10.4.08

Número 259

XADREZ, PRETO NO BRANCO

Peões.
São, de longe, os mais numerosos. Estão na linha de frente e isso não é reconfortante. Ao contrário, o estrategista não pensa duas vezes antes de lançá-los adiante, mesmo que em poucos movimentos encontrem a morte inglória. Vivos, servem de escudo. Ou moeda de troca. A parca mobilidade e a posição vulnerável são superadas em uma única e improvável alternativa: trilhar todo o tabuleiro incólume e, suprema glória!, tornar-se uma peça mais nobre, quem sabe até uma rainha. No movimento seguinte esquecerá que um dia foi peão.

Cavalos.
Nasceram para fazer o que deles se espera: passar por cima de tudo e de todos – movimento físico capaz de abrigar em si a galopante metáfora. São úteis na defesa e no ataque. Mas há quem não consiga dominá-los. Montar boas estratégias em cima de cavalos é considerado jogo elevado, superior. Basta reparar que as crianças (e os principiantes em geral) mais se divertem com o deslocamento em “L” do que tiram proveito dele. Quando descobrem sua força, vêem-se fascinados. Perder os cavalos é ficar a pé no tabuleiro.

Bispos.
Movimentam-se segundo os princípios divinos: reto, apenas por vias tortas. Encontram saída mesmo quando alguma peça está postada bem à sua frente, ou cerceando o movimento lateral. A força dos bispos nasce do poder deste estranho viés. Se pregam a palavra de um deus, nem assim deixam de servir ao seu rei, negro ou branco. E, por ele, matam ou entregam suas vidas em sacrifício. Não à toa estão ao lado da nobreza quando o jogo principia: a fé e a política parecem andar sempre juntas.

Torres.
Obras concretas da engenharia: sabem tudo de ângulo reto. Nada tira uma torre de seu trilho, não importa o tamanho do deslocamento. Estão nas extremidades do tabuleiro não por acaso: dão a ele ares de fortificação. Nem no mais moderno e inusitado movimento do xadrez, o roque, elas abandonam sua bitolada razão de ser, impondo ao monarca um corrupio à sua volta. Não costumam cair no princípio do combate, servindo de linha de defesa e, sobre um adversário debilitado, uma espécie de avanço imobiliário especulativo.

Rainha.
La donna è móbile qual piuma al vento. No jogo em que a capacidade de deslocamento dá a idéia do poder de cada peça, a rainha é mais do que tudo uma soberana. Exceção feita ao salto do cavalo, nada limita a articulação da esposa do rei. Luta pela integridade de seus domínios e se revela uma guerreira talentosa e fria. Quando declina, expõe ainda mais a debilidade do rei, que estará disposto a se casar com o primeiro peão (peã?) que conseguir atravessar o tabuleiro.

Rei.
Ah, o rei... Uns dirão que é uma peça de movimentação limitada pelas cruéis amarras do bom senso, da diplomacia e da moderação. Outros que não passa de um egocêntrico mimado e insensível, capaz de sacrificar a tudo e a todos para manter ou ampliar os seus domínios. Até há quem o julgue um covarde, preocupado apenas em não morrer. Porém, ruim com ele, pior sem ele. Afinal, quem disse que do outro lado da disputa existe um presidente ou um primeiro-ministro? Existe? Ah, pois é...

(Mini) Conto Contíguo 4 - combinando

(MINI) CONTO CONTÍGUO

CHEQUE


Os peões invadiram a casa do rei. Aplausos do bispo. Caíram as torres. Soltaram os cavalos. À rainha só interessava a pensão.

4.4.08

Número 258

AS CERTEZAS EM DÚVIDA

– Com certeza!

É pouco provável que alguém tenha feito uma estatística sobre isso, mas sinto bastante elevada a quantidade de entrevistados que hoje em dia iniciam suas respostas com o bordão acima. Determina este grau desmedido o excesso de jogadores de futebol diante de microfones (eles adoram bordões) e o vício da imprensa em perguntar afirmando – Galvão Bueno fez escola. Este número inflacionado de certezas, no entanto, deveria criar no espectador (ou no ouvinte) algumas dúvidas. Explico.

De onde tiram tantas certezas? Essa questão se impõe na medida em que, com o passar do tempo, menos delas eu tenho comigo. Seja na política, seja na ciência, na profissão, nas relações afetivas etc, novos fatos e criativos pontos de vista demolem todos os dias qualquer antiga e sólida certeza. Até mesmo no futebol, ou principalmente nele, as certezas têm me parecido mais raras do que nunca. E, justo agora, o entrevistado se adianta em estar convencido. Quem entende isso?

Outra dúvida: onde foi parar a genuína convicção? Sim, na medida em que escuto com uma freqüência avassaladora o com certeza ser sucedido de um mas. E, depois dele, uma opinião diametralmente oposta à certeza dita no começo da argumentação. Ou os entrevistados andam muito gentis com os argüidores, envergonhados em desmenti-los, ou o com certeza está saindo no piloto automático, sem necessariamente fazer algum sentido. Portanto, mais inútil do que geladeira para esquimó.

Também não compreendo o fato de a riqueza da língua pátria estar assim desperdiçada. Se a certeza existe – vamos creditar ao entrevistado o benefício da dúvida –, por que não começar a resposta com um sucinto sim? Ou com um breve de fato? Ou um coloquial isso mesmo; um elaborado partindo desta tese; um conclusivo lógico; um lacônico parece; um descomprometido você é quem afirma? Com tantas maneiras interessantes de começar uma resposta, qual seria o motivo de permanecerem todas elas guardadas na memória enquanto o com certeza já anda puído de tão gasto?

Há um grande movimento nacional no combate à praga do gerundismo. Até onde sei (olha aí outro bom começo...), ninguém quer, com ele, extinguir o gerúndio, e sim deixá-lo com a proporção equilibrada no ecossistema do nosso idioma. Lanço agora, caso ainda não tenha sido feito, o combate profilático ao com certeza nas entrevistas. Ora, dirão: quem seria eu para indicar a alguém como deve ou não iniciar uma resposta ao microfone. Mas, e se não estiver sozinho? Se não sou o único incomodado com a expressão?

Bom, já me serve o semear de uma dúvida nos leitores deste texto: será que este bordão, quando dito, não estará me desfavorecendo, nivelando por baixo, rebaixando minha opinião? Se você concorda comigo, fique atento na hora de responder entrevistas e passe a crônica adiante. Estaremos prestando um bom serviço para a sociedade. Com cert... Digo, imagino que sim!

É TERÇA-FEIRA: APEREÇA LÁ!


28.3.08

Número 257

PARÁBOLA HIPERBÓLICA

O líder do governo e o líder da oposição estão caminhando pelo corredor do plenário da Câmara quando tropeçam em uma lâmpada maravilhosa. O primeiro acusa o oposicionista de tentar derrubar o governo. O segundo aponta falhas na coleta de lixo. Ambos, porém, seguram a lâmpada e a puxam para si. Neste jogo de forças terminam por esfregá-la nas mangas dos paletós, evocando um gênio que estava adormecido desde tempos imemoráveis.

