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Rubem Penz
A voz que indica os caminhos nos aparelhos de GPS, acessório cada vez mais presente nos automóveis, é predominantemente feminina. Quer dizer, há uma mulher dizendo a quem está ao volante para onde deve seguir. Também é uma mulher que indica os voos de partida e chegada nos aeroportos e, nas lojas, chama pelos pais de uma criança perdida. Isto não é coincidência. Uma das razões para que seja assim passa pela suavidade – a tonalidade das mulheres é mais agradável. Outra, e talvez mais importante, é que fomos, desde a infância, acostumados a ser mandados por mulheres. E, pensando bem, vozes masculinas no GPS podem gerar muitos problemas.
Por exemplo, uma moça independente, solteiríssima, cabeça feita, senhora de si desde os bancos universitários coloca uma voz de homem no GPS do carro. Ele, imediatamente, começa a lhe dar vozes de comando: vire ali, volte acolá, apanhe o caminho da esquerda. No primeiro trajeto é divertido. No terceiro dia, tolerável. Porém, não dou duas semanas para ela trocar por uma voz de mulher só para livrar-se daquele homem insuportável que pensa que pode mandar nela só porque acha que conhece o caminho. Isso sem falar no caso de, acidentalmente, ocorrer alguma falha na indicação. Se for homem, para ela, além de inesquecível, isso será imperdoável, ainda mais se coincidir com a TPM.
Para quem considera meu exemplo tendencioso, vamos dar um giro de cento e oitenta graus na motorista: ela agora é uma mulher de seus trinta e poucos, casada, mãe em tempo integral e dona de casa. Quando o GPS homem passa a distribuir suas ordens, algo no subconsciente começa a perturbar – não basta o marido para decidir os rumos de suas despesas, agora vem outro homem para mandar nela dentro do carro. Pior mesmo só se ela chegar à conclusão de que está com dois homens lhe torrando a paciência, e sem nenhum para lhe pegar no colo, deitar-lhe no solo e lhe fazer mulher (é delicioso citar Wando). Como é mais complicado trocar o marido, dará um jeito de alterar a voz do GPS.
Mas, digamos que o fabricante do GPS identifique no aparente autoritarismo chauvinista embutido no tom mais grave a raiz do problema, e resolva dotar o sistema com um locutor pleno de delicadeza, educação e tato. Algo que beire à afetação. Assim, seus comandos começariam com infalíveis pedidos de favor ou corretíssimas solicitações de licença. E sempre terminariam pontuados pela gratidão. Tipo: "Por obséquio, seria adequado dobrar à esquerda na próxima esquina. Muito obrigado." Ou: "Por favor, utilize se possível o próximo desvio para acessar a via lateral. Agradecido." Desastre. Para umas, estouraria a paciência pelo excesso de cerimônia. Outras considerariam, simplesmente, deboche.
Mas o GPS com voz masculina não é preterido apenas por mulheres. Lógico! Homem que é homem sabe o caminho melhor do que qualquer programador de meia tigela. E, por sua natureza competitiva, desacataria os comandos de outro homem só para provar que conhece uma rota alternativa mais curta, menos movimentada, duas vezes mais rápida. Melhor: deixaria o GPS desligado sempre que soubesse mais ou menos onde fica o endereço. Isto é, absolutamente o tempo inteiro. Ou alguém já viu um homem em sã consciência assumir que está perdido?
Quando o GPS com voz masculina ditar ordens em um carro com um casal, imagino que teremos briga na certa, conseqüência direta das reações naturais de macho alfa:
– Benhê, diminui a velocidade que ele disse para entrarmos na próxima avenida.
– Se acha que ele sabe mais, casa com ele, então...
Pois é... Por uma voz feminina, as mulheres compreendem as indicações de rota como sendo "dicas" da amiga eletrônica. E para os homens, são "pedidos" de uma mulher digital muito simpática que, inclusive, parece estar lhe dando mole. Logo, não custa atender. Tudo muito mais suave e palatável. Eu, pessoalmente, jamais ouvi um destes aparelhos com voz grossa.
Só para não perder a oportunidade, outra hipótese é ser o GPS com voz de mulher a mera confirmação da minha tese sobre as relações heterossexuais. Diz ela que o casamento é a união entre duas pessoas: uma é a que manda; a outra é o marido.
Et Cetera
Rubem Penz
Soube de uma história inverídica que, mesmo que fosse mentira deslavada, bem que pareceria verdade. Um amigo bem desolado procurou por Áureo (ocultarei sua identidade neste nome fictício). Pediu para sentarem em um lugar discreto, pois haveria um tema delicado para abordar. Áureo ficou levemente apreensivo e não deixou que chegassem ao assunto antes de dois ou três chopinhos, para dar uma relaxada. Deu certo, pois ambos deram risadas relembrando passagens da vida escolar. Depois de julgar que o clima estava mais suave, Áureo se fez ouvidos. Depressivo outra vez, o amigo chegou ao ponto: Sabe – falou acabrunhado e com a voz fugidia – notei que eu estou sempre, sempre, sempre lá no etc.
