18.6.09

Número 322

O GUETO DE CRACKÓVIA

Para Adriana Marques

A Cracóvia, importante cidade polonesa, foi ocupada por tropas nazistas em 1939, setenta anos atrás. Imediatamente, eles iniciaram a perseguição aos judeus lá residentes. Em 1941, foi construído um gueto para abrigar aqueles que lá restavam, isto é, os que ainda não haviam partido para os campos de concentração ‒ Auschwitz, por exemplo, ficava pouco mais de sessenta quilômetros distante de Cracóvia. Como todos sabemos, em muitos casos, para além do gueto, o que esperava os prisioneiros era a iminente execução.

Vinícius de Moraes, sensibilizado por um desenho de Carlos Scliar, abordou o tema do Holocausto em uma crônica intitulada “Meninas sozinhas perdidas no mundo e dentro de si”. No texto, tão belo quando repulsivo, o poeta nos oferece sua visão de uma das maiores tragédias humanas. São palavras fortes: “ (...) Meninas perdidas, sozinhas no mundo e dentro de si: ó abstratas, mímicas e galglionares! ‒ feixes de ossos armados para a fogueira de todas as esperanças, todos os votos, todos os desejos. (...) Aparentemente meninas: conservais no rosto a perene crispação de um sorriso. Mas não é sorriso, é magreza. Não vos foi dado lábios nem para sorrir, nem para beijar. Tendes a boca negra como uma cratera e vosso mau hálito suspira: amor!”

Corta para nosso Brasil de 2009. Para as acinzentadas metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre. Para muito distante dos horrores da Segunda Guerra. Mas, também, para dentro de corações que sangram tragédias humanas tão graves quanto aquelas experimentadas nos tempos dos guetos e dos campos de concentração nazistas. Súbito, me deparei com Vinícius de Moraes descrevendo com horrenda semelhança as moças e meninos entregues ao vício das drogas, à dependência do crack. Vi-me diante das macérrimas e sombrias meninas de Carlos Scliar, agora prisioneiras de uma nova atrocidade, numa guerra sem pátria, crença, classe social, idade, sexo ou etnia para escolher entre suas vítimas. Em qualquer hora do dia ou da noite, basta circular para encontrarmos meninas perdidas, sozinhas no mundo e dentro de si...

Muitas vozes se insurgem denunciando o horror de um gueto chamado vício, no qual, tristemente, as pessoas entram por sua própria vontade. Depois, atrás de um muro de delírios erguido com pedras, seringas ou fumaça, passam a trabalhar e a viver em função daquilo que as aprisiona. Experimentam os atos mais torpes, aviltam-se, criminalizam-se, humilham-se. Sofrem e levam muitos ao sofrimento. Já não há conforto, não há higiene, não há alimento ou sono. Tudo parece levar à morte. Campanhas publicitárias apelam para que estejamos afastados das pedras que rodeiam o gueto que chamarei de Crackóvia. Um lugar onde, ao entrar, nos perdemos, sozinhos no mundo e dentro de nós...

Porém, há que se ter um cuidado: nossa raiva, nossa indignação, nosso asco deve ser dirigido àqueles que traficam, produzem, lucram com a desgraça dos prisioneiros de Crackóvia ‒ onde há homens e mulheres que “ardem na fogueira de toda a esperança”, como disse Vinícius. O dependente químico, por mais repugnante que seja sua aparência, por mais violentas que sejam suas atitudes, jamais se libertará sem nossa ajuda. Nas palavras do poeta, tem “a boca negra como uma cratera”, e “o mau hálito suspira: amor!”

Quero muito conseguir amar os viciados, prisioneiros de Crackóvia, na mesma medida em que odeio o traficante de entorpecentes. É super difícil, mas conheço quem é capaz de fazê-lo. E admiro tanta dedicação e esforço em lutar pela liberdade alheia. Por enquanto, suplico a quem consome drogas “socialmente”: pare de financiar o Hitler dessa história.

10.6.09

Número 321

POR ARRAIAIS SEM ARRANHÕES

Festa Junina é uma tradição interiorana. Talvez isso explique sua louvável resistência ao vírus do politicamente correto, disseminado nos últimos anos por toda parte, mas, principalmente, nos grandes centros urbanos. Ainda bem! Afinal, bem posso imaginar o estrago provocado nas tradicionais festas de São João, São Pedro e Santo Antônio caso aderissem à intolerância das patrulhas corretoras. Sobraria quase nada.

A primeira vítima, creio, seria a própria figura do caipira. Os politicamente corretos protestariam contra o fato de pintarmos os dentes para ficar banguelas. Afinal, é uma carga violenta de preconceito contra os pobres desamparados, historicamente mantidos longe das cadeiras de dentistas em função de suas condições monetárias. Além do mais, isso evidenciaria um deboche com relação à suposta disparidade social do homem do campo em termos de educação e de higiene. Não faltaria, também, quem exigisse uma atualização no caipira, pois, integrado à cadeia de agrobusiness, ele tem em mãos tanto um laptop, quanto uma escova de dentes de última geração.

A patrulha da moda também poderia colocar suas agulhas de fora: onde já se viu calças surrecas (puídas e remendadas), camisas xadrez sem o menor feitio, suspensórios e chapéu de palha para representar o campesino? Onde fica o jeans justinho, a camisa de grife, o chapéu de vaqueiro norte-americano e as botas de couro, itens predominantes em toda festa de boiadeiro? E os desastrosos vestidos de chita, maria-chiquinha e sardas? Depois do tal Ozônio (que bem poderia ser nome de Coronel), ninguém mais se descuida do protetor solar e, por isso, louvar as sardas pode ser interpretado como desestímulo ao seu uso. No caso sulino, ainda tem os gauchamente corretos patrões de CTG (Centro de Tradições Gaúchas) para proibirem pilchas em festa de caipira. Bombacha e vestido de prenda são trajes de gala, e não fantasia!

Quando o assunto é fogueira, a briga seria com as patrulhas ecologicamente corretas. Não faltaria alguém para citar de memória um coeficiente de poluição gerado por uma fogueira média, ardendo por meia dúzia de horas. Ao multiplicar esse valor pelo número de fogueiras acesas no Brasil em noite de São João, a grandeza auferida significaria meses de produção ininterrupta em uma laminadora neoliberal capitalista e safada (aqui a patrulha de esquerda dá o tom). Isso sem falar na quantidade de mata nativa sacrificada para que homens desprovidos de autocontrole etílico arrisquem sua integridade física em saltos temerosos ‒ flagrantes de mau exemplo para as crianças presentes na festa.

Nem mesmo o casamento na roça escaparia da ação das críticas politicamente corretas. A moça grávida (e ainda solteira) estaria estimulando a prática de sexo na adolescência. O pai, obrigando o noivo a desposar a menina sob a mira de uma espingarda, seria um exemplo cabal de tortura e coerção. E onde estaria o porte e registro da arma? Ela foi adquirida legalmente? Além do mais, ninguém hoje em dia acredita no casamento forçado como método eficaz para corrigir desvios de conduta. Por fim, não faltaria quem também exigisse a realização de casamentos homoafetivos, multirraciais e ecumênicos, com o argumento de que todas as minorias merecem as bênçãos de Santo Antônio.

Que os Santos juninos protejam os arraiais contra a patrulha politicamente correta. Senão, daqui a pouco vão estragar a brincadeira da cadeia com Habeas Corpus preventivos; vão considerar os buscapés como bullying; pau de sebo, só com rede de proteção; para as bandeirolas, exigirão papel reciclado; copo de quentão com a gradação alcoólica; determinados decibéis na altura dos autofalantes; queima de fogos por empresas especializadas etc ao infinito. Na esteira da (corretíssima) proibição de balões, a turma do politicamente correto pode desfigurar uma das mais divertidas manifestações populares. Apagando, enfim, a fogueira em nossos corações.

4.6.09

Número 320

DIA DE FAXINA

Qual o melhor dia para a limpeza da casa? No caso de quem contrata uma profissional, qualquer um, de segunda a sábado, desde que ela esteja comprometida em sua agenda. O ideal – e aqui está uma conquista de clientes antigos – é o dia de faxina cair na sexta-feira, véspera de final de semana. Quinta, ainda é bastante bom. Segunda-feira pode bem servir para juntar os restos mortais de eventuais festanças. Porém, seja contratando alguém para limpar a casa, seja por nossos próprios esforços, um consenso existe: em domingos, não há ânimo para atuar na limpeza.

Esta é a ótica de quem limpa, claro. Do ponto de vista de quem recebe a higienização, dia de faxina é sempre domingo. Ou folga, ou feriado. Um dia para quebrar a rotina, sair do sério, dar um tempo. Rever amigos, até. Senão, vejamos:

Em que outro dia os tapetes ganham uma folga para passear no pátio, na varanda ou na sacada? Eles todos – o da sala, os dos banheiros, aqueles à beira da cama – deixam de receber pisadas distraídas para tomar banho de sol. Quando, de quebra, ganham umas voltinhas na máquina de lavar, galgam a solene altura dos varais. Se não, ao menos sobem para encostos de cadeiras, ou grades, respirando outros ares. E garantem um mínimo de elevação do espírito.

