25.4.08

Número 261

MÍDIA CRUCIS II

Nas derradeiras estações, um exercício de imaginação considera como a Via Sacra repercutiria na imprensa atual:

A CARAVANA DE JERUSALÉM. Judéia. Quem julgava iminente a chegada de Jesus de Nazaré em seu Calvário foi surpreendido com um repentino movimento de resistência. O grupo feminino denominado As Mulheres de Jerusalém promoveu uma passeata em represália ao veredicto de Pilatos. Dispersadas pela ação policial, denunciaram, entre outros abusos de autoridade, a cruel perseguição aos Apóstolos, todos foragidos. Editorial: A flor vencendo a catapulta.

TERCEIRA QUEDA – TARDE DEMAIS. Judéia. O aparente esgotamento físico de Jesus Nazareno, responsável por sua terceira e última queda, aconteceu em um momento tardio: aos pés do Monte Scopus. O local, escolhido para acomodar atos de punição por sua excelente visibilidade, tem um cume amplo o suficiente para abrigar mais duas cruzes, hoje destinadas a ladrões. No Caderno de Viagens: Via Sacra – como nascem os roteiros da fé.

O REI ESTÁ NU! Escândalo na Judéia! Não bastassem as tantas humilhações, Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus, é despido de suas vestes ao pé da cruz. Contudo, a atitude gerou um efeito contrário ao esperado, pois o Profeta apresentou um porte considerado divino pela assistência. Maria Madalena, procurada por nossa reportagem, negou-se a dar qualquer depoimento. E mais: A dieta balanceada do pão e do vinho.

TEMPOS DE CRUELDADE! Judéia, urgente! Um espetáculo de violência e brutalidade, iniciado com açoites e seguido de toda ordem de atrocidades, culminou com uma covardia jamais vista: na frente de uma multidão cúmplice e apoiadora, Jesus de Nazaré foi cruelmente pregado na cruz. Calou-se até o pessoal dos direitos humanos, que acompanhava o crucificar dos ladrões. Em nosso editorial: “Que dirão de nós daqui a 2000 anos?”.

MORTE AO ABANDONO DE DEUS. Judéia. “Oh, Pai, perdoai-vos. Eles não sabem o que fazem”. Ditas as últimas palavras, morreu Jesus de Nazaré. Segundo as autoridades, ainda é cedo para afirmar se a causa do óbito foi o esgotamento físico imposto pelo percurso, o sangramento no crânio, as hemorragias nos pés e nas mãos, o quadro de insolação ou resfriado advindo da seminudez. Não descartam, também, o lancinar no coração. Aguardam-se mais informações com o resultado da perícia.

MARIA CHORA COM O FILHO NOS BRAÇOS. Judéia. Abalos sísmicos de 5,4 graus denunciaram a morte daquele que denominavam Rei dos Judeus. Enquanto autoridades públicas creditaram o fato a uma enorme coincidência, circulava um boato em instâncias religiosas de que um erro de avaliação pudesse ter sido cometido – versão negada em Roma. De concreto, apenas a dor de uma mãe que sofre com o jovem filho morto em seu colo. No caderno Lar & Família: Quando os filhos deixam de ser preocupação?

MORTO E SEPULTADO. Judéia. Ocorreu ontem o sepultamento de Jesus de Nazaré. Com a intercessão do poderoso José de Arimatéia, o corpo foi liberado e encaminhado ao sepulcro. Acompanharam a cerimônia apenas os parentes e amigos mais próximos. Alertado de uma pretensa ressurreição, Pilatos mandou montar guarda no local. Até o final desta edição (sábado), nenhuma novidade.

Conto contíguo 5

CONTO CONTÍGUO

DESCORTINADA

Houve um dia de grandes revelações. Um recorte na minha vida. Era uma manhã de dezembro, bem naquele espaço entre o final das aulas e o Natal. Senti medo – que papelão... Pudera: tinha dez anos e, mesmo já crescido, nunca havia imaginado nada nem parecido. Sim, escondem essas coisas da gente.

Eu jogava no gol, e a regra era clara: o goleiro, por não estar cansado de tanto correr, buscava a bola que ia para fora. Fui, que remédio. A bola rumara para o jardim dos fundos da casa do seu Jurandir. Muro baixo, sem cachorro. Fácil. Quer dizer, em termos. O homem era brabo – não gostava de ninguém pulando para dentro do pátio. Mas eu era ágil. Ladino. Goleiro!

Olhei bem antes de saltar: a bola estava encolhida debaixo da grande roseira, com o risco de sair furada por algum espinho. O canteiro ficava bem no meio de dois ares-condicionados – um para cada quarto. As janelas estavam abertas e as cortinas se agitavam para fora com o vento, como se me abanassem para longe dali. Devia ter desconfiado de algo. Crianças não ligam para prenúncios.

Os gritos que vinham do campinho me apressavam. Olhei para um lado e para outro. Atirei-me. Passei pelo trilho de cascalho que levava para a garagem, pela casinha do gás, pela verde mangueira de jardim – espalhada no chão – e cheguei na primeira janela. A bola estava a três passos de distância, bastava me esgueirar e apanhá-la. Então, o inesperado.