O gênio anuncia os três desejos de praxe. Como não faz idéia de quem o libertou, pede para que se entendam com relação aos pedidos. O líder do governo reivindica para si o monopólio dos desejos, uma vez que, de acordo com a própria oposição, a coleta do “lixo” é de sua responsabilidade. O líder da oposição apresenta outra tese: se houve tentativa de derrubada do governo com a lâmpada, ela e seus pedidos pertencem à oposição. O gênio aparta mútuas agressões. Os líderes concluem que o gênio postado ali, entre eles, só atrapalha. Mandam e puf: lá vai o gênio para uma poltrona da galeria. (cumpriu o primeiro pedido)

O líder do governo sobe ao púlpito para um pronunciamento. Acusa o líder da oposição de barrar os atos do Poder Executivo, que no momento conta com a ferramenta mais eficaz de implementação do bem-estar nacional: uma lâmpada encantada e três desejos. Projeta um país sem miséria, sem fome, sem analfabetismo. Louva a saúde pública que nascerá dos novos tempos; a infraestrutura, o saneamento básico e o sistema financeiro equilibrado. Diz que não admite o tom oportunista e ímpeto destruidor da oposição. Desce ovacionado pelos partidos da base aliada.

Quando chega na tribuna para suas palavras, o líder da oposição alerta para o risco que corre a democracia com o uso eleitoreiro da magia. Pergunta se é seguro franquear unicamente ao governo o poder libertado da lâmpada – uma manobra, bem ou mal, conjunta. Além do mais, como confiar nas promessas de quem faz tudo o que combatia quando as posições estavam invertidas? Encerrando o pronunciamento, o líder da oposição se dirige ao líder do governo dizendo que age igual ao governo no tempo em que era oposição, não podendo, deste modo, ser condenado por isso. O gênio, mesmo sendo um gênio, não consegue acompanhar a lógica ou os aplausos.

Dezenas de parlamentares de diversos partidos se inscrevem para discursar, cada um defendendo o legítimo direito de seu grupo usar o poder de modo arbitrário. Por duas vezes o gênio levanta a mão, alegando ter a saída para o impasse. Em uma, pedem para que se cale, pois é vetada a manifestação das galerias. (ele atende ao segundo pedido) Na outra, solicitam que se retire, ou chamarão a segurança. (enfim, o terceiro pedido).

O gênio retorna para a lâmpada convicto de que as instituições democráticas do país estão bastante sólidas. O problema continuará sendo a distribuição de renda, a saúde pública, educação, infraestrutura etc. Sem que ninguém perceba, a senhora do cafezinho recolhe a lâmpada junto com jarros de água. No dia seguinte, os embates no Plenário da Câmara ganham as manchetes dos jornais. E, perdida em notinha de pé de página, sai a notícia de que a Mega-Sena foi sorteada para a Capital Federal.

Convite!


19.3.08

Número 256

CONCORRÊNCIA PASCAL

 

Aproxima-se o final do convênio dos coelhos para animal símbolo da Páscoa. O Criador dá sinais de que pode não fazer outra renovação automática. Com tais rumores, os exemplares do Diário Oficial se esgotam rapidinho. E, de acordo com o Edital, para participar dessa concorrência animalesca é preciso cumprir uma exigência prévia: não estar em vias de extinção – sabe como é, os contratos com o Senhor são longos. Cumprida a premissa, basta à espécie encaminhar um envelope com breve arrazoado defendendo os motivos para ser, dali em diante, a nova alegoria de fertilidade. Tive acesso a algumas propostas. Revelo com exclusividade.

 

Ratos de Páscoa.

Nós, ratos, pleiteamos o cargo de animal símbolo da Páscoa por sermos tão ou mais férteis do que os coelhos. Além do mais, somos mais numerosos. Muitos de nós prestam relevantes serviços à ciência (ratos tão brancos quanto os tradicionais coelhinhos). Com adequado trabalho de marketing, revertemos fácil qualquer imagem negativa – vide os cases do Topo Gigio, Stuart Little, Ratatui e, claro, do Mickey. Periodicamente, podemos promover a integração Ocidente/Oriente via Ano do Rato do calendário chinês. Por fim, temos o apoio de grupos econômicos de peso (Disney) e somos mais onipresentes do que MacDonald's.

 

Galinhas de Páscoa.

Nós, galinhas, nos candidatamos ao cargo de animal símbolo da Páscoa por atender plenamente o critério da fertilidade. A proximidade com o homem e a continuidade da espécie são garantidas por larga criação em cativeiro. Além do mais, nosso macho, o galo, já participa ativamente da vida cristã, tendo uma importante missa batizada com seu nome. O primo peru, só para ficar nas motivações familiares, representa com dignidade a classe das penosas no Natal. A pomba, na celebração da paz. Porém, o maior diferencial de nossa oferta é a extinção do dilema dos pais em época pascal: explicar o porquê do coelho se ele não põe ovos.

 

Formigas de Páscoa.

Nós, formigas sindicalizadas, reivindicamos o direito de galgarmos o posto de verdadeiro e único animal símbolo da Páscoa (tema de Ação Trabalhista em curso). Afinal, desde o começo da tradição de se oferecer presentes de origem alimentícia, mui especialmente chocolate, já fazemos parte da festa de modo informal e clandestino. E somos vítimas de perseguição e morticínio nessa jornada. Denunciamos, também, que os coelhos ganham sem trabalhar: a criança chega no ninho e nunca, jamais encontra um só roedor. Mas, se vacilar, lá estaremos nós, as diligentes formigas. Centenas de nós. Milhares! Logo, sobre fertilidade, nem precisamos falar.

 

Bicho-Preguiça de Páscoa.

Sabemos que fertilidade não é o nosso forte. Tampouco botamos ovos. Somos encontrados somente em florestas tropicais. Não temos nenhum elo com o Cristianismo além do fato de sermos filhos de Deus (e até Ele duvida). Por nós, ficávamos aqui bem quietinhos, cuidando para não sumir do mapa junto com o as matas nativas. Mas existe um lobby de pais para que nos candidatemos ao cargo de animal símbolo da Páscoa. Motivo: quando a data se avizinha, as crianças surtam, o comércio enlouquece, a imprensa exagera, a Igreja diz que nada disso tem valor sem Cristo no coração e eles, os pais, são tomados por uma súbita, fértil e imorredoura preguiça...

Achado não é roubado 3

ACHADO NÃO É ROUBADO

 

DIVISOR DE ÁGUAS
 

Antes da ecografia, especulava-se o sexo do bebê antes do parto. Depois... Bom, depois, só depois.

13.3.08

Comunicado importante!