Cadeiras se esbaldam em piruetas, muitas vezes parando de cabeça para baixo em cima da mesa, que já está aliviada da responsabilidade cotidiana de equilibrar aquele vaso de cristal caríssimo (para o azar do sofá que fica por perto, e agora acomoda o enfeite de modo desengonçado). Se o piso recebeu carinhos do pano úmido e perfumado, ou a renovação de sua cera, mesa e cadeiras vão curtir essa inversão de posições por horas a fio, rindo à toa!

Dia de faxina também é a oportunidade das camas, desavergonhadamente, ficarem nuas. E dos lençóis, fronhas e cobertas mexerem-se com o vento. Se os homens tivessem ouvidos mais atentos, perceberiam a algazarra dentro do armário, onde jogos de cama limpos apostam em qual será o preferido para sair da reserva e entrar em campo. Os travesseiros, pesados de tantas confissões inconfessáveis, podem, enfim, dar uma espairecida. Suas penas, afinal, não são de ferro...

Quando é o caso daquela denominada faxina grossa, até as cortinas, para variar, abandonam seus varões. As venezianas curtem chuva de mangueira, e as folhas das janelas passeiam para lá e para cá no bailado das flanelas. Com sorte, as cristaleiras e armários serão arredados para longe das paredes: bancar a estátua para esconder o pó mais rebelde cansa suas belezas. E, já que são muito grandes para sair porta afora, pelo menos ganham a oportunidade de espiar a rotina por um outro ângulo.

Depois da faxina, é impossível não reparar em tantos sorrisos pela casa. Alegram-se os enfeites, os lustres, o piso. O contentamento se reflete em todos os espelhos, reluz nos tampos de granito, transparece no vidro do box. Por essas e por outras que nossos móveis não entendem quando passamos os domingos entediados, amortecidos diante de uma tela de TV. Eles sabem que programa bom é tomar sol, fazer piruetas, olhar a vida por novos ângulos. Desprender-se dos varões, sentir o vento no rosto, perfumar a alma. Trocar afetos para aliviar nossas penas, despir-se de pesadas máscaras.

Para a casa, dia de limpeza é sempre domingo. Para nós, domingo é, ou deveria ser, sempre um dia de faxina.

27.5.09

Número 319

DEBAIXO DO NARIZ

Quem mexe os invisíveis cordões da moda, das tendências, do comportamento? Boa pergunta... Uma teoria é a de que esses movimentos estão sujeitos às deliberações efetuadas em reuniões seletas, em andares altíssimos de edifícios luxuosos em Nova Iorque, Milão ou Paris. Ou, por outro lado, são fruto de disparos aleatórios e pulverizados de tentativa e erro, combinados com pesquisas mercadológicas. Há quem acredite na simpática ideia de inconsciente coletivo. Algo, porém, é consensual: na moda, nas tendências e no comportamento, vale sempre a antiga lei de Lavoisier, na qual nada se cria ou se perde – tudo se transforma.

Por exemplo, em meu pouco tempo de vida, vi as calças alargarem as bocas de suas pernas feito cortinas; depois, retrocederem até quase não passarem os pés e, novamente, ganharem o formato de sino. Na cintura, elas andaram, entre altos e baixos, variando da borda das costelas ao cúmulo de exigir depilação feminina e cuecas de grife. Na minha infância, bermuda era vestimenta de escoteiro: calção de verdade era curtinho como os da Seleção Brasileira de 74. Agora, nada que esteja acima do meio da coxa é aceito por meu filho. Nem preciso entrar no movediço terreno da indumentária feminina, muito mais oscilante e variável, para comprovar a tese de que tudo o que foi moda um dia, fatalmente, retorna.

Vinha faz tempo pensando nas idas e vindas da moda e, duas semanas atrás, lendo uma tirinha em quadrinhos do Recruta Zero, decidi trazer à tona uma inquietação para compartilhar com os leitores. Antes, para quem desconhece as personagens de Mort Walker, apresento quatro delas e suas características: Sargento Tainha, o brucutu, marcado pelo dente inferior acentuado; Dentinho, o tonto, dentuço feito um Ronaldinho; Zero, o desastrado e preguiçoso, com os olhos escondidos, e Quindim, o mulherengo sedutor, com seu indefectível bigodinho. Pois, ao ver o Quindim cercado de gatinhas, algo me estalou: onde andarão os bigodes? Chegará o dia de eles retornarem à face masculina?

Na década de cinquenta do século passado, época em que o Recruta Zero ganhou fama, nada era mais charmoso do que um bigode sutil. Dos astros de cinema, passando por cantores, homens do jetset internacional e, claro, golpistas sedutores, quase todos os bons partidos cultivavam seus bigodes bem aparados. Rapazes de bigode seguiram na paisagem por outras duas décadas – basta lembrar que o desejado Chico Buarque usava bigode. Antônio Fagundes, também. Aliás, lembro de uma série de atores que recorriam ao bigode para variar de rosto conforme a personagem. Os Beatles, antes de aderirem ao visual barbudão, passaram pela etapa bigoduda. E as mulheres se derretiam.

Alguma coisa aconteceu nos anos oitenta para o bigode ver raspado seu status. Freddie Mercury e Village People podem explicar uma parte do fenômeno, mas não todo. Parece que a maior resistência nasceu em quem, tecnicamente, não usa bigodes: as moças. Hoje, se um homem ameaça deixar o bigode crescer, sua namorada, esposa ou companheira logo protesta. Diz que é anti-higiênico, feio, cafona. Proíbe! Será que parte da crise de papéis e de identidade masculina é causa (ou consequência) da falta de autonomia com nosso rosto? Está na cara: elas temem algo que o bigode simboliza!

Sei não, acho que o bigode voltará a ser moda a qualquer momento. Em breve, todos os zagueiros usarão bigodes. E os atacantes precisarão deixar os seus crescerem para continuar almejando o gol. Os professores usarão bigodes, e os cantores, os fotógrafos, os jornalistas. Nelson Motta voltará a usar o seu. E Pedro Bial. Isso reverterá a tendência de mulheres poderosas e homens submissos. Será o único freio à hipertrofia dos bíceps da Madonna ‒ bigode, ela usaria? Também assumiremos um comportamento mais audacioso nos jogos de sedução, recuperando a esquecida iniciativa. A força de Sansão estava, quem sabe, no cabelo das ventas!

Nossa, vai ver que no bigode está a explicação do imenso poder de José Sarney... O tempo todo ali, embaixo do nosso nariz! Para ele, Gillette já!

22.5.09

Número 318

ÓVULOS FECUNDADOS

Segunda-feira passada, dia 18, acompanhamos mais um Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – data instituída em 2000 para recordar um crime de enorme repercussão ocorrido em 1973. Para 2009, o mote da campanha institucional de conscientização contra tal violência é Faça bonito: proteja nossas crianças e adolescentes. Diante do tema, decidi revisar meus arquivos em busca de criações para a mesma finalidade – frases escritas por mim para campanhas que, por um motivo ou outro, nunca saíram do papel. Com elas, pretendo trazer reflexões sobre o tema.

Proteja de olhos bem abertos quem nos ama de olhos fechados. Todos os que têm filhos, ou qualquer um ao passar pela experiência de estar com uma criança sob seus cuidados, notam o elevado grau de entrega que os pequenos nos confiam. Isso é muito natural. Assim, cabe a nós, adultos, desconfiar por eles – ser seus olhos e ouvidos –, evitando que pessoas mal intencionadas avancem (in) justamente sobre quem, por natureza, está desarmado. É imprescindível estar atento aos sinais!

Quem deseja berços merece as grades. Abuso sexual: a reação é cadeia. Não há razão para taparmos o sol com a peneira: existem pessoas cujo objeto de desejo sexual é o infante. Por mais odioso que possa parecer, mesmo ferindo de morte a vítima e seus familiares, quem apresenta tal comportamento reage a uma compulsão. Pessoas assim precisam ser contidas, seja para tratamento psiquiátrico, seja na prisão. Fora de controle, voltarão a agredir nossas crianças. Com certeza.

Não os deixem dormir com os anjos. Exploração sexual infantil: denuncie este pesadelo. Aqui, a expressão dormir com os anjos apresenta, propositalmente, duplo sentido. E aponta para o fato de não ser justo que o agenciador de crianças para a prostituição durma tranquilo – impune – enquanto o agredido tem sua vida transformada em pesadelo. Denunciar essa situação é mais do que dever: é nossa obrigação.

