29.3.07

Número 208

O MAIS CARO

 

No final deste verão, um incêndio provocado por um raio destruiu o salão do antigo Hotel Vendaval, localizado na minúscula Praia do Barco, um entre tantos balneários do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Fazia bem mais de vinte anos que nenhum hóspede por lá passava – o prédio, na verdade, apresentava uma lenta e dolorosa decadência. Mesmo assim, foi como se as chamas alcançassem o meu coração, distante mais de uma centena de quilômetros do local. Era uma parte importante da minha infância e adolescência virando cinzas.

 

Atualmente, o salão servia de casa para um dos herdeiros, meu amigo Márcio. Portanto, a parte do meu coração que não estava chamuscada, se manteve apertada no peito até que as notícias viessem mais tranqüilizadoras – ninguém ferido, graças a Deus. Mesmo assim, a fúria e a velocidade das labaredas indicavam para a perda material em grande escala. Ou, em outras palavras, não sobraria nada (como, de fato, quase não sobrou). Perguntei sobre os instrumentos e equipamentos musicais (ele é cantor): o que estava no salão, foi perdido. Perguntei pelas roupas e móveis: queimou tudo. Será que nada havia se salvado? Parecia que sim.

 

Algum tempo depois, me contaram que do tal amigo não restou nem a roupa do corpo, que acabou queimada no entra e sai do prédio em chamas. Logo, ele havia se arriscado para salvar, sim!, os seus pertences. Uma TV, quem sabe. Ou a mesa de som, ou um que outro microfone mais difícil de repor. O faqueiro, o microondas, a geladeira, o fogão... Que nada. De acordo com os relatos, este homem se muniu de coragem para buscar algo muito mais caro, precioso demais: alguns quadros com fotos históricas do hotel, da sua família, da nossa praia.

 

Calejado por uma vida que lhe impôs muitas e dolorosas perdas (até mesmo uma filha), o habitante desta casa em chamas não viu a necessidade de salvar nada que lhe valesse no presente ou no futuro. Onde dormiria, o quê vestiria, como cozinharia dali para adiante eram problemas melhor administráveis, em sua urgente escala de valores, na comparação com a perda de imagens impossíveis de serem recuperadas. Imagens sem preço.

 

Fiquei pensando na quantidade de vezes que tragédias metafóricas com a magnitude deste incêndio arrasam as nossas vidas. E também nas diferentes reações que teríamos diante do incontrolável. Poderíamos, quem sabe, sentar inertes no meio fio e chorar todas as perdas, consolados por estarmos a salvo – quem haveria de nos condenar por agir assim? Ou avançar sobre as chamas para buscar nossos bens materiais, nosso dinheiro, aquilo que nos custou tanto sacrifício para comprar, podendo, com isso, até morrer. Mas, provavelmente, os mais sábios seguiriam o mesmo impulso do Márcio, renunciando à segurança pessoal de modo calculado para resgatar aquilo que nos é mais caro, o que é impossível ser recuperado se virar cinzas: a própria imagem. A ninguém deveria faltar coragem ou ímpeto para salvar sua história.

22.3.07

Número 207

PATERNIDADE INSTANTÂNEA

 

Scoop – O Grande Furo, mais recente filme de Woody Allen, é uma deliciosa mistura de thriller policial e comédia de costumes, com pitadas de ocultismo e tendo Londres como cenário. Contudo, nas entrelinhas do criativo roteiro, o cineasta nos serve uma (não) surpreendente receita de paternidade instantânea – daquelas do tipo "agite e sirva" – conseqüência, quem sabe, dos ingredientes de sua vida fora das telas.

 

A trama começa quando Sondra Pransky (Scarlet Johansson), uma jovem estudante que oscila entre o jornalismo e a tradição familiar da higiene dental, é visitada pelo espírito do recém falecido jornalista Joe Strombel (Ian McShane). O local da aparição é a caixa de desmaterialização do mágico Splendini (Woody Allen), durante o truque. O motivo para tal contato é a transmissão daquele que seria o maior furo da carreira de Joe, obtido na Barca dos Mortos: a identidade do criminoso conhecido como Assassino do Tarô que, de acordo com sua fonte, é um herdeiro da aristocracia britânica.