Atormentava-o a certeza de nunca ser mais do que um entre tantos, justamente aqueles mesmos sempre presentes, contados, esperados, desejados até, mas jamais nomeados. Sentia-se o eterno dançarino do corpo de baile. Figurante em cena. Rosto buscando desesperadamente a brecha entre os ombros no fundo da fotografia, mas nem assim sendo reconhecido. E, para piorar, carregara a família para o mesmo destino. Não que almejasse pódio, prêmios e honrarias. Estava consciente de que nunca galgara a altitude dos campeões. Seu pleito era mais modesto: bastava-lhe uma citação nominal, por menor que fosse.
Confessou que nada disso fora muito importante até então. Mas agora que os filhos estavam crescidos, cada vez mais informados e críticos, cobravam-no a suposta invisibilidade a todo instante. Ué, você e a mamãe não estavam nesta festa, papai? – disse uma, folheando a revista. Este ocupando meia página de jornal não é o seu colega de trabalho? – falou o outro. Não entendo, papai: pagaram uma nota para estarem no camarote do show, entrevistaram quatro ou cinco pessoas e vocês só apareceram nas frações de segundo de uma tomada panorâmica típica de edição... – reclamou a mais velha.
Áureo colocou a mão no ombro do amigo e disse compreender. Ponderou que a geração dos seus filhos estava sendo criada em um momento histórico diferente, até certo ponto doentio. A massificação das mídias, o fenômeno das redes sociais e sites tipo youtube deram para eles a falsa impressão de que são melhores os homens e mulheres que aparecem mais do que os outros. Porém, o culto à celebridade instantânea, tipo Big Brother, na realidade criava ídolos sem critério. E que isso tornou o verdadeiro mérito da visibilidade algo até certo ponto questionável. Por fim, disse que não cansava de denunciar isso nas diversas entrevistas que dava na TV, no rádio e no jornal.
Naquele instante, Áureo sentiu que pisara na bola. Também se arrependeu dos tantos chopes que havia insistido em consumirem. O amigo bateu com força na mesa e esbravejou que era disso mesmo que ele estava falando, e que não entendia como um deles estivera continuamente citado em tudo o quanto era oportunidade, enquanto o outro, sempre ao seu lado, permanecia invisível. Anonimamente, trabalhara para eleger Áureo representante de turma, conselheiro no clube, presidente na associação, delegado nos congressos... E eu? Sou menos do que um cão – falou aos prantos – pois ele ainda ganha afagos.
Foi quando o amigo, num rompante, apanhou uma faca na mesa ao lado. Matou Áureo em cena violenta, estúpida, chocante.
No dia seguinte, todos os conhecidos foram surpreendidos quando viram o jornal. No rodapé, o clube e a associação pagaram belos anúncios fúnebres. Áureo também apareceu em perfil extenso e detalhado na coluna de obituário. Enquanto isso, a manchete de capa estampava garrafal: "Dezessete mortes em fim de semana violento". Na fotografia, o destaque foi para uma chacina em boca de fumo. No corpo da notícia apareceu o caso do ladrão em fuga que bateu no ônibus que voltava de uma romaria, o afogamento de um operário na estação de tratamento de água, o filho do comerciante que fora baleado diante do pai etc.
A primeira crise
Rubem Penz
Mal o presidente Lula deixou o comando da Nação, antes mesmo de notarmos sua ausência de fato (para muitos, inclusive para o próprio, a ficha demorará a cair), a atividade que mais movimentou mão de obra em seus oito anos de mandato já promete afundar em uma grave onda de desemprego. E a culpa deste fenômeno deve ser atribuída em proporções equânimes ao ex-presidente e à atual mandatária, recém eleita. Não estou falando da construção civil, que espera um 2011 auspicioso. Tampouco da indústria e do comércio, ainda embalados na onda da ascensão da classe C. O rebanho das vacas magras pastará, eu garanto, no campo da mídia.
Luiz Inácio, quando subiu a rampa do Planalto, pareceu não ter encontrado lá no alto um gabinete. Primeiro, galgou um palanque. Depois, um palco. Correligionários e oposição foram unânimes em classificar sua passagem pelo mais alto cargo da República como sendo espetacular. Incrivelmente, criticavam-no e o louvam utilizando igual termo. Afinal, mais do que um líder, Lula foi um astro. Desde o primeiro minuto da manhã, até o recostar no travesseiro, nosso presidente fazia a festa dos jornalistas de plantão. E, para seguí-lo em suas constantes viagens, os veículos precisaram montar muitas escalas de profissionais.
Se existiu algum investimento seguro nos últimos oito anos, foi o de ter repórteres e fotógrafos colados em Lula. O homem era uma usina de notícias. Sobre sua cabeça pousaram centenas de chapéus, para todos os gostos. Se recebesse motoqueiros, pousava de easy rider. Em uma plataforma de petróleo, vestia macacão, capacete e pintava as mãos de negro. Entre atletas, estava de abrigo esportivo. Opinava sobre qualquer notícia produzida no globo, criava metáforas definitivas sobre os mais variados temas. Para cada líder mundial era reservada uma graça, em cada viagem oficial era produzido um fato. Ou muitos. Fosse para rir, chorar ou esbravejar; provocando encantamento ou indignação, nunca antes na história desse país alguém foi mais disponível.