Não o deixe dormir com os anjos. Abuso sexual infantil: denuncie este pesadelo. Estatísticas demonstram que boa parte dos abusos sexuais são praticados dentro do lar, por pessoas que gozam da intimidade e confiança da vítima. Mães: estejam atentas para os sinais emitidos por seus filhos, acredite neles, procure ajuda especializada. Ninguém merece tanto horror...

Abuso sexual infantil: por um futuro em que ninguém tenha passado. Estudiosos do tema nos ensinam que uma parcela significativa dos abusadores sexuais foram vítimas, quando crianças, do mesmo crime. Por isso, impedir que delitos dessa natureza ocorram no presente é, também, prevenir ocorrências futuras. Afinal, a vítima de hoje poderá se transformar no algoz de amanhã.

Se você quiser indicar alguma das frases acima para entidades que costumam agir contra o abuso e a exploração sexual infantil, sinta-se previamente autorizado. Desde que, é claro, respeitando (indicando) a autoria. Afinal, tais chamadas, como estão, não passam de óvulos fecundados antes de serem colocados no útero. Potencialmente, podem ajudar a despertar consciências. Mas, para isso, precisam ser implantadas em campanhas institucionais. Aliás, desde o primeiro momento, elas foram pensadas sem que alguma remuneração financeira estivesse no horizonte.

Tenho esperança de que, dos tais óvulos, ou de tantas louváveis iniciativas de prevenção, venha a nascer o dia em que a sociedade tema bem menos pela salvaguarda da integridade física e psíquica das crianças.

14.5.09

Número 317

SUPERPODERES

Meus filhos, assim como todas as crianças, adoram a ideia de termos superpoderes. Afinal, os heróis são cultuados justamente por essa razão: podem algumas coisas a mais, além do normal, superiores. Um dia, me perguntaram qual superpoder eu desejaria para mim – uma questão dificílima de responder de improviso. Porém, um desafio dos mais interessantes.

Desejando estar à altura da expectativa deles, meu primeiro impulso foi o de escolher um entre os tantos dotes consagrados na tradição dos heróis. Voar, por exemplo. Este desejo acompanha a humanidade desde sempre. Pensando adiante, ser (tornar-se) invisível é outro fetiche contemplado por diversas obras de ficção, vindo a calhar em determinadas situações. Melhor mesmo só quando combinamos o poder de sumir ao de se materializar em qualquer outro ponto do planeta. Já pensou o quanto quem tivesse tais faculdades economizaria com gasolina ou passagens?

Continuei meu inventário: força desproporcional, visão à distância, alcance de elástico, imortalidade... Fiz um rápido passeio pelas mais diversas qualidades dos super-heróis famosos antes de escolher uma para mim. E acabei abandonando todas. O que respondi aos filhos pareceu ser bastante animador: se eu pudesse escolher um superpoder, ele seria o da eloquência. Sim, o poder do convencimento. Depois de hesitarem por alguns segundos, as crianças concordaram: seria um poder e tanto! Com isso, senti até o gostinho de ter tal capacidade.

O passo seguinte foi imaginarmos o que ganharíamos com o superpoder da persuasão. Conseguiríamos convencer alguém a trocar uma nota de um Real por outra de cem? Melhor: trocar o nosso carro antigo por uma Ferrari zero quilômetros, taco a taco? Melhor ainda: propor qualquer negócio deixando a outra parte com a sensação de que saíra levando vantagem? Namoraríamos os mais desejados astros e estrelas? Teríamos o emprego dos sonhos, o salário dos sonhos... Mas, vem cá, precisaríamos mesmo trabalhar em busca do sustento? Em questão de minutos, descobrimos uma força absurda no poder do convencimento. E, de quebra, o perigo que corremos de, com ele, atropelar a ética e nos locupletarmos. Enfim, fazer uso errado deste poder. Horrível!

Lembrei disso pensando em nossos Poderes da República. Excetuando o Judiciário, para o qual os candidatos prestam concurso público (e isso está longe de torná-lo infalível), os outros poderosos galgam suas posições por intermédio do voto. Logo, usam da persuasão para assumirem o Poder Legislativo e Executivo. E, revestidos destes Poderes, fazem o quê? Lamentavelmente, parece que nada do que esperamos dos super-heróis, isto é, proteger os fracos e oprimidos. O noticiário tampouco indica que lutem pela justiça, prendam os facínoras, impeçam as tragédias. Quem dera... Na verdade, alguns usam os superpoderes oferecidos pela democracia para levar vantagem em tudo, segundo a antiga (e famosa) Lei de Gérson.

Fiquei superdeprimido: o poder superior que desejei para mim, julgando-me superoriginal, já é exercido em diversas instâncias. Políticos superpersuasivos são eleitos e, imediatamente, passam a poder diversos poderes: podem voar (sem pagar), podem sumir (e fazer aparecerem laranjas), têm a força das leis a seu favor, usam a máquina estatal para tudo ver, esticam sua influência como um elástico sem fim... Alguns até são imortais. Além disso, ficam furiosos quando, abusando do poder, são flagrados pela igualmente poderosa imprensa.

Da próxima vez em que os filhos falarem sobre o tema, vou desejar diferente: quero só deixar de ser Superimbecil. Quando crescerem, compreenderão.

8.5.09

Número 316

ESPERANÇA

Abre teus braços e canta
A última esperança
A esperança divina de amar em paz

Tom e Vinícius

Se esperança tivesse uma forma, ela seria esférica. Pois assim, redonda, é a forma da mulher que espera um filho. E nenhum outro momento é tão rico em esperança quanto o da gestação. Ele permeia cada sorriso, sublima o desconforto, supera a dor prometida. Ele inunda o coração de modo a fazer passar por ali os melhores fluidos. Ele cativa quem está próximo, ou mesmo quem só passa ao largo. Na gravidez, a mulher espera para si, para o filho e para todos nós um futuro melhor. Espera, também, estar apta para nutrir a vida que se renova. Espera que o pai saiba compartilhar tamanha responsabilidade. Espera viver o suficiente para ver seu fruto tornar-se frondosa árvore. Espera alcançar os netos. Nossa: é esperança que não acaba mais!

Nenhuma mulher perde por esperar. O final de sua espera, ao contrário, coincide com o momento de se ganhar. É quando a felicidade não cabe mais em si: rompe, transborda, derrama-se. E, depois de deixar o ventre, é no seio materno que o filho se alimenta de esperança, de afeto e de vida. O colo da mãe é o endereço do encontro sublime de duas vidas que esperavam uma pela outra – uma dentro da outra –, para firmarem um contrato jamais escrito, mas implícito e reconhecido por suas normas, direitos e deveres. A sociedade espera que as partes cumpram seus papéis. Outra vez, ou seria sempre, é esperança que não encontra fim.

A cada manhã, toda mãe espera ver seu filho despertar. Viverá na esperança de que nada de mal lhe aconteça; de que, com o passar do tempo, caminhe com suas próprias pernas; de que tenha juízo e discernimento; de que encontre bons amigos para compartilhar a vida. Viverá na esperança de que pouco (ou nada) ele sofra por amor. Vã esperança... A mãe espera que o filho seja estudioso na medida de sua capacidade, seja humilde para reconhecer-se aprendiz, seja perseverante e, com isso tudo, possa ter o êxito almejado. Pois o fracasso do filho será também o seu fracasso, sua desesperança.

No entardecer da vida, a mãe espera ter o filho ainda à sua volta. Contará os dias até o final de semana; ou as férias, Natal, Ano Novo. Contará também as novidades adiante e, quando menos o filho esperar, conhecidos distantes saberão detalhes de sua vida. Emoldurará fotografias em portarretratos coloridos, expostos na sala de estar para louvar a certeza de ter oferecido a melhor educação. Escondidas, bem escondidas nas gavetas da cômoda, ficarão algumas desconfianças sobre eventuais falhas aqui ou ali. E a mãe morrerá na esperança de que nada disso seja encontrado por noras e genros de má vontade, loucos para se depararem com explicações, por exemplo, para as manias do cônjuge à mesa. Mesmo na hora da partida, na memória da mãe habitará a esperança.

Faça qualquer maldade com sua mãe. Faça-a sofrer, deixe-a com saudade, ria de seu jeito antiquado, seja presunçoso ou soberbo. Até aplique corretivos, se ela voltar a ser uma criança. É grande a chance de ser perdoado bem no fundo do coração. Pior: ela tomará para si a culpa de, quem sabe, ser justamente punida e maltratada. Só um pecado jamais terá perdão: tirar de sua mãe a esperança. Não imagino ter sido outro o erro do rapaz que, conforme notícia recente, viciado em crack, levou a mãe ao desespero de matá-lo.

Morta a esperança, já não temos mais uma mãe. Já não temos mais nada. E, no vácuo e na vertigem do nada, que vida haverá?

