3.11.11

Centopeia

Número 446
Rubem Penz
Quantos pés têm numa mesa de bar? Qualquer um responderia que são, normalmente, quatro. Aí que está: isso quando ela está vazia. Sendo um tradicional ponto de encontro, pode-se dizer que a mesa de boteco terá tantos pés quanto maior for o número de pessoas que ali estiverem durante uma noite. Dezenas com certeza. Quem sabe até uma centena, entre chegadas e partidas. Numa semana, milhares.
Pés de todos os tamanhos: dos delicados 33 aos superlativos 45. Pés de chinelo, de sandália, tênis ou sapato. Pés descalços, se o bar estiver à beira mar. Alguns firmes no chão, outros aéreos – aproveitando as pernas cruzadas. Uns pisando inadvertidamente em vizinhos. Também pés que se tocam por carinho, muitas vezes de modo velado. Pés que tamborilam ao som da música, pés inquietos denunciando um tique nervoso, pés unidos em recato ou espalhados pelo chão afora. Pé por pé. Pé na porta.
E para onde anda essa centopeia? Para lugar algum, é claro! No máximo em pequenos deslocamentos para compor com outras mesas arranjos coletivos. Acontece que cada pé da mesa, como também cada cabeça, aponta para um lado. E, nesse empurra e puxa, a certa altura, a mesa perde os pés e ganha asas. Só os adeptos do bom papo de bar sabem o quanto se pode voar para além fronteiras sem sair da roda nem perder a rodada – seja em papo cabeça, ou em teorias sem cabeça nem pé.
A união de mesa de bar, boa companhia, assuntos variados e diversos pontos de vista sempre dá pé. E, mesmo dando pé, há quem afogue – a si ou as mágoas. Melhor dizendo, as duas opções: para o mar das lamentações, de nada servem pés de pato. É também nas voltas com as bolachas de chope que tomamos pé das coisas, mesmo com alguns a não falar coisa com coisa. E merece pé na bunda quem finca num assunto pé no saco.
Porém, antes que o leitor, boiando, fique pé da vida com essa crônica (ok, agora forcei um pouquinho, perdão), vamos tomar pé da situação: há motivos para tantos pés, e tem muito a ver com os pés das mesas de bar. Primeiro, devo lembrar que nenhuma ideia, por melhor que seja, sobrevive sem que finquemos os pés na sua execução. E foi isso que fiz quando convidei um novo grupo de escritores para a segunda turma da oficina Santa Sede – crônicas de botequim. Depois, os nove componentes foram incansáveis na hora de por o pé na estrada: escreveram muito, e muito bem. Oitenta e uma crônicas em seis meses de trabalho! Textos sobre a mesa; sob ela, nossa profusão de pés.
É preciso dizer, para o bem da justiça, que nada teria dado pé sem boas mãos. E que mãos! No livro Santa Sede – crônicas de botequim, Safra 2011, cujo lançamento será dia 06/11 na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, estão as digitais dos autores, editores, designers, corretor, gráfica... Minhas marcas também, vá lá. Todos com um pé que é um leque pela hora de colher as impressões dos leitores. E quando me refiro a leitores, penso em todos vocês! Ao menos dos que curtem crônica, amizade, boemia e perspicácia.
Por fim – e, por favor, paciência com meu contentamento –, vou enfiar o pé na jaca e cometer outro trocadilho pela causa: quem não gosta de crônica, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do, agora, óbvio.
Abra a mão. Abra seu coração. Abrace-nos no lançamento da antologia Santa Sede – crônicas de botequim, Safra 2011, Ed. Fábrica de Leitura. Eu, de pés juntos, juro que o livro está ótimo!
PS.: dia 09/11, 19h, também estaremos autografando no Boteco Matita Perê, o bar anfitrião da oficina. Rua João Alfredo, 626, Cidade Baixa, Porto Alegre.

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2.11.11

Autógrafos em 06.11, domingo, na Feira do Livro

Na qualidade de Organizador,
Convido para o lançamento da antologia



Ed. Fábrica de Leitura

Dia 06/11, domingo, 18h
No Memorial do RS, Térreo
57ª Feira do Livro de Porto Alegre

&

Dia 09/11, quarta-feira, 19h30
No Boteco Matita Perê
Rua João Alfredo, 626, Porto Alegre

***

“Brilhante a ideia do Prof. Rubem Penz de oferecer uma oficina de criar talentos num inusitado ambiente: o bar. Local propício para provocar a inspiração, onde o prazer da boemia, o lúdico da conversa, a embriaguez da descoberta e a surpresa de um olhar inusitado provocam um banquete de emoções. (...) Por isso, se torna tão divertido ler as crônicas contidas nessa Santa Sede. Compartilhamos desse processo como se fôssemos parceiros da mesa ao lado, observando como cada cabeça tem suas sentenças e delas constroem-se idéias diferentes e estilos próprios.”

Cláudio Levitan

28.10.11

Para ser infeliz basta pouco

Número 445

Rubem Penz

Engana-se quem pensa que é preciso muito para ser infeliz. Ao contrário, a infelicidade está ao alcance de todos, sem medir classe social, idade, sexo, credo ou nacionalidade. Também independe de prática ou habilidade, não exige formação técnica nem superior, pré-requisitos ou apadrinhamento. Por fim, constitui direito de todos sair em busca da desventura.

Para começo de conversa, é consenso que a infelicidade está nos pequenos gestos: a falta de um sorriso aqui, o virar de costas ali, o silêncio acolá. Não procure a infelicidade longe, pois ela pode estar bem ao seu lado. Basta reparar na carranca que lhe brindam a todo instante, seja por algo que você deveria ter feito (e não fez) ou por aquilo que realizou sem perfeição. Os motivos para ser infeliz podem chegar ao acaso – por exemplo, quando o garçom confunde seu pedido. Ainda planejadamente, como no caso do diretor que tudo faz para abiscoitar os méritos nascidos de seu trabalho.