No final de semana passado, Dilma Rousseff esteve em Porto Alegre. Tudo indica que isso será uma rotina, pois há uma neta recém nascida, o ex-marido é seu conselheiro e, enfim, parecem fortes os laços de família. Agora eu pergunto: Dilma se vestiu de prenda? Foi ao Galpão Crioulo e fez um sarandeio enquanto um peão dançava a Chula? Ao menos comentou sobre o calor que faz em nosso verão? Nada. As únicas reportagens produzidas informaram do aparato de segurança presidencial e que um rapaz de uma empresa que conserta aquecedores de água foi chamado para um reparo em sua residência (tudo assim, indeterminado mesmo). E nenhuma foto. Muito menos de Dilma, protagonista, alcançando a chave de fendas ao operário. Este último, aliás, soube se tratar de uma cliente ilustre apenas depois, pela imprensa.
Voilá! Apagaram-se as luzes da ribalta, acendeu a luz vermelha nas redações. Alerta geral: nossa presidente, ao que tudo indica, candidatou-se para baixar a cabeça e trabalhar. E, como sabe qualquer autor de novela, com as personagens trabalhando não há trama que se sustente. Imaginaram um BBB ambientado em um escritório onde todos estivessem ocupados? Um desastre! Logo, aquela Dilma onipresente, sorridente e falante, quase luliforme, era pura estratégia de campanha – com eficiência comprovada, diga-se. Na vida real, a presidente preserva sua intimidade e tem alma de coadjuvante. A TV, o rádio e o jornal prescindirão de tanta gente em sua cola. E nenhum patrão gosta de pagar funcionários ociosos.
Dilma Rousseff poderá cumprir um mandato excelente, correto, sofrível ou desastroso – só o futuro dirá. Mas nada indica que teremos outro governo espetacular. Sem show, não há ibope. Sem ibope, não há empregos. Fez-se o silêncio nas redações. Os amigos jornalistas que me perdoem, mas habitavam uma bolha especulativa inflada pelo ego do presidente anterior. Seguindo a cartilha de RH, aproveitem esta crise para buscar novas oportunidades. Quem sabe na editoria de esporte? Como diria Lula, craque de verdade joga nas onze.
A solidariedade dos onze
Rubem Penz
Correm tempos de videogames irados – como qualificam meus filhos. Porém, na mais pura nostalgia, vou falar de bingo. Não bingo eletrônico, ambientado em um quase cassino e lutando no Congresso Nacional para ser legalizado e abrir no Brasil uma fresta para os dados, a roleta, os caça-níqueis e o carteado por dinheiro. Falo do bingo romântico, praieiro, com cartelas de papelão cartonado e feijões pretos para marcar os números. Tudo na maior simplicidade, verdadeira antítese dos hotéis de Las Vegas. Acontece que o ano de 2011, por causa da dezena final, me fez viajar no tempo e lembrar dos cantadores de números de bingo de minha infância e juventude. Jogos quase sempre em favor da paróquia local: para consertar o telhado – ah, a chuva que ora é benção, ora castigo...
Enquanto a roda de grades metálicas girava na velocidade da manivela, todos ficavam vidrados para, esperançosos, saber qual esfera cairia. Um salão inteiro ambicionando o liquidificador, brinde gentilmente doado pelo magazine X. Havia os que desperdiçavam a sorte para ganhar uma garrafa de uísque nacional, faca de churrasco ou dois ingressos de cinema. Outros permaneciam na expectativa dos prêmios mais vultosos, como o par de poltronas de vime, diárias em hotéis de Estâncias Hidrominerais e, claro, os eletrodomésticos. Por fim, havia os que jamais eram bafejados pelo doce hálito da sorte – minha turma –, para os quais a graça do jogo era se divertir com o animador do espetáculo:
– Meia dúzia plantando bananeiras: é o nove!
– Dois patinhos na lagoa: vinte e dois!
– A idade de Cristo: marquem o trinta e três!
No bingo, havia um número para o qual sempre cabia uma pessoa: o onze. Ano após ano, telha por telha para substituir na Igreja, cantava-se a fatídica pedra:
– Onze: as pernas do Carlinhos!
E eu quieto, agradecendo a todos os Santos pelo milagre da tradição. Afinal, bastava um olhar atento para perceber que, homem feito e pai de família, o Carlinhos há muito não era o rapazola que crescera depressa, deixando o corpo com pouco recheio. Providencialmente, eu tratava de vestir calças compridas na ocasião, para jamais estimular uma atualização no discurso. Passava o tempo e tudo me divertia, menos o enunciado do 11. Adivinhava que meu dia,cedo ou tarde, haveria de chegar.
Tanto quanto os sonhos coletivos, os pesadelos individuais viram realidade. Não sei se o Carlinhos moveu uma ação revisional, ou simplesmente caiu a ficha do cantador junto com a bolinha sorteada... Mas já era pedra certa. Uma noite:
– As pernas do Maninho (apelido de casa): é o onze!
Gargalhada geral. Até que enfim poderia vestir bermudas: a verdade nos liberta. Eu, que sempre gostei mais do número oito, e que nunca joguei na ponta esquerda, virara sinônimo de onze. Apesar de que por muito pouco tempo. Teria engordado? Nem um quilograma... O que mudou, para o meu desconsolo, foi a praia. Hoje, aquele salão está em ruínas. Arrecadam-se donativos sem nenhuma alegre contrapartida (sim, ainda há que se reformar o telhado da capela). Ninguém mais se encontra.