29.4.09

Número 315

AS QUERELAS DE BRASÍLIA*
Boi Barroso & Brejo

Brasília (1), minha Brasília brasileira
Da mamata inzoneira
Vou cantar-te em tantas verbas

Ó Brasília trampa que dá
Bandoleiro que faz lucrar
Ó Brasília do meu pavor
Terra do nosso penhor
Brasília! Brasília!
Pra mim... Pior pra mim...

Ô, abre a caixinha do plenário
Tira à mancheia do erário
Bota o imposto no otário
Brasília! Brasília

Deixa ganhar o especulador
Misericórdia é toda tua
Se é banqueiro o devedor
Quero ver essa grana caminhando
Pelos milhões se afastando
Do bolso do assalariado
Brasília! Brasília!
Pra mim... Pior pra mim...

Brasília, terra tão onerosa
Da emenda sestrosa
De pilhar indiscreto

Ó Brasília vende que dá
Outra lei complementar
Ó Brasília do meu pavor
Terra do nosso penhor
Brasília! Brasília!
Pra mim... Pior pra mim...

Ô esse empreiteiro que não pouco (2)
Fez aumentar a sua renda
Nas obras que soube ganhar
Brasília! Brasília!

Ô, oi essas fontes governantes
Onde mamatam-se com sede
E onde a viúva vai dançar
Ó essa Brasília linda intrigueira
É minha Brasília brasileira
Terra toda eleitoreira
Brasília! Brasília!
Pra mim... Pior pra mim...

* Paródia de Aquarela do Brasil, do mestre Ary Barroso.

Nota-se (1): esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com as teimosas notícias de política e economia das sucursais jornalísticas de nossa Capital Federal terá sido mera coincidência.

Nota-se (2): no original, este verso cita o “coqueiro que dá coco”. E o que mais poderia nos dar um coqueiro? – cabe a pergunta. Bom, em Brasília, dependendo da mão que aduba, coqueiros podem dar até cerejas nas noites claras de luar. Há quem duvide?

22.4.09

Número 314

SÃO TANTAS EMOÇÕES...

Agora é oficial: Roberto Carlos – o cantor e compositor da Jovem Guarda – dá início às festividades de seu cinquentenário musical, a completar-se em 2009. Serão diversos espetáculos e tributos, muita tietagem e mesuras dignas de um rei. Reconhecendo plenamente os méritos da prolongada e vencedora carreira, almejo para outros dedicados profissionais com este tempo de trabalho uma comemoração de semelhante vulto. E, inspirados na majestade dos palcos, poderiam agradecer assim:

Farmacêuticos, olhando a chegada de mais uma receita em suas mãos, diriam: são tantas emulsões...

Os agiotas e demais profissionais que labutam na generosa tarefa de cobrar juros escorchantes, em lágrimas, agradeceriam: são tantas extorções...

Cirurgiões gerais: são tantas incisões... Cirurgiões plásticos: são tantos esticões... Cirurgiões dentistas: são tantas restaurações...

Agentes e guias turísticos, ao completarem cinco décadas à frente de crianças e idosos, diriam: são tantas excursões...

O paramédico, percorrendo a cidade nas ambulâncias, comemoraria seu cinquentenário dizendo: são tantas remoções...

Políticos no palanque: são tantas eleições... E, depois, com seus cupinchas: tantas locupletações...

Os publicitários, gerentes e diretores de marketing anunciariam assim: são tantas ilusões...

Padres, pastores, rabinos e toda sorte de pregadores da palavra de cada um de seus deuses, diriam em ladainhas: são tantas orações...

Jornalistas e escritores, no ano em que completarem seus cinquentenários, autografariam: são tantas edições...

Em cinco décadas, caso tenha conseguido ludibriar as autoridades mundiais, o terrorista mandaria uma carta bomba: são tantas explosões...

Feirante: são tantos agriões... Churrasqueiros: são tantos salsichões... Cozinheiros e garçons: são tantas refeições...

Geneticistas, obstetras e demais pesquisadores da área da fertilidade poderiam agradecer às homenagens dizendo: são tantos embriões...

Motoristas, cobradores e maquinistas, chegando neste ponto, diriam: são tantas estações...

Matemáticos: são tantas adições... Físicos: são tantas equações... Astrofísicos: são tantas dimensões...

Professores de português diriam: são tantas redações... E os de educação física contariam: são tantas flexões...

Atores pornôs: são tantas ereções... Atrizes pornôs: são tantas felações... Censores: e tantas proibições...

Advogados e juízes de direito, afogados em nosso interminável oceano de processos e recursos, julgariam prudente dizer: são tantas petições...

Neurologistas: são tantas convulsões... Cardiologistas: são tantas pulsações... Traumatologistas: são tantas contusões...

Por fim, o cronista amigo, depois de cinco décadas em laudas semanais, agradeceria a sorte de poder escrever sobre qualquer tema, puxando o microfone de lado e atirando uma rosa para a platéia: são tantas opções...

15.4.09

Número 313

CRACK: QUEBRAR, PARTIR

O crack, uma das mais devastadoras drogas desenvolvidas pelo homem, pode ser escutado como uma palavra onomatopéica que significa quebra. E parece ser consensual a ideia de que, depois do crack (após o rompimento), são poucas as chances de as estruturas partidas voltarem à integridade como se nada tivesse acontecido. Cabe, então, pensarmos nas forças que atuaram antes do fato, criando as condições para tal quebra, ou, no mínimo, abstendo-se de cautela. Nossa chance está na antecipação.

Comecemos procurando as frestas, pois, diz a lógica, o rompimento tende a acontecer nas estruturas comprometidas. Quando olhamos para a família, outrora o elo mais forte da corrente social, percebemos que ela nunca esteve tão fragilizada. Sob o manto tecido com mil justificativas, algumas até certo ponto plausíveis como a falta de tempo (causada pelo excesso de trabalho), pais delegam para terceiros a educação integral de seus filhos. Neste cenário, deixam de passar valores básicos para uma boa composição emocional das crianças, tais como limites de conduta, ética, perseverança. Ou, pior, cultivam uma rotina distante, ou até violenta, eco de um ambiente sem fraternidade.

Digamos, porém, que a família esteja bem preservada, com o amor em dia e valores consolidados. A próxima rachadura que facilitaria o crack está no primeiro degrau fora de casa ‒ o espaço gerido pelo poder público. Nele, a impunidade e a permissividade nunca estiveram tão presentes. A falência da ordem institucional fez crescer poderes paralelos, financiados pelo dinheiro das drogas, instaurando um ambiente de terror e subserviência. Além do mais, o trabalho honesto, o estudo dedicado, em última instância a virtude, tudo passa a ser visto como uma fraqueza. Esperto, inteligente e próspero é quem está no lado marginal. Mané é o sujeito que trabalha o mês inteiro para comprar um par de calçado, pronto para ficar sem ele no primeiro arrastão.

Mas não basta atirar nas costas largas do Estado toda a responsabilidade sobre o bem comum. Se existem falhas na fiscalização e punição de agentes ligados ao narcotráfico, a incompetência estatal seria minimizada caso não houvesse consumo. E como há! Além disso, todos os crimes cometidos por usuários desesperados por dinheiro encontram na própria sociedade os receptadores, os comerciantes e os novos compradores do roubo. Cada pedra de crack acendida na esquina já movimentou uma cadeia econômica gigantesca. E isso não é uma rachadura fácil de ser mensurada, interrompida e novamente consolidada.

Por fim, a última falha que causa o crack está dentro do nosso próprio cérebro. Ironicamente, atende pelo nome de fissura. Em nome dela, tudo o que aprendemos com os pais é esquecido; o tanto quanto a escola nos fez crescer cai por terra; as recompensas do trabalho serão menores; nenhum esforço institucional parecerá suficiente. A fissura é a deusa do imediato, não mede consequências, desconhece limites, devora o homem. Antecipar-se à fissura, explicar seu preço e falar de seus riscos é evitar o triste rompimento, a quebra, o crack. Isso, ou ver nossos filhos, tão cedo, partindo.