O trânsito da cidade grande também pode vir a ser um manancial inesgotável de infelicidade – é preciso estar atento. Duvido que, ao menos uma vez durante o dia, alguém deixe de cruzar na sua frente sem dar sinal. Então, utilize essa oportunidade para ficar de mal com a vida! Faça mais: persiga-o e dê o troco. Caso tenha acontecido por mera distração, você aproveitará para fazer com que os dois sigam infelizes, num processo contínuo e crescente de frustração coletiva. O errado é esperar pelas colisões para morrer de raiva: para o bem de todos – ugh! – elas não acontecem com tanta frequência assim.

Família e infelicidade podem ser parceiros. Comece culpando seus pais por tudo o que tenha dado de errado em sua vida. Mas não fique por aí: diga isso para eles tão logo surja a primeira oportunidade. Além de lhes causar grande tristeza, você será brindado com doses elevadas de desgosto para gerir – muitas vezes tão escondidas que nem cinco anos de análise serão capazes de desvendar. É quando vem o melhor: ao descobrir que os pais fizeram das tripas coração para deixar você contente, e que sua ingratidão lhes consumiu os últimos dias de saúde, a infelicidade será sua companhia diária para o resto da existência!

No casamento, ser infeliz é mais fácil do que parece. A união de dois estranhos, somente propiciada pela cegueira da paixão, promete muitos anos de abatimento. Para tanto, use a intimidade que só a aliança carnal permite com o objetivo de conhecer os pontos frágeis do outro, guardando tudo em um paiol de mágoas. Desde a primeira crise, atire sua munição sem dó nem piedade, provocando o movimento igual em sentido contrário. Assim, ambos terão para si muitos ressentimentos na memória, reciprocidade ideal para fazer crescer a conta bancária dos advogados. E o mau humor será a viva herança deixada para os filhos.

Mas não se engane: se o que foi dito até agora induz a pensar que precisamos dos outros para alcançar o fundo do poço, saiba que não. Não, mesmo! A maior infelicidade está contida na solidão. Explico. Ao fazer de tudo para afastar quem lhe deseja o bem – pais, filhos, cônjuge, amigos, colegas –, e tendo o isolamento como consequência, a infelicidade estará mais do que garantida: será só e plenamente sua, sem que precise dividir com mais ninguém! Não é o máximo?

Agora, se com isso tudo você ainda teima em ficar contente com a vida, aí fica difícil de eu ajudar. Daqui a pouco irá até imaginar que se pode ser feliz com mínima dose de paciência, dignidade, carinho e respeito, e que tudo mais chega ao natural. Olha que horror: já posso ver um leve sorriso nascendo em seu rosto...


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26.10.11

Convite especial

Convido os leitores do Rufar dos Tambores para prestigiarem o lançamento da antologia
Santa Sede - crônicas de botequim, Safra 2011.
Um trabalho maravilhoso que tenho o prazer e a honra de conduzir,
revelando grandes talentos no gênero.


Dia 06/11, 18h, no Memorial do RS, Térreo
durante a 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

Dia 09/11, 19h30, no Boteco Matita Perê,
Rua João Alfredo, 626, Cidade Baixa, Porto Alegre
(local onde desenvolvemos o trabalho)


21.10.11

Verdadeiro ou falso?

Número 444

Rubem Penz

(  ) 1. Os organizadores de provas olímpicas decidiram modificar a cerimônia de premiação: agora, desde o momento que o atleta passa para as oitavas de final, cumprirá uma cerimônia completa com direito a pódio, hinos, medalhas, louros, festa e fotos. Sabe como é – se ele desistir de competir na próxima prova, não perderá a oportunidade de ser homenageado. Depois, ao galgar as quartas de final, tudo se repetirá. E outra vez na semifinal. Por fim, na final.

(  ) 2. Os pais decidiram modificar as comemorações de bodas para seus filhos: quando anunciarem namoro, será preparada uma festa de gala para toda a família e amigos. A menina entrará na Igreja vestida de branco, o menino esperará no altar com fraque e alguns colegas de aula estarão ao lado cumprindo o papel de padrinhos e madrinhas. Um padre abençoará o namoro. Sabe como é – se eles desistirem um do outro, já terão um álbum completo para recordação. Caso resolvam noivar, tudo se repete. No casamento, outra vez: igualzinho.

(  ) 3. O cerimonial da República decidiu mudar as regras de posse da Presidência: quando o partido decidir pelo candidato nas prévias, ele já subirá a rampa do Planalto acompanhado do cônjuge e da comitiva. Lá, receberá a faixa do titular e poderá proferir o seu discurso. Se chegar a desistir do pleito, terá o gostinho de uma tomada de posse para recordação. Caso avance para o segundo turno das eleições, tudo se repete. Vencendo, igual.

(  ) 4. Muitas escolas de classe média, média alta e alta decidiram turbinar as regras das formaturas: agora, ao cabo do Ensino Fundamental, impõem aos pais o custeio de uma cerimônia de colação de grau quase idêntica ao Ensino Superior. Azar que todos se encontrarão logo depois das férias no Ensino Médio, quando há planos de outra formatura – ou alguém supõe que essas crianças vão interromper os estudos aos 14 anos?

Respostas: 1 F; 2 F; 3 F; 4 V

Sim, a primeira questão é falsa. As regras seguem inalteradas: para merecer o pódio, todo atleta deve cumprir as etapas classificatórias e, mesmo na final, estar entre os três melhores para ser festejado. Claro que chegar até uma Olimpíada é um grande mérito. Mas nem todos alcançam os máximos louros.

A segunda questão também é falsa. Véu e grinalda ficam reservados para as noivas de verdade. O menino simpático que está namorando sua filha merece acolhimento e atenção. A rica menina que encantou seu filho fica ainda mais querida frequentando sua casa. Mas, nem por isso se deve convencer o padre a fazer uma cerimônia antes da hora.

A terceira, igualmente, é falsa como uma nota de R$3,00. Ao vencer as prévias, o candidato festeja. Se passar para o segundo turno das eleições, festeja mais (e começa a articular aquilo que se convencionou chamar de "alianças políticas", intenções tão límpidas na nascente, quanto poluídas na foz). Só mesmo ao ser eleito subirá a rampa do Palácio da Alvorada.

Por mais estranho que pareça, a quarta questão é verdadeira. Já passei por isso e escuto queixas de pais cujos filhos terminam agora o Ensino Fundamental. Na época, fui voto vencido quando propus apenas uma festa – o que realmente interessa para a meninada. Soube que, agora, chegaram a hostilizar famílias que decidiram não compactuar com a cerimônia despropositada e desproporcional.