Quer dizer, mais ou menos. A cada novo verão, o Carlinhos, nosso vizinho de casa de veraneio, olha bem para mim e diz: "Sabe que eu tinha as pernas quase tão finas quanto as tuas?" Faço que sim com a cabeça. Ambos sabemos o que isso significa. É a solidariedade dos onze.
Dois garfos
Rubem Penz
Sempre que chega o final do ano, cronistas de ofício olham para o céu em busca de sinais. Desejam da Estrela Guia a inspiração para, com seu encanto, oferecer aos leitores alguns instantes de meditação e originalidade. Pleito muito justo, pois os balanços e retrospectivas afundam nosso chão com suas pegadas de sangue. Não fujo à regra. E, razoavelmente íntimo da elocução dos arautos, aguço os sentidos, pois as mensagens nos chegam do modo mais insuspeito. Eis a prova:
Em rotina alterada e como há muito tempo não acontecia, neste dezembro almocei em restaurantes todos os dias de semana. Por duas vezes, acompanhado por um dileto amigo. A maior parte do tempo sozinho e com os olhos e ouvidos bem abertos para fugir da má companhia dos fantasmas interiores. Refeições comerciais padrão: primeiro, enfrentando a fila de comensais escolhendo iguarias do bufê – em um extremo as saladas, no outro a indefectível balança. A seguir, na disposição apertada das mesas, compartilhando a troca de palavras entre conhecidos e de silêncios entre estranhos.
Certo meio-dia, depois de cruzar o paraíso (inferno?) das calorias e receber o vaticínio dos quilogramas no prato (R$14,20), apanhei os talheres e me posicionei em uma das contíguas mesas de dois lugares, entre uma senhora bem vestida e igualmente solitária, e um casal de jovens. Quando ia começar a refeição, reparei que havia apanhado dois garfos e nenhuma faca. Por segundos olhei para os talheres gêmeos em minhas mãos, admirando a criatividade das musas para nos mandar recados. Suspeito que devo ter esboçado um pequeno sorriso, gabando-me da grande acuidade.
Afinal, assim é nossa vida! Por vezes, temos à nossa frente pratos bem servidos de saborosas oportunidades e nem todas as ferramentas para tirar proveito. Nesta hora, uma escolha se impõe: ou, inoperantes, lamentamos as escolhas, a sorte, o destino; ou nos movemos em busca daquilo que nos falta. Em algum lugar, ou com alguém, encontraremos o complemento necessário para desfrutar da lauta refeição da vida. Ninguém é autossuficiente ao ponto de depender tão somente de seus recursos. E são as trocas, os movimentos na direção do outro para buscar e oferecer, o maior legado de nossa passagem terrena.
Por outro lado, os garfos, instrumentos preciosos e fruto de nosso engenho e arte, quando em excesso, mostram-se um enorme desperdício. E quantas vezes caímos nessa armadilha? Acumulamos muito de algo que o bastante seria menos pesado e socialmente mais justo. Pois, mesmo sem ser a minha intenção, deixei uma faca sem seu par no restaurante. Numa hipótese extrema, meu ato seria sentido por outro comensal para quem faltaria o abusivo garfo que eu detinha.
Mais: os talheres, livremente oferecidos para que todos apanhem apenas os seus, são como os bens sociais. Somente a ética e o bom senso impedem alguém de tomar todos para si, deixando o entorno comendo com as mãos. Quando uma pessoa, ou um grupo, apropria-se do bem coletivo, é consciente de seu valor e tem a exata noção da falta que fará aos outros. Por isso a corrupção, o clientelismo e o favorecimento ilícito da política brasileira são tão execráveis.
Enfim, naquele mínimo instante, saciado de inspiração e ainda com o sorriso bobo na face, resolvi olhar para os lados. Alheio, o casal de jovens à esquerda conversava sobre trabalho. Porém, a senhora à direita olhava para mim com evidente censura. Pragmática, ofereceu a lição derradeira:
– Viu, só! É isso que dá não prestar atenção no que se está fazendo...
SAC do Papai Noel
Rubem Penz
Email de resposta modelo 1:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Adorei receber tão boas notícias: notas excelentes no colégio, obediência ao papai e à mamãe, boas maneiras, muita cooperação com o (a, os) irmão (ã, ãos), apetite e disposição no almoço e jantar. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: o orgulho da família e a certeza de estar no caminho do bem. Atenciosamente, PN.
Email de resposta modelo 2:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Gostei bastante de suas notícias: notas com boa média, alguma teimosia que outra quando o papai e a mamãe deram suas ordens, cortesia, convivência pacífica com o (a, os) irmão (ã, aos), razoáveis modos no almoço e jantar. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: o reconhecimento pelo esforço e a certeza de boa vontade. Atenciosamente, PN.
Email de resposta modelo 3:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Suas notícias não chegam a ser as piores: uma que outra nota vermelha, certa dose de stress na relação com o papai e a mamãe, civilidade, atritos contornáveis com o (a, os) irmão (ã, ãos), um pouco de resistência com a comida que foi ofertada. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: a humildade em reconhecer as falhas – esperança de evolução. Atenciosamente, PN.