OFICINA DE CRÔNICAS DE RUBEM PENZ

A crônica – texto ágil e em primeira pessoa – é uma das mais amistosas portas para a literatura, tanto para quem lê, quanto para quem pretende se expressar. Ao mesmo tempo, é um gênero literário muito flexível, capaz de exercitar a abordagem criativa e o raciocínio da gama de escritores que abrange os iniciantes e os experimentados. Estas são as premissas para a oficina do escritor e músico Rubem Penz.

Aulas nas terças das 9h até 11h30min (início em 25/03/2008)

e nas segundas das 14h até 16h30min (início em 31/03/2008).

MAIS INFORMAÇÕES NO

CENTRO CULTURAL AUXÍLO AO TEMA

Fone (51) 3268.8899

 

Número 255

 

Novos pecados de A a Z

 

         Eu desconfiava que isso aconteceria cedo ou tarde: o total exagero regulatório brasileiro acabar fazendo escola. Temos, para quem não sabe, lei para tudo. E, principalmente, para ser descumprida. Agora, a Santa Igreja Católica, que durante anos – séculos! – se contentou com dez mandamentos e sete pecados capitais, cai em tentação e lança outros seis pecados, os ditos sociais. Meu Deus, para quê? Mas, já que é assim, tenho as minhas contribuições para uma próxima leva de novos pecados, listadas em ordem alfabética:

 

A – Abdicar de todo o prazer. O típico pecado de quem tem medo de pecar.

B – Bolinar mulher no ônibus. Não caia em tentação!

C – Cuspir no prato que te alimentou. Nascido da sabedoria popular.

D – Depredar patrimônio público. Crime que, muitas vezes, é também um grande, repugnante, inominável pecado.

E – Eleger políticos sem escrúpulos. Pecado federal. E estadual e municipal.

F – Fumar no carro, com os vidros fechados e crianças no banco de trás. Que pecado!

G – Ganhar salário sem trabalhar. Pecado que funciona igual na ordem invertida.

H – Hoje não! Mulheres, isso às vezes é um pecado!

I  – Infringir, conscientemente, as leis do trânsito. Os outros que paguem os pecados...

J – Julgar-se o dono da verdade. Sim, é pecado grave. Mas posso estar enganado, claro.

L – Ligar em 220V um aparelho 110V. Ah, não! Pecado com penalidade instantânea.

M – Morrer jovem. É ou não é um pecado?

N – Nunca ter amado de paixão. Aí nem sei se é pecado ou castigo.

O – Ouvir um só tipo de música. Conhecido como pecado radical.

P – Perguntar a idade de uma dama. Pecado contra a educação!

Q – Quindim com uma enorme mosca pousada em cima. Deus, que pecado!

R – Rasgar fotografias. Sei lá: acho isso um pecado contra a posteridade.

S – Salvar a pele às custas dos outros. Sujeito desses merece ir para o Céu?

T – Traficar drogas defronte uma escola. Sem perdão!

U – Usar crianças como escudo. Vale no sentido literal e figurado.

V – Vestir calça listada com camisa xadrez. Nossa! Que pecado!

X – Xenofobia. De fato, aí está um bom exemplo de pecado para constar em qualquer lista.

Z – Zombar de assuntos sérios. Caso algum padre esteja lendo a crônica, garanto que não foi esse o intuito. Mesmo assim, se for interpretado dessa maneira – de fato, corro o risco –, já peço perdão.

Conto contíguo 3

CONTO CONTÍGUO

 

BINÓCULO

 

         Espero, paciente, ela adormecer. Sigo sua rotina com devota atenção: bem sei quando repousa em cada um dos dias da semana. Então, recorro à minha gaveta de cabeceira e apanho o binóculo. Ele, somente ele, nos deixa no afastamento ideal – o mensurado equilíbrio entre distância e proximidade. Através dele, ponho-me a observar.

         Ela tem um sono tranqüilo. Inabalável. Cobre-se pouco e, na visão furtiva, acompanho os falsos movimentos nascidos da luz hesitante da TV, ainda acesa. Ajusto o foco em busca de mais detalhes... Quem sabe hoje penetro em seus sonhos? Este ânimo, noite após noite em desatinada insônia, faz correr o tempo de minha vigília.

Esgotado o prazo do timer – às vezes trinta, outras sessenta minutos –, a TV apaga e o quarto imerge no escuro e no silêncio.  Condenado a vultos, liberto a imaginação: beijo seus pés, apenas o começo do roteiro de delícias percorrido por meus lábios. Aspiro fundo o aroma de seus cabelos e roubo um pouco do seu hálito. É quando ela me vê, quase num susto. Sorri e se entrega com a generosidade das amantes.

Ah como eu queria a oportunidade de contar-lhe essa minha história. Revelar exatamente como ela é quando vista à distância, depois de cruzar as lentes. Dizer em pormenores o que faz, tudo o que me diz, como me trata. Emprestar-lhe o binóculo, também, na esperança de corresponder com igual magia. Por enquanto, me falta coragem para fazê-lo.

Desviro o binóculo do contrário e aponto na direção da janela: cresce a lua minguante, testemunha calada dos meus delírios. Suspiro. Abro outra vez a gaveta e o guardo de volta. Confiro o quanto é tarde no rádio-relógio e deito ao lado dela. Que, sem despertar, move-se inocente para perto de mim.

 

7.3.08

Número 254

 

ASTROS DO ESPORTE

 

Digamos que quatro meninos trocam passes aproveitando o domingo de sol no gramado do parque. Por acidente, a bola escapa para longe, lá onde estão caminhando os adultos e suas coronárias saudáveis. Se a ela chegasse a um Leonino, ele a levantaria com o lado de fora do pé, dava três embaixadinhas, chutaria para cima, mataria no peito e, de letra, mandaria a bola de volta para as crianças. Depois, discretamente, olharia para os lados, para conferir quantos haviam assistido o show.

 

Mas suponhamos que ela corresse na direção de um Virginiano e um Ariano, muito mais à feição do primeiro. De início, o nascido em Virgem pensaria na obrigação ética de devolver a bola aos meninos. Mas vacilaria em como fazê-lo sem correr o risco de torcer o pé... Enquanto isso, cruzando como uma flecha, o Ariano passaria na sua frente, conduziria a pelota e, chegando nas crianças, daria uma bronca: e se a bola fosse para o meio da rua? Já pensaram no risco? Onde estão os pais de vocês?

 

Se a bola atingisse um Pisciano, ele a pegaria nas mãos espantado. Buscaria, então, sinais nesta coincidência: tanta gente ali caminhando e a bola cai justo para ele! A divagação seria interrompida por um Escorpiano com pouca paciência, já o acusando de atrapalhar o futebol da gurizada. E que, sem pedir licença, pegaria a bola para si, dando um balão para devolvê-la às crianças e retomando a caminhada sem olhar para trás. O primeiro ficaria lá, pensando no destino da raça humana neste ritmo de stress.