Devemos estar errados: vou lançar a ideia de pódio para todo competidor, chuva de arroz na escadaria da Catedral para namorados, faixa e juramento para os candidatos à Presidência. Vai pegar: ninguém mais parece capaz de contrariar absurdos.


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14.10.11

Meu álbum de carinhos

Número 443
Rubem Penz
Cresci em um lar amoroso. Sou grato ao destino por isso, e seria injusto ter queixas de minha infância. Havia um zelo extremado para que nós, crianças, crescêssemos pessoas educadas, responsáveis, ordeiras e solidárias. Cristãos no sentido amplo do termo, homens e mulheres capazes de exercer plena cidadania. Entre os óbvios beijos, abraços e palavras de incentivo, havia outras demonstrações de afeto, ou comprovações de proximidade, nem sempre fáceis de ser compreendidas. Abaixo, alguns exemplos:
Sorteio de tapa – Quando estávamos impossíveis, nos batendo, implicando, bagunçando (ou tudo isso ao mesmo tempo) no banco de trás do Opala da família, depois do quinto pedido para que parássemos e a ponto causarmos um acidente por prejudicar a atenção do motorista, o pai praticava aquilo que chamávamos "sorteio de tapa": sua mão voava para nossa direção sem que ele tirasse os olhos da estrada. Em quem pegasse o safanão, ou onde, não importava muito – estaria bem dado. Funcionava como uma mágica. Certamente preveniu muitos acidentes de trânsito.
Puxão de orelhas – Forma extremamente persuasiva de conduzir uma criança daqui para ali, fazendo com que o foco de sua atenção esteja voltado apenas para a obediência. Nenhuma bailarina do Municipal apresentou tanta leveza para andar na ponta dos pés quanto eu, logo depois de estourar a paciência da minha mãe. Também era uma lição perfeita e acabada da relação entre causa e efeito, cuja aplicação acontecia sempre por minha causa e, em mim, surtia efeito imediato. Rapidamente descobri nas feições da mãe a indicação de que desejava me aplicar novos puxões de orelha, e eles nem precisavam mais acontecer para eu atendê-la.
Beliscões – Recurso predileto de minhas irmãs para convencer-me de que estava lhes causando algum incômodo, com uma obviedade epidérmica. Contra sua aplicação, estava a necessidade de elas estarem próximas o suficiente para aplicá-los – algo que eu evitava de modo diligente. A favor, uma rara discrição: tapas e socos são espalhafatosos e barulhentos; mordidas costumam deixar marcas (assim como os arranhões), e puxões de cabelo funcionam melhor entre meninas, graças à fartura de material. Tinha o beliscão grosso (espremendo muita pele entre os dedos) e o fininho (aplicado com as unhas).
Caneladas – Espingardas de chumbo, canivetes e botas ortopédicas. Essas três armas perigosas povoaram minha infância e estão em desuso. As primeiras por consciência pedagógica. A terceira, substituída por palmilhas adaptadas aos calçados normais. Eu tinha uma espingarda e uma coleção de canivetes, mas não usava contra seres humanos. Porém, as botas ortopédicas do caçula deixaram minhas canelas roxas. De tanto praticar o chute na busca de resolver a seu favor nossas diferenças, ele se tornou o único craque de futebol da família.
Óbvio que eu também submeti meus irmãos às minhas manifestações de carinho – em meio a tanto amor, até voaram objetos. E acomodo essas trocas de afeto nas páginas mais importantes da memória: sem nos gostarmos, sem união verdadeira, na certa guardaríamos mágoas de alguns episódios. Quando escuto testemunhos de pessoas que jamais bateram ou apanharam dos irmãos, ou de filhos cujos pais nunca levantaram a mão para castigar, acho muito bacana. Impressionante, mesmo! Porém, perdoem-me alguns teóricos: meu álbum está mais completo.

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7.10.11

Não é, Noé?

Número 442
Rubem Penz
A extensa planilha Excel de Noé contabilizava as últimas formigas, carrapatos, pulgas e – perigo! – cupins. Tinha fé de que os ácaros haviam embarcado nos pelegos que acomodariam os bichos para dormirem com mais conforto. O barco, robusto e colossal, equilibrava-se nas estacas sobre o solo seco. No ar, junto com a poeira que subia nos redemoinhos da pré-tempestade, pairavam dúvidas sobre a origem e o preço da madeira utilizada. O sábio homem à porta da embarcação desligou o laptop, armou-se do cajado e bradou:
– Superfaturado, mas bem no prazo! Que as águas purifiquem a alma dos outros!
A parede de chumbo sobre o horizonte havia transformado aquela manhã em um quadro impressionista. Trovões percutiam a ira de Deus. Raios cruzavam os céus, ameaçadores. Eis que surge na clareira que abrigava a Arca a figura esguia de Suelen, eriçando os pelos do braço da esposa de Noé, ainda em terra. Segura como uma Gisele Bünchen sobre a passarela, a moça cruza na frente da família. Sobe a rampa tão elegante quanto resoluta – nem FHC, nem Lula, Collor ou Dilma o fariam com tamanha propriedade. E, atrás dela, fecha-se a porta.
E o Homem escolhido pelo Criador para salvar o mundo do pecado toma seu posto na proa, altivo e orgulhoso, de mãos dadas com a viçosa mocinha. A esposa, atônita, grita lá de baixo:
– Noé, que fazeis aí em cima com essa sirigaita?
– Partirei com as águas! Essa é a Arca que preservará as espécies, contendo casais aptos à reprodução, como Deus mandou!
– Tendes ideia do tamanho do pecado que cometeis ao deixar vossa esposa e vossos filhos para trás? Esperais a clemência Divina, herdeiro de uma quadrúpede manca?
– Não temais por mim, fiel e valorosa mulher! Vi uma brecha na lei: tecnicamente, já sou viúvo, é uma questão de minutos. Desposarei Suelen enquanto navegamos guiados pela mão do destino.
Ventava muito naquela altura do campeonato, deixando o diálogo cada vez mais difícil. As últimas palavras de Noé para sua esposa foram algo como vou entrar antes de a chuva estragar a escova progressiva de Suelen, ou coisa assim. A preterida seguiu gritando impropérios até a água lhe cobrir queixo, silenciando-a em borbulhas. Enquanto isso, o velho planejava o Cruzeiro com a nova companheira, iluminados por castiçais e bebericando Romanée-Conti.
***
– Pai, a vovó já me contou essa história, e ela não é assim.
– Quem nos garante, hein? Quem nos garante?
– Noé sobe na Arca com a família dele, pai. Não inventa. Nem tem nada de superfaturamento, ou Suelen, ou brecha na lei...
– Infelizmente tem, meu filho. Sempre... Vou apagar a luz. Durma com os anjos.

