17.2.12

Vice-versa

Número 460

Rubem Penz

A certeza é um belo e perfumado jardim a ser cultivado com zelo e paciência. Canteiros milimétricos, harmonia de cores, poda, regador. Caminhos marcados por seixos, árvores com copas em guarda-sol, arbustos esculpidos. Formigas andando em fila indiana, abelhas serenas e delicados beija-flores. A certeza, diligente, extrai os inços. O que é muito diferente do mato fechado: habitat da dúvida. Ali, o plano é estar atento, pois a delicadeza, o fascínio, o encanto, pode surgir de onde menos se espera. É no mato que melhor vive a borboleta, cujo voo é a imagem da imprecisão. Na natureza, os escultores são o vento e a água, e o seixo habita o fundo do regato. Na floresta, inço é o homem.

A certeza é religião: templos em que a suspeita evolui para confiança, a confiança se transforma em dogma, o dogma em verdade. Ter certeza é depositar fé, e o paraíso aguarda os homens de boa fé. É crer mesmo contra as evidências, quando não a seu favor. A certeza acalma as feras, orienta ovelhas perdidas, guia por caminhos seguros. Por sua vez, a dúvida é a mola mestra da ciência. Em que outro lugar poderiam conviver diversas hipóteses, seja em conflito ou em harmonia? Em que outro lugar as perguntas são mais importantes do que as respostas – essas crivadas de novas questões? Na ciência, a suspeita evolui para a comprovação, o que dispara novas experiências.

Certeza também é técnica. Preparo, treino, antecipação. Ter para cada necessidade uma resposta pronta, um plano, uma tática. Conhecimento das variáveis e das estratégias. Fundamentos revisados e repetidos até a exaustão. Certeza é militar, uniformizada e com o paiol repleto de argumentos. A dúvida, não. Ela está mais para a guerrilha da intuição, da cisma. Ela nunca sabe, mas procura. E quem procura, acha. Dúvida é sentimento, presságio, pele que se arrepia sem motivo aparente. Ninguém está reparando quando ela chega sem aviso prévio. A dúvida jamais manda telegramas. Ela é o que ainda não está escrito.

A certeza se parece com um concerto: você em uma poltrona confortável e numerada, ingressos adquiridos com prudente antecedência. Os músicos dispostos em ordem, com estilo, seguros. Partituras diante da orquestra e do maestro. Hora para começar, acordes determinados, aplausos ao fim. Tudo o que estava descrito no programa, acontece. Com nuances, é claro. Com ardor, com alma e elevado espírito, com certeza. A dúvida é mais jazzística. Ou, para além do jazz: é jam session. É música fora do plano, músico que ascende da plateia ao palco, surpresa em cada compasso. É frio na barriga no quatro da contagem. É público hipnotizado. É abismo, velocidade, suicídio e ressurreição. Na dúvida, não ultrapasse: ande lado a lado.

Certeza e dúvida, dúvida e certeza, nenhuma é melhor do que a outra. Ou mais necessária, menos desprezível, melhor companheira. Ambas são faces de uma só moeda. Quem carrega certezas no bolso, leva consigo as dúvidas, mesmo quando se nega a olhar. Vice-versa.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



10.2.12

A rotina para além dos trilhos

Número 459

Rubem Penz

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar

Os bondes andam em cima dos trilhos
Vinícius de Moraes

Isso faz alguns anos. Encontrei o irmão mais velho de um bom amigo, daqueles solteirões convictos, e ele olhou incrédulo para a aliança em meu dedo. Ah, isso não me pega! – disse – odeio rotina. Porém, conversa vai, conversa vem, convidou-me para descobrir o que era vida boa de verdade: podia passar de quarta-feira até domingo numa determinada casa noturna que ele estaria lá, com mesmo pessoal e na mesa de sempre. Um grupo seleto e formado, creio, apenas de pessoas que odiavam a rotina.

Outro camarada, dos mais bacanas, disse-me certa vez não entender como eu conseguia permanecer tanto tempo com o mesmo carro (à época, um Uno Mille comprado quase zero e que, assim como eu, varava os anos sem mostrar desgaste algum – fim das comparações, por favor). Abrir a mesma porta, olhar para o mesmo painel e acelerar o mesmo motor era entregar-se à rotina. Ele, religiosamente, trocava de carro a cada novembro, desde que fosse da cor preta ou prata. Um mês antes da data, já estava de olho nas novidades. A única exceção era a de repetir o modelo uma só vez, noutra cor, para o caso de ter gostado muito.

Casa na praia? Isso seria o purgatório para uma amiga. Onde já se viu investir um monte de capital num imóvel? – questionou aflita. Jamais seria daquelas de cumprimentar os vizinhos de quadra (frequentá-los, então, o horror), saber o nome do salva-vidas, ter restaurante predileto, rotinas de caminhada, churrasco no domingo. Ao invés, todo ano fazia igual: escolhia um destino exótico, alugava um quarto de pousada ou apartamento e levava os livros eleitos para serem devorados nas férias.

Ao contrário do que venho dizendo, outro parceiro disse me invejar de montão. Acreditava que o verdadeiro sonho seria ser escritor ou músico, quando não os dois. Sentar ao computador cedo da manhã, dia após dia, e passar horas pensando em novas combinações de palavras. Depois, gastar o dobro deste esforço em releituras, trocando um termo aqui, acrescentando outro acolá, eternamente insatisfeito. Quando não, nos ensaios: repetindo, repetindo, repetindo para, no show, não correr o risco de esquecer o que (e como) tocar em determinado tema. Ele, pobre, cumpria uma jornada rotineira de trabalho.

E assim vamos nós: esgrimindo contra a rotina. Uns buscando outra na mesma mulher, outros a mesma em diversas. Uns reconhecendo as manias de um carro velho, outros eternamente descobrindo as variáveis de um modelo novo. Uns repetindo verões numa casa de litoral, outros alterando a mesma escolha. Uns em repetições de tarefas iguais, outros em tarefas criativas que, igualmente, se repetem.