Aconteceu de a cortina esbarrar no meu rosto, chamando o olho para dentro do quarto. Lá, deparei com dona Jurema só de toalha. Segurei a cortina ligeiro, tentando me esconder e, ao mesmo tempo, continuar olhando. A mulher era enorme: faltava toalha para todos os lados. Estava de costas para a janela – sorte a minha. Abriu a porta do roupeiro e, pasme!, atirou a toalha na cama.

Quando eu cheguei de volta ao campo, segurando a bola, me perguntaram o que havia acontecido. Disseram que eu estava com a aparência de quem tinha visto fantasma. Menti que o velho Jurandir quase me pegara dentro do pátio. Acreditaram. O jogo recomeçou e eu tomei três gols fáceis de defender. Pedi para sair. Fui para casa.

No caminho, cruzei com a dona Jurema, que puxava o carrinho de feira. Olhou para mim e piscou. Petrifiquei. Virei para trás e acompanhei aquelas enormes ancas sacudindo o vestido estampado. Naquele momento, só eu sabia. E o seu Jurandir, na certa. Dona Jurema, incrível, tinha quatro bundas.

18.4.08

Número 260

MÍDIA CRUCIS I

A julgar pela insistente – e muitas vezes apelativa – cobertura da imprensa em casos como o da morte da pequena Isabella, especulo sobre as maneiras de repercutir os acontecimentos da Via Sacra, recém lembrada na Quaresma.

CULPADO! Judéia. Em concorrido julgamento – com lotação esgotada no Pretório –, Pôncio Pilatos, o homem forte de Roma, lavou suas mãos. Com este gesto, condenou Jesus de Nazaré à pena capital, a ser cumprida na cruz. Acompanhe a inconsistência da acusação, o dilema de Pilatos, a repercussão popular, os desdobramentos políticos e um artigo exclusivo: Jesus X Pilatos – a quem a História absolverá?

TERÁ JESUS COSTAS LARGAS? Judéia. Imagens exclusivas flagraram o momento exato em que os Centuriões Romanos depositaram a cruz nas costas de Jesus Nazareno, já ornado por uma coroa de espinhos. Parte da população esperava a intervenção de Deus em favor do filho, hipótese negada pelo próprio condenado. Fatos como esse abalaram a credibilidade do Profeta, em declínio nas pesquisas. Veja, também, nessa edição: Onda de crimes – haverá madeira para tanta cruz?


PRIMEIRA QUEDA – UM PERCALÇO ANTECIPADO. Judéia. Conforme havia sido previsto por especialistas, um erro de projeto deixou a cruz destinada à execução de Jesus de Nazaré pesada demais. Tal equívoco fez surgir uma banca de apostas na terceira estação, na qual se especula a chegada de Cristo ao Calvário. No caderno Vida & Saúde, artigo inédito: Força da fé – uma análise teólogo-cinesiológica.

MARIA SE DESESPERA: “AI MEU JESUS!” Judéia, urgente. Sobe a tensão na Via Crucis: contrariando a expectativa das autoridades, Maria, mãe de Jesus, rompeu o cordão de isolamento e alcançou o filho em meio ao suplício. Depois de passar mal e ser amparada por populares, Maria se recusou a falar com a imprensa: “Saiam daqui! Vocês estão a serviço de Roma!”. Em nosso editorial: Ser mãe e padecer no paraíso.


SIMÃO SOLTA A CRUZ (E O VERBO). Judéia. Acompanhe a entrevista exclusiva no exato momento em que Simão Cirineu soltou a cruz. Veja o que pensa o homem que, por instantes, sentiu a responsabilidade de ser um Profeta. Destaques: “O povo está sendo manipulado pelos sacerdotes”, “A cruz pesa que é um demônio!”, “Isso aqui é importante, claro, mas não podemos nos esquecer dos escravos do Egito”. Na coluna Empresas & Negócios, Os Vendilhões do Templo.


TODOS OS ÂNGULOS DE VERÔNICA. Judéia Cultural. Depois de se tornar uma celebridade instantânea, Verônica – a mulher que limpou o rosto de Jesus – posa para uma série de retratos. A moça, recém tornada sócia de uma manufatura de utilidades de cama, mesa e banho, mostra o pano ensangüentado e garante que também é de sua lavra a toalha da Santa Ceia. Mais: dicas para uma prática receita de Kafta na bandeja.

JESUS VOLTA A CAIR. Judéia. Em nova queda de Jesus, sobem as especulações de que a Via Sacra não ultrapassará a sétima estação. Analistas consideraram insuficiente o aporte fornecido por Simão Cirineu, quadro agravado pelo forte calor no Oriente Médio. Porém, fontes próximas ao Profeta garantem que as reservas do Jesus são milagrosas. Na coluna de Recursos Humanos & Gestão: Persistência – eis o segredo de sucesso.

Continua na próxima semana...

