24.9.10

Número 388

CERVEJA DE PANELA

Rubem Penz

Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino

Baby, Didi e Pepeu Gomes

Foi-se o tempo em que uma moça deixava a casa dos pais apenas para se casar. Durante este período, ainda recente em nossa memória, lar era quase sinônimo de família. Tanto que havia toda uma preparação, o enxoval. Nele, conjuntos completos de roupa de cama, mesa e banho; jogos de jantar, baixelas, faqueiro etc. Também o divertido chá de panela. O rapaz? Não, ele não se preocupava com nada disso. O negócio dele era estudar e trabalhar. Um bom emprego era tudo o que um homem precisava para constituir uma família. Ah, e uma noiva, de preferência.

No pós-feminismo, por coincidência ou não, sobejam os lares de solteiros. Se antes havia uma espécie de linha direta da mão do pai para a do noivo – e da mãe para a da noiva –, agora quem parte para sua casa o faz com seus próprios pés e pelas próprias mãos. As meninas foram à luta e conquistaram seu lugar no mercado de trabalho. Logo, não precisam mais de um marido para garantir-lhes o sustento. Porém, não perderam de todo suas habilidades de donas de casa. Digo de todo por conhecer mulheres que, como reza o ditado, não sabem fritar um ovo. Mas, em regra, seus apartamentos são um exemplo de ordem e correção.

Para os moços, a parte do sustento sofreu poucas alterações. A novidade da solteirice independente é não terem mais ninguém para aquela mãozinha nas tarefas domésticas. Nossa liberdade, portanto, passa pelo processo inverso: rumamos para a conquista do lar. Para cada mulher que atinge sua valorização com um cargo de gerência ou diretoria, há um homem se vangloriando em saber qual o melhor amaciante na prateleira do supermercado. Umas sofrendo as pressões de planilhas com maus resultados, outros cuidando para não ver frustrada a receita do jantar.

Porém, existe uma diferença conceitual que ainda precisa ser superada: as feministas lutavam pela igualdade por sentirem-se diminuídas no papel de mães e donas de casa. Assim, é muito mais difícil para o homem ostentar com orgulho sua habilidade para, por exemplo, esticar os lençóis. Há algo impregnado no tecido social dizendo para ele que isso é tarefa menor. Homem que é homem, nos padrões machistas, não arruma a cama: arruma uma namorada que faça para ele. Ou, no mínimo, paga uma empregada. É bem difícil promover avanços quando eles parecem retrocessos...

Essas reflexões surgiram pelo súbito interesse que tive em montar uma lista tipo "chá de panela" para um rapaz que veio de outro Estado para cá apenas com seus livros e roupas. Em minutos, e de memória, elenquei mais de trinta utensílios indispensáveis para um lar, desde a área de serviço, passando pela cozinha e chegando ao banheiro. A intimidade com a rotina doméstica me assustou. O ímpeto em ajudar outro homem a ter uma casa decente, sentimento quase maternal, apavorou-me. O fantasma do machismo espreita nossa alma.

Resolvi o dilema com duas constatações tranquilizadoras: o item primeiro da minha lista é um conjunto de ferramentas. Nem escrevi chave de fenda, Phillips, alicate, chaves de boca, martelo etc., por considerar masculinamente óbvio. Depois, achei melhor chamar de "cerveja de panela". Perfeito mesmo, só se o evento coincidir com um Gre-Nal na TV: o negócio é garantir o quorum.

16.9.10

Número 387

DE CABO A RABO

Rubem Penz

Lembro daquela tarde como se fosse hoje: o parque estava cheio e o céu aberto. No horizonte, nuvens em rabo-de-galo prometiam chuva em, no máximo, 48h. Mas quem pensava tão longe enquanto a primavera juvenil brilhava no firmamento? Eis que, de rabo de olho, noto a chegada da mais bela das mulheres. Do grupo que passeia sorrindo, é a única de rabo-de-cavalo. E tenho um fraco por pescocinhos que nem lhe conto... Tomei coragem e puxei conversa: só me faltou abanar-lhe o rabo.

