natural é somado a uma cobertura massiva da imprensa, como é o caso do Pan do Rio, aí mesmo que a tentação de ficar ligado no rádio e na TV cresce.

 

Os anunciantes sabem disso e compram, a peso de ouro, os patrocínios da programação. Também capricham nas campanhas, buscando, para si, inéditos louros comerciais. Comparando os jogos e as propagandas, vejo a existência de peitos muito diferentes. Sim, confesso: Termino por olhar tanto o quadro geral de medalhas quanto o quadro específico que compõe as atletas vencedoras. E, neste último, o volume dos seios.

 

Nas piscinas, nas quadras e nas pistas, percebo mulheres com corpos muito diferentes: Umas bem altas e esguias, outras extremamente fortes e um grupo de atletas no estilo mignon. Todas elas com belezas particulares, nem sempre tidas como padrão, mas com a inegável aparência de saúde. Em meio a tanta disparidade, uma constante chama a atenção: Quem emoldura as medalhas são os seios de porte médio para pequeno.

 

Como ensinou Darwin, o esporte não diminui os seios – são as atletas com glândulas mamárias menores que sobrevivem vencedoras. Desconsiderando as conseqüências de uma dieta controlada e de uma rotina de exercícios extrema, algo que reforça a existência de músculos em detrimento de outros tecidos, a verdade é que peitões, no esporte, só atrapalham.

 

Quando as atletas descem do pódio, entram os patrocinadores. E, durante os comerciais, mais especificamente nas peças publicitárias de cerveja, vejo mulheres em outra modalidade de competição. Neste certame, as fêmeas são todas exuberantes, sorridentes, magérrimas e... peitudas. Elas atiram-se para as câmeras mirando na mosca o imaginário masculino. Com isso (ou melhor, com tudo aquilo), ajudam a vender outro ouro: O dos copos.

 

Decotes mais do que generosos vencem até o mais desatento dos olhares. A cada cena, um ponto, um recorde, um ippon. Em ralos trinta segundos, e sem a chance de se fazer um exame mais detalhado – principalmente tátil –, ficamos com a impressão de que muitas das musas do lúpulo e da cevada não passariam em um antidoping. Mesmo assim, ninguém parece sonhar em desclassificá-las, legitimando o uso indiscriminado de silicone.

 

Não sei até que ponto a turma do marketing mediu o tamanho da preferência masculina em matéria de seios no momento de escolher as meninas das companhias de cerveja. Fico com a impressão de que tentam impor um modelo estrangeiro de beleza que, apesar de chamar a atenção, passaria longe do pódio brasileiro. Eu, pessoalmente, não sou muito fã de air-bag. Minha mulher ideal estaria apta a bater um bolão tanto na quadra esportiva quanto em outros campos. Quer dizer, para o meu gosto, o belo nasce da proporção. Sem essa de dois pesos (peitos!) e duas medidas.

19.7.07

Número 224


A ERA DE AQUÁRIO

 

Faz muitos anos, se não me engano em 1979, o mundo inteiro aplaudiu um musical cinematográfico adaptado do teatro chamado Hair Musical. Na peça, quarentona em outubro, uma música se destacava. Ela cantava a transformação que estava por vir no momento em que o mundo entrasse na Era de Aquário. Todos sabemos assobiar este tema. E, tanto quanto a dança na chuva de Gene Kelly, está firme na memória o ambiente de louvação presente na coreografia executadas pelos hippies.

 

Procurei informações sobre a tal Era e encontrei uma certa controvérsia. Para alguns estudiosos, Aquário regerá o mundo daqui mais de cem anos. Para outros, já está no comando. E, para um terceiro grupo, estamos vivendo um momento de transição entre a Era de Peixes e a de Aquário. Tenho a tendência de acreditar mais na posição moderada dos que defendem a transição por dois motivos: a paz e o amor prometidos estão longe de serem realidade. Mas a revolução tecnológica, típica do predomínio da razão, está em pleno curso.

 

Independentemente dos desígnios do céu, creio que o Brasil já está em sua Era de Aquário particular. Não bem aquela cantada pelos cabeludos dos anos sessenta. Explico: Nossas crianças brincam confiantes em locais desenvolvidos para propiciar segurança, aprimoramento físico e social, muitas vezes assistidas por profissionais de formação elevada e cercadas de cuidados por todos os lados. Bom, isso nos condomínios da classe média para cima, nos clubes e nas escolas particulares. Em outras palavras, os filhos daqueles que nasceram lá nos anos do Hair, e que lutam para garantir uma vida digna para a família, são criados em verdadeiros aquários.

 

Adiante, digo como acontecia a vida infanto-juvenil em Peixes: para comprar um disco, um livro ou uma calça jeans, eu, lambari, pegava um ônibus e rumava ao centro da cidade. Lá chegando, era como estar em mar aberto. Ao meu redor, cardumes de ambulantes vendiam desde agulhas até desentupidores de bicos de fogão; tinha a turma das roupas industrializadas e os hippies a ofertarem seus artesanatos; os vendedores de fitas K7 e aqueles que derrubavam bilhetes premiados nos pés de quem passava. Ciganos, prostitutas, aposentados, malandros, advogados, comerciantes, intelectuais, traficantes, um ecossistema riquíssimo estava na Rua da Praia (cresci em Porto Alegre). Naquele tempo, era preciso estar esperto. Mas, em Peixes, em regra, acontecia nada.