Email de resposta modelo 4:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Estou alarmado com seu desempenho neste ano: passou raspando no colégio, deixou papai e mamãe em constante sobressalto, litígio permanente com o (a, os) irmão (a, ãos), apetite sempre voltado para as porcarias. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: uma confissão alentadora – pior seria tentar enganar quem tudo vê e tudo sabe. Atenciosamente, PN.
Email de resposta modelo 5:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Folgo em saber que você ainda está em casa, e não em uma instituição para menores infratores: repetência por excesso de faltas, papai e mamãe precisando depor no Conselho Tutelar, más companhias, pau comendo solto com o (a, os) irmão (a, ãos), modos animalescos à mesa. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: a fé na imponderável superação humana. Atenciosamente, PN.
Email de resposta modelo 6:
Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Se o que está escrito é fato, significa que mantém família e colégio sob seu controle. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Aliás, estou encaminhando seu pedido para alguns amigos em Brasília. Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: tenho pelo menos três siglas avaliando seu histórico. Só não se esqueça de mencionar quem lhe indicou, hein?! Atenciosamente, PN.
NÃO É VOCÊ, SOU EU
Rubem Penz
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Cazuza
São muitas as expressões que, quando ditas, devem ser compreendidas exatamente ao contrário. No fundo, elas não passam de tentativas vãs de retardar, iludir, despistar ou confundir. Truques manjados, mas recorrentes e imbuídos de uma esperança comovedora de que ainda possam funcionar. Mensagens que até podemos fingir que acreditamos, no exato instante em que uma luz vermelha começa a piscar no sistema límbico de nosso cérebro: perigo, perigo! Exemplos:
Não vai doer. Seria mais verdadeiro dizer que a dor é pouca, todos até agora suportaram, não se conhece casos de traumas ou desmaios, quando passar nem lembraremos mais. Porém, quem está disposto a ser honesto antes de provocar dor no outro? Quando se é criança, podemos até nos iludir na primeira vez. Depois, muito rapidamente criamos anticorpos.
Agora falta pouco. Frase que costuma saltar da boca daquele que nos conduz, logo que a metade do caminho é rompida. Às vezes até antes. Relatos históricos dizem que fora proferida quando, ao dobrar o Cabo da Boa Esperança, um marujo novato se mostrou ansioso. "Já chegamos à Índia, Capitão Bartolomeu?" "Ainda não, mas agora falta pouco..."
Eu sempre acreditei em ti. Uma das sensações mais prazerosas da vida é a de superar limites. Chegar além do vislumbrado, conquistar o impossível, vencer obstáculos contrariando as mais otimistas previsões. Porém, logo depois, ainda sob o castigo da exaustão ou a vertigem da glória, não faltará aquele que jamais lhe creditou um centavo a proclamar surpreendente fé.
Estará pronto em duas semanas. Intervalo mágico de tempo mais utilizado do que tijolo e cimento na construção civil. O pior é que já escutei esta previsão dita por toda a cadeia laboral envolvida: do servente de pedreiro ao arquiteto. Acho que a conta mental é a seguinte: uma semana é escárnio. Dizer a verdade, suicídio.
Não sou mais aquela pessoa que você conhecia: ela já morreu. Das duas, uma: ou você está diante de um zumbi, ou de alguém, fatalmente, mentindo. Nem os mais dispostos a crer em reencarnação dispensam a passagem efetiva para outro plano espiritual antes de retornarmos como outra pessoa. Crendo, a lógica aponta para um futuro onde nascerá desejo legítimo de morte.
Nunca nem olhei para ela. Se existe algo que os homens fazem por ato reflexo, sem chance de controle, é olhar. Olhamos sempre: de soslaio, acintosamente, no susto, de caso pensado... Até constrangidos, quando sabemos que não deveríamos estar olhando. Agora, o leitor reparou na dupla negação da frase? Significa que o protagonista foi além do mirar.
Prometo que paro. Aí está o exemplo cristalino e bem acabado de perjúrio. E a pergunta que deve nascer dentro da mente, onde os sinais de alerta disparam, é a seguinte: se era para parar, por que começamos?
Não é você, sou eu. Hors concours no sexo feminino. Pare o que estiver fazendo e inicie agora mesmo o seu exame de consciência, já que é você, sim. Mas, relaxe: não vai doer.
SIM, NÃO, TALVEZ
Rubem Penz
Apesar de sermos todos iguais perante a lei, as diferenças entre homens e mulheres vão muito além da fitinha azul ou cor de rosa grudadas em nossas cabeças de recém nascidos. Isto é fato notório e explorado com razoável frequência. Mesmo assim, nos divertimos muito cada vez que constatamos o abismo que nos une. E foi mirando o penhasco que reparei como é diverso o modo de julgar o sexo oposto. As mulheres são, essencialmente, analíticas. Os homens, simplesmente holísticos.
Por exemplo, imediatamente depois de passado o scanner visual sobre um candidato a candidato afetivo, a fêmea da espécie humana está apta a gerar um relatório contendo de duas a três páginas de extensão. Basta que a amiga puxe conversa:
– Que tal aquele, hein?