Achado não é roubado 4

ACHADO NÃO É ROUBADO

AMA DOR:


Diz-se de que parou de praticar esportes, passou dos quarenta e não resiste ao ser convidado para uma peladinha.

10.4.08

Número 259

XADREZ, PRETO NO BRANCO

Peões.
São, de longe, os mais numerosos. Estão na linha de frente e isso não é reconfortante. Ao contrário, o estrategista não pensa duas vezes antes de lançá-los adiante, mesmo que em poucos movimentos encontrem a morte inglória. Vivos, servem de escudo. Ou moeda de troca. A parca mobilidade e a posição vulnerável são superadas em uma única e improvável alternativa: trilhar todo o tabuleiro incólume e, suprema glória!, tornar-se uma peça mais nobre, quem sabe até uma rainha. No movimento seguinte esquecerá que um dia foi peão.

Cavalos.
Nasceram para fazer o que deles se espera: passar por cima de tudo e de todos – movimento físico capaz de abrigar em si a galopante metáfora. São úteis na defesa e no ataque. Mas há quem não consiga dominá-los. Montar boas estratégias em cima de cavalos é considerado jogo elevado, superior. Basta reparar que as crianças (e os principiantes em geral) mais se divertem com o deslocamento em “L” do que tiram proveito dele. Quando descobrem sua força, vêem-se fascinados. Perder os cavalos é ficar a pé no tabuleiro.

Bispos.
Movimentam-se segundo os princípios divinos: reto, apenas por vias tortas. Encontram saída mesmo quando alguma peça está postada bem à sua frente, ou cerceando o movimento lateral. A força dos bispos nasce do poder deste estranho viés. Se pregam a palavra de um deus, nem assim deixam de servir ao seu rei, negro ou branco. E, por ele, matam ou entregam suas vidas em sacrifício. Não à toa estão ao lado da nobreza quando o jogo principia: a fé e a política parecem andar sempre juntas.

Torres.
Obras concretas da engenharia: sabem tudo de ângulo reto. Nada tira uma torre de seu trilho, não importa o tamanho do deslocamento. Estão nas extremidades do tabuleiro não por acaso: dão a ele ares de fortificação. Nem no mais moderno e inusitado movimento do xadrez, o roque, elas abandonam sua bitolada razão de ser, impondo ao monarca um corrupio à sua volta. Não costumam cair no princípio do combate, servindo de linha de defesa e, sobre um adversário debilitado, uma espécie de avanço imobiliário especulativo.

Rainha.
La donna è móbile qual piuma al vento. No jogo em que a capacidade de deslocamento dá a idéia do poder de cada peça, a rainha é mais do que tudo uma soberana. Exceção feita ao salto do cavalo, nada limita a articulação da esposa do rei. Luta pela integridade de seus domínios e se revela uma guerreira talentosa e fria. Quando declina, expõe ainda mais a debilidade do rei, que estará disposto a se casar com o primeiro peão (peã?) que conseguir atravessar o tabuleiro.

Rei.
Ah, o rei... Uns dirão que é uma peça de movimentação limitada pelas cruéis amarras do bom senso, da diplomacia e da moderação. Outros que não passa de um egocêntrico mimado e insensível, capaz de sacrificar a tudo e a todos para manter ou ampliar os seus domínios. Até há quem o julgue um covarde, preocupado apenas em não morrer. Porém, ruim com ele, pior sem ele. Afinal, quem disse que do outro lado da disputa existe um presidente ou um primeiro-ministro? Existe? Ah, pois é...

(Mini) Conto Contíguo 4 - combinando

(MINI) CONTO CONTÍGUO

CHEQUE


Os peões invadiram a casa do rei. Aplausos do bispo. Caíram as torres. Soltaram os cavalos. À rainha só interessava a pensão.

4.4.08

Número 258

AS CERTEZAS EM DÚVIDA

– Com certeza!

É pouco provável que alguém tenha feito uma estatística sobre isso, mas sinto bastante elevada a quantidade de entrevistados que hoje em dia iniciam suas respostas com o bordão acima. Determina este grau desmedido o excesso de jogadores de futebol diante de microfones (eles adoram bordões) e o vício da imprensa em perguntar afirmando – Galvão Bueno fez escola. Este número inflacionado de certezas, no entanto, deveria criar no espectador (ou no ouvinte) algumas dúvidas. Explico.

De onde tiram tantas certezas? Essa questão se impõe na medida em que, com o passar do tempo, menos delas eu tenho comigo. Seja na política, seja na ciência, na profissão, nas relações afetivas etc, novos fatos e criativos pontos de vista demolem todos os dias qualquer antiga e sólida certeza. Até mesmo no futebol, ou principalmente nele, as certezas têm me parecido mais raras do que nunca. E, justo agora, o entrevistado se adianta em estar convencido. Quem entende isso?