 

Hoje em dia, o mar aberto das avenidas ficou muito perigoso, com assaltos, seqüestros e assassinatos em grande número. A alternativa é circular em um ambiente climatizado, limpo, organizado, selecionado, bem iluminado, repleto de opções de entretenimento, planejado para o bem-estar e, o principal: seguro. Um lugar onde não é possível saber se chove ou faz calor, se já escureceu ou se o sol ainda brilha. Nas cidades grandes e médias, todos os que podem, optam por fazer os programas sociais e de compras no shopping center – uma metáfora perfeita para o aquário.

 

Paz, amor, liberdade, razão. Essas lindas promessas da ordem celeste pouco ou nada influenciam a Era de Aquário brasileira. Aqui, a guerra urbana, o desamor e a irracionalidade enclausuram as pessoas em ambientes preservados artificialmente. São prédios, muros, cercas, cancelas, portas giratórias e ar condicionado – uma vida em aquário. Um bem-estar comprado por poucos e à custa de muito investimento. Na contramão da ordem celeste, a desordem terrena atira os brasileiros no Aquário errado.

12.7.07

Número 223

A MARAVILHA ERRADA

 

Até poucos dias atrás, quando alguém creditava a si um valor imenso, desproporcional, argentino, dizia-se: O cara – ou a menina – se acha a oitava maravilha do mundo! A má notícia é o rebaixamento dos megalomaníacos ao pouco honroso décimo quinto lugar, pois foram eleitas mais Sete Maravilhas.

 

As primeiras Sete, as Maravilhas do Mundo Antigo, não foram propriamente eleitas, e sim listadas. Bom, isso até onde se saiba. Ao menos jamais foram encontrados, em algum sítio arqueológico, panfletos com as inscrições "Vote Rodes". A intenção, à época, foi indicar obras magníficas, erguidas pela engenharia humana, todas fundamentais para serem conhecidas e reverenciadas. O turismo, já na Antiguidade, era uma fonte de riqueza.

 

Hoje, no Mundo Moderno e democrático, a fundação New Seven Wonders organizou um concurso para listar as novas Maravilhas. Tal qual uma planetária votação de Miss Escolar, cada família se mobilizou para angariar votos para a sua maravilhazinha querida, considerando-na mais maravilhosa do que a do outro país. O prêmio desta gigantesca quermesse é a esperança de eternizar a sua obra e faturar com os turistas. Muito nobre!

 

Terminada a votação, nenhuma surpresa: O Brasil colocou o Cristo Redentor entre as Sete. Somos bons nisso de eliminar e escolher. Treinamos bastante com o Você Decide, o Big Brother Brasil, o Ídolos, a Dança dos Famosos etc. Pediu para ligar, mandar torpedo ou entrar na Internet, o brasileiro – aquele que é o melhor do Brasil – atende. Justo agora, no momento em que nunca na história deste país aconteceram tantas coisas, o monumento do Corcovado ficar de fora seria um golpe fatídico em nossa auto-estima. Aleluia! Cristo Redentor é cada vez mais imortal! Quase um Grêmio.

 

Na minha particular opinião – e correndo o risco de parecer antipático –, ao compararmos com outros concorrentes, o querido Redentor de braços abertos para a Guanabara é como a Miss Japão: Vence sem convencer. Porém, como se diz no futebol, o que vale é taça no armário e faixa no peito! Os franceses e sua Torre Eiffel tratem de se conformar. A Liberdade dos americanos do norte e a Acrópole grega que se mordam. Que todos os castelos e catedrais da Europa lambam suas feridas. Turistas dispostos a relaxar e gozar, venham a nós! E Cristo ilumine os controladores de vôo.

 

Mas, quem tem todos os motivos do mundo para estar com dor de cotovelo é a cidade de Brasília. Não entendo como a Capital Federal pode ter perdido para o lobby carioca a indicação brasileira no tal concurso. Afinal, desde os Jardins Suspensos da Babilônia, nenhum outro conjunto arquitetônico conseguiu pairar lindo e incólume (impune?) sobre a realidade cruel. Brasília, ela sim, é uma verdadeira Maravilha: Prédios suntuosos nos quais o concreto flutua e o dinheiro evapora. Quanta injustiça...

 

5.7.07

Número 222

 

O TAL COELHO

 

Magia pura: diante de uma platéia agitada, o homem entra no palco de fraque, capa e cartola. Despe-se da capa em uma coreografia grandiloqüente. Avança. Faz uma reverência ampla e, ainda dançarino, apanha com as mãos a cartola que tomba, ensaiada, de sua cabeça. Retorna ao centro do palco para depositá-la em uma mesa. Apanha sua varinha mágica e, três toques depois, retira da cartola um lindo e alvíssimo coelho. Palmas entusiasmadas!

 

Todos os que se propõem a escrever crônicas, contos ou poesias, como eu, também agem como o mágico acima descrito. Isto é, topam subir ao palco metafórico, criar os próprios salamaleques e, para o encantamento do respeitável leitor, tirar muitos coelhos da cachola. Tanto quanto formos competentes, maior será o brilho no olhar do público.

 

O livro é o ápice desta magia. Com ele, nossos truques ganham cenário de luxo – capa sedutora, diagramação caprichada, apresentação, orelha e sumário. Além do mais, galgam uma espécie de vida própria, como se rompessem com o autor para sair encantando sozinhos. É quando nós mesmos nos maravilhamos com a ilusão um dia criada, e que se torna real na mente do leitor.