Ao irmão mais velho do meu amigo, segundo soube, já aconteceu de se casar – virou um tardio papai. Agora sim, um bom trilho para quem odeia a rotina.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



3.2.12

Fábula da Arte, do Sucesso e do Labor

Número 458

Rubem Penz

Era uma vez a velha Arte, o menino Sucesso e o jumento Labor. Eles precisavam ir até o Vilarejo do Bom Destino, em terras altas, para bem vender o Labor. Como a jornada seria longa e exaustiva – o lugar ficava distante uma vida inteira de onde partiriam – muniram-se de muito ânimo e, antes de pegar a estrada, acordaram a melhor forma de fazê-lo: a Arte sobre o Labor, e o Sucesso ao lado, movido por suas próprias forças. Lá se foram em busca do Bom Destino.

No caminho, enquanto passava pelas pessoas, o pequeno cortejo notou que todos cochichavam entre si. Certo dia, já intrigados, os três pararam para perguntar a razão de tanto assunto. É que não entendemos a atitude de vocês, responderam. Por que deixar o rentável Sucesso de lado, quando ele é quem deveria ser movido pelo Labor? A Arte, por ser mais experiente, estaria bem por si. Desejosos do Bom Destino para negociar o Labor, eles resolveram considerar tais opiniões: se tantos falavam, haveria de ser esse o melhor arranjo. E lá se foram.

Porém, a mesma cena se repetiu – eles passando com o Sucesso sobre o Labor, a Arte deixada a pé, e o povo cochichando. Certo dia, já desconfortáveis, os três pararam para perguntar a razão de tanto assunto. É que não entendemos a atitude de vocês, responderam. Como abandonar a frondosa Arte em favor do imaturo Sucesso? Prioridade a um jovem forte, com tanto viço, é muito desrespeito!  Desejosos do Bom Destino ao Labor, eles consideraram nova mudança sem, contudo, voltar à criticada forma original. Agora, Arte, Sucesso e Labor seguiriam caminhando cada um por si. E lá se foram.

Mas a assistência continuava cochichando enquanto nossos protagonistas passavam. Certo dia, já irritados, os três pararam para perguntar a razão de tanto assunto. É que não entendemos a atitude de vocês, responderam. Quem, em sã consciência, pode frear o promissor andamento do Sucesso, ou impor à Arte tamanho sacrifício, desperdiçando a força do Labor? Confusos, ainda que desejosos do Bom Destino, eles recompuseram o grupo: Arte e Sucesso apertados por sobre o lombo do único Labor. E lá se foram.

Todavia, na primeira encruzilhada, a Arte e o Sucesso começaram a divergir: quem dos dois guiaria as rédeas do Labor pelo melhor caminho? A Arte se amparava na tradição, tentando impor uma rota ao mesmo tempo inovadora e segura. O afoito Sucesso só desejava bons atalhos. Nessas, o pobre Labor parecia andar em círculos, e muito pesavam suas pernas.

O pessoal? Continuava assuntando ao pé do ouvido, é claro. E rindo! Bem feito, diziam. Onde já se viu querer conciliar num só passo a Arte e o Sucesso para chegar ao cume, onde estará o Bom Destino para negociar o Labor? Isso é tarefa para quem nasce com personalidade, e não parece ser o caso desse trio aí, que nunca para de dar ouvidos aos outros.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



27.1.12

A noite em que choveu sapos

Número 457

Rubem Penz

Nos anos 1960, as praias em geral (e a Praia do Barco em particular) apresentavam-se às crianças como um lugar num só tempo perigoso e seguro, monótono e desafiador, familiar e estranho. Explico. Perigoso por causa dos escorpiões, cobras, aranhas, siris, corujas, gaviões, jacarés – um Animal Planet fora da tela. Seguro dos ladrões e de boa parte da violência dos homens. Monótono na medida em que não havia sequer luz elétrica, o que dirá movimento, videogame, lojas, TV a cabo... Desafiador pelo referido caráter Animal Planet. Familiar porque passávamos dois meses convivendo com as mesmas pessoas, em grande parte, parentes. Estranho pelo caráter... Você já sabe.

Ávidos por emoções fortes, desde muito pequenos estávamos instigados a explorar o ambiente. Andar sozinhos pelas dunas a procura de roedores e ninhos de quero-queros (péssimo negócio); pescar e tomar banho em pequenas lagoas; voar para telhados ou mergulhar nas fundações dos chalés; desafiar o repuxo do mar bravio e andar na escuridão da noite armados apenas de uma lanterna. Enfim, eu e minha turma (principalmente os meninos) vivíamos a procura de encrenca, frequentando justamente o habitat dos animais perigosos. Nada parecia nos assustar o suficiente, nem mesmo a história da mordida de cobra que quase matou a Verinha, filha do seu Antônio.

Nessas todas, pegar sapos com as mãos já nem poderia ser considerado um grande feito. E como tinha sapos na Praia do Barco! Ainda mais durante os verões chuvosos. Forçados pela dura concorrência de dentro dos charcos, ou atraídos pela facilidade de encontrar insetos onde havia luz, muitos deles se ofereciam para nós, dispensando a necessidade de caça. Pouca coisa era mais divertida do que mostrar um sapão para as meninas morrerem de medo e nojo. Sim, ensaiávamos a arte da sedução pelas lições mais básicas: mil e uma maneiras de irritar as mulheres!

Certa noite, um sábado de baile, eu circulava sozinho pelas voltas do Hotel Vendaval quando um sapo enorme cruzou meu caminho, obra da invisível mão do destino. Chateado por ter sido expulso das casas, onde adultos se aprontavam, e do salão do hotel, que recebia as últimas providências para a festa, aquele sapo descomunal representava uma promessa de cruel vingança. Com ele, eu sabia exatamente para onde ir: à casa da tia Lila. Lá, nada menos do que uma dezena de mulheres se aprontavam para o baile, concentradas em auxílio mútuo (não havia salões de beleza na praia).

Esgueirados pela porta dos fundos, vislumbramos, eu e o sapo, aquele mulherio alegre, tagarelando, umas mais vestidas, outras menos penteadas, ou vice e versa. Então, atirei o sapo para o centro da sala como quem faz uma cesta de chuá, lá de trás da linha dos três pontos. Atordoado pelo tombo, ou por causa do alarido, o sapo não coaxou nem saltou. Em compensação, nunca vi tanta mulher pulando ao mesmo tempo – umas para cima de cadeiras, outras sobre as mesas ou decolando para as camas dos quartos. Gritavam desesperadas pelo tio Pepino, que saiu do banho segurando a toalha na cintura, pronto para enfrentar o Armagedom. Foi o que vi, antes de sumir na escuridão, anonimato a dentro.