9.4.09

Número 312

RESSURREIÇÃO

O orador prepara-se para fazer seu pronunciamento. Traz consigo um ar grave, solene. Apóia um pequeno volume de papéis no púlpito. Pousa suas mãos sobre as folhas e mira a plateia por alguns segundos. Nisso, um bêbado, ruidoso, entra e senta-se lá no fundo. O homem espera até que ele esteja acomodado. Limpa a garganta. Toma ar. Começa:
– Nosso tempo se mostra menos esperançoso do que outras épocas. Mas, creiam, houve alguns momentos em que a humanidade pareceu correr mais e maiores riscos ‒ pausa dramática. ‒ Mesmo assim, apesar dos sacrifícios, fomos salvos. E hoje, como ao contrair uma dívida, precisamos renovar nossa crença no amanhã. Nenhuma outra época é mais apropriada.
Neste momento, o orador tira do bolso do paletó um ovo. Olha para ele, gira, examina. Mostra-o a todos como quem exibe um trunfo. O bêbado, lá do fundo, diz:
‒ Já sei! É um ovo! – esperando ser ovacionado.
A assistência olha para trás e murmura em desaprovação. O bêbado desdenha com as mãos. O orador retoma sua linha de raciocínio.
– O ovo – ensina ele – está aqui para nos servir de metáfora. Ele representa a vitória da vida sobre a morte. A célula a partir da qual tudo se cria. Não importa o quanto tenhamos sofrido, o quanto estejamos abalados, diminuídos, carentes: a partir de um simples ovo, tudo o que é capital pode ressurgir. Uma vida nova, em outras condições, em outro cenário. Mais favorável, é claro!, por mais sombrio que sejam os escombros.
O bêbado ergue o braço pedindo um à parte. O orador atende com educação.
‒ Já sei! – fala, enrolando a língua. – O senhor quer nos chocar!
A plateia volta a protestar com mais veemência. O bêbado ri de sua esperteza. O orador agradece com meio sorriso, devolve o ovo para dentro do bolso, junta um cesto que estava no chão, atrás de si, e segue:
– Quando compartilhamos esse sentimento de renovação, é como experimentar a própria ressurreição. Isso, mais do que nunca, é uma garantia a ser repartida. Porém, é apenas o primeiro passo...
– Já sei! – levanta-se o bêbado. – Nunca devemos pôr todos os ovos no mesmo cesto!
Agora, já se escuta mais do que um burburinho na assistência. Não fosse um local civilizado, alguém teria partido para cima do inconveniente alcoolista. Mas o orador, demonstrando uma paciência monástica, pede silêncio e serenidade a todos. E aproveita o gancho:
– Vejam bem: crises como esta que experimentamos, meus caros, é tudo o que desejam os que não professam de nossas crenças.
Os ânimos, enfim, acalmam-se. É quando o orador retira do cesto um coelhinho branco. O bêbado levanta a mão novamente, mas não é atendido. Com o coelho no colo, e o cesto devolvido ao chão, o orador pergunta:
– E o coelho, qual a metáfora que nos apresenta o coelho?
O bêbado acena com insistência, querendo responder. O orador não lhe dá oportunidade, seguindo:
– Eu lhes digo: a fertilidade. A criatividade. A novidade. Crescer para multiplicar!
– Já sei! – salta o bêbado, sem se conter. – Já que é sacanagem, vamos nos f...
– Basta! – altera-se o orador. – O senhor passou de todos os limites. O tema de que estamos tratando é muito sério. É muito caro para a sociedade. Posso dizer... sagrado, até!
– Eu já sei! – comemora o bêbado, ainda de pé e abrindo os braços. – É a Páscoa!
– Óbvio que não! – responde o orador. – Estamos em um Seminário de Economia. Discutimos aqui as alternativas para a grave crise financeira internacional.
– Ih, então já sei... – lamenta o bêbado, mantendo os braços erguidos. – Vocês salvam a própria pele, e cruz vai sobrar para mim.

1.4.09

Número 311

1964

O ano de 1964 é, para mim, impossível de ser esquecido. Mesmo que eu quisesse, lá está ele na certidão de nascimento, na carteira de identidade, de motorista e em todo e qualquer cadastro que venha a preencher. Sim, foi quando eu nasci. Por outros motivos, os meados da década de sessenta estarão para sempre na lembrança do povo brasileiro. Brotaram ali os denominados anos de chumbo, a ditadura militar, nosso mais recente período de rompimento democrático. E, entre a alegria de comemorar o aniversário e a tristeza ao lamentar os fatos históricos, o sentimento que me surge com mais força quando este ano é citado é outro: o medo.

Em 31 de março de 64, data convencionada para marcar o início do levante que tirou Jango da presidência, eu ainda estava na barriga da minha mãe. Teoricamente, nada poderia temer. Mas a vida me deu mostras de que fetos e recém nascidos são criaturas reféns dos sentimentos da genitora. E, na época, minha mãe tinha muito, muito medo. A empresa onde meu pai era diretor estava na lista de estabelecimentos a serem incendiados por militantes de organizações inspiradas em ideologias totalitárias de orientação esquerdista. O patrimônio obtido a partir do trabalho do meu avô, que chegara do interior à cidade de Porto Alegre aos quatorze anos de idade com uma única muda de roupa na mala, corria o risco de virar cinzas. Daí o justificável medo.

Dito isso, não deixo a menor sombra de dúvidas de que fui criado em um lar apoiador das ações militares. Ou, simplificando, de direita. Meu pai viveu defendendo a tese pela qual os quartéis, aqui e em outros países da América Latina, livraram suas nações de grupos financiados, treinados e submissos à Cortina de Ferro, e que pretendiam transformar nossa ordem política e social em uma enorme Cuba. E, isso ocorrendo, ele estaria condenado à prisão ou morte. É impossível adivinhar como seria o Brasil neste caso, pois hipóteses não passam de exercícios de ficção e, assim, não se sustentam. O único parâmetro confiável é o da realidade: meu pai faleceu sem ver a ilha de Fidel abandonar um severo regime ditatorial, bastante impermeável às idéias opostas.

Na medida em que eu e minhas irmãs mais velhas fomos crescendo, todos os nossos heróis surgiam, que ironia, como homens de esquerda. Músicos, escritores, jornalistas, atores, mestres e amigos sofriam com o cerceamento de suas palavras e ações. As idéias que não habitavam no exílio se escondiam em metáforas, resistindo na medida do possível à censura. Multiplicavam-se os relatos de perseguição, morte e tortura. O livre pensar, por si, já era um libelo subversivo. E o medo de que uma palavra mal interpretada levasse a nós, ainda meninos, para os porões da ditadura, voltou para a minha casa. Afinal, claro, engrossávamos as fileiras que pediam o final da ditadura. Tudo o que condenava o Brasil a uma vida miserável de Terceiro Mundo era culpa da falta de democracia. Acreditávamos que o voto viria a nos redimir.

Por fim, a liberdade saiu vencedora. A redemocratização lenta e gradual, muito comemorada na conquista do primeiro governo civil, tanto mais quando pelo voto direto, sepultou o silêncio. Raiou a esperança já desejada e prometida em verso e prosa. Os militares voltaram para a caserna e o medo de emitir opiniões esmoreceu. O cálice de vinho tinto de sangue foi afastado; a noite terminou; o sol nasceu; as flores venceram os canhões. O Parlamento redigiu a Constituição Cidadã. O voto colocou, então, um a um, os principais nomes e partidos de esquerda nas diversas esferas do poder.

Hoje, trinta e um de março de dois mil e nove, no momento em que escrevo esse texto, a ditadura militar volta a ser pauta. Na mesma edição de jornal, pipocam notícias nada abonadoras sobre os poderes Executivo e Legislativo. A violência e a roubalheira crescentes denunciam a falência do Judiciário. Como em um círculo vicioso, o medo renasce em meu coração: o calote vexatório apresentado pela democracia brasileira redime, justifica ou permite cogitar governos de exceção? Temo, profundamente, que alguém responda que sim. Quero morrer acreditando que o voto continuará a ser a melhor maneira de impedir que a liberdade, cujas asas estão abertas sobre nós, defeque em nossas cabeças.

26.3.09

Número 310

FELIZ ANIVERSÁRIO

Todo casamento, seja ele celebrado no altar, no cartório ou em acordos menos formais ‒ mas tão sérios quanto ‒, traz consigo um manancial de regras. Basta lembrar das frases proferidas pelo sacerdote: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando e respeitando etc e tal. Ou recordar o fato de que, no momento em que firmarmos um contrato de comunhão parcial de bens, por exemplo, toda uma jurisdição estará ali aglutinada. Quando nada é assinado, as leis do concubinato, quer se queira ou não, passam a rechear o colchão matrimonial ‒ conforto para alguns, insônia para outros. O que pouco se fala é dos princípios jamais ditos ou escritos, porém moldados e sacramentados pela tradição. Dentre eles, um dos que mais apavora os homens compila os deveres e direitos de cada uma das partes com relação ao aniversário de casamento.

Há quem defenda que um homem tem o direito de deixar escapar a data em que aconteceram as núpcias. Não que seja esse um direito líquido, muito menos que seja ele certo. Digamos que esteja enquadrado na categoria dos direitos adquiridos. Explico: o primeiro aniversário jamais pode ser esquecido. Jamais! Teoricamente, dentro do intervalo de um ano, ainda ferve nas veias o calor da paixão. Em seu nome, muitos fogos de artifício estarão posicionados para comemorar a data. Ignorar solenemente tal bateria é um pecado inominável, uma insensibilidade brutal, um desperdício ridículo. Do segundo até o quarto aniversário, com ou sem filhos, o lapso passa a ser incomum, mas já existe quem faça jus ao direito de mosquear.