***
– Romualdo, precisamos combinar umas coisinhas...
– O que foi agora, Beatriz?
– Você fica proibido de assistir o noticiário antes de colocar o Júnior pra dormir, ok?

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30.9.11

Solidão

Número 441

Todo inferno está contido nesta única palavra: solidão.

Victor Hugo

Rubem Penz

A solidão me aflige. Mirando-a em busca de sentido (teria?), notei um detalhe: a palavra solidão pode ser o superlativo de sólido. Algo como exageradamente sólido, impenetrável, duríssimo. Para quem procurava pistas, nascia um bom começo. Fui ao dicionário.

Sólido é tudo aquilo que não é cavo ou vazio por dentro. Solidão, por sua vez, prometeria ser o absolutamente preenchido. E não é que pessoas solitárias se vangloriam de serem, no duro, muito independentes! Se bastam, habitam com conforto e alívio o mundo interior, cheio de si. Ah, nesse sentido, não sou nem um pouco sólido... Estou mais para oco. Cabeça oca, coração oco, cheio de espaços para acomodar companhias e novidades. Talvez esteja aí a resposta para minha tristeza quando estou só.

Sólido é o mesmo que coeso, que rígido ou resistente. Logo, solidão seria o super firme, indestrutível. Veja: optar pela solidão é ou não é criar em torno de si um casco, uma fortaleza? Mas, refutando os ataques às suas posições, o sólido (o só) acaba por reprimir, também, aproximações amistosas. Também costuma estar fechado aquele que desconfia de todos. Na contramão, encontramos os se dispõem a negociar, abrir mão, duvidar de si. Conviver, infelizmente, é fragilizar-se.

Sólido é o incontestável e digno de confiança. Solidão, pelo exagero superlativo, seria possuir a sabedoria eterna, imutável e merecedora de plena fé. Bem isso: está sempre solitário o homem que aprisiona a razão, tomando-a apenas para si. Mesmo que não busque o isolamento como um propósito, nele chega por falta de parceiros, pois ninguém suporta quem jamais dá o braço a torcer ou admite o erro. Uma coisa é merecer fé, outra é assumir-se dogma.

Sólida é a substância bem definida. Ato contínuo, solidão deveria ser o conteúdo mais exato. Para quê buscar o outro, se estou bem acabado, pronto, determinado? No fim, sempre há solidão – no mínimo, na hora da morte. Precisamos de companhia apenas durante a caminhada. O solitário já fez suas escolhas e está satisfeito. É feliz assim. Quem está em dúvida, inseguro ou perdido, nunca deseja a solidão.

Na geometria, o sólido encontra-se fechado, delimitado nas três dimensões. Bom exemplo de solidão seria o paralelepípedo, a impenetrável rocha que sequer nos deixa arestas para duvidar de seu estado definitivo. Ele é reto nos ângulos e na vida. O perigo de estar com alguém é quebrar-se em cacos para, depois, reconstituir-se colando os fragmentos. Amando, convivendo, aberto para relações, o homem expõe suas falhas. O solitário não corre esse risco. Limite, isso é com ele.

Por essas e por outras que não me sinto sólido e, também por isso, sofro ao me flagrar só. Falta-me conteúdo, resistência, exatidão. Duvido tanto de mim, que jamais espero que outros depositem fé. Vivo para criar, e criação é ausência de certezas, limites ou dogmas. A solidão é meu inferno, mesmo que no paraíso das companhias haja muita desilusão e dor. Ainda assim, escolho o convívio – tenho, com ele, lucro líquido e etérea esperança.


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23.9.11

Pode começar a se deprimir, quando...

Número 440

Rubem Penz

Livros, sites, artigos e palestras de autoajuda prometem uma vida melhor, mais feliz e realizada para todos. Aproveitando a onda, vou dedicar umas linhas para aqueles que curtem uma depressãozinha. Gostam de sofrer. Existe isso! Não deve ser o seu caso, claro. Mas valem as dicas, para quando mudar de ideia:

Pode começar a se deprimir, quando... Todos os seus amigos, colegas de trabalho e parentes se queixam por receberem milhares de spams, mas nem essas mensagens chegam a seu endereço eletrônico.

Pode começar a se deprimir, quando... O cartão de aniversário que você ganhou no escritório está com outro nome escrito por baixo do seu, e nem tiveram a decência de apagar direito.

Pode começar a se deprimir, quando... O flanelinha vem correndo em sua direção gritando "bem cuidado, aí!" e, enquanto você sorri oferecendo a moeda, ele passa direto, mirando outro carro, reluzente.

Pode começar a se deprimir, quando... Diante da árvore de Natal, o único para quem não havia presentes é você. E, ao reparar nisso, tardiamente, sua mãe diz que esqueceu lá no armário. Porém, vai buscar levando um pacote vazio, que volta com um par de meias do seu falecido pai.

Pode começar a se deprimir, quando... A menina do bufê no qual você almoça há cinco anos sabe o nome de todos, identificando a comanda antes mesmo de falarem. Menos a sua.

Pode começar a se deprimir, quando... No sorteio do amigo secreto, um colega olha para você, coça a cabeça e pede para fazerem tudo de novo, alegando que tirou a si mesmo. E o nome dele está no seu papelzinho.

Pode começar a se deprimir, quando... A melhor coisa que aconteceu para você durante o ano foi ultrapassar o número de pontos na carteira de motorista, permitindo-lhe fazer o curso de reciclagem e conhecer novas pessoas.