 

A presença de Splendini na trama cessaria logo em seu início, caso não houvesse um detalhe: Sondra (norte-americana, judia e imatura) se reconhece incapaz de fazer a reportagem investigativa sozinha e, talvez por identificação, retorna ao teatro em busca do auxílio do mágico (também norte-americano, judeu e imaturo) para fazer o trabalho. Este, contrariando uma aparente covardia, adota a menina e seu projeto – a ponto de se transformarem em pai e filha na estratégia de se aproximar do suposto criminoso – passando a viver uma divertida (verossímil e radical) figura paterna.

 

Como uma vida em fastword, o filme desfila as mutações de Sondra: de uma menininha indefesa surge a pré-adolescente que morre de vergonha do pai – muito fácil, pois o mágico é especialista em "micos". A seguir, passa a ser desafiadora quando ele se opõe ao seu romance juvenil com o belo Peter Lyman (Hugh Jackman), o suposto Assassino do Tarô. No fim, se revela uma mulher madura e grata. A personagem de Allen, por sua vez, salta em único movimento da posição de velho solitário para pai adotivo, amoroso e protetor. Isto é, tão protetor quanto um sujeito meio maluco consegue ser.

 

Não contarei o final, mas adianto que deixei a sala de projeção convicto de que a paternidade é como uma qualidade congênita, independente até da fertilidade. Tal qual a mistura de bolo do Dr. Oetker, em que basta adicionar o leite e levar ao forno, um pai potencial precisa apenas que alguém lhe adote (o que Sondra, por carência, fez com Splendini). Mais do que nunca, os homens precisam olhar para dentro de si e encontrar o tal pacote de pai instantâneo em suas despensas. Mas não me iludo: há quem não tenha tais ingredientes. O que é uma pena, pois muito da violência na sociedade é resultado da falta de um velho e bom pai em casa. Ou um substituto digno deste nome, fora dela.

15.3.07

Número 206

MULHER

RESUMO ALFABÉTICO

Amor. Todas têm. Nem sempre nos dão. Mas há quem não mereça.

Bolsa. É quase como uma parte do corpo. Não mexa. Nem tente entender.

Cabelo. Raramente perdem. Cuidam bastante. Às vezes, isso sai caro.

Dias. Naqueles, todo cuidado é pouco. Algo meio Dr. Jeckyll e Mr. Hyde.

Escova. Dois tipos: um, carregam na bolsa. Outro, fazem para a festa.

Falsidade. Confie desconfiando um pouco. Não custa. Vai por mim.

G. Ponto G. Persiga: vale a pena! Encontrando, anote o caminho.

Hoje não. Muito mais freqüente do que gostaríamos. É duro...

Intestino. Não é o ponto forte. Com ingestão de fibras, melhora bastante.

Juras. Costumam fazer à toa, e nós acreditamos. Elas, não.

Kendall. Previne varizes – faz muita diferença mais tarde.

Língua. Nossa! Como usam para tagarelar. Mas existem outras aplicações.

Mãe. Cada um tem a sua. A dela será sua sogra, cuidado.

Nádegas. Nunca chame por este nome. Desmerece forma e conteúdo.

Olhos. Olho neles! Reparam em tudo. Mas também entregam o jogo.

Pedidos. Dependendo do tom, são como uma ordem. Obedeça.

Queixas. Fazem muitas. Independente de quanto tentemos acertar.

Risos. Lute para provocá-los. Será meio caminho andado. Ou mais.

Seios. Olhe sem culpa. É mais forte do que nós. Podendo, avance.

Teimosia. Contorne. Use de diplomacia. Não bata de frente.

Útero. É uma das exclusividades. Comanda um bocado de coisas.

Vestidos. Te peguei! Pensou em outra coisa com V, não é? Eu também.

Watt. Não conhecem. Nem Volt. Nem Ohms. E isso não faz falta.

Xereta. Costumam, em algum momento, vasculhar coisas. Até suas.

Zíper. Um obstáculo a ser superado. Abra, e feche o ciclo com o item A.