Para total surpresa, ela me deu confiança. Meu ego subiu como um pipa, as pernas amoleceram feito rabilola, seria ela quem me colocaria na linha? Sim, pois sempre fui do tipo que não podia ver rabo de saia... Quedei-me e me afoguei com seu canto de sereia – aquele ser mítico, busto de mulher e rabo de peixe. Fervi como se um rabo quente estivesse em minhas veias. Em pouco tempo estávamos enrabichados.

No dia em que ela me levou até sua casa pela primeira vez, entrei com o rabo entre as pernas. Seu pai, um rábula rabugento, disse que deu um pé na bunda de todos os outros pretendentes. Ela sorriu. Eu, não: que o velho não viesse, pois daria um rabo-de-arraia antes de ele encostar um dedo em mim. Ninguém merece sogro ardido feito rabanete! Mas, por falar em comida, a sogra foi um doce... Levou o marido para ver TV no quarto e só apareceu na sala para nos servir rabanada. E ainda prometeu que me receberia em seu aniversário com uma feijoada completa – com direito a orelha de porco, joelho de porco e outra parte do porco que posso deixar subentendida nessas alturas da história.

O tempo riscou o destino rápido feito rabo de cometa. De intimidade em intimidade fui, enfim, intimado: precisávamos nos casar. Não havia escapatória, pois já tinha o rabo preso. Claro que, no fundo, desejava isso: encontrara a mulher da minha vida, esperar por quê? Na Igreja, de braços com a sogra, vi aquele monumento branco surgir no lado oposto à nave... Que véu enorme, disse. Que decote enorme, disse. Que rabo enorme, levei uma cotovelada. É cauda o que tem no vestido, explicou a sogra. É sinônimo, me defendi. No lugar do rabo-de-cavalo, o penteado alto: continuava ali o meu pescocinho...

Veja você que chegamos aos dias de hoje. Não digo que a vida até aqui foi um mar de rosas – houve, sim, uns arranca-rabos normais, como em qualquer relacionamento. Mas posso dizer que passamos bem. Em termos financeiros, como sou médico urologista, nada nos faltou: a carestia, que para muitos põe o orçamento no pescoço, para nós é água que mal bate no rabo. Por isso, minha mulher é reconhecidamente alguém de sorte. Não tem dia, não tem hora nem lugar em que nós passamos sem que eu escute ao apontarem para ela: olha lá, que rabo tem aquela! O vizinho, o açougueiro, o padre... Até o rabino. As outras mulheres – me divirto! – beliscam seus maridos sem parar. Devem fazer isso de inveja de minha rabudinha, que a todos sorri.

Eu? Sim, sou um homem de sorte. Confesso sem medo que tenho um baita rabo. Há quem diga que até mais do que isso.

 

9.9.10

Número 386


BODAS DE PRATAS DA CASA

Rubem Penz*

Circula no meio literário brasileiro uma observação bem-humorada, segundo a qual basta que se levante uma pedra aqui no Rio Grande do Sul para encontrarmos dois escritores. Evidente exagero. Porém, o número de gaúchos publicando nas melhores editoras do país, indicados ou vencedores de concursos nacionais e internacionais, com suas obras traduzidas e – importante! – abastecendo o mercado com bons livros a cada ano demonstra um fundo de verdade nisso tudo. Da quantidade, sabemos, nasce a qualidade.

Tal fenômeno pode ser explicado em parte pela existência de muitas oficinas literárias por estas plagas. Dentre elas, a mais representativa de todas: a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), ministrada pelo escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil. Ela, que é a mais antiga em atividade de forma ininterrupta em território nacional, acaba de completar 25 anos de existência. E, para comemorar a data, reuniram-se alguns escritores que por ela passaram para a Aula Inaugural do segundo semestre do curso de Letras da PUC. Dentre oito centenas de egressos, tive a honra de ser um dos seis nomes que compuseram a mesa.