Outra dúvida: onde foi parar a genuína convicção? Sim, na medida em que escuto com uma freqüência avassaladora o com certeza ser sucedido de um mas. E, depois dele, uma opinião diametralmente oposta à certeza dita no começo da argumentação. Ou os entrevistados andam muito gentis com os argüidores, envergonhados em desmenti-los, ou o com certeza está saindo no piloto automático, sem necessariamente fazer algum sentido. Portanto, mais inútil do que geladeira para esquimó.

Também não compreendo o fato de a riqueza da língua pátria estar assim desperdiçada. Se a certeza existe – vamos creditar ao entrevistado o benefício da dúvida –, por que não começar a resposta com um sucinto sim? Ou com um breve de fato? Ou um coloquial isso mesmo; um elaborado partindo desta tese; um conclusivo lógico; um lacônico parece; um descomprometido você é quem afirma? Com tantas maneiras interessantes de começar uma resposta, qual seria o motivo de permanecerem todas elas guardadas na memória enquanto o com certeza já anda puído de tão gasto?

Há um grande movimento nacional no combate à praga do gerundismo. Até onde sei (olha aí outro bom começo...), ninguém quer, com ele, extinguir o gerúndio, e sim deixá-lo com a proporção equilibrada no ecossistema do nosso idioma. Lanço agora, caso ainda não tenha sido feito, o combate profilático ao com certeza nas entrevistas. Ora, dirão: quem seria eu para indicar a alguém como deve ou não iniciar uma resposta ao microfone. Mas, e se não estiver sozinho? Se não sou o único incomodado com a expressão?

Bom, já me serve o semear de uma dúvida nos leitores deste texto: será que este bordão, quando dito, não estará me desfavorecendo, nivelando por baixo, rebaixando minha opinião? Se você concorda comigo, fique atento na hora de responder entrevistas e passe a crônica adiante. Estaremos prestando um bom serviço para a sociedade. Com cert... Digo, imagino que sim!

É TERÇA-FEIRA: APEREÇA LÁ!


28.3.08

Número 257

PARÁBOLA HIPERBÓLICA

O líder do governo e o líder da oposição estão caminhando pelo corredor do plenário da Câmara quando tropeçam em uma lâmpada maravilhosa. O primeiro acusa o oposicionista de tentar derrubar o governo. O segundo aponta falhas na coleta de lixo. Ambos, porém, seguram a lâmpada e a puxam para si. Neste jogo de forças terminam por esfregá-la nas mangas dos paletós, evocando um gênio que estava adormecido desde tempos imemoráveis.

O gênio anuncia os três desejos de praxe. Como não faz idéia de quem o libertou, pede para que se entendam com relação aos pedidos. O líder do governo reivindica para si o monopólio dos desejos, uma vez que, de acordo com a própria oposição, a coleta do “lixo” é de sua responsabilidade. O líder da oposição apresenta outra tese: se houve tentativa de derrubada do governo com a lâmpada, ela e seus pedidos pertencem à oposição. O gênio aparta mútuas agressões. Os líderes concluem que o gênio postado ali, entre eles, só atrapalha. Mandam e puf: lá vai o gênio para uma poltrona da galeria. (cumpriu o primeiro pedido)

O líder do governo sobe ao púlpito para um pronunciamento. Acusa o líder da oposição de barrar os atos do Poder Executivo, que no momento conta com a ferramenta mais eficaz de implementação do bem-estar nacional: uma lâmpada encantada e três desejos. Projeta um país sem miséria, sem fome, sem analfabetismo. Louva a saúde pública que nascerá dos novos tempos; a infraestrutura, o saneamento básico e o sistema financeiro equilibrado. Diz que não admite o tom oportunista e ímpeto destruidor da oposição. Desce ovacionado pelos partidos da base aliada.

Quando chega na tribuna para suas palavras, o líder da oposição alerta para o risco que corre a democracia com o uso eleitoreiro da magia. Pergunta se é seguro franquear unicamente ao governo o poder libertado da lâmpada – uma manobra, bem ou mal, conjunta. Além do mais, como confiar nas promessas de quem faz tudo o que combatia quando as posições estavam invertidas? Encerrando o pronunciamento, o líder da oposição se dirige ao líder do governo dizendo que age igual ao governo no tempo em que era oposição, não podendo, deste modo, ser condenado por isso. O gênio, mesmo sendo um gênio, não consegue acompanhar a lógica ou os aplausos.

Dezenas de parlamentares de diversos partidos se inscrevem para discursar, cada um defendendo o legítimo direito de seu grupo usar o poder de modo arbitrário. Por duas vezes o gênio levanta a mão, alegando ter a saída para o impasse. Em uma, pedem para que se cale, pois é vetada a manifestação das galerias. (ele atende ao segundo pedido) Na outra, solicitam que se retire, ou chamarão a segurança. (enfim, o terceiro pedido).

O gênio retorna para a lâmpada convicto de que as instituições democráticas do país estão bastante sólidas. O problema continuará sendo a distribuição de renda, a saúde pública, educação, infraestrutura etc. Sem que ninguém perceba, a senhora do cafezinho recolhe a lâmpada junto com jarros de água. No dia seguinte, os embates no Plenário da Câmara ganham as manchetes dos jornais. E, perdida em notinha de pé de página, sai a notícia de que a Mega-Sena foi sorteada para a Capital Federal.