9.3.07

205

OLFATO

Listas, sejam quais forem, serão sempre diferentes de pessoa para pessoa. Mesmo assim, me proponho a apresentar uma pequena compilação de aromas que considero especiais. Odores que trazem lembranças, prazer, ou que ligam alguma coisa em mim. Um ou outro pode vir a coincidir com o manancial de recordações de quem lê – principalmente os campeões de audiência nos narizes da humanidade. Senão, vejamos.

CHEIRO DE CAFÉ PASSANDO. Um best seller. O perfume do café quase bate o seu sabor, de tão bom. Duvido até que os não tomadores desta infusão considerem o seu aroma desagradável. O cheiro de café tem o poder de nos fazer sentir em casa.

CHEIRO DE TERRA MOLHADA. Apresenta variações: grama molhada, terra sem vegetação molhada, areia molhada, até mesmo calçamento molhado. A chuva, além do seu perfume particular, tem o poder de alterar a paisagem olfativa do lugar. Uma delícia.

CHEIRO DE BRONZEADOR. Hoje, este produto é mais conhecido como PROTETOR SOLAR. Com um nome ou outro, seu perfume é, para mim, o cheiro do próprio sol. Ou do verão. Ou das férias. Enfim, de um conjunto harmônico formado por férias, verão e sol – ainda com uma pitada de infância. Em um dia frio e chuvoso de inverno, uma idéia é abrir uma embalagem de bronzeador para lembrar que o verão existe e logo virá – um elixir contra a depressão.

CHEIRO DE PIPOCA. Vocês já viram carrocinha de pipoca com um painel escrito "pipoca"? Ou propaganda de pipoca? Ou pipoqueiro gritando o nome do alimento para chamar a clientela? Não: isso é coisa de sorveteiro, que, mesmo com um bom produto, precisa colocar fotos coloridas, ter logotipo e corneta. A pipoca se vende sozinha. E o segredo é o maravilhoso aroma!

CHEIRO DO MAR. Demorou, mas cheguei em um não perfume. Afinal, a beira da praia é um lugar no qual vários corpos estão em decomposição. Logo, fedendo um pouco. Mesmo assim, o cheiro do mar me seduz e me balança. Vai explicar...

CHEIRO DE CARRO ZERO KM. Está aí um cheiro bem simbólico. Quase todo mundo gosta de cheiro de carro novo, ainda mais quando é o seu próprio carro novo. Pena que não dura para sempre... Neste quesito, também vale uma observação: não sei se são os carros que mudaram, ou mudou o meu nariz. Porém, em modelos do passado, o automóvel tinha um odor mais particular. Corcel tinha cheiro de Corcel, que era diferente do Opala, do Passat, do Chevette e assim por diante. Se me vendarem os olhos e me puserem dentro destes carros, saberei qual é qual. Nos modelos fabricados atualmente, não terei certeza. Isso é muito estranho.

CHEIRO DE FRANGO ASSADO (OU DE CHURRASQUINHO DE "GATO"). Que me perdoem os vegetarianos, mas a carne assando é de um perfume totalmente perturbador. Simplesmente fantástico e delicioso. E me abre o apetite na hora!

Para finalizar, vou citar dois cheiros que lembram meu pai, em sua homenagem no dia de hoje, seu primeiro aniversário de falecimento:

CHEIRO DE XAXIM. Muito mais marcante do que os incríveis perfumes de suas orquídeas, o cheiro do xaxim me traz a lembrança do pai. Quem sabe pelo motivo de ele ser um homem de trabalho, fazendo o cultivar se tornar ainda mais precioso do que o resultado final.

CHEIRO DE CACHIMBO. Não fumo, nem pretendo fazê-lo. Sequer aprecio o hábito. Mas se alguém estiver fumando um cachimbo a duas quadras distante, sentirei o perfume da fumaça, me fazendo lembrar do pai. Este vício não fez dele alguém mais saudável. Ao contrário. O problema é que não reconheço minha infância sem este aroma. No céu, com sorte, cachimbo não faz mal.

2.3.07

Número 204

INTELECTOCULTURISMO

O que faz um intelectual narcisista no alto da montanha do seu saber é o mesmo o que um fisiculturista defronte ao espelho: espera o eco para deleitar-se com o seu próprio conhecimento. Uma sutil diferença, talvez, seja o fato de o fisiculturismo ser uma atividade bem mais metódica e assumida.