Foi uma oportunidade invejável para os convocados, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Jaime Cimenti, Marcelo Spalding, Robertson Frizero e eu, em nome dos demais, agradecermos o privilégio de cursar a Oficina do Assis, como também chamamos. E de testemunhar diante do Magnífico Reitor, professor homenageado, mestres e alunos, o quanto seus dois semestres de duração foram importantes em nossa vida pessoal e literária. Sem combinarmos nada, um complementou o que o outro decidiu ressaltar, dando uma ideia do que nos acrescentou cada seminário, exercício, referência ou dica proposta pelo mestre.

Outra coincidência valiosa: bastaria a leitura de qualquer fragmento da obra dos autores ali presentes para trucidar a tese de que oficinas literárias formam escritores padronizados, todos urdidos à semelhança do professor. É abissal a distância entre seis, sessenta ou seiscentos de nós, pois o talento, acrescido de técnica, evidenciou ainda mais nossas diferenças, fortalecendo traços individuais. Algo que também pode ser comprovado nas Antologias que já alcançam a marca de 40 – esta mais recente com lançamento marcado para sábado, 17h, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping.

Concluo com o grande consenso da solenidade de aniversário: mesmo que da Oficina de Criação Literária da PUCRS não houvesse saído escritores respeitáveis, e são vários os acima da média, sua existência estaria plenamente justificada pelo surgimento de oitocentos excelentes leitores. Leitores críticos, preparados, sensíveis, exigentes, experimentados, detalhistas. Leitores capazes de valorizar o labor dedicado a cada palavra que compõe o bom conto, poema, romance ou crônica, pois conscientes do tempo e do esforço despendido. Logo, para que aqueles dois escritores que estão debaixo da pedra conquistem um lugar ao sol literário, será demandado muito empenho. Também por isso, obrigado professor Luiz Antonio de Assis Brasil!

*Aluno da turma de 2007

3.9.10

Número 385

NÃO SEI EM QUEM VOTAR*

Rubem Penz

 

Esta é uma obra dedicada ao nosso sistema político e partidário que, mesmo imperfeito, não pode ser responsabilizado pelas falhas dos homens que o denigrem ainda mais a cada pleito. Nasceu para ser interpretada por um eleitor e um político – candidato ao Legislativo ou Executivo, tanto faz. Como foi escrita para ambos, é possível depreender o nome da dupla: Caracu. O político é o cara. O eleitor entra com o talento que lhe resta.

 

Eleitor: — Eu sei que vou votar...

Político: — Eu sei que vais votar...

Eleitor: — Por toda a minha vida eu vou votar...

Político: — É nossa salvação regimentar.

Eleitor: — Em cada escurtínio eu vou votar...

Político: — Encare o sacrifício de votar.

Ambos: — Democraticamente, assim se vai votar!

 

Eleitor: — E cada voto meu

Político: — E cada voto teu

Eleitor: — Será

Político: — Será

Eleitor: — Pra mal dizer

Político: — Pra eu poder

Eleitor: — eu não saber votar...

Político: — só me locupletar...

Ambos: — ... por toda minha vida!

 

Eleitor: — Eu sei que vou chorar

Político: — Eu sei que vais chorar

Eleitor: — A cada ausência tua, vou chorar

Político: — A cada ausência minha, vais chorar

Eleitor: — Mas cada falcatrua há de custar

Político: — Mas cada falcatrua há de gerar

Eleitor: — Bem mais que tua ausência me custou

Político: — Bem mais do que a campanha me custou

 

Eleitor: — Eu sei que vou sofrer

Político: — Eu sei enriquecer

Eleitor: — A eterna desventura de viver

Político: — Na eterna boaventura de viver

Eleitor: — A espera de te ver ao lado meu

Político: — A espera de viver salvando o meu

Ambos: — Por toda nossa vida...