– Olha, eu vi só de relance... O cabelo está meio desalinhado, o que traz um ar selvagem, ainda mais com a barba daquele jeito, por fazer. Gamei nas sobrancelhas. Os cílios, então: parecem até postiços. Olhos escuros, pele morena. O nariz poderia ser um pouco mais delicado, mas no conjunto não chega a comprometer. A orelha esquerda tem um furinho: ou ele já usou brinco, ou está sem ele hoje. A boca promete ser o ponto alto. Aliás, os dentes são bem claros e alinhados. Não duvido que tenha usado aparelho ortodôntico na adolescência. Queixo quadrado, forte, com uma leve covinha...
O espaço da crônica não permite que eu avance do queixo até os pés. Aliás, colocar-me no lugar da personagem mulher e, com ela, avançar ao limite da cabeça, já deu uma enorme canseira... Mas foi necessário para o leitor dar-se conta de que tudo o que foi visto pela moça foi registrado. Mais: está pronto para ser interpretado, desdobrado, analisado. Logo, de nada adianta o homem alugar um automóvel importado para impressionar a mulher desejada, se o restante dos sinais aponta para uma condição financeira instável e sujeita a chuvas e trovoadas. Além disso, para conseguir algo, o rapaz precisará dar seu recado com um bom xálalá. E nem assim estará no papo.
No caso de dois homens, uma cena semelhante e com idêntico objetivo teria o desenrolar muito diverso:
– Que tal aquela, hein?
– Eu teria a iniciativa imediata de acasalamento.*
Bom, isso na hipótese de ter simpatizado. Caso contrário, seria:
– Eu não teria a iniciativa imediata de acasalamento.**
Aí está a diferença de ser analítico e holístico: salvo algum pormenor que salte aos olhos – neste caso um "pormaior" –, o homem foca no todo. E com ele é pá, pum. Sim ou não. A mulher percebe detalhes um a um, do estado das unhas à idade do sapato. Além de, para ela, sempre ser talvez.
Melhor? Pior? Apenas diferente. E os estudiosos podem encontrar explicações que remontam o tempo das cavernas. Claro que isto dá pistas da facilidade de atender um e da dificuldade de agradar outra. Nada que seja impossível de contornar, sob pena de extinção da espécie.
*Sendo fiel à oralidade, a resposta tem uma só palavra e é sinônimo de alimentar-se.
**Idem, mais a negação
SEM RISCOS
Rubem Penz
Vejo na TV o caos da Segurança Pública no RJ. Antes, li atentamente a reportagem de capa de uma importante revista semanal brasileira. Trata-se de entrevistas (quase uma centena) com homicidas. Investigou-se o que pensam e sentem aqueles que cometem este crime capital. Estão ali os que matam por razões passionais, bandidos que liquidam outros bandidos, valentões alcoolizados, assassinos profissionais e, principalmente, indivíduos que cometem latrocínios – roubo seguido de morte. Detenho-me neste último grupo, pois notei um interessante traço em comum: quem mata quando deseja apenas roubar, o faz quando a vítima reage, ou parece reagir. Em outras palavras, mata quando está em risco.
Tenho por hábito acompanhar entrevistas com autoridades de segurança pública. Seria injusto eu dizer que eles não ligam para o quadro alarmante do momento. Porém, todos os motivos são arrolados para explicar o inexplicável: poucos presídios, leis brandas, falta de inteligência contra o crime organizado, fronteiras permeáveis para a entrada de armas e drogas, miséria, corrupção, desemprego, famílias partidas, crise de valores morais etc. Por fim, em um ponto, bandidos e polícia concordam: o cidadão não deve jamais esboçar a menor reação. Se reagir, morre, diz o ladrão. Se reagir, morre, diz a polícia. A passividade conformada atenua o risco.
A conclusão é simples: com a institucionalização da passividade (e olha que a lei do desarmamento nem passou em plebiscito), com o fim do risco para os bandidos, essa atividade precisa ser denunciada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Num regime capitalista, não podemos admitir iniciativas privadas imunes ao inerente risco de empreender. Se o marginal coloca duas vidas em negociação (a nossa e a dele) e só um lado pode perder, Cade nele! E tem mais: a vida por um simples relógio, boné ou celular é preço abusivo! Procon nele! Nossa vida está valendo muito pouco. A outra, como disse, não está mais em risco.
Avançando o raciocínio, exercer "profissões" sem risco pressupõe estabilidade. Porém, sabemos que estabilidade não é bem assim: deve haver ao menos algum regramento. Concurso público, quem sabe. O bandido precisa comprovar conhecimento e controle emocional para distinguir entre o movimento de soltar o cinto de segurança e uma reação, por exemplo. Senão vai desperdiçar muita bala e queimar por incompetência um cidadão que poderia ser assaltado vinte, noventa vezes durante a vida útil. Estaríamos muito melhor atendidos se houvesse a certeza de que o ladrão precisou estudar, submeter-se a uma seleção, cumprir carreira na pilhagem. Ou, melhor ainda: ser eleito!
Ih, um problema – isso começa a ficar parecido com governo paralelo. Políticos não vão admitir concorrência. O que, por vias tortas, acende uma luz no fim do túnel: talvez combatam a criminalidade salvaguardando seus interesses e, de modo colateral, os nossos.