Conheci o fisiculturismo de perto. Até o final dos anos setenta, quem tivesse vontade de praticar levantamento de pesos para ficar forte mais rapidamente, não encontrava academias como as de agora. Na calistênica época, se alguém dissesse "fitness", diríamos, saúde! As alternativas, então, eram os clubes de fisiculturismo. Entrei no Clube Apolo, de propriedade do Sr. Arnóbio, que só pelo nome se tem idéia da figura.

O lugar era (é?) muito diferente de tudo o que me rodeava. A começar pelos principais "atletas" da casa: todos ganhando a vida em boates de barra pesada (perdão o trocadilho), uns atuando como segurança, outros fazendo performances, e um terceiro grupo nas duas atividades. Os "professores" aplicavam um receituário empírico que, óbvio, funcionava ou não para cada aluno. O fisiculturista dito profissional, por sua vez, passava lá por volta de seis horas diárias, hipertrofiando e aprimorando o corpo. O objetivo era estar schwarzeneggericamente perfeito na época de campeonatos. E dá-lhe espelho!

Travei contato com os intelectoculturistas bem mais tarde – para freqüentar este clube, só estando mais velho um pouco. Até muito recentemente, sequer desconfiava que eles existiam, por mais que aparecessem na minha frente. Precisou a minha esposa, que circula no meio acadêmico o tempo inteiro, apontá-los, esses dissimulados. Por analogia, um intelectoculturista é aquele estudioso que passa horas, dias, existências lendo e se ilustrando para, no final, estar mais preocupado em admirar seus próprios bíceps conceituais, grandes dorsais lingüísticos, deltóides filosóficos. Muito pouco diante de tanto investimento cerebral.

Imagino que, ao apontar nesta crônica a semelhança entre estes dois grupos de narcisistas, estarei desagradando ambos. Não é para menos: aparentemente, nada é mais diferente do que um e outro. Mas, na essência, eles se igualam em quase tudo, até mesmo na suposta utilidade de seus concursos de beleza. Eu? Continuo tão magro quanto no tempo do Clube Apolo e olhando-os com uma certa admiração. Afinal, sei que nunca serei um deles. Aliás, jamais alcancei 20% de suas persistências, para o azar do meu espelho.

22.2.07

Número 203

ESCONDE-ESCONDE

Nessa vida, uma das maneiras de aprender sem parar é ter filhos. Uma grande lição acabamos de receber da caçula, que está em plena efervescência por causa da mudança de escola -- e entrada na primeira série. Na expectativa sobre as novas amizades, nos confessou um método que usava na antiga escolinha, sempre que queria livrar-se da companhia indesejada de um determinado colega. Para não ferir os sentimentos do menino, convidava-o para brincar de esconde-esconde. Então, escondia-se e não aparecia mais. Genial!

Quem dera nós, os adultos, podéssemos fazer tal confissão com tanta serenidade (até mesmo para si). Afinal, foi só pensar um pouquinho para concluir que já propus tal jogo muitas vezes durante a vida, em relações de trabalho, amorosas ou mesmo fraternais. Vítima do brinquedo também fui, demorando um bocado de tempo até me dar conta do ocorrido e interromper a busca inútil. Seja me escondendo, seja procurando quem sumiu, quase nunca pensei que o motivo oculto pudesse ser o desejo sincero de não aborrecer (e aborrecer-se) com a verdade incofessável: a companhia em questão ser indesejada.

Até hoje, o uso de subterfúgios para evitar a presença de alguém me soava como uma espécie de covardia. O certo, o justo, o corajoso, seria falar a verdade, fosse ela ferir ou não o interlocutor: "Fulano, tenho mais o que fazer". "Beltrana, este problema é seu". "Sicrano, você está me perturbando". Porém, a partir de agora, seguindo o ponto de vista da filha, me despreocupei um pouco. Na realidade, o uso de jogos de esconde-esconde também pode acontecer por outro motivo, que é a saudável preservação do convívio social. Por mais virtuoso que alguém 100% sincero possa parecer, duvido que ele conte nos dedos muitos amigos. Muita franqueza soa como algo por demais intolerante. Esconder o que pensamos e esconder-se de quem nos perturba, além de necessário, pode ser generoso.