Entre o sexto e o sétimo ano, em média, os homens começam gradativamente a obter um certo direito de esquecer a data que está impressa em baixo relevo no ouro da aliança. Sabe como é: muito trabalho, correria, responsabilidades... Futebol, música, pescarias, chopes, essas coisas de maridos. Com a atenção voltada mais para datas como as do vencimento do cartão de crédito, o prazo do imposto de renda ou a entrega de um relatório, os dias, semanas e meses se embaralham e, quando se vê, o dia chegou. Pior: chegou ontem. Muito pior: chegou semana passada. Aí bate a culpa... Porém, entre o décimo segundo e o décimo terceiro ano de matrimônio, se as falhas persistirem, a tal culpa acabará esquecida também.

Bom, mas se nós homens temos, ou adquirimos, o direito de esquecer a data de aniversário de casamento sem fazer disso um pecado mortal, nem por isso nos furtamos de alguns deveres. É nossa obrigação, claro, cobrar da esposa a razão pela qual ela abandonou um dos seus hábitos mais elementares: o de nos dar indiretas pouco antes do dia chegar. Ora, se ela jamais esquecerá a data, se ela sabe por tradição que corre o risco de ver o dia passar em branco, se ela conta com aquele jantar especial, por que atirar sobre nossos ombros toda a responsabilidade? Isso não faz o menor sentido! Nós crescemos assistindo nossas mães lembrando nossos pais de compromissos dessa natureza. Não é justo que, logo agora, não tenhamos mais esse direito. Devemos reclamar!

Outro dever do homem é o de cuidar especialmente dos quinquênios (nossa, que falta faz o trema...). O quinto, o décimo, o décimo quinto aniversário de casamento, e assim por diante, pede um esforço extraordinário de atenção. Fica abolida a regra das dicas por uma razão sórdida: elas estarão nos testando e, por isso, pouco darão pistas sobre a proximidade da data. Também existe compromisso tácito de presentear a esposa com algo marcante a cada cinco anos. O momento não é bom? Deu um presentão ano passado? Acabamos de nos mudar? Azar o seu! Faça o possível, o impossível e, de preferência, faça uma surpresa. É injusto dizer que as mulheres servem-se da memória tão somente para o mal. As recordações funcionam às vezes para o bem, garanto. Por isso, outro dia maravilhoso e inesquecível contará muitos pontos na relação. Ou, Deus nos livre, no indesejado rompimento. Lembre-se disso.

A propósito, ao meu anjo, Feliz (nosso) Aniversário!

19.3.09

Número 309

AMAR AINDA É?

Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei

Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Quando eu conheci o amor, amar era saber o nome e o sobrenome dela. Talvez até o nome da mãe, do pai e dos irmãos. Era transformar seu endereço em passagem para todos os destinos, fazer amizades na turma dela, aparecer nos sábados à tarde só para jogar um vôlei. Amar era somar cinco ou seis motivos para andar à sua volta quando, na verdade, o motivo era um só.

Amar era trocar correspondência. Receber dela a letra de Leãozinho, do Caetano, e responder com versos de Meu Bem Querer, do Djavan. Aliás, amar era ter uma música só para os dois, tal qual os pares das telenovelas. Escutar o mesmo tema uma tarde inteira ao lado dela, como se a poesia pudesse dar conta do passado e do futuro. Amar era ser fiel: a mesma música jamais serviria de trilha para outro amor.

Amar era descobrir encantos possíveis, pois nem todos os dotes nos eram franqueados. Assim, era preciso decorar o formato dos dedos dos pés, perder-se nas penugens da nuca, trilhar cada curva das orelhas, mergulhar nos olhos, curtir todos os segundos de um beijo. Brincar muito, pois, em jogos de sedução, as mãos podiam medir cada palmo de recusas e permissões. Amar era contar os sinais da pele com os dedos, fazer cócegas, dar sustos.

Amar era viver no eterno sobressalto da insegurança. Desconfiar do cochicho da amiga, principalmente quando seguido de sorrisos maliciosos. Temer a aproximação dos meninos mais velhos, manobrando exércitos para delimitar território. Morrer de paixão sem jamais declarar-se. Negar até a morte o que estava escrito na testa. Amar era tentar conhecer o outro no exato momento em que a própria anatomia se mostrava uma estranha.

Amar, para os meninos, era desejar o corpo e barganhar com a alma. Para as meninas, ao contrário, era desejar a alma e negociar com o corpo. Daí o sofrimento dos homens: desde os primeiros ensaios do que era amar, as trocas estavam flagrantemente desequilibradas. Isso explica, mas não justifica, a desonestidade daqueles que surrupiavam a contrapartida. Amar, então, era chorar o desamor nos ombros dos amigos. Amigos que, em alguns casos, morriam de amor em segredo.

Amar era, também, odiar. Odiar, antes de tudo, a própria inexperiência. Odiar o deboche dos outros, as dúvidas ruminantes, as recusas, os enganos. Odiar o ciúme, efeito colateral presente em quase todas as primeiras paixões. Sentir um ódio enorme por continuar amando quando jurávamos nunca mais amar. Amar era odiar o amor não correspondido e aprender a lidar com essa frustração.

Por fim, quando eu descobri o amor, amar era olhar com total desdém para as figuras Amar é..., criadas pela neo-zelandesa Kim Grove Casali, sucesso absoluto entre as meninas nos anos 70. Mesmo assim, comprar para elas cartões e outras lembranças com a adocicada mensagem decorada com infantilizados bonequinhos nus. Com isso, amar era aprender a fazer concessões, driblar nossa natureza de ogro, desde que ajudasse a conquistar a amada.

Será que hoje amar ainda teria chance de ser assim?

11.3.09

Número 308

SOMOS O QUE ESCUTAMOS

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

Antunes, Fromer & Brito

Pergunte a um nutricionista o que aconteceria com uma criança ou adolescente cuja dieta fosse resumida a macarrão instantâneo. Mesmo sem ser um estudioso da matéria, posso adiantar com segurança que o jovem teria seu desenvolvimento fisiológico severamente prejudicado, apesar de ele não morrer de fome. Aliás, talvez até engordasse.

Agora, pergunte a um músico (ou poeta) o que aconteceria com uma geração inteira cujas obras prediletas cozinhassem em três minutos, pudessem ser engolidas sem mastigar e tivessem todas o mesmo gosto. E, depois de exigir esforço digestivo nenhum, elas quase nada nutrissem. Pois lamento informar que essa turma de ouvidos e consciências repletos de vento engorda entre nós.

A comparação entre a música popular que roda nos pratos (essa é velha) com o macarrão instantâneo pode até parecer forçada, mas é lamentavelmente correta. O que os produtores têm feito de melhor nos últimos anos é garimpar talentos submissos, moldar, embalar e rotular: sabor poprock, sabor sertanejo, sabor pagode, reagge, funck, melancia. Então, a base pálida é temperada despejando o envelope que contém figurino descolado, coreografia sensual e assessoria de imprensa com seus factóides pontuais.

Se não bastasse, depois de alcançada a fervura popular, artista e fã saem convencidos de que sucesso é sinônimo de qualidade na mesma medida em que barriga cheia é igual à nutrição. E que muitos anos de estudo ou aprimoramento formal é mera perda de tempo: todos querem consumir o que se engole mais rápido, surdos para as nuances. Cardápio turbinado pela internet, onde celebridades nascem, se reproduzem e morrem na velocidade de uma Drosophila Melanogaster.

Porém, atirar nas largas costas do mercado a culpa da sofrível condição da música popular brasileira (MPB), cuja perda de status é tão grande que ninguém mais se orgulha de pertencer à sigla, é uma redução conveniente. Pode-se dizer que miojos melódicos estão cada vez mais presentes nas prateleiras das rádios e demais veículos de comunicação. (Em algum momento foi diferente?) Apesar disso, obras eruditas, instrumentais, folclóricas, vanguardistas etc, bem ou mal, também estão expostas. E melhor estarão posicionadas quanto mais forem consumidas.

Logo, entre outras, é obrigação dos pais educar o paladar musical dos filhos, ao invés de adotar a confortável tese de que não adianta insistir ‒ eles só gostam de canções de massinha, mesmo. O caso ficará mais grave quando eles chegarem na adolescência: passar pela mais determinante fase de crescimento intelectual e afetivo sem ter a mínima profundidade musical vai gerar, para sempre, uma perda de vitaminas e sais minerais indispensáveis para o desenvolvimento do senso crítico. Sim, pois é na juventude que nossa bagagem estética é consolidada.