 

Vivi, ainda agora, a minha primeira noite de autógrafos. Ok: já havia lançado um CD, com show e tudo. E, na época, distribuí autógrafos na qualidade de baterista. Mas, assinar sobre o primeiro livro foi algo de uma força incomum. Custo a crer que foram momentos de verdade, pois nem em minha mais otimista ficção pensaria em passagens tão felizes.

 

Quero agradecer, de coração, a todos os que fizeram parte do espetáculo em que se transformou o lançamento de O Y da questão. Nomeando alguns, por justiça plena: Lóris Brissac – editora; Alex Medeiros – design gráfico; Annete Baldi e Márcia Ivana – seleção das crônicas; Valesca de Assis – orelha; Luís Augusto Fischer – apresentação. Além dos queridos anfitriões Carlo & Sandro Zanetti – proprietários do Z Café. Por detrás de determinados nomes, suas competentes equipes.

 

Por fim, gostaria de demonstrar toda a gratidão aos queridos amigos que no Z compareceram. Afinal, foram os protagonistas de uma mágica que eu jamais imaginei possível. Chegaram de todos os lados para tirarem de uma carinhosa cartola o súbito coelho: era tanta gente que, para os passantes, eu virei um Paulo Coelho!

28.6.07

Número 221

 

TRÊS AMIGOS

 

São três amigos inseparáveis: um, sempre o sujeito certo na hora errada; o outro, aquele errado na hora certa; o cara certo na hora certa é o terceiro. Para cada um deles, o destino prega peças ou favorece. Depende. Assim como depende o futuro para cada um, todos com a sua sina.

         O primeiro parece toda vez estar preparado para as oportunidades que não chegam. Ele não tem preguiça de empreender, nunca lhe faltou capacidade ou dedicação. Ao contrário, é julgado pela maioria dos amigos como uma espécie de gênio incompreendido, alguém meio fora do tempo. Seus projetos não avançam, mas, vira e mexe, todos se surpreendem com algo quase igual acontecendo em outras mãos.

         O segundo, por sua vez, não sabe do que não é capaz. Logo, aceita desafios fora do seu alcance. Como é de se esperar em casos assim, acaba galgando êxitos inexplicáveis até mesmo para o próprio. Quando lhe perguntam como faz, afirma – inocente – que vai aprendendo na hora, deixando fluir... Porém, fica a impressão de que tudo seria mais fácil ou melhor resolvido se, na hora certa, ele tivesse se preparado melhor. Esta hora é aquela que fica sempre para trás.

         O terceiro é o cara com uma parte da anatomia virada para a lua. Tudo que escolhe é o melhor, onde chega é bem-quisto, o sucesso o precede e acompanha. Casou com a mulher ideal e, mais importante!, passa a impressão de que ela é quem tirou a sorte grande. Se chega a errar nas escolhas, as conseqüências não lhe prejudicam demais e servem de ótimas lições – algo preparado pelo destino para valer de escada para um acerto vindouro. Corre riscos calculados e acerta a matemática do improvável.

         Os três vivem aqui dentro de mim. Se alternam no comando das ações e costuram as coincidências com o fio do livre arbítrio. Cada um teria motivos para se queixar do outro, seja por sua boa ou má sorte, quem sabe pela imprevidência. Mas são amigos, como já disse. E amigos têm a capacidade de aceitar, perdoar e compreender. Além do mais, se fazem companhia, pois a vida perde a graça quando se está só. Quando olho para o passado, sei direitinho qual deles me aconselhou.

         Com relação ao futuro, um problema: nunca consigo escolher com qual dos três amigos vou dialogar para escolher o próximo passo, pois se parecem demais um com o outro (e todos eles comigo). Mas nem por isso deixo de seguir a intuição, um farol que, com a benção do Céu, nunca me tem faltado. E será assim para sempre. A menos enquanto não aparecer uma quarta personagem, aquela que estraga o dia de qualquer um: o cara errado na hora errada!

 

***

 

         Por falar em amigos, espero encontrar com muitos no dia 3 de julho, no Z Café do Iguatemi, às 19 h, para o lançamento de O Y da questão e outras crônicas . Afinal, os três aí de cima estarão me acompanhando nos autógrafos e, por isso, não poderão me ajudar fazendo número na fila... Já o cara errado na hora errada, este, tomara que continue sem aparecer!

21.6.07

Número 220

 

HISTÓRIAS PARA ACORDAR

 

E ra uma vez, num reino longínquo, Mamãe, chefão do morro que o bosque margeia. Um dia, chamou a bela Chapeuzinho Vermelho para sua casa. Precisava alguém de menor para levar a cesta de doces para a Vovozinha, que morava dali distante. A tal senhora já andava doente pela casa, tanta a vontade de consumir uma cocadinha.

 

Mamãe não queria correr riscos. Na Via-bosque, expressa, era constante a presença de Lobos. Por isso, orientou Chapeuzinho a seguir o caminho do rio, "longo, mas totalmente limpo". Vovó que esperasse. A menina apanhou a cesta e partiu, feliz com o dinheiro por descolar. Cantava:

 

– Pela estrada afora, eu vou, bem sozinha, levar esses doces para a Vovozinha...

 

A pobre Chapeuzinho Vermelho desconhecia até a mais célebre fábula infantil (evasão escolar era comum naquele reino). Então, desobedeceu Mamãe em busca da trilha mais breve. Bem como o previsto, antes da terceira curva, Lobo apareceu. Queria explicações.

 

        Você aí, como se chama?