 

Caso a bola caísse para um Libriano, este perguntaria bem alto de quem foi a culpa: um deu o chute torto, ou o outro que não dominou? Dependendo da resposta, um ou o outro precisaria buscar a bola ali mesmo, para aprender a ter mais cuidado. Se fosse um Aquariano, não resistiria em ir até os meninos para planejar em grupo uma outra forma de jogar, inovadora, segura e capaz de evitar novas escapadas da bola.

 

Os amigos Sagitariano e Canceriano que caminhassem lado a lado receberiam a bola com bom humor, caso assim ocorresse. O homem-cavalo bateria no ombro do homem-caranguejo e o convidaria para jogarem com os meninos, saindo em disparada e sem esperar resposta. O outro o seguiria com "quem sabe a gente continua a caminhada", "não sei se é uma boa idéia", "pode pegar mal" etc. No final, o Sagitariano rolaria pelo chão, gritaria, marcaria vários gols. Enquanto o Canceriano jogaria, sim, mas preocupado em estar pagando um mico.

 

 O Taurino devolveria a bola de bate-pronto. E daria um tempo em sua caminhada para avaliar o desempenho dos jogadores. Quem sabe estaria entre eles um novo Falcão ou Zico? Na certa, precisaria de um bom empresário... O Geminiano não seria assim tão imediato na devolução da bola, caso ela viesse em sua direção. Seria preciso ponderar suas próprias habilidades antes de chutar. E pensar no risco de a bola bater em alguém, acabar mais longe ainda ou até machucar uma das crianças. É: seria o ideal devolver com as mãos...

 

Porém, os quatro meninos deixam a bola escapar e não acontece nada disso: ela cai justo nos pés de um Capricorniano. Ele, se aproveitando da situação, sai conduzindo a pelota como se fosse sua, só de sacanagem. Com isso, os piás precisarão correr muito para recuperá-la. Depois, certamente, continuarão a jogar com muito mais cuidado.

Vim de verso 2

VIM DE VERSO

 

UM SORRISO NO MEIO DO CAMINHO

 

o flanar se aplica à grávida, que levita

habitat de toda a espera, esfera de tanta vida

só mesmo complica a grávida (a que duplica)

se tropica e quase cai, ai!, no largo sorriso do pai

28.2.08

Número 253

OCASO DE UMA ERA

 

Dois homens estão naquela tradicional cena de fim de noite, sentados no balcão do bar, cada um mais amarrotado do que o outro. O primeiro, Nelson, é completamente calvo. Cláudio, apesar da aparência jovial, não esconde o cabelo grisalho. Garçons varrem o chão em volta das mesas. As poucas luzes estão se apagando. O barman recolhe as sobras de tantos amores que testemunhou fenecer. Há um clima de derrota no ar. No último suspiro, Nelson faz renascer o diálogo.

 

– O ano vai ser difícil. Ainda não me conformo de ele ter se aposentado.

– Bom, a gente sempre soube que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde...

– Saber, sabíamos – o homem calvo se revigora. – Porém, depois que aquele outro bailou na curva, virando ícone – mito! –, só restava ele para manter o encanto da coisa, contra tudo e contra todos.

– É... – Cláudio segue reticente. – Mas tem um consolo: ele deixou o irmão firme, na ativa.

 

Nelson bate na mesa e sobe o volume da voz. Reclama que o tal irmão nada fizera de verdadeiramente admirável para merecer figurar entre os grandes. Com um toque apaziguador no braço, Cláudio tenta retomar o tom de confidência:

 

– Ora, com ele ainda na direção, mesmo sem igual brilho, sentimos que existe alguém para manter o legado, não é?

– Nada! A fibra não pode ser reduzida a uma questão genética. Tem outra: sem o mais velho, o caçula nem tinha chegado lá. Às favas com esse irmão!

 

Faz-se uma pausa. Melhor assim: os garçons já estão se olhando, loucos para expulsá-los do bar por algum motivo. Cláudio, que se tornara mais diplomático com o passar dos anos, diz não entender esse desconsolo fora de hora. Afinal, mesmo depois de tanto tempo de afastamento, o circo sequer ameaçava desabar. – Ou você suspeita de algo? – pergunta.

 

– Não é nem isso... O problema é que não vejo na nova geração um expoente capaz de chegar perto da capacidade dele no controle.

– Como assim?

– As coisas estão fugindo das mãos dos homens, você não vê? – Nelson abre os braços, olha para cima e para os lados enquanto fala para microfones imaginários: – Agora é tudo dominado pela máquina: mil olhos vigiam quem está lá, fingindo que dirige.

– Você está bêbado! – Cláudio perde a paciência. – Não tem essa de controle externo: é a mão do homem que está no poder. Sempre foi e sempre será. O resto é mera tecnologia. Pára de ver Big Brother em tudo!

 

Novo silêncio, cada um concentrado em seu copo. A conta chega para os dois, sem que pedissem. É um recado claríssimo. Cláudio alcança o cartão de crédito e vai ao banheiro. Nelson baixa a cabeça e parece chorar. Sim, está bêbado. E desiludido. O barman, ainda que calejado pelas tragédias do cotidiano, se vê condoído. Em um gesto solidário, repousa a mão no ombro do cliente e busca palavras de conforto:

 

– Calma: enquanto viver, o Fidel ainda estará no comando, todos sabem...

 

Nelson olha para ele, incrédulo:

 

– Fidel?! Que mané Fidel, cara?! Estamos falando do Schumacher!

 

Achado não é roubado 2

ACHADO NÃO É ROUBADO

 

A burocracia nacional é pródiga em criar dificuldades, ligeira para vender facilidades e displicente ao entregar o que vende.

21.2.08

Número 252

MENTE SÃ, CORPO SÃO

 

         O rumoroso caso de denúncia de abuso sexual envolvendo a nadadora Joanna Maranhão e o treinador Eugênio Miranda repercutiu na imprensa brasileira. Não é para menos: além de ter como protagonista uma atleta de destaque, joga luz sobre um tema dos mais sombrios em nossa sociedade. Porém, como nocivo efeito colateral, ele alastra uma sombra de desconfiança a toda uma categoria de profissionais – os professores de educação física – educadores e técnicos responsáveis pelo desenvolvimento sadio de nossos filhos em clubes e escolas. Algo compreensível, mas longe de ser justo.

 

         A lista de preconceitos aos quais os professores de educação física estão sujeitos é extensa e antiga. Fácil entender: na média, são homens e mulheres com corpos bem cuidados, trabalham mais expostos, lideram atividades lúdicas e recreativas (mais relaxadas do que aquelas impostas em sala de aula) e costumam ser ídolos para jovens e crianças. Não raro, e aqui não há nenhuma novidade, habitam inconfessáveis fantasias de cunho sexual na comunidade, sem, necessariamente, moverem um músculo nessa direção. Portanto, queiram ou não, suportam no cotidiano uma constante tensão moral, mal disfarçada em piadas e estigmas.