Domingo, tanto quanto a música ou o cardápio da festa, o sapo foi assunto obrigatório. Desejavam saber quem teria sido o pestinha que atirara aquele animal no meio da mulherada. Muitos eram os suspeitos, todos alçados a este patamar por merecimento. Mas eu não era citado – imagina só, um filho da Isolde. Desejando o justo reconhecimento, tratei de confessar o crime. Contudo, estranhei a complacência. Desde antes dos dez anos de idade, o bom mocismo me condenava (ou, no caso, absolvia). Eu e o bicho, porém, sabíamos: choveu sapo por pura maldade. Independentemente do fato de eu ser um verdadeiro anjo. Até hoje.

 

O calor que tem feito na cidade não está escrito? Aproveite essa oportunidade:

Soa Assim, o verão de Porto Alegre em crônicas, 2º turma da oficina literária intensiva em local e horário de Happy Hour.

Cinco encontros, dias 31 de março, 07, 09, 14 e 16 de fevereiro (terças e quintas-feiras), 19h, no Boteco Apolinário. Ventile suas idéias!

Informações e inscrições em rubempenz@gmail.com Excreva djá! 


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



20.1.12

Depois dela, não apareceu mais ninguém?

Número 456

Rubem Penz

Nossos ídolos ainda são os mesmos

Belchior

As proféticas palavras de Belchior, amplificadas pela interpretação inigualável de Elis Regina, ecoam forte trinta anos depois da mais triste manchete: aos 36 anos, morre a maior cantora do Brasil. De lá para cá, inverti a condição de filho (17 anos de idade) para assumir a de pai com filhos de 15 e 11. E meus ídolos ainda são os mesmos. E as aparências não enganam.

Posso afirmar sem exagero que, à época, já sabia tudo de Elis, em plena adolescência. Acompanhava sua fase mais madura de perto, decorando músicas de Nascimento & Brant, Bosco & Blanc, Jobim e tantos outros mestres. Também curtia a reverberação vinda dos anos 1960 – época dos Festivais – e a fase setentista, estudando as divisões rítmicas de um dos mais elevados períodos da música popular brasileira (MPB). Mas não quero falar das coisas que aprendi nos discos. Quero contar como vivemos, e o que aconteceu conosco durante essas décadas de ausência.

Antes, é preciso dizer que Elis Regina sempre foi uma artista de vanguarda, mesmo quando, para avançar, era preciso gravar Nelson Sargento, Adoniran, Cartola. Precoce, cantou standards internacionais na infância. Ao completar 20 anos, foi a anfitriã dos maiores expoentes da música nacional (n'O Fino da Bossa, TV Record, ao lado de Jair Rodrigues). Com parcos 28, gravou Elis & Tom, um dos mais importantes álbuns da música em todos os tempos. Midas vocal, por ela passaram nossos principais compositores, transformando obras de autores iniciantes em clássicos de modo instantâneo.

Nos anos que seguiram sua morte, a crítica batia em uma só tecla: quem seria a nova Elis Regina? Mas, a cada nova cantora, parecia que Elis cantava melhor, como bem disse Nelson Motta. Lentamente a MPB perdia espaço nos auditórios, no rádio e na TV. Também deixava de encantar os jovens, atentos ao ascendente rock nacional. A música brasileira de qualidade passou a ser um produto de exportação, assim como os melhores grãos de café. Por fim, o deslocamento de nossos sentidos da cintura escapular para a cintura pélvica terminou com as ilusões: sem apresentar uma coreografia sensual, a MPB deixou de ser atraente.

Hoje, está claro: o fenômeno Elis não se repete, ou já teria acontecido. Mas as lágrimas que vertem sempre que escuto Saudade dos aviões da Panair, para ficar numa só música, não lamentam o fim de uma Era. Lastimam a demora em mais artistas assumirem posições de vanguarda, resgatarem a MPB da bunda, devolvendo aos holofotes a arte feita com e para o cérebro. Ou mesmo para o coração. O novo sempre vem, diz Belchior. Instrumentistas magníficos com 20, 30 anos estão por aí para quem quiser ouvir. Letristas e compositores, também.

Com o advento da internet, e o enfraquecimento das grandes corporações, talvez o sinal esteja aberto para os jovens. Apresentem-se! Vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação. Elis não voltará. Mas seu exemplo não há de nos abandonar.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



13.1.12

O politicamente correto é...

Número 455

Rubem Penz

O politicamente correto é um sutiã cuja presilha não abre, exigindo desculpas por tamanha inabilidade ao invés de arrancá-lo logo e de uma vez. Politicamente correta é a comida de hospital – saúde divorciada do prazer. Politicamente correto é mãe que não deixa o filho sujar os pés, mãos ou cabelo, pois, onde já se viu? Pode ficar doente... E os outros, o que vão pensar?!

O politicamente correto é máscara de louça para o preconceito.

Politicamente correto é a censura prévia disfarçada de escudo. No fundo, bem no fundo, a pessoa fica tolhida, desconfiada, com medo de ferir os outros e, com isso, acabar ferida de volta. Politicamente correto é camisinha de força para a língua, pois só pode ser loucura chamar um negro de negro, alemão de alemão, gordo de gordo e manco de manco.

Politicamente correto é focinheira em todos os cães.

O politicamente correto é descrito nas letras em miniatura do contrato, aquelas feitas para condenar quando for vantagem para outros, desvantagem para você. Politicamente correto é sepultamento dos vivos. É a morte da malandragem, é o suicídio dos humorados, é a redenção dos covardes, é a vingança dos recalcados. O politicamente correto é uma faca cega, pois não merecemos o manejo de palavras afiadas.

O politicamente correto rebatiza os filhos para ver se ficam mais bonitos.

Politicamente correto é existir grades no paraíso. É passear em ordem unida, é contrição sem arrependimento. Politicamente correto é garantia de úlceras para o futuro, pois ninguém consegue rodar com os freios de mão puxados sem consequências.