Bom, empurrar doses elevadas de jazz goela abaixo da meninada não será solução. Porém, se um jovem chegar até os vinte anos sem ouvir qualquer notícia de Pixinguinha, ou Noel Rosa, Villa Lobos, Cartola, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Milton Nascimento etc (a lista é grande), que não coloquem a culpa no KLB, no Latino ou na Cláudia Leite (outra lista enorme). Estes últimos entregam o que prometem e, com certeza, matam a fome. O problema é: nossos jovens devem ter fome de quê? Afinal, serão, até a última migalha, fruto do que escutarem.

6.3.09

Número 307

DELICADO

Ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino

Pepeu Gomes

Experimentei, de modo involuntário, algumas sensações que vejo cotidianas entre as mulheres que me cercam. (Não, não é nada disso que alguém possa estar pensando.) Tudo começou quando decidi escrever sobre o Dia Internacional da Mulher, comemorado em oito de março. Um tema aparentemente fácil de versar, pois admiro muito o sexo feminino, conheço-as razoavelmente bem, sou refém de seus encantos. O que jamais poderia imaginar, porém, aconteceu: como em um roteiro de filme hollyoodiano, uma parte indissociável da personalidade feminina me foi incorporada. Refiro-me à insatisfação crônica.

Estive por dias e dias diante da tela do computador tal qual uma mulher defronte ao roupeiro, ou dentro do closet. Primeiro, olhei para dentro de mim por um longo tempo para concluir apavorado: não tenho palavras para a ocasião! Um colossal exagero, óbvio. Era o espírito feminino pousado em meus ombros sem que pudesse desconfiar. Homens não costumam divagar muito para se vestir ‒ o critério muitas vezes é meramente geográfico, isto é, a posição da camiseta na pilha, a calça que já está no espaldar da cadeira, o sapato mais próximo. Da mesma forma, depois de escolher um tema, masculinamente, tenho a tendência de pouco sofrer até concluir o trabalho. A semana começava diferente...

Se não bastasse, comecei nada menos do que quatro textos sem avançar até o terceiro parágrafo. Havia uma boa chance de todos eles tornarem-se boas crônicas, dependendo de cuidados de elaboração. Mas quem disse que eles me satisfaziam? Então, nenhuma outra hipótese se mostrava mais correta do que o desprezo total às palavras escritas até ali: elas nunca me agradariam. Um detalhe curioso no processo ‒ e que considero mágico ‒ é a forma nublada de minhas dúvidas. Perguntei-me várias vezes o que havia de errado com a crônica nascente e em nenhum momento soube explicar o que estava me perturbando. A única certeza era a vontade de trocar de texto. Mais: trocar de abordagem. Ou trocar tudo, até eu mesmo. Que inferno!

Passada essa fase, e chegando perigosamente no final do prazo hábil, escrevi uma crônica inteira com uma idéia que parecia ótima. Voltei ao texto, fiz ajustes, mudei o título, troquei o final. Pronto! Então, como se fosse uma dama diante do espelho, odiei o resultado. O-di-ei, gente! Quer coisa mais mulherzinha do que produzir meticulosamente um trabalho e considerá-lo um horror tão logo chegue ao seu final? Alguém já viu um homem trocar de terno no penúltimo minuto antes de uma recepção social? Ou mudar o cardápio depois do jantar estar terminado? Ou mesmo retornar na loja com o produto recém adquirido, dizendo, lânguido, que repensou a cor? Pois isso me aconteceu desta vez...

Aqui, agora, peço a Deus que a maldição abandone minha mente. Ok, já aprendi a lição: a mulher estar insatisfeita sem conseguir explicar a razão não é uma condição transitória. Não é nada conosco, homens. Não depende de ciclo hormonal, fase da lua, estação. Acontece quando ela está de férias, trabalhando demais, em novo endereço. Ao contrário do que se pudesse supor, é algo muitíssimo mais delicado: faz parte de sua natureza. É intrínseca. Quando corretamente dosada, bem compreendida, a insatisfação feminina é mola propulsora, agente qualificador, princípio de evolução. Porém, funciona apenas com elas. Homens são mais simples, diretos e objetivos ‒ pão, pão; queijo, queijo. Sofrem muito quando estão em eterna dúvida.

O Rufar dos Tambores está atrasado e o texto vai sem revisão ‒ os leitores já estão buzinando no carro. Dou uma última espiada no espelho da tela e resisto à tentação de mudar algo. Respiro fundo, olho para a tecla ‘delete’, mas decido: ‘enter’.

27.2.09

Número 306

ABRIR OS OLHOS


Para M.H.


Quando ela abriu os olhos, o que viu foi a luz branca e fria do hospital. Tudo bem: hoje é sempre assim e, sob certo prisma, assim é bem melhor. Antes, para voltar um pouco no tempo, ela já escutava. O médico insistia para que todos falássemos com ela, pois, mesmo que não entendesse as palavras, receberia com toda a clareza as mensagens enviadas pelo coração. Ela, dizia ele, está presente e ligada ao mundo da mesma forma que todos nós. Falem, falem muito com ela. Digam do amor, contem da vida.

Ao abrir os olhos, a expressão dela foi de espanto. Compreensível. Porém, em poucas horas, o olhar serenou. Desconfio que a fragilidade a que todos estamos expostos nesse momento é a primeira grande lição, aquela que deveria ser nossa companhia por toda a estrada. Isto é: contamos uns com os outros, ou morremos. É assim desde as cavernas. Ali, deitadinha diante de nós, ela era o retrato da falta de autonomia. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, não falava, quase não reagia – consigo, apenas os instintos. Precisava ser banhada, alimentada, acompanhada por olhos responsáveis vinte e quatro horas por dia. Isso por um bom período.

Com o passar do tempo, vi – estamos vendo – a alegria de cada uma de suas importantes conquistas: manipular talheres, falar, dar os primeiros passos. Reaprendi com seu exemplo a dar o valor mais elevado e justo a atitudes aparentemente banais, tais como tomar banho sem ajuda, fazer refeições, ir sozinho ao sanitário, dormir em paz. Afinal, é apenas quando estamos senhores de nossas necessidades que começamos a retribuir o auxílio que merecemos. E, cada um em seu ritmo, no momento certo, a retribuição de todos virá com trabalho produtivo e útil, como foi com nossos avós e com os avós de nossos avós.

Ela me disse, muito mais em atitudes do que com palavras, que é nesse paradoxo entre autonomia e dependência que se equilibra a grandeza da humanidade. E seu infortúnio. Quando a balança pesa mais para a autonomia, tomamos decisões erradas, basicamente egoístas. Esquecemos do passado e do futuro, atendemos nossos caprichos sem medir corretamente as consequências para os demais. No outro extremo, pecamos justamente por nada decidir, delegando ao outro, sem controle ou interferência, nosso próprio destino. O que se espera de um homem adulto é o domínio desta balança: ser, num só tempo, independente e solidário.

Quando abriu os olhos, ela estava em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Em questão de dias, reproduziu o mesmo caminho da primeira infância – justo, pois nascera de novo. Assim, passou da total dependência para uma autonomia regular, limitada pela enfermidade residual. Ontem mesmo, ela me garantiu que ninguém passa por isso sem máculas. Porém, mais do que cicatrizes e dor, ficam as lições. Na hora, lembrei da alegria de quando os filhos começam a caminhar, comer sozinhos, ler e escrever. Notei que, dia após dia, o dever dos pais é o de transformar as crianças em homens e mulheres capazes, completos. E, junto, fazê-los perceber que não estão sós – são parte de uma teia formada por direitos e deveres sociais, passado e futuro.

Para mim foi, sem dúvida, uma cena bastante forte ver o sorriso dela, exemplo de mulher independente, comemorando vitórias tão irrisórias como a de se erguer da cama ou banhar-se livre de auxílio. A evidência de uma similitude entre o começo e o final da vida é algo espantoso e pode vir a ser bastante revelador. Isso, no mínimo, está servindo para me abrir ainda mais os olhos.

18.2.09

Número 305

PÉ ATRÁS

Até onde sei, os jogos que envolvem lutas partem de uma postura corporal defensiva sólida e equilibrada – joelhos levemente flexionados e pés em desencontro. Boxe, esgrima, judô, capoeira... Seja qual for a escola, todo mestre cuidará para que seu aprendiz não ofereça ao adversário um flanco vulnerável. Até onde sei, ninguém consegue abraçar o próximo assim, com o pé atrás. O que vale para o confronto, não vale para o conforto.

A medo endêmico tem levado especialistas em segurança a ocuparem espaços privilegiados em veículos de comunicação, normalmente contíguos às ensanguentadas editorias de polícia. Suas dicas nos ensinam a entrar e sair de garagens, caminhar pela calçada, portar objetos, sacar dinheiro do banco. Aprendemos a escolher o melhor lugar para estacionar, conduzir de forma protegida uma criança, parar corretamente no sinal vermelho à noite. Passamos a reconhecer movimentos suspeitos em nosso redor, situações nas quais determinados riscos aumentam, rotinas que nos tornam frágeis. Em outras palavras, nos chega a mensagem de que precisamos encarar o mais inocente hábito como sendo uma manobra militar. A ordem é manter, sempre, o pé atrás.