Convite!


19.3.08

Número 256

CONCORRÊNCIA PASCAL

 

Aproxima-se o final do convênio dos coelhos para animal símbolo da Páscoa. O Criador dá sinais de que pode não fazer outra renovação automática. Com tais rumores, os exemplares do Diário Oficial se esgotam rapidinho. E, de acordo com o Edital, para participar dessa concorrência animalesca é preciso cumprir uma exigência prévia: não estar em vias de extinção – sabe como é, os contratos com o Senhor são longos. Cumprida a premissa, basta à espécie encaminhar um envelope com breve arrazoado defendendo os motivos para ser, dali em diante, a nova alegoria de fertilidade. Tive acesso a algumas propostas. Revelo com exclusividade.

 

Ratos de Páscoa.

Nós, ratos, pleiteamos o cargo de animal símbolo da Páscoa por sermos tão ou mais férteis do que os coelhos. Além do mais, somos mais numerosos. Muitos de nós prestam relevantes serviços à ciência (ratos tão brancos quanto os tradicionais coelhinhos). Com adequado trabalho de marketing, revertemos fácil qualquer imagem negativa – vide os cases do Topo Gigio, Stuart Little, Ratatui e, claro, do Mickey. Periodicamente, podemos promover a integração Ocidente/Oriente via Ano do Rato do calendário chinês. Por fim, temos o apoio de grupos econômicos de peso (Disney) e somos mais onipresentes do que MacDonald's.

 

Galinhas de Páscoa.

Nós, galinhas, nos candidatamos ao cargo de animal símbolo da Páscoa por atender plenamente o critério da fertilidade. A proximidade com o homem e a continuidade da espécie são garantidas por larga criação em cativeiro. Além do mais, nosso macho, o galo, já participa ativamente da vida cristã, tendo uma importante missa batizada com seu nome. O primo peru, só para ficar nas motivações familiares, representa com dignidade a classe das penosas no Natal. A pomba, na celebração da paz. Porém, o maior diferencial de nossa oferta é a extinção do dilema dos pais em época pascal: explicar o porquê do coelho se ele não põe ovos.

 

Formigas de Páscoa.

Nós, formigas sindicalizadas, reivindicamos o direito de galgarmos o posto de verdadeiro e único animal símbolo da Páscoa (tema de Ação Trabalhista em curso). Afinal, desde o começo da tradição de se oferecer presentes de origem alimentícia, mui especialmente chocolate, já fazemos parte da festa de modo informal e clandestino. E somos vítimas de perseguição e morticínio nessa jornada. Denunciamos, também, que os coelhos ganham sem trabalhar: a criança chega no ninho e nunca, jamais encontra um só roedor. Mas, se vacilar, lá estaremos nós, as diligentes formigas. Centenas de nós. Milhares! Logo, sobre fertilidade, nem precisamos falar.

 

Bicho-Preguiça de Páscoa.

Sabemos que fertilidade não é o nosso forte. Tampouco botamos ovos. Somos encontrados somente em florestas tropicais. Não temos nenhum elo com o Cristianismo além do fato de sermos filhos de Deus (e até Ele duvida). Por nós, ficávamos aqui bem quietinhos, cuidando para não sumir do mapa junto com o as matas nativas. Mas existe um lobby de pais para que nos candidatemos ao cargo de animal símbolo da Páscoa. Motivo: quando a data se avizinha, as crianças surtam, o comércio enlouquece, a imprensa exagera, a Igreja diz que nada disso tem valor sem Cristo no coração e eles, os pais, são tomados por uma súbita, fértil e imorredoura preguiça...

Achado não é roubado 3

ACHADO NÃO É ROUBADO

 

DIVISOR DE ÁGUAS
 

Antes da ecografia, especulava-se o sexo do bebê antes do parto. Depois... Bom, depois, só depois.

13.3.08

Comunicado importante!

OFICINA DE CRÔNICAS DE RUBEM PENZ

A crônica – texto ágil e em primeira pessoa – é uma das mais amistosas portas para a literatura, tanto para quem lê, quanto para quem pretende se expressar. Ao mesmo tempo, é um gênero literário muito flexível, capaz de exercitar a abordagem criativa e o raciocínio da gama de escritores que abrange os iniciantes e os experimentados. Estas são as premissas para a oficina do escritor e músico Rubem Penz.

Aulas nas terças das 9h até 11h30min (início em 25/03/2008)

e nas segundas das 14h até 16h30min (início em 31/03/2008).