        Chapeuzinho Vermelho – respondeu, cândida.

        E, na cesta, vai o quê? – perguntou, enquanto erguia o guardanapo de linho com delicadas bordas em crochê azul turquesa.

 

Sem poder escapar da revista, a menina tratou de eximir-se de culpa.

 

        São doces, mas não são meus... Mamãe quem me entregou. Vão para a Vovozinha, doente, coitada.

        Ah, bom! – respondeu Lobo, passando a mão no ombro de Chapéu para uma conversa em particular. – Então vamos fazer um negócio: Me dá o endereço da tal Avó, e eu garanto a passagem. Se lhe abordarem, diz que já falou comigo, ok? E, se Mamãe ligar no meio tempo, fala que encontrou um Lobo Mau e tudo bem. Tudo sob controle...

 

Dito e feito. Chapeuzinho Vermelho seguiu a Via-bosque animada com o salvo conduto que recebera. Porém, a menina ignorava o fato de o Lobo ter se adiantado por um atalho até a casa da Vovozinha. Lá, prendeu-a e armou um flagrante, deitado na cama, fazendo-se passar por Vovó.

 

Como todos já conhecem o diálogo do nariz tão grande, vamos direto ao que ocorreu depois: Lobo Mau, na verdade um Cordeiro disfarçado, anunciou a prisão da menina e apreensão da cesta. Todavia, no instante em que deu o bote, um caçador munido de informações privilegiadas – a serviço de Mamãe – iniciou violenta reação. Na troca de tiros, morreram Chapeuzinho, Vovó e o Porquinho caçula. Bala perdida. Atravessou fácil a parede de palha de sua casa, em arquitetura campestre.

 

Imoral na história: Mamãe não chorou a morte de Chapeuzinho. O caçador sumiu. Nos jornais, sequer foi citado o nome da Vovozinha. Para o Porquinho do meio permanecer tranqüilo em seu sobrado, será necessário blindá-lo, especialidade da firma de engenharia do competente primogênito – Porquinho capitalista, riquíssimo. E, de concreto sobre o episódio, apenas o inquérito para apurar se a bala que alvejou o inocente suíno partiu da arma do Lobo Mau. Digo, do Cordeiro. Até segunda ordem, suspenso.

20.6.07

CONVITE



15.6.07

Lembrete

DIA 03 DE JULHO, Y DA QUESTÃO NO Z CAFÉ IGUATEMI 

Número 219

 
 

O RELÓGIO DE OURO

 

Tenho hoje no pulso o relógio que era do meu falecido pai. Ocorreu o mesmo com ele, primogênito em sua casa. Só meio diferente: coube-lhe o relógio do meu avô com vinte e poucos anos. Dessa passagem, sei apenas o que me foi contado, pois na época eu era vaga especulação biológica. Agora, entendo que, quando meu avô faleceu, o pai morreu um pouco com ele também. Sei disso por essa pequena morte que levo no braço. E sei que ele, por ter sido órfão bem mais jovem, morreu muito mais do que eu neste momento da vida.

 

O relógio do meu avô era de ouro. Como disse, mudou-se para o pulso do filho muito adiantado. Não estava nem perto de ser a hora, e o relógio já marcava-lhe o destino. E se a hora estava errada, o destino sofreu muitas alterações. Esse tempo que não existiu matou grande parte dos sonhos do meu pai. Precisou de muitos, mas muitos anos para ele acertar os ponteiros de suas próprias metas. Chegou a temer faltar-lhe as horas para este intento. Me consola ser a testemunha de que partiu em dia com a vida. Só quisera ter sido um pouco mais tarde.

 

O nobre metal que emoldurava o relógio do meu avô foi um fardo para aquele braço jovem. Tanto que o pai acabou perdendo-o numa caçada – história que ouvi dezenas de vezes, dita com um ruminante e inconformado sofrimento. No fundo, é provável que o relógio nunca tenha chegado a lhe ser justo no pulso. E afundou, justamente, em um banhado, como quem busca a sepultura. Mas quem disse que ele deixou o pulso do pai? Não: mesmo ausente, pesou-lhe para sempre o infortúnio.

 

O relógio que me coube não é o de ouro. Muito melhor não ser aquele. Rogo para que não seja! Espero ter recebido o relógio certo, bem no tempo. A relíquia cujo maior valor seja estimativo, que mesmo em que pese na saudade, seja leve na lembrança. Um relógio que me informe as horas, os minutos e os segundos como quem fala de outros tempos. Que me oriente do mesmo modo como meu pai fazia, para que minhas futuras mortes sejam mais suaves, chegadas na hora marcada.

 

Agradeço à mãe por estar com esse relógio no pulso, agora. Influenciou em sua decisão o fato de eu mesmo tê-lo presenteado ao pai, cinco ou seis Natais atrás. E não lhe parecia justo o relógio parar na gaveta. A mãe sempre conta, emocionada, que o pai pedia muito pelo relógio quando estava na UTI – um dos tantos carinhos proibidos no hospital. Lá, só o relógio de ouro se fazia presente, assombrava-lhe o pulso, marcava a hora da morte. Aquele mesmo que nunca deveria ter sido seu tão cedo. E que o pai findou por devolver para o meu avô, quero crer, em justa hora.