Pode começar a se deprimir, quando... Na assembléia de condomínio, houver 30 minutos de desesperado empurra-empurra entre os vizinhos para saber quem aceita ser o novo síndico, logo depois de você ter lançado o seu nome.

Pode começar a se deprimir, quando... Aquela creche que você nem sabe se existe mesmo, ou se é golpe, passa a ligar pedindo que você suspenda o depósito bancário, pois não consta mais no cadastro de colaboradores.

Pode começar a se deprimir, quando... No cartão de dia dos pais, seu filho lhe desenha com uma raquete nas mãos. E quem, na verdade, joga tênis é o cara que começou a namorar de sua ex-mulher há pouco mais de uma semana.

Pode começar a se deprimir, quando... Em casa, apenas o seu cão demonstra algum contentamento em ver você. Mesmo assim, exclusivamente nas horas das refeições e de passear.

Pode começar a se deprimir, quando... Ninguém ri de suas melhores piadas, ao mesmo tempo em que se dobram em gargalhadas quando você está tentando falar sério.

Pode começar a se deprimir, quando... Todos os amigos de sua esposa vão aturdidos visitá-la na maternidade e, vendo que o nenê se parece com muito você, dizem, com alívio, "nossa, ainda bem!".

Pode começar a se deprimir, de verdade, quando... Todos acharem essa crônica exagerada e cheia de hipóteses improváveis, mas, mudando um detalhe aqui e outro ali, ela é a história de sua vida.


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15.9.11

Perguntas que já contêm respostas

Número 439
Rubem Penz
Há perguntas com respostas embutidas, ocultas, tácitas. Nem precisariam ser feitas, mas fazemos. Algumas são clássicas. Outras, denunciadoras. No fundo, servem apenas para nos conformarmos. Ou, quando o estratagema cola, para tirar o corpo fora. Senão, vejamos:
Eu preciso mesmo ir?
Está na cara que precisa. Quem pergunta sabe muito bem disso. Eis a razão de perguntar. Porém, o que está sendo sonegado é: eu não quero ir. Se o interlocutor diz sim, você vai obrigado. Caso a resposta seja não, fica (sem culpa).
Tem que ser agora?
Súplica típica dos homens. Acontece no calor da hora, colada no prazo ou mesmo em seu prejuízo. Quase sempre é respondida (por elas) com ironia: não, quem sabe demora mais dois anos...
Posso deixar assim?
Podendo, não seria preciso nem perguntar. Deixava e pronto, sem dar ou pedir permissão. Tentativa inútil. Ou, claro, a intenção é que outro deixe diferente – do jeito que deveria ficar.
Vai dar problema?
Claro! Você sabe que vai. Se não der, foi por pura sorte. É a voz da sua consciência gritando o alerta: assim, vai dar problema. Você pergunta para terceiros apenas para ter uma segunda opinião.
De quem é a vez?
Digamos que tenha uma mesa de cartas. Todos concentrados. Quando, de repente, alguém pergunta: de quem é a vez? Óbvio: é de quem perguntou!
Você quer, mesmo? (Às vezes, junto com: tem que ser agora?)
Típica feminina. O outro não aguenta mais de tanto querer. Esteve disposto a qualquer negócio para ser atendido. E vem o último pedido de confirmação. Não precisava. É crueldade.
É comigo?
Todos estão olhando para você. Não há mais ninguém por perto. Já foi a vez de todo mundo. Seria com quem mais? Então, por que razão perguntar?
Vai doer?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai demorar?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai ser caro?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vou me arrepender?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai durar?
Não. Claro que não.

***

Aperitivo Santa Sede – introdução à crônica Leve e descontraída como o próprio gênero, é a oficina ideal para quem deseja abrir o apetite literário. Começa dia 03/10 e as vagas são limitadas! Inscrições e detalhes: rubempenz@gmail.com ou (51) 9123.5540.

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9.9.11

Primeiros passos na crônica

Aperitivo Santa Sede - introdução à crônica

 Estão abertas até o dia 30 de setembro as inscrições para a oficina Aperitivo Santa Sede – introdução à crônica, ministrada pelo escritor e músico Rubem Penz. Serão oito encontros, às segundas-feiras, das 20h até às 22h, oferecidos para os apreciadores, leigos ou não, exercitarem os encantos do gênero.
A proposta segue os moldes da oficina Santa Sede – crônicas de botequim, realizada à mesa de um bar, buscando reproduzir um dos aspectos essências do estilo: a conversa fácil e descontraída. Nesta edição, os encontros acontecem no bar Apolinário. As vagas são limitadas.

O que: Aperitivo Santa Sede – oficina de introdução à crônica
Quando: de 03/10 até 28/11/2011, segundas-feiras, das 20h até às 22h
Onde: Apolinário, Rua José do Patrocínio, 527, Cidade Baixa, Porto Alegre
Informações e inscrições: rubempenz@gmail.com ou pelo fone (51) 9123.5540

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Onde você estava em 11 de setembro?

Número 438

Rubem Penz

"Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais."

Clarice Lispector

Em 11 de setembro de 2001, se por acaso você estava no escritório, tomado por projetos urgentíssimos, vitais, certamente parou de trabalhar no exato instante em que alguém trouxe a notícia: Uma aeronave entrou no alto do World Trade Center. Vejam isso! Vejam isso! E, bem quando pensava em recomeçar as tarefas, houve o choque do segundo avião.

Nas salas de aula, a notícia não tardou. E os professores de história sentiram todo o peso da História. Os de física e matemática puderam calcular a envergadura do fato. Aos professores de línguas faltaram palavras. Os mestres da geografia mediram as consequências, enquanto os de educação física acusaram o golpe. Até hoje, professores de religião, os bons, tentam descobrir como seguraram suas lágrimas.

Em casa, atrasou o almoço. Onde andaria a fome? Os enfermos, hospitalizados ou sofrendo, descobriram-se acompanhados pelo mundo inteiro. As contrações das gestantes estiveram intercaladas com presságios. Queimaram pães pelos fornos do planeta, desandou a maionese. O delírio dos malucos aparentou lucidez. Engarrafamentos foram relativizados, ligamos aos nossos filhos, ligamos aos pais.