MAIS INFORMAÇÕES NO

CENTRO CULTURAL AUXÍLO AO TEMA

Fone (51) 3268.8899

 

Número 255

 

Novos pecados de A a Z

 

         Eu desconfiava que isso aconteceria cedo ou tarde: o total exagero regulatório brasileiro acabar fazendo escola. Temos, para quem não sabe, lei para tudo. E, principalmente, para ser descumprida. Agora, a Santa Igreja Católica, que durante anos – séculos! – se contentou com dez mandamentos e sete pecados capitais, cai em tentação e lança outros seis pecados, os ditos sociais. Meu Deus, para quê? Mas, já que é assim, tenho as minhas contribuições para uma próxima leva de novos pecados, listadas em ordem alfabética:

 

AAbdicar de todo o prazer. O típico pecado de quem tem medo de pecar.

BBolinar mulher no ônibus. Não caia em tentação!

C – Cuspir no prato que te alimentou. Nascido da sabedoria popular.

DDepredar patrimônio público. Crime que, muitas vezes, é também um grande, repugnante, inominável pecado.

EEleger políticos sem escrúpulos. Pecado federal. E estadual e municipal.

FFumar no carro, com os vidros fechados e crianças no banco de trás. Que pecado!

GGanhar salário sem trabalhar. Pecado que funciona igual na ordem invertida.

HHoje não! Mulheres, isso às vezes é um pecado!

I  Infringir, conscientemente, as leis do trânsito. Os outros que paguem os pecados...

JJulgar-se o dono da verdade. Sim, é pecado grave. Mas posso estar enganado, claro.

LLigar em 220V um aparelho 110V. Ah, não! Pecado com penalidade instantânea.

MMorrer jovem. É ou não é um pecado?

NNunca ter amado de paixão. Aí nem sei se é pecado ou castigo.

OOuvir um só tipo de música. Conhecido como pecado radical.

PPerguntar a idade de uma dama. Pecado contra a educação!

QQuindim com uma enorme mosca pousada em cima. Deus, que pecado!

RRasgar fotografias. Sei lá: acho isso um pecado contra a posteridade.

SSalvar a pele às custas dos outros. Sujeito desses merece ir para o Céu?

TTraficar drogas defronte uma escola. Sem perdão!

UUsar crianças como escudo. Vale no sentido literal e figurado.

VVestir calça listada com camisa xadrez. Nossa! Que pecado!

XXenofobia. De fato, aí está um bom exemplo de pecado para constar em qualquer lista.

ZZombar de assuntos sérios. Caso algum padre esteja lendo a crônica, garanto que não foi esse o intuito. Mesmo assim, se for interpretado dessa maneira – de fato, corro o risco –, já peço perdão.

Conto contíguo 3

CONTO CONTÍGUO

 

BINÓCULO

 

         Espero, paciente, ela adormecer. Sigo sua rotina com devota atenção: bem sei quando repousa em cada um dos dias da semana. Então, recorro à minha gaveta de cabeceira e apanho o binóculo. Ele, somente ele, nos deixa no afastamento ideal – o mensurado equilíbrio entre distância e proximidade. Através dele, ponho-me a observar.

         Ela tem um sono tranqüilo. Inabalável. Cobre-se pouco e, na visão furtiva, acompanho os falsos movimentos nascidos da luz hesitante da TV, ainda acesa. Ajusto o foco em busca de mais detalhes... Quem sabe hoje penetro em seus sonhos? Este ânimo, noite após noite em desatinada insônia, faz correr o tempo de minha vigília.

Esgotado o prazo do timer – às vezes trinta, outras sessenta minutos –, a TV apaga e o quarto imerge no escuro e no silêncio.  Condenado a vultos, liberto a imaginação: beijo seus pés, apenas o começo do roteiro de delícias percorrido por meus lábios. Aspiro fundo o aroma de seus cabelos e roubo um pouco do seu hálito. É quando ela me vê, quase num susto. Sorri e se entrega com a generosidade das amantes.

Ah como eu queria a oportunidade de contar-lhe essa minha história. Revelar exatamente como ela é quando vista à distância, depois de cruzar as lentes. Dizer em pormenores o que faz, tudo o que me diz, como me trata. Emprestar-lhe o binóculo, também, na esperança de corresponder com igual magia. Por enquanto, me falta coragem para fazê-lo.

Desviro o binóculo do contrário e aponto na direção da janela: cresce a lua minguante, testemunha calada dos meus delírios. Suspiro. Abro outra vez a gaveta e o guardo de volta. Confiro o quanto é tarde no rádio-relógio e deito ao lado dela. Que, sem despertar, move-se inocente para perto de mim.

 

7.3.08

Número 254

 

ASTROS DO ESPORTE

 

Digamos que quatro meninos trocam passes aproveitando o domingo de sol no gramado do parque. Por acidente, a bola escapa para longe, lá onde estão caminhando os adultos e suas coronárias saudáveis. Se a ela chegasse a um Leonino, ele a levantaria com o lado de fora do pé, dava três embaixadinhas, chutaria para cima, mataria no peito e, de letra, mandaria a bola de volta para as crianças. Depois, discretamente, olharia para os lados, para conferir quantos haviam assistido o show.