Politicamente correto é toque de recolher.

Politicamente correto é aquele modorrento 0 X 0 que espanta o público, é coito interrompido, é manha, fita, choro sem lágrima. Politicamente correto é não poder tomar chuva, nem mesmo no verão. É aquário, gaiola e canil. É esconder o rosto achando que, assim, desaparecemos.

Politicamente correto é fumei, mas não traguei.

O politicamente correto é, dizem, uma tendência que veio para ficar. É mais civilizado. Mais cordato. Amistoso, suave, palatável. É algo que está tomando conta de tudo e formando uma geração que, agindo e reagindo assim, acreditará estar mais protegida das maldades do mundo. Eu discordo do politicamente correto e o combato enquanto nadar contra a corrente não for crime. Mais do que garantir o direito de eu mesmo ser irônico, mordaz, chulo ou ferino, defendo que meus filhos e netos sejam capazes de suportar contrariedades, provocações, desgostos, frustrações – agressões! – e se defenderem.

Politicamente correto é ministrar tranquilizante para quem deveria estar alerta.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



5.1.12

Reciclagem

Número 454
Rubem Penz
Ainda há quem se surpreenda com a alegria, com a esperança e com a generosidade dos despossuídos, em especial nessa época do ano. E considere um mistério maior do que o destino de nossas almas aquele sorriso desdentado que teima em se mostrar no rosto do morador de rua; a paz de espírito de quem habita uma encosta sujeita a deslizar, exposto à guilhotina de lama; a confiança em dias melhores daqueles que passam fome para mal alimentar seus muitos filhos, vítimas do trágico nascimento. Sem almejar a pretensão de conhecer a chave desse enigma, uma hipótese: em grande parte, quase sem querer, desperdiçamos os votos de Ano Novo. Mas eles não se perdem.
Desde meados de dezembro, ou mesmo antes, veículos de comunicação e mensagens entre amigos em redes sociais nos ofertam boas aspirações para o próximo período. Em proporção de exagero – exagero do bem, é claro –, nos é servida uma verdadeira ceia de palavras. São versos de grandes poetas, mensagens de filósofos e pensadores, conselhos de teólogos e humanistas, tiradas de humor e muitas lições de vida. Nos cálices, valiosas bênçãos. Tudo muito, muito além de nosso apetite, desejo ou capacidade de apreciar e absorver, criando um inevitável excedente.
Por outro lado, o comportamento reiteradamente hostil e egoísta de algumas pessoas deixa evidente que os votos de Ano Novo a elas dirigidos são colocados na beira da calçada mesmo antes de saírem dos pacotes. Gente sem disponibilidade ou paciência para isso – coisa de vagabundo. Tempo é dinheiro, e nada que Drummond tenha nos deixado pagará a conta do cartão de crédito. Para quem não tem o hábito de compartilhar, desejos de felicidade são bajulações, agrados medidos e interesseiros. Para os que não aprenderam a servir, o conforto alheio é tarefa a ser terceirizada. Bem-estar, paz? Estão no plano de saúde e nos muros do condomínio.
Assim, seja do que restou da fartura de nossa mesa, seja pelo descarte dos que sequer abrem mensagens de Natal, toneladas de bons fluidos se tornam disponíveis para reciclagem. A energia positiva que não fomos capazes de absorver jamais se esvai – alimenta os que, por hábito, já lambem o sorriso das celebridades nas fotos de revistas para sentir o tênue sabor do sucesso e da fama.
Votos sem dono escorrem pelo contra fluxo dos esgotos a céu aberto, subindo pelo chão de terra batida até encontrar bom destino no coração de quem valoriza cada migalha de esperança. Na medida em que embalagens de presentes de Natal serão trocadas por centavos no quilo de papelão, os desejos de Ano Novo chegarão para outros destinos, diferentes dos originais. E amenizarão aflições.
Eis a importância de espalharmos sinceros votos de saúde, felicidade e paz: para cada um que os desperdiça, existem muitos que reciclam.

Lembrete:
Soa Assim - o verão de Porto Alegre em crônicas: oficina intensiva de verão começa dia 12. Cinco encontros.  Inscreva-se ou peça detalhes em rubempenz@gmail.com É bacana!
--
Visite-me em:www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



2.1.12

Oficinas intensivas de verão



Oficina com inscrições abertas: Soa Assim – o verão de Porto Alegre em crônicas

Oficina literária intensiva em horário e ambiente de Happy Hour aborda a influência da estação mais quente na rotina da cidade. Duas oportunidades: uma em janeiro, outra em fevereiro.

Sinopse:
Afinal, o que muda em Porto Alegre durante a temporada de férias escolares? Fica melhor? Fica pior? Essas e outras questões fazem parte da oficina literária Soa Assim – o verão de Porto Alegre em crônicas, ministrada pelo escritor, músico e publicitário Rubem Penz. Para os que ficam na cidade, o convite é irresistível: 5 encontros para conhecer, aprender e praticar o gênero crônica através de exercícios criativos, tendo como tema o verão porto-alegrense. A exemplo da consagrada oficina Santa Sede, a turma se reunirá num botequim, no horário de Happy Hour, com plena permissão para o serviço de bar durante a aula.

Turmas: A oficina é viável com o número mínimo de 5 participantes, com limite de 12 componentes. Maior procura abrirá a possibilidade de turma extra, nos mesmos dias, porém no horário das 21h.
Dias e horários:
Janeiro: dias 12 (quinta), 17 (terça), 19 (quinta), 24 (terça) e 26 (quinta), 19h, num total de 10h/a.
Fevereiro: dias 31/01 (terça), 07 (terça), 09 (quinta), 14 (terça) e 16 (quinta), 19h, num total de 10h/a.
Local: Apolinário, Rua José do Patrocínio, 527, Cidade Baixa – estacionamento próprio (cobrado).
Investimento: R$ 180,00 à vista ou em duas parcelas.
Contato: rubempenz@gmail.comou (51) 9123.5540
Cronograma simplificado:
1ª Aula – 12.01 / 31.01
Apresentação do orientador, da turma e da dinâmica de trabalho. Conceituação do gênero crônica. Crônica/artigo – o espaço da opinião. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita. Leitura prévia.
2ª Aula – 17.01 / 07.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Exercício de desbloqueio e preparação para a próxima tarefa.
3ª Aula – 19.01 / 09.02
Crônica em prosa poética. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita. Leitura prévia.
4ª Aula – 24.01 / 14.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Crônica/conto. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita.
5ª Aula 26.01 / 16.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Considerações sobre as diversas possibilidades a serem exploradas na crônica. Balanço das atividades. Brinde de encerramento.