Sim, se você estava no carro, ouvindo rádio, diga: conseguiu resistir sem chamar para casa para saber se assistiam o noticiário da TV? Ou, no mínimo, para descobrir se o que diziam era verdade, mesmo? E, chegando a qualquer destino fosse, havia outro assunto senão o ataque às Torres Gêmeas?

As pessoas que circulavam em supermercados ou no shopping durante muitas horas, absortas entre compras necessárias e consultas supérfluas, tinham o rosto sereno como um domingo de sol no parque da infância. Em poucos minutos, o semblante refletiria o tão grande choque. Rasgara-se a terça-feira ao meio.

Eu? Estava em uma loja, comprando material de construção para a casa que hoje habito. Como todos os que não viveram as Guerras Mundiais, custei um pouco a crer na hipótese de ser eu, assim minúsculo, testemunha de algo para ser rememorado por uma quantidade incerta de anos, em todos os países. Caíra o Muro de Berlim fazia pouco tempo, dando-me a experiência de acompanhar a História acontecer nos telejornais da noite. Porém, ao vivo, no instante já, fui pego sem reação. Quando os prédios ruíram, esqueci de mim. E, até hoje, tento compreender aqueles que, de alguma forma, pareciam comemorar.

E você, onde estava? Sei que sabe.

 


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2.9.11

Bil ibagens

Número 437

Rubem Penz

Geada vestiu de noiva

Os galhos da pitangueira

Coronel & Vasconcelos

Adoro rádio. Escuto sempre que posso. E de tudo: notícias, música, entrevistas, esporte etc. Pulo para cá e para lá nas estações, seja no carro, seja em casa ou numa caminhada. Antes, quando era redator publicitário full time, para me ver feliz, bastava pousar em minha mesa o pedido de criação de um spot (comercial de rádio). Melhorava se podia acompanhar e dirigir a produção. Minha ligação com a música eleva o som para um patamar superior. Aceitando que existem imagens que valem mais do que mil palavras, considero que sons podem, por sua vez, valer mais do que mil imagens.

Esta é a função dos redatores, locutores, sonoplastas, compositores e músicos: inventar um mundo que dispense a visão, aparentemente nosso principal sentido, substituindo formas e cores pela imaginação. Bem narrar um jogo de futebol, por exemplo, é uma arte: equilibrar informações com emoção, levando o ausente para dentro do estádio. O repórter de campo cumpre a função de reprise por outro ângulo, e o comentarista completa a paisagem. Outro detalhe que jamais pode faltar nesse caso é a ambiência: torcida (Ohhhhh!), apito do árbitro, ruídos do contato dos pés com a bola, bronca do treinador. Isso só existe no rádio: na TV, há um excesso de informações visuais que enfraquecem a narrativa. Ou, por vezes, acabam por traí-la. Pode ficar bem chato.

Outro caso emblemático é o do correspondente de guerra. A escolha das palavras, as pausas, a gravidade ou a urgência transformam nosso estado de espírito. Muito mais do que na TV, o enunciado de notícias de rádio vindas do front é refém do talento do jornalista, de sua habilidade e carisma. Aqui vale a lembrança de Orson Welles, que levou os norte-americanos ao pânico transmitindo, com acento jornalístico, uma adaptação de A guerra dos mundos, obra de Herbert George Wells. Os ouvintes creditaram que nosso planeta estava sendo invadido por extraterrestres sem que um único mosquito mais suspeito fosse visto. Os ouvidos são um dos melhores atalhos para a fé.

Em se tratando de Rio Grande do Sul, especificamente agosto gaúcho, tão mais útil do que botar o nariz para fora da janela pela manhã, é escutar a previsão do tempo. Não que o inverno dispense os sons naturais: vento cortante, chuva impiedosa, granizo saltitante, silente geada. Às seis horas da manhã, perto de zero grau, nem cachorro se aventura a latir. Precisa setembro avançar – bem vindo! – para os sabiás anunciarem o relaxamento climático. Assim como já me disseram que paulistas odeiam o enunciado Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul associado ao termo frente fria, nos arrepiamos só de ouvir falar em Argentina e Uruguai. E os meteorologistas adoram citar o Prata.

Se o papo de rádio, sonoplastia e inverno parece não fazer muito sentido, explico a razão de ser dessa crônica. Uma das rádios pelas quais zapeio nas manhãs apresenta o boletim do tempo dito por uma experiente profissional cujo sobrenome é Valente. Algo que, por si, já é piada pronta ou, no caso, nome que condiciona o destino (como tanto gostava o saudoso Moacyr Scliar). Todavia, não basta. O que realmente impressiona é que ela parece estar constantemente gripada!

Escutar que dificilbente a demperadura alcançará os guinze graus, e uba bassa de ar bolar avança da Argendina vale mais do que mil imagens. Sem dúvida, contamina o texto de verdade! Outro dia, até uma tossida fez parte do noticiário. Valentes, também somos nós, que deixamos as cobertas para encarar o Vento Minuano!

 