Por falar em tolerância, imaginei a lista enorme de pessoas que eu não tenho a chance de convidar para um bom esconde-esconde e, depois, sumir. Ou, quem sabe, pedir a elas que se escondam para jamais procurá-las. Lamentavelmente, são nomes que vivem em jornais, em programas de rádio e TV. Portanto, por mais que eu queira não vê-los, teimam aparecer na minha frente, me forçando a aturá-los. Eles desaparecerão apenas quando lhes for conveniente, sem dar a ninguém a chance de abrir contagem. Pior: deixando outro bem desagradável no lugar. Coincidentemente, são os seres humanos mais hábeis na arte de dissimular, de ocultar as verdadeiras intenções e julgamentos. Em outras palavras, na arte de fazer política.

Minha menina, no alto dos seus seis anos, intui com muita precisão o jogo de esconder e revelar que a convivência obriga a todos. Me absolve, também, quando apresenta um motivo nobre para, ela mesma -- tão cedo! --, praticá-lo conscientemente. Com ou sem metáforas, me restou uma preocupação: para quem eu estaria neste exato momento de olhos vendados, contando até cinqüenta, enquanto me evita?

16.2.07

Número 202

O BAILE

Existem noites que, assim como gols, merecem uma placa de bronze. Verdadeiras honras ao mérito. Em meus carnavais, tive mais de um momento de exceção que ganharam, na parede da memória, uma plaquinha comemorativa. Nada, porém, comparado com a história que vou contar. Ela aconteceu com uma grande amiga, que chamarei de "amiga" (ou apenas "ela") para que sua face permaneça misteriosa como a mulher atrás da máscara em Veneza.

Ela, então, estava disposta a investir no plano de passar a noite carnavalesca de gala em um famoso baile carioca. Digamos que seja o baile do Copacabana Palace -- exemplo bem emblemático de noite perfeita, assim como o são os camarotes da Sapucaí. Como as fadas madrinhas andam escassas no mercado, a maneira encontrada foi apelar para o infalível jeitinho brasileiro: entrar via porta de serviço. Contando com um amigo influente, que fez todos crerem ser ela uma maquiadora vinda das bandas do sul, ocupou uma das vagas da equipe de produção na última hora para, deste modo, galgar o direito de lá permanecer durante a festa.

O plano estava perfeito e a minha amiga programou-se para instrumentar os verdadeiros maquiadores da noite, alcançando um rímel aqui, um lápis acolá. Ledo engano. Mal chegou na sala de onde sairiam os convidados antes de vestirem suas fantasias, alguém sentou-se à sua frente para receber a maquiagem. Ela sorriu, o rapaz sorriu, os demais ocupantes da sala sorriram. Se houvesse balões como os de revistas em quadrinhos, cada um dos sorrisos estaria dizendo algo diferente. O dela, com certeza, diria "agora ferrou", ou um termo parecido, mais chulo um pouco. Tremendo como vara verde, procurou ganhar tempo perguntando sobre como era a fantasia dele, o que estava esperando para a noite, coisas assim. Enquanto isso, olhava o trabalho que os outros (e verdadeiros) profissionais desenvolviam, discretamente.

Com o lápis delineador nas mãos, mediu o rosto do convidado na vertical, na horizontal (tipo um grande pintor em busca do ângulo ideal) e pôs as mãos à obra. Mantendo um olho no padre e outro na missa que se rezava ao lado, desenhou, pintou, coloriu e contornou a sua inexperiência com as cores fortíssimas da audácia e da superação. Aplicou muita simpatia e sombra nos olhos. Disfarçou a incapacidade de fazer um traço reto na temática tribal que pedia, por sorte, o motivo da festa. Ao terminar, exausta, a primeira cobaia, percebeu que a noite prometia: um segundo convidado já estava à sua frente, e um terceiro anunciou que desejava ser maquiado pela "gaúcha". O negócio era não relaxar e, ao mesmo tempo, relaxar. Um samba do crioulo doido.

Quase cinco horas e dez convidados depois, na sua maioria homens (lindos, segundo a protagonista), ela havia conquistado o mais do que legítimo direito de vestir seu exuberante longo e fazer a festa. No entanto, era preciso vencer mais um desafio: seu próprio cansaço! A mão que se tornara firme por obrigação de circunstância, deveria maquiar o próprio rosto com a intenção de disfarçar o esgotamento que a tarefa lhe custou. Naquele momento, o conforto de um travesseiro rivalizava em sedução com o sonhado baile, por mais inacreditável que isso pudesse parecer. Mas havia uma grande vitória para comemorar no salão.