29.12.11

Fim do mundo

Número 453
Rubem Penz
Uma das maiores curiosidades nessa história de o mundo terminar em 2012 é o friozinho na barriga. Algo parecido com os instantes que antecedem o sorteio de um grande prêmio lotérico: as chances de dar tudo certo (ou, no caso da humanidade, tudo errado) são remotíssimas. Porém, lá estão os maias e mais outros profetas com seus trágicos bilhetes comprados. E bilhetes de profecias de caráter religiosas ou astronômicas sempre ganham a estatura de aposta alta. Mesmo no caso em que nada se tem a ganhar (e tudo a perder), ficamos com uma pulga atrás da orelha: um dia, alguém vai acertar. E se for agora?
O fato é que Nostradamus, astrônomos maias, celtas, hopis, egípcios e outros adivinhadores do destino da humanidade foram muito espertos: atiraram o fim dos tempos para bem longe (deles). Começa que, em muitos milhares de anos, 2012, 2092, 2112 ou 2812 se tornam aproximações plausíveis – errar por pouco é quase acertar. Por outro lado, ao marcar com precisão o dia, afirmando que o juízo final será em 21 de dezembro (nosso caso atual), tempera-se o palpite com verossimilhança imbatível. Ensinam os grandes mentirosos: capriche nos detalhes que tudo parecerá verdade! Burrice, burrice mesmo é dizer hoje que o mundo terminará amanhã – bastam 48 horas para você dever explicações.
Nas teorias conspiratórias que li em sites diversos, o que mais me instiga são os dados grandiloquentes: o que estaria por ocorrer agora, seja lá o que for, repete-se apenas de trinta em trinta milhões de anos, ou coisa assim. Vai ter uma visão macro assim lá na Cochinchina! Alinhamentos de planetas, explosões solares, corpos errantes, tudo concorrendo para o imponderável fenômeno que se repetirá em cataclismos.
A favor dos fatalistas está o caso dos dinossauros. Quem nos garante que, lá entre eles, não havia os Maiassaurus pessimistae ou Nostradamus estragaprazerorum avisando o fim dos tempos? Será que num futuro incerto (daqui a mais ou menos vinte e sete milhões de anos) um ser pensante de poucos centímetros encontrará meu esqueleto para fazer projeções de como seria esse nosso monstruoso reinando sobre a terra? Aí, espero que a computação gráfica me ajude para ficar com a cara do Brad Pitt...
Mas, entre prever o fim do mundo e prever que a previsão estará errada, ainda fico com a segunda opção. Primeiro, porque em meus parcos anos de vida já presenciei muitos enganos, sendo os mais espetaculares a recente virada do milênio e aquele período durante a passagem do cometa Halley – fenômeno astronômico mais mixuruca que já vi. Não que estivéssemos torcendo para que o cometa batesse em nosso solo, ou tirasse um fininho: só não precisava passar tão longe. Segundo, porque não adianta nada corroborar a tese do fim do mundo. Acertando, não se terá ninguém para compartilhar a vitória: "Viu, eu disse, viu, viu!". Qual será a graça?



--
Visite-me em:www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



16.12.11

Onde estão os japoneses?

Número 452

Rubem Penz

A pizza da moda é metade politicamente correta, metade quotas de inclusão. Sobre a massa, todos devem estar representados, sob pena de o cozinheiro ser taxado de preconceituoso, sexista, racista ou qualquer outro termo terminantemente discriminatório. Há uma ditadura de conduta pronta para condenar quem escolha compor determinado grupo com um ou outro, acusando-o de excluir os demais. Como se a exclusão não fosse inerente a qualquer ato de escolha, em todo critério adotado.

Os norte-americanos, mestres da cozinha padronizada – garantia de lucro em escala –, já se deram conta disso faz muito tempo. Programas infantis, para jovens e seriados adultos, por exemplo, capricham na receita: há sempre uma loira, um oriental, uma latina, um gay, um ruivo, um nerd, um forte, uma gorda, um negro. Há crespos e calvos; altos e nanicos; ingênuos e sacanas; ricos e pobres; urbanos e caipiras. Um mundo de ficção que reflita com esmero de cheff a diversidade humana, tudo em nome da audiência.

Os roteiristas cuidam, também, de fugir dos execráveis estereótipos: é melhor que a loira seja inteligente; o negro, chefe; o latino, honesto; o gay, sério; o idoso, disposto, e assim por diante. Jamais insistir em rótulos depreciativos! A patrulha estará pronta para denunciar a perseguição e o reforço dos preconceitos. Assim, o vilão ideal deverá ser homem, heterossexual, claro de cabelos e de pele, nem jovem nem velho, oriundo da classe média (para cima), escolarizado, gozando de plenas faculdades físicas e mentais... Algo parecido comigo, por exemplo. Já ando me esquivando pelas ruas.

Esse desabafo tem um motivo. Associação Gaúcha de Escritores (AGEs) empossou sua nova diretoria, da qual tenho a honra de fazer parte. Felizes da vida com a oportunidade de colocarmos nossos esforços individuais a serviço da coletividade – é para isso que as pessoas de bem assumem tais encargos –, posamos para a foto e mandamos a notícia aos formadores de opinião, imprensa etc. Para a nossa surpresa, poucos minutos bastaram para a primeira crítica: entre nós sete – presidente, vices e diretores –, há uma só mulher. Deveríamos ter convocado para o registro de imagem o conselho eleito na mesma data: nele, elas estão com superioridade de quatro para um. Aí, pode.

Acreditem: mais do que culpada, a chapa foi acusada de dolo. Para aqueles que só têm no cardápio a tal pizza metade politicamente correta, meia quotas de inclusão, outros arranjos são propositalmente preconceituosos. Nosso presidente não compôs com a maioria de homens: sonegou às mulheres a participação. Em nome da igualdade, a liberdade é banida do cardápio. Aguardamos as manifestações de outras minorias para qualquer momento. Pois, pior do que ter uma só mulher, entre nós não há portadores de deficiências físicas, índios... E os japoneses? Esquecemos dos japoneses!