TÚMULO DA POESIA
Rubem Penz
Um filho, uma árvore e um livro. Três chances de você passar pela existência terrena deixando algum legado, pequeno que seja. O filho tendo filhos (e estes outros filhos) faz com que sua carga genética se perpetue. Uma árvore crescerá, oferecendo sombra às gerações vindouras. Também frutificará e, semeando novamente a terra, conferirá à sua iniciativa jardineira ares de perenidade. E, quando você conquista a oportunidade de imprimir pensamentos em uma obra editada, estará contribuindo para a cultura da humanidade. Porém, como até mesmo a melhor receita de bolo pode abatumar, essa coisa de legado envolve riscos. E a posteridade pode trazer dissabores.
Por exemplo, alguém pariu Hitler, para citar unzinho só dos grandes monstros da História. Neste caso, ter pai e mãe explica a existência, mas não imputa responsabilidade. Pelo menos não toda... Quando uma árvore despenca sobre bens ou pessoas, causando graves danos, de nada adianta lembrar a cândida iniciativa de acomodar carinhosamente a pequena mudinha na terra e maldizê-la para todo o sempre. Quem poderia imaginar a tragédia futura? Assim como não devemos condenar grandes nomes da literatura Universal pelo mau uso que incautos fazem de seus escritos.
Quando um músico sofrível executa uma composição do genial Beethoven (trago um alemão para compensar outro*), costuma-se falar que o autor está se revirando no túmulo. Dá para se dizer o mesmo daqueles escritores cuja obra é citada sem critério, inadequada ou incorretamente. Isso quando não trocam a autoria – o que é comum na internet. Muitos são os textos que recebo atribuindo a criação ao Verissimo, Jabor ou Drummond, em uma flagrante fraude autoral. Ainda por cima escrevem de modo errado seus nomes!
Um caso clássico de autor exaustivamente citado, nem sempre com o devido respeito, é o de Fernando Pessoa. Conheci um camarada que, ao dar descarga em banheiros públicos, recita "navegar é preciso, viver não é preciso" enquanto parte sua embarcação. A cultura, no caso, está mais para o sentido laboratorial patologista do termo, do que para a literatura em seu melhor papel. Teria culpa o Pessoa? Nenhuma! (Só para não perder o gancho da escatologia, outro parceiro, ao sentir que alguém liberou um flato, cita Tropa de Elite: "Pede pra sair, número 2!")
Vinícius de Moraes é outro que não deixam descansar em paz. Os últimos versos do belíssimo Soneto da fidelidade são pau pra toda obra: "Que não seja imortal, posto que é chama. / Mas que seja infinito enquanto dure." Inclusive quando se muda, pornograficamente, uma das letras da última palavra, em chula alusão à potência masculina. Bom, neste caso, e pensando bem, se lembrarmos da vida do querido poetinha, talvez ele nem reclame muito. Até se divirta, rindo da perversão.
Por fim, outro de quem não largam o pé é Mário Quintana. Em seu Poeminho do Contra, ele diz: "Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho." Verdadeiro lema para quem almeja a perenidade, os versos do poeta dão asas ao destino e põem ovos em qualquer cesta: todos nós podemos reivindicar nossas penas diante daqueles "esses" que atravancam nosso caminho. Mas tudo tem limite – foi o que eu disse outro dia para um marido traído que evocou Mário Quintana para explicar sua mansidão diante do infortúnio conjugal. Aí foi demais! Quintana revirou no túmulo!
*Braunau am Inn, cidade natal do Führer, fica na fronteira de Alemanha e Áustria.
NÃO ACHO NADA
Rubem Penz
Quem acha vive se perdendo
Noel Rosa
Nos dias correntes, de superexposição, há quem esteja confundindo dois conceitos muito diversos: a opinião e o palpite. Opinião é (ou deveria ser) resultado de uma análise de conjuntura, um ponto de vista fundamentado. Ou, no mínimo, produto de uma consistente reflexão. Neste sentido, ninguém de bom senso opina sobre o que desconhece, nem que seja por autopreservação. Já o palpite é diferente: ele é uma espécie de aposta. Não por acaso, ao jogar na loteria ou nos cavalos, denominamos de palpite nossa fé no sucesso da aposta. Enfim, quem apenas acha é porque, na certa, desconhece.
Vira e mexe me pedem opiniões sobre temas variados. Acho que são os óculos que, carinhosamente, denomino de inteligência artificial. Outro palpite é o ar de bom moço, centrado, que me persegue ora para o bem, ora só para atrapalhar. Isso não vem de hoje e tem se agravado na medida em que os anos de crônica se empilham em minha biografia – nada mais opiniástico do que este gênero híbrido de jornalismo e literatura. Não me iludo ou envaideço. Afinal, pedem-me opiniões aqueles que, com bom aporte financeiro, compram pareceres, diagnósticos, projeções... Mas, cuidado: jamais acreditem em meus palpites. São todos furados.
Tenho lutado diuturnamente para fugir da tentação de achar coisas. Sou o pior palpiteiro do mundo. Para minha esposa, com quem divido a rotina, venho repetindo um mantra: não acho nada. Ainda mais que, lentinho como sou, demorei quase meia vida para me dar conta de que 80% das perguntas das mulheres são absolutamente retóricas. E o índice sobe para 100% quando se refere à aparência, principalmente ao despirem o quinto vestido. Mas, mesmo nas miudezas da vida, naquilo que pouco influenciará nossa história, erro a mão com uma constância desanimadora. E sofro com as consequências, culpando-me num eterno flagelo interno. Pior: quando, malandro, resolvo contrariar meu palpite, esqueço que ir contra o palpite também é um palpite. Falho igual.