 

         Avaliações apressadas com base no conceito de que a ocasião faz o criminoso podem incidir em enormes iniqüidades. Depois de cursar a Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ESEF/UFRGS) e, por dois anos, trabalhar na área, afirmo com conhecimento de causa: nada pode ser mais contraproducente na relação professor/aluno ou treinador/atleta do que o contato erotizado. Se isso fosse freqüente como faz crer a série de reportagens nascidas da denúncia de Joanna Maranhão, as aulas de educação física e a prática de esporte não alcançariam qualquer êxito (o afastamento entre a atleta e o técnico, se ocorreu pelos motivos expostos, prova o argumento). Ao contrário, é a respeitosa abordagem do professor que gera a confiança necessária no aluno. Com base nela, o esporte se desenvolve.

 

         Pai de duas crianças, também sou assombrado com a idéia de ter os filhos molestados por um pedófilo. Entendo o sofrimento de dona Teresinha, mãe de Joanna, e amplifico sua indignação. Considero muito corajosa e repleta de valor a iniciativa de denunciar atos brutais: é apenas com a revelação que as eventuais culpas serão imputadas. Mas ela servirá, antes de tudo, para aguçar nossos ouvidos para as queixas infantis, muitas vezes desesperadas em transmitir um pedido de socorro. Afinal, especialistas apontam o abusador como alguém quase sempre próximo da vítima, gozando de seu respeito, afeto ou admiração. Isso não livra ninguém, nem os pais, de igual suspeição.

 

         Que este episódio, triste sob qualquer prisma, seja base para discussões nos bancos e quadras de nossas ESEF, além de pauta de reuniões de Círculos de Pais e Mestres. Estejam atentas as direções de clubes e escolas: o desenvolvimento do esporte brasileiro, a saúde de nossos jovens e a crença na atividade física como fator de integração social dependem de tal vigilância. As piadas e mitos em torno dos profissionais em nada combinam com a responsabilidade a eles atribuída. Reitero grande respeito e confiança nos tantos professores que conheço – meus mestres, antigos colegas e mestres dos meus filhos. Pessoas de mente sã, responsáveis por tantos corpos sãos.

(Mini) Conto contíguo 2

 
(MINI) CONTO CONTÍGUO
 

 

AQUELE BEIJO

 

Para ter uma idéia, máscaras de despressurização caíram na nossa frente.

14.2.08

Número 251

 

IRRESISTÍVEL

 

Você mesmo já presenciou esta cena – quando não foi o protagonista: no tradicional passeio pelas areias do litoral, o olhar abandona o curso ao ser atraído por algo completamente irresistível. Sim, está ali, repousando na areia como que chamando para uma conferida. Não é nenhuma novidade, em quase nada se difere de outros, vemos muitos durante a vida, é natural que esteja ali – e naquela posição –, mas não adianta... O olhar é arrebatado pela força de mil ímãs e mira na direção exata.

 

Depois de reparar que todos olhavam, aproveitei-me do fato de estar trinta, quarenta minutos de pé, cuidando os filhos no mar, e parei ao lado de um bom exemplar. Então, prestei atenção nas diversas reações dos passantes diante daquele que é feito para guardar e – por que não? – mostrar também. É o que dá a esposa não acompanhar o marido na beira da praia para colocar a leitura em dia: ficamos por ali só pensando em bobagens.

 

Há os passantes discretos. Estes se aproveitam da coincidência na trajetória e, sutilmente, espicham os olhos. Nada comentam: seguram para si as impressões da visão furtiva, que raramente contempla os detalhes. Às vezes, os passantes discretos estão em duplas ou trio. Nesses casos, um cutuca o outro para todos olharem. Se entre eles está um mais entendido no tema, esperam elegantes passos adiante para comentar algo sobre tamanho, forma ou variedade. Essas coisas. Mas sem alarde.

 

Os passantes indiscretos, por sua vez, não tomam tantos cuidados. Ao perceberem que não passarão ao lado, mudam desavergonhadamente a rota para se aproximar ao máximo dele. Então, diminuem o passo e afundam olhos invasores com vontade. Chegam a arquear o corpo para ver mais detalhes. Quando em grupo, os indiscretos emitem opinião em voz alta, envaideça quem envaidecer, doa a quem doer. Óbvio: consideram que, se está ali exposto, só pode ser de propósito. No caso de não encontrarem o que de longe esperavam ver, costumam ser sarcásticos.

 

Por fim, existem os passantes entusiastas. Estes não se contentam em mudar o curso para chegar pertinho: eles param ao lado. Olham com prazer e puxam assunto. Sim, falaram comigo, inclusive. Eu expliquei que mal tinha reparado – estava cuidando das crianças, aquelas dentro da água. Mentira. Notei que os entusiastas, se pudessem, colocariam logo as mãos. (Não, não chegam a tanto. Quer dizer, com oferecimento explícito, sim...) Falam de si, contam vantagem. Mas são, em grande número, ex-atletas, por assim dizer. Seguem adiante com o olhar perdido e uma nostalgia de dar dó.

 

Pois: nos trinta, quarenta minutos em que fiquei parado feito um poste na beira do mar, um olho zelou pelos filhos e o outro observou a reação dos passantes para ele, à minha esquerda. De modo discreto ou ostensivo, parando ou seguindo adiante, raríssimas exceções, todos olharam para o pequeno balde plástico (fazendo a função de samburá) do pescador que estava adiante. Foi o que bastou para me convencer de quão fascinante e mágico é este objeto na beira da praia. Irresistível.

Vim de verso 1

VIM DE VERSO
 
AMOR PÓS-MODERNO

 
o eterno

começo

meio

a fim

7.2.08

Crônica número 250

 

INTERVALO COMERCIAL

 

Intervalo de almoço em uma empresa pública (ou privada, tanto faz). Cinco homens vão juntos ao banheiro, um deles com uma grande sacola preta de nylon ao ombro. Há uma discreta ansiedade no ar. Afinal, ali está a nova coleção de cuecas da Zorba. Entre uma urinada e a escovação de dentes, todos manuseiam as peças íntimas, comparando a qualidade, testando o elástico, comentando sobre as cores ou estampas. Um sexto rapaz entra no local e imediatamente se junta aos demais. Três dos cinco experimentam os modelos. Dois fecham negócio, pedindo para só depositar o cheque no dia 10. Ainda dá tempo para conferirem umas calcinhas e sutiãs rendados para as esposas, de lambuja no mostruário (quem sabe para o aniversário de casamento...). Saem do toalete prometendo avisar os outros colegas sobre a excelente coleção.