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



11.12.11

Oficinas intensivas de verão

Oficina com inscrições abertas: Soa Assim – o verão de Porto Alegre em crônicas

Oficina literária intensiva em horário e ambiente de Happy Hour aborda a influência da estação mais quente na rotina da cidade. Duas oportunidades: uma em janeiro, outra em fevereiro.

Sinopse:
Afinal, o que muda em Porto Alegre durante a temporada de férias escolares? Fica melhor? Fica pior? Essas e outras questões fazem parte da oficina literária Soa Assim – o verão de Porto Alegre em crônicas, ministrada pelo escritor, músico e publicitário Rubem Penz. Para os que ficam na cidade, o convite é irresistível: 5 encontros para conhecer, aprender e praticar o gênero crônica através de exercícios criativos, tendo como tema o verão porto-alegrense. A exemplo da consagrada oficina Santa Sede, a turma se reunirá num botequim, no horário de Happy Hour, com plena permissão para o serviço de bar durante a aula.

Turmas: A oficina é viável com o número mínimo de 5 participantes, com limite de 12 componentes. Maior procura abrirá a possibilidade de turma extra, nos mesmos dias, porém no horário das 21h.
Dias e horários:
Janeiro: dias 12 (quinta), 17 (terça), 19 (quinta), 24 (terça) e 26 (quinta), 19h, num total de 10h/a.
Fevereiro: dias 31/01 (terça), 07 (terça), 09 (quinta), 14 (terça) e 16 (quinta), 19h, num total de 10h/a.
Local: Apolinário, Rua José do Patrocínio, 527, Cidade Baixa – estacionamento próprio (cobrado).
Investimento: R$ 180,00 à vista ou em duas parcelas.
Contato: rubempenz@gmail.com ou (51) 9123.5540
Cronograma simplificado:
1ª Aula – 12.01 / 31.01
Apresentação do orientador, da turma e da dinâmica de trabalho. Conceituação do gênero crônica. Crônica/artigo – o espaço da opinião. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita. Leitura prévia.
2ª Aula – 17.01 / 07.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Exercício de desbloqueio e preparação para a próxima tarefa.
3ª Aula – 19.01 / 09.02
Crônica em prosa poética. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita. Leitura prévia.
4ª Aula – 24.01 / 14.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Crônica/conto. Características e exemplos do estilo. Exercício de escrita.
5ª Aula 26.01 / 16.02
Leitura dos trabalhos produzidos na aula anterior. Considerações sobre as diversas possibilidades a serem exploradas na crônica. Balanço das atividades. Brinde de encerramento.

--
Visite-me em:www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



8.12.11

Notas fúnebres e musicais

Número 451

Rubem Penz

Jazz died in 1959

Nicholas Payton

Teria mesmo morrido o Jazz? Ao menos é isso que apregoam alguns músicos mais puristas, estudiosos e consagrados. Mas o que dizer do Tango? Ou do Choro, da Rumba, do Blues, do Rock? (a lista pode ser numerosa) Bom, se o Jazz nos deixou em 1959, tese do trompetista Nicholas Payton, e os demais movimentos anos antes ou depois por extensão de raciocínio, o que nós, artistas, estaríamos fazendo sobre os palcos? Depois da morte, até onde sei, vem o silêncio. E silêncio não há.

Observo que o filosófico tema de vida e morte nas manifestações artísticas rende vastíssima pauta. O pessoal adora digladiar sobre quando nasceu ou morreu determinado estilo, quem foi o pai, a mãe ou o médico que assinou o óbito (depois de receitar tranquilizantes além da conta...). Também quem embalou seu crescimento, com quem se relacionou e se deixou descendentes legítimos ou bastardos.

A Bossa Nova, por exemplo, alimenta uma farta polêmica sobre sua paternidade. De acordo com Ruy Castro, o verdadeiro pai da música é o pianista Johnny Alf. O senso comum – ou um lobby melhor construído – jura que foi o João Gilberto a fecundar a batida e gerar os primeiros acordes. Um frágil consenso paira sobre o dia e local do parto: teria ocorrido nos estúdios de gravação do álbum Canção do amor Demais, de Elizeth Cardoso. O que nos remete a Tom & Vinícius, outros implicados na fornicação. Além desse pessoal citado, pode-se, fácil, elencar mais dez, vinte candidatos... Aliás, como sempre acontece quando o filho é bonito.

Voltando ao Jazz – e ao passamento – teria o estilo morrido de causas naturais? Suicidou-se prevendo que o então pequeno Kenny G, mal saído das fraldas, aprenderia saxofone? Ou seriam novas correntes de criação a sufocar o Jazz, tomando toda a atenção? Na lógica, podemos inscrever a Bossa Nova como candidata à asfixia, lembrando que ela nascera em 1958, véspera do suposto óbito do outro. Uma quarta hipótese pode defender que nem o Jazz, nem o Elvis, morreram de verdade. Um vive incógnito em Memphis, ganhando a vida como imitador de si mesmo (e longe de ser o melhor). O outro segue saudável em New Orleans, íntegro e altivo no Bairro Francês. Cobrando-me visita, inclusive.

Sem almejar o peso da razão, minha teoria é a seguinte: morreram de verdade o momento e a circunstância que fizeram nascer o Jazz (e o Bolero, a Milonga, a Marcha Rancho, o Frevo...). Aí estão pai e mãe. Os músicos da época foram aqueles aos quais a notícia chegou, cumprindo a função de propagá-la. A magia do artista é ser capaz de compreender o recado; seu valor é dominar a técnica que permita transmitir o recado; seu sentido de vida será o de cumprir tal missão. Porém, nascido o estilo (a vertente, a batida, o movimento), mesmo tendo falecido os pais, o próprio seguiu fecundando novas almas e mentes. O Jazz não morrerá jamais porque ele mesmo trata de sua sucessão. Já não é mais filho: agora é pai e avô. Também é mãe. E pariu com sucesso, quem diria, até o Kenny G...