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26.8.11

Último recurso

Número 436
Rubem Penz
Per saecula saeculorum, promovemos esforços civilizatórios. Nada contra a natureza – tudo a favor da humanidade. Desde os primeiros dias de vida, busca-se domar o animal e impor o predomínio da razão, o controle sobre os instintos, a polidez. Do polegar opositor, passando pela possessão do fogo, pela invenção da roda, pelo uso transistor, até desembocar na capacidade do chip (para citar saltos gigantes), todo o ânimo tecnológico foi acompanhado, necessariamente, pela mediação da ética. Mas a fera segue ali, oculta. Quando tudo é em vão, ela é nosso o último recurso.
Das teses para a realidade, a notícia saiu em todos os jornais: médica equipa o muro de sua residência com seringas supostamente infectadas com o vírus HIV. Como pode? – pergunta a sociedade, perplexa. Quem esperaria essa atitude dos que pertencem à elite da civilização, com nível escolar superior, condição social elevada, carreira dedicada à ciência em uma de suas faces mais nobres? O que faria a pessoa com tais qualidades agir com tamanha abominação? Pois ela não age – reage. Ela teme. E nem é ela: é a fera.
Toda vítima, quando encurralada pelo predador, tem duas escolhas: morte, ou morte com luta. Na segunda opção, há um fio de esperança. O combate, mesmo desigual, segue os desígnios da incerteza, podendo reservar um desfecho surpreendente. Quem sabe disso não é a razão, especialista em avaliações de risco. É o instinto. É a fera. É o desespero, o descontrole. Ninguém pode simplesmente condenar a vítima quando, inferiorizada, revida de modo extremo. À vida, nos agarramos com unhas e dentes – e facas e revólveres e seringas.
Ao falharem os poderes instituídos pela civilização (governo, justiça, polícia), permitindo que vivamos encurralados por grades, acuados e dominados pelo medo, a fera desperta. A incapacidade de socializar uma minoria – covarde, violenta, brutal – nivela todos por baixo. O Sedex em nossa porta pode ser um assaltante; o funcionário da telefônica, da luz, da água, da farmácia, também. A ordem é: desconfie de quem passa por você na rua, de quem pede as horas, de quem está ao seu lado no banco, de quem conversa contigo na internet. Dá-lhe muros e cadeados! Viva na selva: ao menor ruído, corra que é um tigre! Não confie em mais ninguém.
Em pleno século 21 não deveria mais ser assim. Entre os homens, bastaria uma porta fechada indicando o limite, como ocorre quando nos resguardamos dos animais. Aos pares, educação, boas oportunidades, decência, irmandade. Aos poderosos, responsabilidade, limites, compensações (impostos), solidariedade. Aos doentes, tratamento. Aos miseráveis, caridade. Aos aflitos, consolo. Aos criminosos, sanções. Aos honestos, liberdade. Listando assim, parece até fácil. Como explicar, então, a paranóia de uma cidadã jogada às suas próprias feras, o último recurso? A ponta das agulhas é apenas a parte visível do iceberg.

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19.8.11

Fundo perdido

Número 435
Rubem Penz
Levou os meus planos, meus pobres enganos
Os meus vinte anos, o meu coração
                                                                                               Chico Buarque

"Entreguei-lhe os melhores anos de minha vida". Eis uma frase clássica, dita e repetida por mulheres ao longo da história de muitos relacionamentos, bem no momento em que eles chegam ao fim. Uma cobrança, sem dúvida. Porém, com um agravante: tal dívida jamais poderá ser saldada. Nem amortizada, nem perdoada, nem convertida. Estamos falando de tempo – aquilo que não retorna jamais. Daí sua trágica contundência.


Bom, uma das estratégias masculinas para escapar dessa cobrança é negar a dívida: "Foi uma troca – os meus pelos seus. E você entregou por iniciativa própria, por conta e no risco". Já adianto que nem sempre funciona, mesmo que obedeça a uma lógica irretocável. A questão é que elas sempre acham que valem mais, doam-se mais, abdicam mais. Taco a taco só existiria em uma relação homossexual – perdoem o chiste.


Outra maneira de sentir-se desonerado é a de (tentar) reverter o quadro: "Se ao meu lado aconteceram os melhores anos de sua vida, então sou credor". E agora? Quem recebeu de quem? Quem deu o quê? Estando tão bom, não há nada a ser cobrado. Ao contrário, a mulher deveria agradecer: "Obrigada pelos melhores anos de minha vida". Por nada, por nada – diria o ex – foi um prazer e uma honra ser o responsável por sua felicidade. Para, depois, esperar pelo vaso que viria voando na direção da cabeça.


(Já sei: estou me afundando. Tentarei o resgate.)


Pena que, na vida, a coisa não seja assim tão simples. Quando elas nos dizem que entregaram os melhores anos da vida delas, estão dizendo que foram os melhores anos de nossas vidas. E foram. Nada supera o tempo passado ao lado de quem está apaixonado por você, acarinhando, mimando, estimulando. Na paixão, alcançamos o ápice do amor próprio: desejamos quem também nos deseja. Ser querido é o aditivo mais poderoso do universo. Supera o álcool, as drogas, a adrenalina. Supera tudo. É tão bom que vale o sacrifício.


Mas, supondo que houve paixão dos dois lados, o que transformaria ambos em credores, por qual motivo as mulheres tanto se queixam dos tais "melhores anos" que lhes parecem sonegados? A resposta está na palavra juventude. A lisura da pele e a firmeza das carnes são ativos de grande prestígio entre as fêmeas. Isso desde a época dos contos de fadas, ou das cavernas, até hoje (o cirurgião plástico agradece). Basta lembrar o pesadelo da Rainha Má diante da fresca Branca de Neve – é o espelho quem acusa o declínio de sua jovialidade, não o rei, que até morrera.


Por isso, a masculina tábua de salvação é apelar ao Chico, unanimidade entre as mulheres, para encontrar a resposta final ao dilema. Na música A Rita, ele reproduz a mesmíssima queixa: o rapaz lamenta a perda dos vinte anos, dos planos, dos pobres enganos e do coração. Os durões não admitem, mas sofremos lupicínios ao ter o coração partido. Assim, caro homem, quando ela o acusar de ter investido mal a juventude em sua carteira de ações, revide na mesma moeda: diga que suas aplicações também se depreciaram no fundo (perdido) do poço. E que, pior, bem pior, lhe restou mudo o violão. Ou alguém duvida que sejam elas a nos inspirar?

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12.8.11

Pai: que negócio é esse?