 

          Você não caiu nessa, não é? Forcei? É: creio que a cena descrita no primeiro parágrafo nunca aconteceu. Nem jamais acontecerá, seja com cuecas, meias, camisas, bermudas ou gravatas. Porém, na mesmíssima hipotética cena, se trocarmos os homens por mulheres e as cuecas por calcinhas, eu teria descrito uma passagem quase cotidiana da vida empresarial. Mesmo sem ter freqüentado o banheiro feminino em contexto além do imaginativo, suponho que o comércio seja uma das trezentos e cinqüenta e sete ações coletivas praticadas pelo sexo oposto quando a porta do toalete se fecha. E, ao final da história reescrita, uma mulher voltará do almoço com dois cheques para garantir uma renda suplementar para casa.

 

          Assim é a vida: enquanto os homens são dependentes confessos do salário ao final do mês, as mulheres se mostram ágeis e dinâmicas na busca de complemento de remuneração. No trabalho, elas compram e vendem de tudo: cremes ou loções de diversos os tipos, perfumes, bijuterias, roupas íntimas, utensílios domésticos, xampus, maiôs, shake para emagrecer, capas de almofada... A lista é grande demais para o espaço de uma crônica. Algumas fazem cursos e se tornam consultoras disso e daquilo. Aprendem rápido quem merece pagar em três vezes e quem só pode receber o produto mediante dinheiro vivo. Decoram as datas de aniversário da família e chegam ao requinte de fazer visitas a domicílio. Homens investem seus intervalos em discussões sobre se determinado time deve jogar em 3-5-2 ou 4-4-2, as vantagens dos motores 1.5 ou 2.0 para o uso misto (cidade e estrada), ou se a Sandrinha está mais ou menos gostosa depois de voltar das férias.

 

         Bom, estão certas as mulheres e certíssimos os homens. Elas nada mais fazem do que aproveitar nichos de negócios: vendem porque compram e vice-versa. Eles não se arriscam a passar vexame ao convidar os parceiros de futebol para dar uma olhadinha em uns cremes, sungas ou artesanato no vestiário, por melhores que estejam os preços. O máximo que vão conseguir é perder o lugar no time.

 

A única exceção que lembro era o Alfredo. Ele sempre partia para o trabalho com uma mala preta de rodinhas. Dentro, coleções completas de chaves-de-boca (milimétricas e de polegadas), chaves-de-fenda, Allen, chave-estrela, cachimbo, extensores, martelos, formões, plainas, lâminas importadas para serra. Mais: furadeira portátil importada, aparafusadeira elétrica, multi-teste, pequenos tornos de bancada, luvas, máscaras, óculos de proteção e outros tantos itens igualmente cotados. Depois do almoço, quando abria a mala, causava furor no escritório. Mas durou pouco: foi proibido pelo ortopedista depois de ganhar menos dinheiro do que hérnias de disco...

5.2.08

Achado não é roubado 1

ACHADO NÃO É ROUBADO
 
Lógica 
 

Povo ingrato: que são cartões corporativos depois de nos franquear o voto?

31.1.08

Número 249

CYBORG E A OLIMPÍADA

 

         Nos anos setenta (1974-78), a série televisiva O homem de seis milhões de dólares – baseada no livro Cyborg – transformou o amputado Steve Austin, astronauta vivido por Lee Majors, em super-herói. Trinta anos depois, o atleta sul-africano Oscar Pistorius se aproxima do índice olímpico mesmo sem ter as duas pernas abaixo do joelho. Porém, é impedido de pleitear uma vaga para Pequim pelo Comitê Técnico da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Motivo: as próteses biônicas lhe garantiriam vantagens sobre os demais competidores. Longe da ficção, forjar heróis é mais complicado.

          Toda a minha geração correu pelos pátios e calçadas imitando a trilha sonora que acelerava a performance do Cyborg. Na época, se nos propusessem trocar nossas pernas naturais por biônicas como as do Steve Austin, toparíamos imediatamente: não haveria quem nos segurasse no brinquedo de pegar, faríamos um gol atrás do outro, ganharíamos qualquer disputa de força e também, quem sabe, o coração da menina mais bonita. A medicina e a engenharia, desde antes e até hoje, trabalhavam com objetivos bem mais modestos, isto é, devolver para alguém que perdeu braços ou pernas a igual mobilidade dos ditos normais. Para um menino amputado que sonhasse correr tanto quanto eu, os superpoderes podiam esperar.

         Em três décadas temos bastante a comemorar neste sentido. Creio que bem mais de seis milhões de dólares já foram investidos em pesquisa para assegurar a muitas pessoas, e não apenas a uma (ou duas, se lembrarmos da biônica Jemmie Sommers) a possibilidade de caminhar para além da cadeira de rodas. Contornando a fatalidade através da tecnologia, a humanidade devolve a quem precisa as condições, se não ideais, próximas de uma igualdade plausível. Tomara que, com freqüência, o Cyborg esteja anônimo, bem ao meu lado na fila da padaria.

         Mas, e no caso de Oscar Pistorius, que em vez de compartilhar comigo a espera do pão, pretende estar perfilado na largada dos cem, duzentos ou quatrocentos metros rasos da Olimpíada de Pequim, que fazer? Ao negar este direito, conquistado no disparo do cronômetro, estaremos nos desviando do rumo que leva à igualdade entre deficientes físicos e pessoas com membros completos? São estas as questões impostas aos dirigentes da IAAF no momento.

         Com base na letra fria dos resultados biométricos – que apontaram vantagens ilícitas no movimento das pernas postiças –, Pistorius precisará, ao menos por enquanto, contentar-se com as Paraolimpíadas. O temor dos técnicos repousa sobre o que está sendo chamado de doping tecnológico. Algo que, trocando em miúdos, lembra muito o dilema que Steve Austin impunha a uma criança na década de setenta: que tal trocar suas pernas naturais pela glória olímpica? A luta contra doping químico nos dá pistas para possíveis respostas antiéticas... Mesmo assim, uma aura de injustiça macula a decisão da entidade. Afinal, ela condena o menino que teve as pernas amputadas aos onze meses de idade à eterna marginalidade.

Por fim, a despeito da decisão tomada agora ou em apelações futuras, por seu dedicado esforço atlético e valor simbólico, para muitos deficientes físicos – e também para mim – Oscar Pistorius já é um herói.

30.1.08

Conto contíguo 1

CONTO CONTÍGUO
 
BOAS MÃOS

 

Pestana tirou o boné e coçou a cabeça. Seu olhar acompanhava as formigas levarem pedaços de flor em fila indiana para fora do avarandado. Ponderava aquela proposta – nem sabia nadar tão bem. Quer dizer, saber sabia, disse, mas não o bastante para salvamentos. Além do mais, fazia tempo que não entrava fundo no mar. E, na última vez, em Tramandaí, fora da temporada, passou um aperto danado quando precisou enfrentar um repuxo tipo bandeira vermelha.