Algum tempo depois de ouvir essa história, cuja riqueza de detalhes mereceria um capítulo inteiro de uma comédia, jamais uma pequena crônica, me dei conta de que muito pouco foi falado sobre o baile em si. Não guardei quais músicas foram executadas e por quem, se amanheceram na praia, se ela se casou na festa. Caso alguma celebridade tenha feito algum vexame ou tomado algum pileque, passou batido. Foram tantas as nossas risadas acompanhando a teatral descrição das peripécias na sala de maquiagem, que a conversa quase dispensou a entrada no salão. A noite mereceu uma placa de eternidade antes mesmo do primeiro acorde da orquestra, em seu tradicional naipe de metais. Um baile cuja improvisada fantasia esteve sob medida para a minha amiga, metaforicamente, não dançar naquele carnaval.

7.2.07

Número 201

PARIS, LIBERDADE E IGUALDADE

Saiu no jornal: o Judiciário norte-americano condenou a milionária socialite Paris Hilton a três anos de liberdade vigiada. A sentença é devida ao crime de dirigir alcoolizada. Quem sou eu para divergir da justiça, mas, na total ignorância, percebi duas incoerências estranhas na punição da jovem perua: primeiro, ou a tal Paris não era livre, ou antes era dispensada de vigilância (um preceito quase divino). Por fim, como alguém que capitaliza sua celebração mundial ao ser perseguida de perto -- dia e noite -- por um batalhão de paparazzi só agora, depois da sentença, será vigiada? Ela já não era extremamente vigiada antes?

Minha vida não é muito diferente da vida do leitor: sou um eterno condenado à liberdade vigiada. Quando era pequeno, quem me vigiava era a mãe e o pai. As irmãs mais velhas eram outras a vigiar um pouco, outro tanto os adultos responsáveis que me rodeavam. Mais tarde, taludinho, também passei a ser vigiado por professores, diretores e "xerifes" da escola. Na medida em que o tempo foi passando, a vigilância sobre mim -- um inofensivo rapaz latino-americano sem parentes importantes -- ganhou o reforço das Polícias Militar, Civil e Federal, do Tesouro Nacional, dos Fiscais de Trânsito e das demais autoridades constituídas. Nas poucas vezes em que saí do Brasil, os funcionários da Alfândega e da Imigração deixaram claras as suas intenções de vigia. Feliz era a Paris: só agora foi condenada à pena que me acompanha de forma perpétua. Ela, só por três anos, é claro.

Estou exagerando? Os cinco "pardais" que separam a minha casa do centro de Porto Alegre dizem que não. As blitzes constantes nas quais sou convidado a mostrar meus documentos e os do carro também confirmam a tese. Sem falar que, como todos, nem ouso deixar de me comunicar com o pessoal do Imposto de Renda dentro do prazo, bem comportadinho. Se eu me esquecer de pagar por um produto em uma loja do shopping, duvido que a vigilância local vá relevar apenas por meus olhos claros. Até mesmo a esposa, nada ciumenta, gosta de saber por onde ando (um saudável cuidado que igualmente mantenho com relação a ela, sem pressão). Enfim, liberdade vigiada é uma condição da vida em sociedade. Talvez não na hight socite...

Por outro lado, vamos analisar o mundo das celebridades: serão livres os famosos? A resposta pode ser um nada esclarecedor "depende". No meu caso, garanto, ninguém cutuca o companheiro na rua apontando em minha direção para dizer "olha, olha: é o Rubem ali!". Também não soube de fotógrafos e cineastas amadores registrando algum beijo mais ardente, uma gafe durante um show ou o fato de estar na companhia de outra mulher que não a minha, tomando um sossegado cafezinho. A Paris e seus pares (com o perdão do trocadilho) não gozam desta liberdade típica dos anônimos. Logo, o Juiz só fez chover no molhado ao condenar a moça à liberdade vigiada. Suponho que, quando a loura se virou para o advogado e perguntou que diabos de sentença era aquela, o profissional deve ter dito: estás condenada a ser Paris Hilton por três anos. Só resta saber se ela entende ironia.