7.6.07

Número 218

 
 
DIA 03 DE JULHO, DIA DE Y NO Z

TEMPO PARA NAMORAR

 

Anos 50 – Ao som de Elvis Presley, José pede Maria em namoro. A moça, antes de pensar em aceitar, precisa falar com a mãe. A mãe, antes de permitir, consulta o marido. O marido, antes de mais nada, pede para conhecer o tal rapaz. José se apresenta ao pai de Maria. Sofre um interrogatório severo: se estuda ou trabalha, filho de quem é, quais são as suas intenções. Sabe das regras para freqüentar a casa – um lar de família. Para saírem juntos, apenas na companhia da tia Dulce, e olhe lá.

 

Anos 60 – Ao som dos Beatles, José pede Maria em namoro. A moça aceita e passam a se encontrar às escondidas, atrás da Igreja. Também a namorar nos recantos discretos dos salões de baile. Até que o fato, em forma de fofoca, chega aos ouvidos dos pais dela. Maria fica um mês de castigo, em casa. Durante este tempo, troca bilhetes de amor eterno com José e convence a mãe de quanto o ama. Quebrada a resistência, a mãe passa a argumentar com o marido, que enfim aceita receber José para um almoço. José pede Maria em namoro outra vez, agora oficialmente. Recebem a permissão. Mas andam sob o olhar vigilante de Mário, irmão de Maria.

 

Anos 70 – Ao som dos Jackson Five, José pede Maria em namoro. A moça aceita e José passa a buscá-la na escola, a combinar sessões de cinema e tardes no parque. Freqüentam reuniões dançantes e festas de clubes, trocando carícias nos recantos mais escuros dos salões. Quando já estão firmes, e com os rumores já ecoando nos ouvidos da família, resolvem assumir o compromisso, dando a notícia em casa. O pai dela consente, desde que não atrapalhe nos estudos: baixando as notas, o castigo será ficar em casa. E estipula meia-noite como horário limite para a menina estar em sua casa (ou José fora dela).

 

Anos 80 – Ao som do Pink Floyd, José e Maria começam a namorar. Uns dias depois, ela avisa em casa que vai para uma praia de Santa Catarina no feriadão com a turma. O pai pergunta quem mais vai. Ela cita as amigas de sempre e "mais um pessoal". José faz parte do pessoal, é claro.Todos se encontram na Estação Rodoviária. Logo depois, em um camping de Bombinhas, Maria e José dividem a barraca Brisa II. Na volta, José passa a freqüentar a casa de Maria e chamar o pai da moça de Sogrão . Terão alguns meses pela frente para que os pais se acostumem com a idéia de eles passarem o próximo verão acampando juntos. O que de fato acontece.

 

Anos 90 – Ao som do U2, José e Maria mudam da categoria "ficante fixo" para namorados. Nessas alturas, José já está cansado de freqüentar a casa da família. A diferença é que ele passa a, eventualmente, dormir lá também, para o desespero do pai. A mãe diz ao marido que eles não estão fazendo nada diferente do que os dois já fizeram. O pai diz ser essa a razão do desespero. Mas, fazer o quê? Na rua anda tudo tão perigoso... Ao menos conhecem o rapaz e Maria gosta tanto dele. José e Maria atam e desatam o namoro dezessete vezes.

 

Ano 2000 – Ao som dos Beatles, José pede Maria em namoro. Ela, antes de pensar em aceitar, precisa falar com os filhos...

 

 

TEMPO PARA NAMORAR – Trilha Nacional

 

1950 – Ao som de Elizeth Cardoso, José pede Maria em namoro. A moça, antes de pensar em aceitar, precisa falar com a mãe. A mãe, antes de permitir, consulta o marido. O marido, antes de mais nada, pede para conhecer o tal rapaz. José se apresenta ao pai de Maria. Sofre um interrogatório severo: se estuda ou trabalha, filho de quem é, quais são as suas intenções. Sabe das regras para freqüentar a casa – um lar de família. Para saírem juntos, apenas na companhia da tia Dulce, e olhe lá.

 

1960 – Ao som de Roberto Carlos, José pede Maria em namoro. A moça aceita e passam a se encontrar às escondidas, atrás da Igreja. Também a namorar nos recantos discretos dos salões de baile. Até que o fato, em forma de fofoca, chega aos ouvidos dos pais dela. Maria fica um mês de castigo, em casa. Durante este tempo, troca bilhetes de amor eterno com José e convence a mãe de quanto o ama. Quebrada a resistência, a mãe passa a argumentar com o marido, que enfim aceita receber José para um almoço. José pede Maria em namoro outra vez, agora oficialmente. Recebem a permissão. Mas andam sob o olhar vigilante de Mário, irmão de Maria.

 

1970 – Ao som de Rita Lee, José pede Maria em namoro. A moça aceita e José passa a buscá-la na escola, a combinar sessões de cinema e tardes no parque. Freqüentam reuniões dançantes e festas de clubes, trocando carícias nos recantos mais escuros dos salões. Quando já estão firmes, e com os rumores já ecoando nos ouvidos da família, resolvem assumir o compromisso, dando a notícia em casa. O pai dela consente, desde que não atrapalhe nos estudos: baixando as notas, o castigo será ficar em casa. E estipula meia-noite como horário limite para a menina estar em sua casa (ou José fora dela).

 

1980 – Ao som de Djavan, José e Maria começam a namorar. Uns dias depois, ela avisa em casa que vai para uma praia de Santa Catarina no feriadão com a turma. O pai pergunta quem mais vai. Ela cita as amigas de sempre e "mais um pessoal". José faz parte do pessoal, é claro.Todos se encontram na Estação Rodoviária. Logo depois, em um camping de Bombinhas, Maria e José dividem a barraca Brisa II. Na volta, José passa a freqüentar a casa de Maria e chamar o pai da moça de Sogrão . Terão alguns meses pela frente para que os pais se acostumem com a idéia de eles passarem o próximo verão acampando juntos. O que de fato acontece.