Por exemplo, nessa semana. Vínhamos de um dia escaldante e passamos uma noite abafada. Escutei a previsão do tempo com seu alerta para a chegada de uma frente fria destinada a, primeiro, provocar vento e chuva para, depois, nos ofertar frio e geada. Vinha do Uruguai e da Argentina e mudaria o tempo no decorrer do período. Mas passava das nove da manhã e o sol ainda brilhava no firmamento. A patroa tinha um compromisso profissional e me perguntou se deveria levar um casaco. Indaguei a que horas eu a buscaria de volta. No máximo às duas da tarde, garantiu. Caí em tentação. Não escutei a voz da consciência e seu necessário mantra. Palpitei: acho que não...
Quando ligou para ir buscá-la, pediu para que não me esquecesse de pegar o casaco que eu dissera dispensável. Chovia para cima, para baixo e para os lados. A temperatura descera uns dez graus centígrados quase instantaneamente. O tal período da previsão decorrera correndo. Sua gripe piorara a ponto de ela estar afônica do outro lado da linha. Um desastre aquele meu palpite.
Agora, quer saber a minha opinião sobre o fato? Foi tudo culpa minha. Como contrição, devo escrever cinco laudas em corpo oito: não acho nada; não acho nada; não acho nada; não...
TADINHA
Há quem goste de se colocar na posição de coitadinho. Provocar pena. Fragilizar-se. Diferente dos naturalmente humildes, ou dos inseguros, o coitadinho proposital faz uso metódico de sua posição sofredora. É um profissional da esmola, algo que pode ser (e é) muito mais do que a tradicional ajuda monetária no semáforo. Coitadismo é artifício, é proteção. Instância onde não há cobranças: o coitado nunca tem culpa. Nada mais confortável do que portar um salvo conduto obtido a partir de uma conspiração cósmica contra si.
Quer me deixar indignado? Diga que sou um coitadinho. Já fui vítima de injustiça, de violência, de humilhação. E quem não foi? Sofri feito cão vadio dos males do amor, fui caluniado... Até quiseram a minha caveira. Pequei por omissão e – ah, quanto me custa confessar – fui meio covarde em algumas situações. Coitado de mim? Jamais! Reuni forças e sempre tentei superar as adversidades, consciente de que a vida reserva tropeços para quem se dispõe a caminhar. Tombando, descobri muitos motivos para admirar as pessoas em suas vicissitudes: quanto mais sei de seus calos, mais aprecio sua coragem.
Quer me deixar ainda mais indignado? Chame alguém de coitado reiteradamente. Minha vontade é alertar: "Olha que horror, já estão te chamando de coitado. Faça alguma coisa, correndo!" Mas, quando parece consenso, quando o coitadismo vira escudo, dirijo a revolta para o outro lado: "Coitado, nada! Se faz de vítima para passar bem." Soa para mim como um habeas corpus para a incompetência, para a preguiça, para o masoquismo. Passaporte carimbado para uma vida parasitária. Deus me livre.
Este parecia ser o caso de Tadinha.
Ninguém se lembrava do seu nome: desde pequena, ainda na família, era Tadinha pra cá, Tadinha pra lá. Derrubava o vaso de flores e, tadinha, foi sem querer. Quando batia no rosto do irmão, tadinha, estava só se defendendo. Falava errado, não tinha deveres e ganhava cardápio especial porque, tadinha, era pequena. Cresceu e carregou o apelido para além muros. Levou-o consigo, inclusive, na mochila escolar. E as notas baixas de Tadinha passaram a ser explicadas por perseguições dos professores.
Casou-se com um homem bom. Alguém que compreendeu que, tadinha, era assim tão dada porque os outros abusaram de sua condição ingênua. Durante os votos de núpcias, pairava o silêncio nos bancos da Igreja: Tadinha, de todos, de tantos, escolhera o mais feio, o mais simplório. Mas, tadinha, já estava ficando para tia.
Tadinha não parava em nenhum emprego. Por isso, tadinha, vivia ganhando muita ajuda dos pais – tinha hábitos refinados e bom gosto; além de um marido esforçado, todavia mediano. Por isso, ninguém a culpou quando, tadinha, deu um pé na bunda do homem. Ele nunca estivera à sua altura. Claro que, agora que Tadinha estava com três filhos, o incompetente do ex deveria fazer de tudo para que nada faltasse.
As crianças cresceram meio soltas, pois, tadinha, não dava conta de tudo tão só. O mais velho foi para o mau caminho – acabou preso. Hoje, encontra-se foragido. A do meio se mudou para Minas Gerais. Tadinha não tem notícias da filha ingrata, que dizem estar bem situada na vida. O caçula não! Este está sempre com a mãe. Se bem que, grande coisa... Coitadinho, Tadinho tem muitas dificuldades. Os senhores aí, ou a senhora, não teriam como conseguir uma bolsa de estudos para o pobre garoto?