Admito desconhecer os meandros das leis do povo americano do norte. Vai ver que eles costumam sempre aplicar um "dou-lhe uma!" legal diante de crimes mais brandos, ou de criminosos de costas mais largas. Quem sabe com um caráter educativo... Ou talvez a Paris seja mesmo uma espécie de rainha ou deusa que, só agora, e por suaves três anos, será submetida à vigilância das instituições, postadas lado a lado com os fotógrafos. Por uma questão de igualdade, o método até seria bacana de ser aplicado no Brasil, especialmente na Capital Federal: com tanta competência quanto os fotógrafos que assediam a Dona Marisa Letícia (antes era a Dona Ruth), representantes legais do povo vigiariam Lula, zelando por nossos interesses. Ah, como fui esquecer, isso já acontece: é um dos preceitos do Poder Legislativo. O que, diante da qualidade parlamentar, não é nenhum alívio.

1.2.07

Número 200

Primeiro havia as crônicas semanais e não havia um nome. Na semana 81, o batismo em homenagem ao lado baterista: Rufar dos Tambores. Agora, na aniversariante 200, a newsletter finalmente recebe um formato de verdade. Minha gratidão ao artista gráfico Rogério Gil, um velho amigo, e aos compadres Helio Soares e Lilian Lima – esta última que seu eu chamar de velha amiga, briga comigo!

FORMA X CONTEÚDO

Sempre que leio textos sobre a polêmica relação entre homens e mulheres – cada qual se achando mais valioso –, me recordo de outra disputa igualmente famosa: o que tem mais valor, a forma ou o conteúdo? A essência ou a aparência? A apresentação ou a mensagem? Que se movam os exércitos para um lado e para outro, pois batalhas como essas não têm hora para terminar.

Sou um criador mais afeito ao conteúdo. Meu universo é a palavra e o campo simbólico. Escrevo e falo esperando que o enunciado seja compreendido e "terminado" na mente de quem recebe. Porém, isso é muito mais determinado por minhas deficiências do que por um pretenso talento: na verdade, desde a época de publicitário, morro de inveja dos artistas plásticos e gráficos; dos desenhistas e dos fotógrafos. Estes, sem se gastarem com palavras, falam até demais.


Para não dizer que sou completamente incapaz de produzir imagens, me sirvo da poesia – a maneira de desenhar que dispensa os pincéis. Mesmo assim, gosto mesmo é de combiná-la com a melodia para ver nascer uma canção. E, outra vez, fico dependendo de companheiros talentosos para juntar as notas musicais. Feliz de quem sempre encontra parceria para completar uma obra!


Do mesmo modo como o amor e/ou o sexo utilizam a diferença para perpetuar a espécie, combinando homens e mulheres, a forma e o conteúdo também estão a serviço de algo maior: gerar conceitos. Estes, tal qual um filho, nascerão tão mais bonitos e completos quanto mais herdarem coisas legais dos criadores. De uma idéia nascida em papel pardo escrito à mão até ela se tornar, digamos, um filme cinematográfico baseado em imagens computadorizadas, tudo será regido pelo casamento harmônico (ou não) de forma e conteúdo. Nem a moda, nem a arquitetura, nem a dança, nada escapa desta verdade: o importante é a concepção do conceito.


Evoquei esta relação entre homens e mulheres de propósito, pois simboliza com exatidão minha devoção às manifestações artísticas que não domino: admiro a mulher, mas não desejo ser uma. O que me atrai nela é justamente o que me falta. Assim, quando vejo a capa de um livro, ou sua editoração caprichada, nasce uma inveja positiva, que enaltece aquele que, ao contrário de mim, é apto para produzi-la. O mesmo vale para um encarte de CD, a formatação de uma página de internet, o cartaz de um show. Quero nunca me afastar destes talentosos seres capazes de lidar com a forma a ponto de chegarem ao desejado conceito – mesmo destino que busco com as palavras. No mínimo para compartilhar de ótima companhia durante o trajeto!

28.1.07

Quase pronto...

Em fevereiro, a crônica número 200.

Agora no Blogger.