O problema é que esse ar desconfiado, essa postura defensiva, esse eterno sobressalto, tudo acaba contaminando a nossa visão de mundo. O próximo, mais do que nunca, tornou-se um oponente em potencial. Querendo ou não, transmitimos esse medo para nossos filhos, seja em orientações explícitas – replicando as dicas de segurança –, seja em demonstrações involuntárias de temeridade. Aliás, parêntese fundamental, muito estranho seria não fazê-lo, ao menos nas metrópoles brasileiras. Todo o esforço de civilização acaba se perdendo e voltamos a ser o primata que um dia desceu das árvores, tomou a postura ereta e passou a enfrentar os lobos. De diferente, apenas o lobo – agora homem.

Por tudo isso, começa a ficar muito complicado projetar um futuro mais solidário: desde o berço, as crianças são treinadas a manter o pé atrás. Minha geração ainda circulou pelas ruas sem grandes receios, ou pelo menos sem achar que poderia sofrer alguma brutalidade no menor vacilo. Havia, sim, orientações preventivas de parte dos pais. Mas nada que se compare ao comportamento de guerrilha ao qual estamos expostos. O acirramento da violência e os traumas por ela gerados exacerbam o medo, alimentam a solidão e criam uma espiral de hostilidade.

E está se tornando cada vez mais difícil escapar deste círculo vicioso. O exemplo, porém, precisaria obrigatoriamente vir de cima: administração pública honesta, instituições sólidas, polícia confiável, direitos preservados, deveres a cumprir. Muito por isso, tenho sucumbido à desilusão. Quanto mais deveria avançar nossa consciência representativa, efeito direto de muitos anos com liberdade de escolha, menos fé eu deposito no estado brasileiro. Para mim, o poder constituído, em todas as esferas, parece divorciado do bem comum numa escala crescente. Faz um bom tempo que, da mesma forma como sou obrigado a me portar na rua, cumpro a obrigação de comparecer às urnas: com o pé atrás. Postura que torna impossível abraçar qualquer causa. Desconfortáveis, vivemos a ditadura do confronto.

12.2.09

Número 304

AA

Você está sentado, pressuponho. É sempre bom estar assim no momento de receber uma notícia com peso de confissão. E não pretendo fazer rodeios: sim, sou membro de um grupo de apoio chamado AA. Aprendi que tenho um mal que nasceu comigo, é hereditário e determinante. Algo que me impõe um enfrentamento diário, com coragem, perseverança, conhecimento. Uma característica que já passei para os meus filhos, com certeza, e, por isso, me força a ser um modelo de combate. Quem sabe, ao verem o pai agindo de modo a fugir do padrão estabelecido, consigam do pior se preservarem. E, de alguma forma, anularem isso para futuras gerações. Faço parte, acima do orgulho ou do embaraço, do AA – os Alemães Anônimos.

Quer dizer, anônimos até ali: quem nos olha, logo se dá conta de que somos alemães. Está na cara, a pele denuncia. Também a cor dos olhos, o cabelo, o modo de ser, o sobrenome. Nós vemos, todos veem. Até por isso, nosso AA dispensa reuniões. A quem resolve fazer parte deste grupo, basta estar atento a tudo que implica ser alemão. E cuidar, cuidar muito com as armadilhas. A principal delas, creio, é a de atender às expectativas de cunho preconceituoso, que se agravaram depois da Segunda Guerra Mundial. De pais para filhos, gastamos a pele para fazer sumir a suástica que todos acreditam ter migrado dos uniformes do exército de Hitler para nossos braços. Não é fácil.

Outro desafio diário para quem faz parte do AA é o de amenizar nossa rigidez, nossa severidade. Conseguir achar graça de si mesmo, permitir-se falível, carente, arrependido. Amolecer o coração, desenrugar a testa, relaxar os ombros – essas atitudes que são ridículas de tão fáceis para muita gente, para um alemão viram trabalhos de Hércules. Dois italianos, por exemplo, podem trocar impropérios, jurar-se até de morte em um dia. No outro, estarão à mesa, discutindo o mesmo tema, ou um novo, e a vida continua. Aos alemães de fato, basta uma palavra enviesada, um mal-entendido, e deixarão de se falar até a morte. Mesmo entre pais e filhos. Mesmo entre irmãos. Ou especialmente entre eles.

A melhor maneira de entrar para o AA é, primeiro e definitivamente, assumir-se alemão. Olhar para si e para seus pares e sussurrar: muito bem, o que vou fazer com isso que sou? Afinal, nem tudo é ruim. Aliás, a maior parte dos atributos da alemoada gera bons resultados sociais – garantia até de orgulho. É bem o caso da vergonha: metade do ânimo de um alemão em cuidar do seu jardim e varrer sua calçada vem do prazer de estar em um ambiente bonito e asseado. A outra metade, do que imagina estar pensando o seu vizinho a esse respeito. Sim, “o que eles vão pensar” é quase um lema entre os alemães puro sangue. Na verdade, a questão é “o que eu pensaria se fosse eles”. No mínimo, que sou um relaxado, é a resposta. De todo modo, a cidade dos alemães é sempre limpa e bem cuidada. E isso não é bom?

Diferentemente dos alcoolistas, que em seu AA aprendem a evitar todos os dias o primeiro gole, aos Alemães Anônimos é permitida – até preconizada – a alemoíce social. Fazer deste mal um bem: contribuir para colocar quem está fora dos trilhos na linha e, ao mesmo tempo, descarrilar uma vez que outra. Começar em casa, sendo afetuoso e aberto – desarmando o espírito dos filhos. Mas aplicar isso também na profissão, na vizinhança, na história. Andar de braços nus e mostrar que não existe a suástica presumida. Dar e pedir colo. Perdoar. E, principalmente, perdoar-se.

P.S.: recomendo a todos o excelente filme O Leitor, de Stephen Daldry. Quadro contundente e detalhista do que é ser alemão. Ou, para casos como o meu, um revelador espelho.

4.2.09

Número 303

PÉTALAS

Bem me quero velho contador de histórias. Crônico aumentador de histórias. Inventor de histórias. Todas elas menores do que uma fração de mini-conto. Muitas sem pé nem cabeça – histórias minhocas. Algumas, poucas, com chance de conter moral. Relatos de outros tempos, mas ainda capazes de seduzir netos, sobrinhos netos, filhos dos vizinhos: a meninada.

Mal me quero velho repetitivo. Incapaz de uma nuance, de um improviso. Cheio de certezas e verdades. O senhor dos fatos com dedo em riste a pressionar uma única tecla. O primeiro a desdizer qualquer fantasia, sonho ou mentira saudável. Duro como uma foto três por quatro. Previsível. Árido. Impermeável. Temido e respeitado.

Bem me quero velho de corpo. Gordinho, se engordar. Enrugado ao permanecer esquálido. Calvo, mas penteadinho. Parceiro para longas caminhadas e pequenas peraltices. Modelo de saúde, não de beleza. E, ao contrário do preceito dos mágicos, com os olhos mais rápidos do que as mãos. Aprendendo – que fazer – anatomia pelo método mais dolorido: a dor.

Mal me quero velho de alma. Talvez preservado por fora, mas carcomido no âmago. Ranzinza. Impaciente. Plúmbeo como um céu eternamente armado para temporais. Puído e desbotado como um uniforme em desuso, mofando no baú cadeado. Rancoroso, se pobre. Avaro, contando com a boa sorte do destino. Ensinando anatomia pelo método mais dolorido: a dor.

Bem me quero velho espiritualizado. Humilde. Aprendiz. Apto para sorrir da dificuldade crescente. Leve, sim, para que a vida – e a morte – ocorram obedecendo a lei do menor esforço. Amoroso sem ser trouxa, cauteloso sem ser covarde, alegre sem ser ignorante. Desapegado de tudo o que me invejam: com meus pássaros voando soltos, fora de gaiolas.

Mal me quero velho materialista. Senhor de escravos, carcereiro, majestade. Egoísta até o último suspiro, motivo de chacota, causador de lágrimas. Vampiro. Preconceituoso, prepotente, hipocondríaco. Assombrado por conspirações, incrédulo na humanidade, pessimista contumaz. Alguém que não tenha sentimentos, e sim interesses.

Bem me quero velho se estiver valendo a pena. Se não causar dano ou sofrimento. Se conseguir me reconhecer no espelho. Se a dignidade me acompanhar. Se merecer a companhia dos mais jovens. Se contar com alguns da minha geração para traçar paralelos. Se continuar um pouco útil. Se não estiver devendo. Se, vivo, não pareça morto.

Mal me quero um velho esquecido pela morte. Isso, mais do que tudo, será o fim. E, na derradeira pétala, para que não mal me queiram, o bem me quero.