 

1990 – Ao som de Marisa Monte, José e Maria mudam da categoria "ficante fixo" para namorados. Nessas alturas, José já está cansado de freqüentar a casa da família. A diferença é que ele passa a, eventualmente, dormir lá também, para o desespero do pai. A mãe diz ao marido que eles não estão fazendo nada diferente do que os dois já fizeram. O pai diz ser essa a razão do desespero. Mas, fazer o quê? Na rua anda tudo tão perigoso... Ao menos conhecem o rapaz e Maria gosta tanto dele. José e Maria atam e desatam o namoro dezessete vezes.

 

2000 – Ao som do Caetano Veloso, José pede Maria em namoro. Ela, antes de pensar em aceitar, precisa falar com os filhos...

 

 

31.5.07

Número 217

GRANDE ENCICLOPÉDIA 1° DE ABRIL – PARTE II

 

Este é, ouso afirmar, o livro mais raro que temos na biblioteca de casa. Como já disse, foi comprado de um turco sorridente na Tríplice Fronteira, em um sebo que ficou aberto por cerca de quinze minutos. Sua capa não apresenta um design inovador para a época (2062): feita de um material sintético que imita o couro, apresenta um azul muito escuro. O título, em baixo relevo, está todo escrito em letras maiúsculas, com uma tipologia sóbria dotada de leves serifas. Pequenos e sistemáticos arranhões nas letras me fazem crer que, um dia, elas tiveram outro tom. Talvez dourado, como era comum em antigas enciclopédias. Ou não, já que o exemplar é em todo surpreendente. Acompanhe outros verbetes:

 

• Dóris Casoy – Bailarina, modelo e apresentadora de TV. Sua passagem midiática foi marcada por um enorme poder de indignação, evidente já nas passarelas e fotografias de moda. Segundo consta, foi de Dóris Casoy o mais famoso bordão contra o escandaloso mau gosto de alguns papas da alta costura: bastava vestir algo ridículo para bradar "isso é uma vergonha". Depois de altos e baixos como apresentadora de TV, ressuscitou para a fama ao sobreviver a uma queda de oito andares. Chegou a ser cotada, por motivos óbvios, para voltar ao Fantástico (o Show da Vida). Ou apresentar o Acredite se quiser. Mas preferiu dedicar-se a um programa assistencial denominado Dóris Apara Maiores, no qual ela colocava telhas de amianto nos andares térreos de prédios de suicidas em potencial.

 

• Nelson Nerd – O menor maior cantor que o Brasil conheceu. Junto com a arte, nutria uma obsessão pela informática – segundo Nelson, apoiado por todos os parentes Nerds, uma vertente do conhecimento que rumava para a sua envergadura ideal. Investiu parte dos ganhos advindos de seu desproporcional sucesso em empresas destinadas às novas mídias, cada vez mais reduzidas. Há relatos de que seu centrinho de pesquisas estava no caminho de antecipar-se às grandes corporações no desenvolvimento da tecnologia MP3 e MP4, quando Nelson jogou tudo para cima (na medida do possível, é claro). Vendeu suas patentes e propriedades, abandonou os fãs e foi cantar em Liliput. Dizem que se tornou o maior artista do lugar.

 

• Simon & Guarabyra – Dupla que nasceu de um trio: Simon, Dylan (Bob Dylan) & Guarabyra. Os compositores e cantores foram os criadores de uma nova vertente da música, vinda do casamento do folk norte-americano e do spiritual caipira, denominada Rock Santeiro. Tornaram-se referência mundial ao compor a trilha da novela "A primeira noite de um cabra safado" (história de um motorista de táxi brasileiro em Nova Iorque – Dustin Hoffman – que se apaixonava por uma coroa – Vera Fischer). Influenciaram outra dupla, esta nacional, que também saiu de um trio: Sá, Rodrix (Zé Rodrix) & Garfunkel. A dupla Sá & Garfunkel, após se antecipar ao aquecimento global cantantando ... o Sertão vai virar mar..., traduziu de Simon e Guarabyra o sucesso mundial Bridge Over Troubled Water . Em bom português: Brinque de outro troço, Walter.

25.5.07

Número 216

PEDÁGIO INVERTIDO

 

Bem-vindos à mais nova polêmica sobre a educação brasileira: a proposta de o Governo Federal premiar a aprovação dos alunos carentes com dinheiro vivo no final do ano letivo, via Bolsa-Família. As autoridades esperam, assim, combater dois problemas com um só disparo (munição sacada no bolso do contribuinte, é claro): evasão escolar e miséria. A idéia não será mais passar de ano, e sim passar no caixa. Uma espécie de pedágio ao contrário: passou, recebeu. Faço uma força enorme para crer que os tais çábios* que nos governam têm sempre razão. Assim, vou seguir-lhes o exemplo e instituir, em casa, um programa semelhante para meus filhos. Explico.

 

Não mais vou investir meu precioso tempo ensinando para as crianças a importância de se fazer refeições balanceadas. Eles não precisam conhecer as particularidades de cada grupo de alimento, as vantagens das frutas, verduras e legumes frescos; o problema da ingestão exagerada de açúcares e carboidratos; as conseqüências do uso abusivo do sal, entre outras boas orientações para toda a vida. Faço assim: eles comem tudo o que lhes é servido e, no final do ano, prometo pagar-lhes R$204,00**.