 

Mas suponhamos que ela corresse na direção de um Virginiano e um Ariano, muito mais à feição do primeiro. De início, o nascido em Virgem pensaria na obrigação ética de devolver a bola aos meninos. Mas vacilaria em como fazê-lo sem correr o risco de torcer o pé... Enquanto isso, cruzando como uma flecha, o Ariano passaria na sua frente, conduziria a pelota e, chegando nas crianças, daria uma bronca: e se a bola fosse para o meio da rua? Já pensaram no risco? Onde estão os pais de vocês?

 

Se a bola atingisse um Pisciano, ele a pegaria nas mãos espantado. Buscaria, então, sinais nesta coincidência: tanta gente ali caminhando e a bola cai justo para ele! A divagação seria interrompida por um Escorpiano com pouca paciência, já o acusando de atrapalhar o futebol da gurizada. E que, sem pedir licença, pegaria a bola para si, dando um balão para devolvê-la às crianças e retomando a caminhada sem olhar para trás. O primeiro ficaria lá, pensando no destino da raça humana neste ritmo de stress.

 

Caso a bola caísse para um Libriano, este perguntaria bem alto de quem foi a culpa: um deu o chute torto, ou o outro que não dominou? Dependendo da resposta, um ou o outro precisaria buscar a bola ali mesmo, para aprender a ter mais cuidado. Se fosse um Aquariano, não resistiria em ir até os meninos para planejar em grupo uma outra forma de jogar, inovadora, segura e capaz de evitar novas escapadas da bola.

 

Os amigos Sagitariano e Canceriano que caminhassem lado a lado receberiam a bola com bom humor, caso assim ocorresse. O homem-cavalo bateria no ombro do homem-caranguejo e o convidaria para jogarem com os meninos, saindo em disparada e sem esperar resposta. O outro o seguiria com "quem sabe a gente continua a caminhada", "não sei se é uma boa idéia", "pode pegar mal" etc. No final, o Sagitariano rolaria pelo chão, gritaria, marcaria vários gols. Enquanto o Canceriano jogaria, sim, mas preocupado em estar pagando um mico.

 

 O Taurino devolveria a bola de bate-pronto. E daria um tempo em sua caminhada para avaliar o desempenho dos jogadores. Quem sabe estaria entre eles um novo Falcão ou Zico? Na certa, precisaria de um bom empresário... O Geminiano não seria assim tão imediato na devolução da bola, caso ela viesse em sua direção. Seria preciso ponderar suas próprias habilidades antes de chutar. E pensar no risco de a bola bater em alguém, acabar mais longe ainda ou até machucar uma das crianças. É: seria o ideal devolver com as mãos...

 

Porém, os quatro meninos deixam a bola escapar e não acontece nada disso: ela cai justo nos pés de um Capricorniano. Ele, se aproveitando da situação, sai conduzindo a pelota como se fosse sua, só de sacanagem. Com isso, os piás precisarão correr muito para recuperá-la. Depois, certamente, continuarão a jogar com muito mais cuidado.

Vim de verso 2

VIM DE VERSO

 

UM SORRISO NO MEIO DO CAMINHO

 

o flanar se aplica à grávida, que levita

habitat de toda a espera, esfera de tanta vida

só mesmo complica a grávida (a que duplica)

se tropica e quase cai, ai!, no largo sorriso do pai

28.2.08

Número 253

OCASO DE UMA ERA

 

Dois homens estão naquela tradicional cena de fim de noite, sentados no balcão do bar, cada um mais amarrotado do que o outro. O primeiro, Nelson, é completamente calvo. Cláudio, apesar da aparência jovial, não esconde o cabelo grisalho. Garçons varrem o chão em volta das mesas. As poucas luzes estão se apagando. O barman recolhe as sobras de tantos amores que testemunhou fenecer. Há um clima de derrota no ar. No último suspiro, Nelson faz renascer o diálogo.

 

– O ano vai ser difícil. Ainda não me conformo de ele ter se aposentado.

– Bom, a gente sempre soube que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde...

– Saber, sabíamos – o homem calvo se revigora. – Porém, depois que aquele outro bailou na curva, virando ícone – mito! –, só restava ele para manter o encanto da coisa, contra tudo e contra todos.

– É... – Cláudio segue reticente. – Mas tem um consolo: ele deixou o irmão firme, na ativa.

 

Nelson bate na mesa e sobe o volume da voz. Reclama que o tal irmão nada fizera de verdadeiramente admirável para merecer figurar entre os grandes. Com um toque apaziguador no braço, Cláudio tenta retomar o tom de confidência:

 

– Ora, com ele ainda na direção, mesmo sem igual brilho, sentimos que existe alguém para manter o legado, não é?

– Nada! A fibra não pode ser reduzida a uma questão genética. Tem outra: sem o mais velho, o caçula nem tinha chegado lá. Às favas com esse irmão!

 

Faz-se uma pausa. Melhor assim: os garçons já estão se olhando, loucos para expulsá-los do bar por algum motivo. Cláudio, que se tornara mais diplomático com o passar dos anos, diz não entender esse desconsolo fora de hora. Afinal, mesmo depois de tanto tempo de afastamento, o circo sequer ameaçava desabar. – Ou você suspeita de algo? – pergunta.