Número 434
Rubem Penz
Pelo menos até aprovarem a clonagem humana, está prejudicada a ideia de firma individual – a forma legal que dispensa sócio para o empreendimento de uma companhia limitada. E onde se lê sócio, compreenda-se pai. Mesmo que muitas mulheres torçam o nariz, a boa norma só admite uma criança humana a partir de dois gametas com personalidade biológica próprias. Então, entre os homens disponíveis no mercado, é preciso escolher o mais adequado para tal fim.
Filho é, sim, um empreendimento. Aliás, uma iniciativa de longo, longuíssimo prazo. Contempla um enorme risco, pois nem todo o capital anímico do mundo garante seu sucesso ou do filho. Se bem que há avaliações muito variadas para o termo sucesso: ele pode ser medido em felicidade, em saúde, bondade, em riqueza, inteligência, honestidade, paz... Ser pai é um negócio para lá de complicado. E fica cada vez mais estranho na medida em que a sociedade contempla novas estruturas, diferentes daquelas do tipo empresa familiar.
Há os pais no estilo sócio minoritário. O rapaz entra com 1% e olhe lá. No fim das contas, está ali apenas para a fecundação e para constar no registro em cartório. Se o filho tiver competência para ser milionário, pode apostar que, cedo ou tarde, o papai cobrará algum dividendo. Para o caso de a criança dar prejuízos na praça, o pai minoritário alegará que jamais gerenciou a coisa e, assim, não tem qualquer culpa. Porém, o que mais ocorre é a vida simples, cotidiana. Desta, o sócio minoritário auferirá em carinho a contrapartida na ínfima participação.
Vivemos uma época de pais no estilo associado. Neste caso, o filho não é biológico, origina-se de capital externo. Mesmo quando o enteado lhe chama de papai, sabe que é fruto de um ex-sócio. Pode ter sido um sócio minoritário ou, bem ao contrário, ter entrado com valores elevados de expectativa no momento da fundação, quero dizer, fecundação. Mas, por motivos variados, acabou em outro ramo. Quando vai tudo bem, a criança sai ganhando: dois pais ao invés de um. Em outros casos, pode surgir uma certa concorrência, por vezes desleal.
Há pais majoritários. Ora por viuvez, ora por terem ganhado a guarda na separação, ora por pura vocação em ocupar todos os espaços dentro de casa, os majoritários são por vezes confundidos com mães. Isso não quer dizer que sejam afeminados. Na verdade, são masculinamente maternais. No fundo, no fundo, gostariam mesmo é de uma sociedade equânime com a parceira. Ou com o parceiro, uma vez que cresce a participação homossexual na composição societária. Agora de papel passado!
Existem bancos de esperma para as mulheres optarem pela sociedade anônima. Ali, investidores a fundo perdido colocam seu capital disponível, julgando ter riqueza capaz de fomentar novos empreendimentos com muita competência. Interessante perceber que doar esperma é ao mesmo tempo uma ação e uma omissão. É ser, em cada negócio, menos do que o sócio minoritário. E, ao mesmo tempo, nutrir o desejo de diversificar seu patrimônio enormemente.
E o lucro? Bom, em termos de dinheiro, ser pai não dá lucro algum. Ao contrário, filhos são verdadeiros canais por onde escoa a riqueza da família – segundo o último Senso, a mãe está participando como nunca na água deste rateio. Ao mesmo tempo, o abraço, o beijo, o sorriso, o amor de um filho tem valor que nenhum dinheiro no mundo compra. E quanto mais o homem se enfronha nos balanços, mais vê que esse negócio de ser pai vale muito a pena.
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5.8.11

O pecado mora ao lado

Número 433

Rubem Penz

Fez-se a luz, Adão, costela, Eva, paraíso etc. Todo mundo conhece o percurso do Homem, ou o tanto de água que rolou debaixo da parreira até dar no que deu. Mas sempre há nuances a serem exploradas por quem se dedica a investigar o insuspeitado. E não custa nada remontar a cena que alterou o rumo das coisas para, com isso, tirar lições. Do princípio:

Antes de tudo, era o caos. Algo como sexta-feira, dezenove horas, chovendo cântaros, dois acidentes envolvendo caminhões, véspera de feriadão. Saldo bancário no vermelho, ponteiro da temperatura do carro no vermelho, semáforo piscando no vermelho, um descontrolado atolando o dedo na buzina. Num momento parecido com esse, o Criador, em sua elevada benevolência, ao som de um coral de anjos e inspirado pelo mais puro sentimento, resolveu pôr ordem no galinheiro. E fez-se a luz; também surgiu a Natureza com seus vales e montanhas; oceanos, lagos, nuvens e areia brancas. Tudo pronto para o eleito: o Homem.

Logo após o sopro de vida na argila inerte, nasceu Adão, aquele que era feliz e não sabia. Vivia no que mais tarde seria convencionado chamar de CNTP (condições normais de temperatura e pressão). Clima goiano: amanhecia numa temperatura amena, esquentava um pouco no bom sol, chovia confortavelmente e, à noite, era sempre recomendável se cobrir. Sem umidade ou rinite, sem ácaros, sem roupa que nunca seca no varal ou um gole da maldita para enfrentar o vento Minuano.

Impossível ficar melhor? Eis que de sua costela nasce Eva. Ah, a mulher! Evolução da espécie, arte final para seu rascunho, companheira criada por Deus para estar sempre ao seu lado, mas que, por excelência de projeto, estaria sempre à sua frente. Movimentos de uma felina, charme de uma felina, unhas de uma felina, humor de uma felina... E memória de elefante. Adão já não mais precisava se preocupar em fazer agrados ao Criador – bastava atender Eva e seu dia estaria tomado, suas noites garantidas, o mundo em completo sentido. Deus poderia tirar suas férias em paz, afinal.

Pois, Adão e Eva, insatisfeitos com aquilo que parecia perfeito, entediados com tanta harmonia e fartos de beleza, ambicionaram o fruto proibido. E logo ali, adiante da cerca, estava a macieira do vizinho. Nela, auspiciosa, a suculenta maçã. A mulher disse vá até lá e apanhe uma para mim. O homem ponderou que poderia dar galho. Ela fez beicinho, mas ele parecia irredutível. Então, cochichando ao ouvido, Eva prometeu alguma coisa que Deus não deveria ouvir. E Adão saltou por sobre a cerca feito cão que ouviu a sineta de Pavlov. Só que o vizinho viu. E sua mulher, uma verdadeira cobra, indignada, fez queixa para o síndico do Condomínio Horizontal Paradiso.

Barraco! De um lado, Adão defendia-se com a tese de que seria um grande pecado apodrecerem as maçãs no pé sem que ninguém apanhasse. De outro, a cobra rebatendo que o casal não merecia habitar o Paradiso – deveriam ser expulsos. Eva subiu nas tamancas e disse que vizinhos intolerantes do tipo que prega regras apenas para os outros transformaram o Paradiso em um inferno. Blasfêmia: tudo o que o síndico esperava para tomar o partido da cobra. E assim, em breve resumo, fica explicado porque deu no que deu.

 


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