         – Olha aí: escondendo o jogo! – retrucou Paulo, ao seu lado. – Você até sabe qual a bandeira precisava colocar naquele dia! Fica tranqüilo... Eu vou lá, faço uma surpresa para a Jurema, nem anoitece e estou de volta. Enquanto isso, você fica em meu lugar ali na guarita, cheio de pose e sendo chamado de salva pela meninada.

         – Bom, e se alguém pedir socorro?

         Paulo fez a volta para ficar diante do amigo, segurou-lhe os ombros com as duas mãos. Sacudiu-o até seu olhar subir à tona.

         – Aí o Jair tira o sujeito da água, ora. Você fica com a corda, só dando linha para o cara, que é um peixe. E então? Conto contigo?     

         Despediram-se na Interpraias: Paulo, paisano, apanhou a condução para Arroio Teixeira. Pestana, de uniforme, seguiu caminhando até a beira do mar. Bóia e corda. Bandeira debaixo do braço. Ele e o Jair.

 

        

         Uma das crianças que sempre rondam a guarita dos salva-vidas perguntou as horas. Passa das quatro e meia. Foi o salva Pestana quem respondeu, olhando para o Jair e dando razão ao amigo Paulo. Certo ele de aproveitar o dia com a fulana – escapou-lhe o nome. Aquilo era uma rotina meio morta, mesmo. Não acontecia nada. Antes de receber a resposta, uma gritaria e um corre-corre fizeram com que os salva-vidas saíssem em disparada. Jair com a bóia. Pestana logo atrás. Mas eles só molharam até o joelho: o mar tinha devolvido alguém que se afogara bem longe dali, pela experiência de Jair.

         – Isso deve ter acontecido de manhã. Fica aqui e eu vou achar o carro da Brigada. Eles acionam o DML no rádio.

         – Mas se perguntarem alguma coisa, o que eu digo? – confidenciou Pestana.

         – Embroma. Quando eu chegar, sai de fininho que eu digo que comigo estava o Paulo. Uma mão lava a outra, não é?

         O homem se investiu de autoridade. Sem muita conversa, tratou de manter os curiosos a uma distância regular do corpo. Era uma questão de ocupar-se e nem pensar no risco de dar algum problema. No momento em que Jair voltou, o improvisado substituto saiu enrolando a corda; foi até a guarita, recolheu o restante do material e abandonou a praia.

 

 

          Insone, Pestana caiu cedo da cama. Procurou a notícia no jornal:

A empregada doméstica Jurema Santos Silva, 23 anos, natural de Canoas, é o décimo segundo caso de afogamento no Litoral Norte gaúcho. Ontem, seu corpo já sem vida foi retirado do mar pelos salva-vidas Jair Melo e Paulo Castro entre Capão Novo e Praia do Barco, cerca de nove quilômetros ao sul de Arroio Teixeira, balneário onde a moça trabalhava. Segundo testemunhas da investigação, ela foi vista pela última vez cedo da manhã, enquanto deixava a residência acompanhada de um homem não identificado. Em seu depoimento, Jair creditou os hematomas no pescoço da vítima a uma provável tentativa de salvamento. Para ele, "Dentro d'água, qualquer bem intencionado pode causar a morte de alguém. Seguro está o banhista em nossas mãos".

24.1.08

Número 248

SECANDO DEBORAH

 

Roger, o meio-campista contratado pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, desembarcou na capital gaúcha trazendo na bagagem uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se desfilará em campo o futebol que o consagrou nos bons tempos ao invés da inconstância que tem sido sua recente marca. A certeza é um gás danado para as colunas de fofoca em jornais e revistas dos pagos. Afinal, a tiracolo chegou sua namorada Deborah Secco.

Não conheço a menina, mas já estou compadecido com seu destino. Nascida em 1979 no Rio de Janeiro, ela cresceu acostumada com a sem-cerimônia carioca no convívio com os famosos: estrelas globais são numerosas por lá, tanto quanto a torcida do Flamengo. Uma atriz a mais, uma a menos no balcão da farmácia tanto faz. Em Porto Alegre, não... Cidade traumatizada pela desconfortável posição de rápido trampolim no Festival de Cinema de Gramado, sorve até os ossos um artista com peça encenada no Theatro São Pedro. Para "mais ou menos" morar aqui, o pedágio será caro.

Habitam na cidade muitas pessoas com hábitos, educação e rotinas cosmopolitas. Mas é bem verdade que, em sua maioria, os porto-alegrenses são um tanto provincianos. Assim, Deborah presenciará chiliques homéricos ao circular pelas ruas cantadas por Mário Quintana. Se tiver sorte, será apenas alvo de mil olhos a julgar e comentar sua aparência, achando-a mais baixa ou mais alta do que na TV, tão gostosa quanto o tal ensaio fotográfico já revelou, menos provocante do que deveria, simpática como aquela personagem ou insuportável como a outra.

Mas isso ainda não é a pior notícia. Desde já, ela deve estar preparada para amar incondicionalmente o Brique da Redenção. Tomar ao menos um mate por semana para satisfazer determinado(a) apresentador(a) local, festejar o churrasco, dizer que "Porto Alegre é demais" e cantar uma estrofe do hino rio-grandense. Preferir Inter ou Grêmio – ai dela se confundir o time do seu amor –, garantir que se adaptou ao clima, esperar com avidez a Feira do Livro e a Expointer. Confirmar a fama do pôr-do-sol do Guaíba, dizer que parece estar em Buenos Aires e achar o MARGS melhor que o MASP. Também admirar-se com o tamanho da chaminé da Usina do Gasômetro sempre que passar diante dela, comparar Atlântida com Copacabana, considerar a Elis Regina insubstituível, posicionar-se contra ou a favor no embate Tchê Music versus CTG etc. A vida de neo-gaúcho é um espeto sem filé mignon...

A nosso favor, deve acontecer algo parecido em Florianópolis quando o assunto for ponte Hercílio Luz, em Curitiba andando na Boca Maldita, comendo uma moqueca capixaba em Vitória, sacudindo ao som dos tambores do Olodum nas barbas do baianíssimo Elevador Lacerda ou visitando o Forte dos Reis Magos em Natal. Mas especulo. Certeza mesmo, tenho da paciência que Deborah precisará ter com os chatos que consideram o Rio Grande do Sul o umbigo do mundo, Porto Alegre seu piercing.

Para encerrar, desejo que o Roger jogue apenas o suficiente para que o Grêmio permaneça com ele por longos anos, e menos do que necessitaria para ganhar alguma vez do Colorado. E que o romance dos dois fique velho o bastante para deixar de ser notícia até para os fofoqueiros locais. Com tal sorte, a atriz poderá circular por aqui sem que todos a fiquem secando. Esse é o melhor jeito de curtir o Brique da Redenção, tomando um mate e exaltando nosso pôr-do-sol.  

18.1.08

Número 247

UM ALÉRGICO ENTRE POTIGUARES

 

Crônica dedicada aos queridos e atenciosos

anfitriões da família Negretto.