 

– Não é nem isso... O problema é que não vejo na nova geração um expoente capaz de chegar perto da capacidade dele no controle.

– Como assim?

– As coisas estão fugindo das mãos dos homens, você não vê? – Nelson abre os braços, olha para cima e para os lados enquanto fala para microfones imaginários: – Agora é tudo dominado pela máquina: mil olhos vigiam quem está lá, fingindo que dirige.

– Você está bêbado! – Cláudio perde a paciência. – Não tem essa de controle externo: é a mão do homem que está no poder. Sempre foi e sempre será. O resto é mera tecnologia. Pára de ver Big Brother em tudo!

 

Novo silêncio, cada um concentrado em seu copo. A conta chega para os dois, sem que pedissem. É um recado claríssimo. Cláudio alcança o cartão de crédito e vai ao banheiro. Nelson baixa a cabeça e parece chorar. Sim, está bêbado. E desiludido. O barman, ainda que calejado pelas tragédias do cotidiano, se vê condoído. Em um gesto solidário, repousa a mão no ombro do cliente e busca palavras de conforto:

 

– Calma: enquanto viver, o Fidel ainda estará no comando, todos sabem...

 

Nelson olha para ele, incrédulo:

 

– Fidel?! Que mané Fidel, cara?! Estamos falando do Schumacher!

 

Achado não é roubado 2

ACHADO NÃO É ROUBADO

 

A burocracia nacional é pródiga em criar dificuldades, ligeira para vender facilidades e displicente ao entregar o que vende.

21.2.08

Número 252

MENTE SÃ, CORPO SÃO

 

         O rumoroso caso de denúncia de abuso sexual envolvendo a nadadora Joanna Maranhão e o treinador Eugênio Miranda repercutiu na imprensa brasileira. Não é para menos: além de ter como protagonista uma atleta de destaque, joga luz sobre um tema dos mais sombrios em nossa sociedade. Porém, como nocivo efeito colateral, ele alastra uma sombra de desconfiança a toda uma categoria de profissionais – os professores de educação física – educadores e técnicos responsáveis pelo desenvolvimento sadio de nossos filhos em clubes e escolas. Algo compreensível, mas longe de ser justo.

 

         A lista de preconceitos aos quais os professores de educação física estão sujeitos é extensa e antiga. Fácil entender: na média, são homens e mulheres com corpos bem cuidados, trabalham mais expostos, lideram atividades lúdicas e recreativas (mais relaxadas do que aquelas impostas em sala de aula) e costumam ser ídolos para jovens e crianças. Não raro, e aqui não há nenhuma novidade, habitam inconfessáveis fantasias de cunho sexual na comunidade, sem, necessariamente, moverem um músculo nessa direção. Portanto, queiram ou não, suportam no cotidiano uma constante tensão moral, mal disfarçada em piadas e estigmas.

 

         Avaliações apressadas com base no conceito de que a ocasião faz o criminoso podem incidir em enormes iniqüidades. Depois de cursar a Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ESEF/UFRGS) e, por dois anos, trabalhar na área, afirmo com conhecimento de causa: nada pode ser mais contraproducente na relação professor/aluno ou treinador/atleta do que o contato erotizado. Se isso fosse freqüente como faz crer a série de reportagens nascidas da denúncia de Joanna Maranhão, as aulas de educação física e a prática de esporte não alcançariam qualquer êxito (o afastamento entre a atleta e o técnico, se ocorreu pelos motivos expostos, prova o argumento). Ao contrário, é a respeitosa abordagem do professor que gera a confiança necessária no aluno. Com base nela, o esporte se desenvolve.

 

         Pai de duas crianças, também sou assombrado com a idéia de ter os filhos molestados por um pedófilo. Entendo o sofrimento de dona Teresinha, mãe de Joanna, e amplifico sua indignação. Considero muito corajosa e repleta de valor a iniciativa de denunciar atos brutais: é apenas com a revelação que as eventuais culpas serão imputadas. Mas ela servirá, antes de tudo, para aguçar nossos ouvidos para as queixas infantis, muitas vezes desesperadas em transmitir um pedido de socorro. Afinal, especialistas apontam o abusador como alguém quase sempre próximo da vítima, gozando de seu respeito, afeto ou admiração. Isso não livra ninguém, nem os pais, de igual suspeição.

 

         Que este episódio, triste sob qualquer prisma, seja base para discussões nos bancos e quadras de nossas ESEF, além de pauta de reuniões de Círculos de Pais e Mestres. Estejam atentas as direções de clubes e escolas: o desenvolvimento do esporte brasileiro, a saúde de nossos jovens e a crença na atividade física como fator de integração social dependem de tal vigilância. As piadas e mitos em torno dos profissionais em nada combinam com a responsabilidade a eles atribuída. Reitero grande respeito e confiança nos tantos professores que conheço – meus mestres, antigos colegas e mestres dos meus filhos. Pessoas de mente sã, responsáveis por tantos corpos sãos.