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



7.12.11

Achado não é roubado

Não, não sou raro: sou único! É o que nos torna iguais.

--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



2.12.11

Entrelaços

Número 450

Rubem Penz

Uma das imagens consagradas para significar a união entre as pessoas é a do laço. Durante a vida formamos laços matrimoniais, laços de amizade, laços familiares, profissionais ou de vizinhança. Vínculos que, de alguma forma, nos prendem uns aos outros. Há aqueles fortes como um nó cego: entre pais e filhos, ou entre irmãos, por exemplo. Estes, jamais se desfazem: é preciso cortá-los na carne. Outros, são tênues a ponto de se desmancharem com o ínfimo peso das horas. Nenhum melhor ou pior: apenas diferentes, cumprindo suas funções.

Existem, também, os laços indiretos. Aliás, são os mais frequentes: sou amarrado em música, em bicicleta, em orquídeas ou aeromodelismo e, de algum modo, construo relações com alguém que igualmente seja. Nada além do mesmo gosto nos prende. Isso pode durar uma pequena, porém salvadora, conversa entre dois desconhecidos em um encontro social. Parênteses: só quem já esteve na angustiante situação de convidado para um lugar onde todos são estranhos sabe o valor de encontrar alguém para enlaçar um papo. Assunto que, se morrer ali mesmo, já terá valido muito. Ou, ao contrário, fará nascer o amor verdadeiro, a franca concorrência, uma longa amizade...

Este último foi o caso que me aconteceu vinte e muitos anos atrás. O lacinho casual de dois deslocados numa festa de aniversário bastou para firmar a parceria que compôs a formação musical que tenho até hoje, e cujos parceiros unem-se cada vez mais em laços de afeto. Estranho é lembrar que, daquela tarde, os vínculos que julgávamos fortes se desfizeram, restando firme o singelo fio da meada sobre jazz, influências musicais e amigos músicos. Desde lá, construímos uma farta teia de relações, de intenso e prazeroso convívio. Sem dúvida, me amarro nesses bons amigos!

Professores também são testemunhas de novos laços a cada ano ou semestre, no instante em que o período letivo começa. No meu caso, nas novas turmas de oficina literária, pessoas desconhecidas permanecem algumas horas atadas ao processo criativo. Um pouco por causa da paixão que carrego pela crônica, gênero ideal para a informalidade, de alguma maneira contamino o grupo com tal espírito. E vibro com o companheirismo que nasce e frutifica a partir dos encontros em torno dos textos. Acredito que ainda testemunharei outro nível de desdobramentos – além da boa amizade ou do ódio sincero – entre os colegas de turma. É uma questão de tempo.

E a vida funciona assim: todos nós (sem trocadilho) inseridos no tecido social de laço em laço, sendo uns estratégicos e outros afetivos; uns efêmeros e outros perpétuos. Como ser feliz sem dar um pouco de corda a quem puxa conversa? Mesmo fiada: são as melhores! Pense nisso quando lhe estenderem a mão, ao receber um surpreendente bom dia ou boa noite, se pintar um papo na fila do cinema etc. Não economize novos laços em sua rede de amizades. Jamais saberemos qual nó evitará nosso tombo. Nem quem estará seguro por nossas forças, com braços e almas entrelaçados em mútuo socorro.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



29.11.11

Da série "Achado não é roubado"

Para a curiosidade, basta uma fresta. Ao desinteresse, nem todo horizonte será capaz de seduzir.

--
Visite-me em:www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



25.11.11

Efeitos sonoros

Número 449

Rubem Penz

Os aparelhos eletrônicos estão cada vez mais integrados, uns servindo de plataforma para outros. Nesse espírito, resolvi unir o GPS do carro com os pedais de guitarra só para ver o bicho que dava. Pura curiosidade. Deu certo? Tire suas próprias conclusões:

Mixer. Um dos recursos de pedal é o de misturar outros timbres ao som original do instrumento, vindos de outras fontes. Quando usado no GPS, fez com que o Fernando e a Ângela (duas das possibilidades de locutores programados) falassem ao mesmo tempo. Porém, no primeiro comando uníssono de "vire levemente à esquerda", surgiu uma retroalimentação estranha: o Fernando disse que falou primeiro e a Ângela respondeu que nada disso, fora ela, com certeza. Então Fernando disse que ela nem sabia a diferença de direita e esquerda, quando Ângela acusou Fernando de machista... E, enquanto não desliguei o efeito, as duas vozes ficaram batendo boca. Ponto negativo.

Reverber. Para quem não sabe, a reverberação é utilizada para gerar um efeito de ambiente ao som, que por vezes aparece seco e sem nenhum brilho. Quando exageramos, parece que tudo está sendo dito no meio de um corredor vazio, numa catedral ou num banheiro... Algo como "vihrehhh lehvehmentehhh àhhh esquehrdahhh". Na medida certa, porém, deixa os enunciados mais encantadores. Por isso, seu uso foi aprovado com louvor: o GPS com reverber tornou-se capaz de fazer com que o habitáculo de qualquer Uno Mille ficasse parecendo espaçoso e imponente como o de uma limusine. Ponto positivo.

Distorção. Altamente rock n' roll! Imaginei que a tal Ângela pareceria a Janis Joplin cantando Mercedes-Benz, e, Fernando, o Brian Johnson no Black in Black. Tudo que desejava era um efeito "arranhado" no som, ou algo bisonhamente parecido. Porém, por desígnios misteriosos, a distorção foi mal compreendida pelo circuito e acabou aplicada no sentido das frases. A cada nova direção, o GPS dizia: "inunde a pia sem pressa", "arranhe as paredes pela metade", "adube a lata de aspargos". Cá para nós, eu sempre achei o uso de muita distorção uma grande uma droga, mesmo. Só não imaginava que seria alucinógena! Ponto negativo.

Pitch shifter. Agora sim: valeu muito a experiência! Se o motorista estiver cansado da voz de comando, basta alterar o GPS para outro tom, mais alto ou mais baixo. Alguma coisa como o Fernando soar ora como Arnaldo Antunes, ora como Netinho. E a Ângela variar de Tetê Espínola até Cássia Heller. Além do mais, a melodia das vozes sintetizadas, tão monótona quanto aquelas de aeroporto, ganhou a vantagem de sair sempre afinada, sem jamais semitonar. Ou, no caso, semimonotonar! Ponto positivo.