 

Quando pensei em escrever sobre minha estada de férias em Natal (RN), me veio na memória uma clássica passagem de Indiana Jones e a última cruzada. Nela, Dr. Jones Jr. (Harrison Ford), prisioneiro dos nazistas, informa que seu amigo Marcus Brody (Denholm Elliott) já está em Iskenderun com o mapa que leva ao Santo Graal. E que seria impossível localizá-lo, por ele contar com dois dias de antecipação, dominando 10 idiomas, conhecendo cada biboca da região e certamente misturado com a população local. Depois do corte de cena, o que se vê é o exato oposto: um homem perdido, incapaz de se comunicar e mais estrangeiro impossível. Bom, resguardado o exagero cômico do filme, um gaúcho teuto-brasileiro em terra potiguar se mostrou quase tão esdrúxulo quando o Mr. Brody na Turquia.

 

Na viagem, inúmeras marcas conspiravam para me destacar na multidão. Por exemplo: o olhar maravilhado para aquele mar límpido, quem sabe escondendo o esforço brutal para segurar o queixo no lugar, impedindo-o de cair. Para quem cresceu diante de um oceano escuro, bravio e linear – três palavras que definem a costa do extremo sul brasileiro –, o cristalino aquário nordestino é uma visão do paraíso. Isso sem falar na beleza das falésias, dos parrachos (recifes de corais), das piscinas naturais que surgem nas oscilações da maré, das dunas e das baías. O deslumbramento, enfim, me denunciou.

 

Minha cor, por outro lado, também não ajudou muito na tarefa de parecer tão brasileiro quanto qualquer outro habitante local. O sangue alemão que me corre nas veias é praticamente visível a olho nu, só para dar uma idéia da palidez característica. E, independente da oferta de melanina, a exposição constante ao sol equatoriano confere ao natalense mais branquinho um tom muito mais amigável do que o meu. Por lá, antes das cinco horas já é dia claro e a chuva não somou dez minutos em toda a temporada. Neste sentido, pior mesmo só se me deixasse esbaldar: o vermelho da pele me levaria ao ridículo, ou ao hospital.

 

Mas nem ao potiguar cego eu teria sido capaz de ludibriar: meia palavra basta para revelar um gaúcho no nordeste. Nada me valeu ter escutado durante a vida o tanto de Alceu Valença, Caetano, Gil, Zé Ramalho, Dominguinhos, Fagner, Lenine e outros mais. Minha melodia frasal soa Teixeirinha aos ouvidos do restante do Brasil. Ou, no mínimo, Kleiton & Kledir. Como apenas pedindo confirmação, me perguntavam a toda hora se eu era gaúcho. Algo como se, ao invés de deixar o Rio Grande do Sul, eu o levasse junto comigo. Isso é uma barbaridade, tchê!

 

Voltando ao filme do Spielberg, Marcus Brody foi encontrado facilmente por aliados e inimigos nas ruas de Iskenderun, sem nenhuma surpresa de roteiro. De minha parte, fui visto, tido e tratado como turista em todos os momentos nas praias, feiras e restaurantes de Natal. E, por mais tempo que ficasse no Rio Grande do Norte, para sempre até (de mala e cuia), nem assim eu estaria perto de ser um potiguar. Simples: em tupi-guarani, potiguar significa comedor de camarões. E eu, antes de ser um deslumbrado gaúcho alemão, sou alérgico à iguaria. Como diriam:

 

         – Pode comer não? Ih... Danou-se.

11.1.08

Número 246

(DES) AMOR ETERNO

 

Tenho um amigo que, de tanto sofrer (provocar?) desilusões afetivas, sepultou de vez a crença no amor ideal.   Mas, nem por isso, perdeu a fé no "felizes para sempre" – o que parece um contra-senso. Na verdade, passou a escolher as namoradas com um rigor científico. A pesquisa, porém, não busca conhecer as qualidades que fariam da moça uma companhia duradoura: investiga como será a reação dela no pós-rompimento. Com o fracasso tido como certo, o negócio seria ser feliz no depois. Posso imaginar a cena...

 

É domingo. Primavera. O parque distribui com ampla generosidade panoramas ideais para os mais diversos roteiros: relva macia, flores de suave perfume, sol cálido, brisa amena. Ali convivem crianças saltitantes, pais zelosos, vendedores de pipoca, cães sob controle, pares românticos. Alessandro está deitado, pernas estendidas e cruzadas. Apóia-se em seus cotovelos e descansa os olhos no meio sorriso de Ana. Ela, sentada quase de lado, mão direita na grama, também lhe fita a boca, desejosa de novos beijos. Desde sexta-feira tudo corre muito bem entre os dois. Os ares são de eternidade quando, sensível, ela vê uma sombra correr sobre a face do rapaz.

 

– Aconteceu alguma coisa, querido?

 

Alessandro diz que não é nada. Ela duvida. Ele reluta em admitir que pensava em como seria o seu ex. Ana aperta as vistas e desfaz o sorriso. Apruma-se, cruza as pernas e repousa as mãos nos joelhos. Não gostaria de falar do assunto. Agora é Alessandro quem insiste. Na certa ela que teria despachado o namorado – supõe ele, como quem pede a confirmação.

   

– Zé Otávio era um canalha!

 

Ao revelar o nome, Ana se incendeia. Passam-se dez minutos enquanto um monólogo rico em detalhes desfila nada menos do que vinte razões para desqualificar Zé Otávio. Alessandro jamais altera as feições, nem mesmo quando, a folhas tantas do processo acusatório, ele se identifica com os diversos defeitos do pobre Zé – principalmente com coisas do tipo "parecia distante, como se pensasse em outra mulher".

 

– Mas você é totalmente diferente dele, querido!

 

Ana acaricia o rosto de Alessandro que, agora sentado, retribui com um longo beijo. As crianças brincam diante do olhar atento dos pais, os cães passeiam, o pipoqueiro faz sua propaganda, o casal volta a se recostar no gramado. Alessandro cochicha para Ana, entre mordidas em seu ombro:

 

– Não dá nada. Aposto que esse tal Zé Mané foi uma exceção na sua vida.

 

Ana se eriça outra vez. Quem dera fosse! O Leandro que, por ser arquiteto também, ela ainda encontrava por aí, foi outro cafajeste. E, para piorar, deixara dela para ficar com uma loirinha sonsa, fútil. Mas se mereciam, os dois! E, em outros dez minutos, a moça destila ódio por Leandro, com sobras para Zé Otávio e leves menções desabonadoras a um certo Betinho.

 

Alessandro olha para os lábios de Ana, mas desliga-se da conversa que segue. Pensa agora em Luísa, professora de Educação Física, separada, e que, ao se referir ao ex-marido, dissera ter sido um cara bacana, e que era uma pena não ter dado muito certo.

 

Pois é: precisava ligar para Luísa.