 

O filho mais velho, que está usando aparelho odontológico, não precisará mais fazê-lo de modo disciplinado por conhecer seus benefícios. Ele não necessita saber que o cuidado com os dentes é uma questão de saúde, afetando desde a digestão, passando pela respiração e chegando até à postura, prevenindo doenças futuras. Eu não vou dizer para ele que, sendo diligente no uso do aparelho, o tempo de tratamento diminuirá. Digo apenas que, colocando-o, no final, ele ganhará R$204,00.

 

Economizarei um esforço gigantesco em cobrar aprendizado escolar, também. Afinal, gasto boa parte do meu tempo demonstrando que o progresso é resultado de investimento pessoal constante e disciplinado. Aponto o conhecimento como a chave que abre as portas para uma vida plena, ao contrário da ignorância – a maior das barreiras. Ensino que cumprir as tarefas, ser pontual, ordeiro e esforçado é uma obrigação estudantil. Quem sabe o mais correto seja prometer, ao final do período letivo, R$204,00, caso passem de ano.

 

Sair no frio bem agasalhado; dizer com licença e obrigado; olhar para os dois lados antes de atravessar a rua; guardar os brinquedos e material escolar depois do uso; segurar corretamente os talheres... Tudo pode ter um preço e, ao final do ano, valer outros R$204,00. No fim da crônica, meus filhos terão aprendido uma grande lição: como faturar R$816,00. Pavlov, e seu cão que salivava ao tocar a sineta, será o meu orientador educacional. Mais: vou fazer igual ao Governo – uma vaquinha entre amigos e parentes para essa quantia vultosa não sair do meu bolso. Çábio é distribuir o dinheiro dos outros!

 

P.S.: Como o Governo sempre cancela os reajustes salariais dos professores, eles ficarão no comando da cancela deste pedágio invertido, vendo passar alunos e verbas.

 

*   Çábio é uma expressão de autoria original de Millôr Fernandes.

** R$204,00 é, segundo a imprensa, o valor em estudo para a aprovação.

17.5.07

Número 215

VOTOS NUPCIAIS

 

Passou o tempo do lar ditatorial. Hoje, na classe média, família e democracia são conceitos casados. Ou, ao menos, deveriam ser. Em casas onde todos trabalham, quanto maior a intimidade com os procedimentos democráticos de convivência, mais harmonia é experimentada. Porém, não pensem que isto é fácil. Dar voz – e voto – para pai, mãe e filhos, exige uma boa dose de preparo. E, claro, há quem exagere na dose. Tipo o casal na manhã de sábado – desjejum mais tranqüilo, filhos dormindo até tarde, leitura do jornal. A esposa abaixa o suplemento de arquitetura:   

 

        Arnaldo: não agüento mais! Quando vamos fazer a bendita reforma na área de serviço?

Sem tirar os olhos da página de esportes, ele responde:

        O processo está tramitando na subcomissão de obras...

        Sim, querido, isso eu sei! Mas já tem quase dois anos e nada de ele avançar para a ordem do dia.

Neste momento, os dois já se olham.

        Marisa, não tenho culpa. Não é a única matéria estacionada. Ainda mais agora, em tempos de aperto. Nosso salário mal e mal dá para despesas ordinárias da pasta, como troca de lâmpadas, pequenos reparos, jardinagem... – volta para a leitura. E sugere: – Uma saída é o desvio de verbas destinadas a supérfluos. Salão de beleza, por exemplo.

        Ah, muito fácil para você avançar na receita dirigida aos outros! Fazemos isso e, depois, quando lascar o esmalte, aparecerem cabelos brancos e sobrarem uns pelinhos inconvenientes, serei eu quem ficará devendo explicações ao eleitorado! – baixa o jornal do marido. Desafia: – Por mim, cortamos a verba do futebol.

        Impossível! Faz tempo que retirei esta rubrica de "lazer e cultura" e coloquei na pasta da saúde. Saúde mental! – retorna à leitura. – E, como já foi votado anteriormente, saúde tem prioridade nesta casa.

        Que ódio! Jamais engoli esta manobra de plenário. Sua e do Júnior! Ninguém me convence de que não compraram o voto da Alicinha com uma promessa de suplementação orçamentária na cantina da escola.

 

Fim-de-semana comprometido. Marisa, inconformada com o descaso de Arnaldo, parte para o contra-ataque. Tranca a pauta de vez. E, à noite, quando ele tenta um acordo de líderes, ela manobra com a base e se retira da sala de votação. Urna lacrada. Sem quorum, o marido só pensa na ditadura.

11.5.07

Número 214

SUPERFILHOS

 

Diz que a mãe do Homem Invisível nunca vê o filho no Dia das Mães. Um exagero, com certeza. Ele sempre vai até a casa dela. Só não aparece, para testar o sexto-sentido da coroa. E, como adivinhações não é o seu forte, ela passa o domingo inteiro pulverizando farinha para cima e tentando pegar a orelha do herói metido a moleque. Principalmente quando precisa ir ao banheiro. O cara não se enxerga!