Delay. Este efeito é algo como um atraso, uma espécie de retardo entre o instante em que o som é emitido e o momento em que escutamos. E, de todos os recursos da tal pedaleira testados no GPS do carro, foi o de pior resultado. Nada pode parecer mais irritante do que alguém (no caso uma máquina) ficar nos dizendo: "você deveria ter dobrado levemente à esquerda no cruzamento"; "você deveria ter contornado o viaduto"; "era naquela outra saída de estrada à direita"... Ou, quando finalmente anuncia a chegada, concluir: "você passou duzentos e cinquenta metros do seu objetivo". E aconteceu bem assim. Ponto negativo? Na prática, sim. Mas, como lição, teve seu valor: nem mesmo a melhor orientação tem utilidade quando chega depois do tempo.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



18.11.11

No velório

Número 448

Rubem Penz

Amigos reunidos. De todos, morrera aquele considerado mais sábio. Quem tinha a frase certa para cada momento, a última palavra, o tom. Alguém quebra o silêncio:

– Ai, ai... Se não fosse assim, seria de outro jeito.

– Se não fosse assim, seria diferente.

– O que você disse?

– Eu disse que se não fosse assim, seria diferente, e não de outro jeito. Era assim que ele dizia.

– Então, se era diferente, era de outro jeito também.

– Não banque o esperto: se não fosse assim, seria diferente. Seja fiel à memória.

– Mas, e se não fosse? Não seria, por exemplo, de outro jeito?

– Sei lá, acho que sim.

– Pois foi o que eu disse: se não fosse assim, seria de outro jeito...

– Tá, que seja... Mas é você quem diz de outro jeito. Ele, dizia diferente.

– Diferente de quem? De mim ou de você?

– De você, óbvio. Ele dizia de outro jeito – de outro jeito!

– Se ele dizia de outro jeito, então dizia do mesmo modo como eu disse.

– Não! Você disse diferente!

– Você disse diferente. Nós dissemos de outro jeito.

– Não adianta, se ninguém dá o braço a torcer, tiramos a prova perguntando adiante. Afinal, todos o conheciam tão bem quanto nós. Pode ser?

– Ok, sabidão. Vai, pergunte.

 

– Olá, com licença. Conhecia o falecido, né? O jeitão dele... Responda, por favor, se não fosse assim, seria...? Seria...? Seria... Hum?

– De infarto?

– Nãnãnã. Não é isso. A senhora não entendeu. Obrigado.

– E você, você aí, diga: se na fosse assim, seria...?

– Cremado?

– Não, bocó: diferente!

– Embalsamado?

– De outro jeito! Diz: de outro jeito!

– Doado à Faculdade de Medicina?

– Desisto! Então, que seja de outro jeito, como você tanto quer.

– Nada disso: agora eu faço questão que seja diferente.

– Vocês dois, por favor, silêncio! Respeito é bom e eu gosto!

– Respeito é bom e conserva os dentes.

– O que você disse?

– Respeito é bom e conserva os dentes. Era assim que ele dizia...


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com



10.11.11

Pedágios

Número 447

Rubem Penz

Há um sonho

Viagem multicolorida

Às vezes ponto de partida

E às vezes porto de um talvez

Tony Tornado

Já diziam os filósofos Milionário e José Rico que "nessa longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar". É caminho sem volta. Relógio? Naquela placa cujos ponteiros estão proibindo o retorno. Uns vão com pressa: pé no fundo. Outros, descendo a Serra com freio motor. Tudo é passageiro (menos o cobrador e o motorista). Pelo retrovisor, o reflexo da saudade. No pára-brisa, muito mais do que insetos mortos: projetos com as vísceras espalhadas por não terem nos encontrado no mesmo sentido – e isso tudo só embaça o vidro caso se queira limpar de forma descuidada.

No rádio, alternância entre notícias do mundo, previsão do tempo, condições das estradas, bloqueios... Um manancial de informações que, se bem compreendidas, resumem-se numa única mensagem: vá devagar porque correr não adianta nada. Mas há os que correm, há os que morrem. A alternativa sonora é contar com a companhia da música. Cantar junto num karaokê solitário que, mesmo desafinado, espanta o sono. Parênteses: música de qualidade pode relaxar até o ponto de adormecermos, o que é ótimo numas circunstâncias e péssimo noutras.

Sair da freeway vez que outra é uma possibilidade a ser considerada. Estradas vicinais têm seu charme. Cruzam serpenteando pelas entranhas de localidades deslocadas do tempo, temperadas de modo caseiro, veladas, macias. De tanto em tanto, aquela passagem de nível com um menino meio sentado numa bicicleta, só olhando o movimento. Dá vontade de abanar para ele, que parece o mesmo de sempre, em todo lugar. Parece conosco, também, em outra dimensão, pronto para sumir no fade out do Efeito Doppler. Nem adianta procurar o espelhinho: o guri não estará mais lá ao passarmos adiante.

Há, é claro, os pedágios... A vida, que não é nosso destino e sim nosso caminho, cobra algumas contas. Não escapamos das cancelas nem em sonho: algo, ou alguém, denunciará o passado. E vem a fatura.

Por exemplo: numa recente entrevista na rádio, subitamente (e, pior, por minha provocação), foi-me alcançado um tíquete. Pela memória infinita de um grande amigo, toda audiência soube que, no início dos anos 1970, eu cantava BR3 imitando o Tony Tornado. Também Jesus Cristo, à lá Roberto Carlos – o que, diante da insólita hipótese de eu corporificar o Black Power do Tornado, passa a ser irrelevante. Ninguém fura a cancela da memória do José Alberto Andrade.

Zé, obrigado pela tão cara lembrança! Só não sei o tamanho da conta desse pedágio que chegou de surpresa em 100 kW. Estão, no mínimo, cobrando-me explicações. Até aquele piá na bicicleta sobre a ponte está me abanando com gargalhadas, enquanto eu procuro alguns Cruzeiros no bolso.


--
Visite-me em:
www.rubempenz.com.br
www.rufardostambores.blogspot.com