 

O Batman, sabemos, é órfão de pai e mãe. Ainda criança, viu seu mundo virar de ponta-cabeças com a morte da família – isso nos dá pistas da estranha mania de ser homem-morcego. Por isso, no Dia das Mães, oferece ao Alfred, de presente, panos-de-prato pintados com lindas frutas sorridentes. Pobre homem. Só quem assume a maternidade de corpo e alma sorri de volta para uma maçã, uma pêra ou um moranguinho. Mas o mordomo tem culpas a expiar no cartório. No mínimo, por permitir o rapaz de sair com a cueca por cima da calça.

 

A casa materna do Multi-homem fica lotada no segundo domingo de maio. A velhinha cozinha tão bem, mas tão bem, que o filho, ao invés de repetir os pratos, repete-se para comer ainda mais. Toma todos os lugares à mesa! Justo ela que fazia piada das amigas com filhos gêmeos... Mas essa não é a maior sacanagem: o mão-de-vaca leva, no tal dia, um único presente! No mesmo bairro, quando a mãe do The Flash pisca, o filho já foi embora.

 

O Homem-de-ferro nunca visita a mãe. Evita as situações emotivas para não chorar – água salgada é um veneno para quem luta contra a ferrugem. Outro que abandona a velha é o Homem Aranha: eles brigaram por causa do preconceito da mãe com uma de suas namoradas, a Viúva-negra. Bem diferente do Homem-de-gelo, que tenta estar com a mãezinha todo ano e, derretido por ela, escorre em minutos pelo ralo da cozinha.

 

O Charada ganha, todos os anos, um indulto para sair da prisão no Dia das Mães. E o que ele faz com isso? Arma uma pegadinha para cima da coitada! Ninguém consegue resolver o enigma de aquela senhora ainda gostar do estrupício... Diz que o Incrível Hulk fica bem calminho no colo da mamãe, enquanto ela lê para ele, com muita paciência, "O menino do dedo verde". E, só a mãe do Coisa ainda continua achando o menino bonito.

 

No domingo, ninguém precisa ser capaz de saltar, ventar, congelar, voar ou subir pelas paredes para salvar o dia. Basta fazer uma visita para a mamãe, ou dar-lhe uma pequena lembrança. Garanto que ela ficará supercontente.

3.5.07

Número 213


PRAGA DIZIMA BODAS

 

Perdão pela ruminância do tema, mas tive uma iluminação. Creio com sinceridade que o Papa Bento XVI condenou os segundos (terceiros, quartos) casamentos por afrontarem um preceito católico: a união sagrada perante Deus. Ok. Mas, digamos que, sei lá, o Pontífice tenha recebido por esses dias a visita do Sr. Fritz, o mais velho joalheiro suíço ainda vivo, este portador de uma reivindicação da categoria:

 

           Zezinho (diminutivo de Joseph Alois), tu sabes que eu e o teu pai fomos muito amigos. Nunca te pedi nada enquanto eras Cardeal. Mas agora, Papa, podes nos dar uma forcinha: estamos na iminência de perder os clientes de Bodas, filho. Ninguém mais fica casado. Isso é uma praga!

 

Praga ou não, a verdade é que, há médio prazo, as festas de Bodas de Prata, Pérola, Rubi, Ouro ou Diamante, para ficar nas mais cotadas, tendem a terminar extintas. Com o fim, os presentes alusivos jamais serão trocados. O Sr. Fritz tem razão para se queixar. As próprias Bodas intermediárias andam esquecidas. Imaginem o seguinte diálogo:

 

             Glória! Alceu! Deixa-me apresentar o Paulo, meu namorado. Sabe, meu anjo, incrível!, esses dois estão casados há... nossa, quantos anos, Glorinha?

             Comemoraremos Bodas de Hematita em novembro, querida – responde, dirigindo terno sorriso ao par.

 

Desnecessário dizer que a amiga, a tal namorada do Paulo, precisou entrar no Google para descobrir o tempo de matrimônio do casal. Mas vou poupar o leitor deste trabalho: em novembro, 28 anos.

 

Se isso (do Sr. Fritz ir ao Vaticano) realmente aconteceu, acho que a estratégia foi mal montada, tanto que o Papa sofreu críticas de muitos formadores de opinião. Caso o joalheiro viesse a me consultar, eu aconselharia rever-se os sistemas de Bodas. Acompanhe o raciocínio: quando saímos de um casamento para outro, não abandonamos os filhos, certo? Então, por que abandonar o tempo de Bodas? Assim, quem rompe nas Bodas de Renda, parte em segundo casamento direto para o Marfim. Igual ao tempo de aposentadoria. De união em união, a mulher receberá o colar de pérolas (30 anos) que bem merece!

 

Claro, não é tão simples. Contar só o tempo de matrimônio da esposa é discriminação. No caso de ambos virem de uniões passadas, é preciso somar os tempos e dividir por dois. Tipo a Marilda: dois anos com o Jair, sete anos e meio com o Ricardo, meio ano com a Dulce (heterodoxo, mas deixa a conta inteira). Total: 10. O Sílvio: quatorze anos com a Maria Aparecida e dois com a Doralice. Total: 16. Então, 10+16=26:2= Bodas de Turmalina. No primeiro aniversário do casal Marilda e Sílvio, comemora-se as Bodas de Rosas.

 

Gente! Até os planos de saúde, com medo de ficarem sem clientes, estão comprando as carências das pessoas. Qual a razão de as Bodas não aderirem a este cálculo? E, quem está com receio de afastar um pretendente por estar numa Boda muito avançada, que faça uma promoção: de Bodas de Louça por Bodas de Latão. Só até sábado, não perca!  


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