 

*Paródia propositalmente sofrível, pois sofrida, de Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes

 


27.8.10

Número 384

DE BAIXO PARA CIMA

Rubem Penz

Em termos de peças íntimas, a primeira lembrança que nos chega à mente é o par formado pela calcinha e sutiã. Não para menos: em shoppings, há muitas lojas especializadas em lingeries. E, naquelas de departamentos, um andar quase inteiro ostentando uma variedade fetichista e saborosa de modelos, cores e tamanhos. Falando pelos homens, por mais que nos agrade tamanha abundância e beleza (como abundância coube bem no contexto!), nós sempre olhamos este exagero das mulheres com desconfiança: seria para tanto?

Pois, por uma coincidência de calendário, poucos dias depois de eu comprar umas três ou quatro cuecas novas, ganhei outras seis. O resultado desta multiplicação fenomenal no closet foi o sumiço de qualquer vestígio de elástico frouxo ou cor desmaiada de minha intimidade. De um dia para o outro, vivo uma rotina carefree: estou sempre com a sensação de uma cueca recém tirada da gaveta... Da loja! Incomodado com isso ficava meu avô! Quase cogito a hipótese de depilar as axilas, só para abanar para as câmeras com aquele sorriso iluminado das moças nas propagandas de TV. Descontando o exagero retórico, se estiver em um hotel e disparar o alarme de incêndio no meio da madrugada, garanto que abandono o quarto cheio de estilo!

Parece mentira, mas andar pela rua com cuecas novas é quase como ter estudado o suficiente para uma prova: quem olha para ti, percebe uma carga extra de segurança em cada passo. O mirar é sereno; a fleuma, fácil. Pouco ou nada importa a realidade crua e fria de que, provavelmente, ninguém jamais saberá de onde nasce tanta confiança – não esqueçamos de que sou alguém comprometido. O que vale no momento é experimentar aquilo que os olhos não veem, mas as virilhas sentem. É como estar com a arma engatilhada, o jantar na mesa, o carro engatado, a resposta na ponta da língua. Totalmente em dia!

Falando em tese (a cada linha dou mais corda para o enforcamento...), estar despido das calças, mesmo nos momentos em que isso é planejado, esperado, desejado até, sempre é momento de reconhecida tensão. Seria muita ingenuidade masculina desprezar a evidente valorização das nossas roupas de baixo por parte das mulheres. Mesmo no lusco-fusco ou no vuco-vuco, sob a diáfana luz do abajur cor de carne (Ritchie vive!), no relance de um olhar furtivo para a janela do vizinho, as fêmeas da espécie são capazes de condenar um homem ao lixo erótico-afetivo no caso de ele estar descuidado. Vivemos dias de BBB: vacilou e a (má) fama se espalha. Um pouco mais de barriga ou menos de cabelo é contingência biológica. Já cueca furada, ah não!, um relaxamento imperdoável.

Restaria, ainda, a última confissão antes de concluir – como se já não estivesse fazendo uma exposição suficiente de minha intimidade... As seis cuecas foram presente de mamãe. Pior: antes de ela comprar, ligou-me advertindo que, segundo o balconista, peças íntimas não podem ser trocadas. Por isso, queria saber se eu tinha certeza total e absoluta de que usava tamanho P, como lhe dissera. Olhos de mãe são tão otimistas... Meu porte físico fica bastante claro para qualquer um, mesmo nas roupas de cima. Não seria razoável pretender desmenti-lo justo nas roupas de baixo. No fundo, estaria enganando a quem?


20.8.10

Número 383

RECALL
Rubem Penz

Do CEO, para todos:

Comunicado relevante,

1. Em virtude do enorme sucesso de nosso produto Vida Inteligente, hoje espalhado em cada um dos quatro cantos do planeta;

2. Na certeza de ele ser top de linha e motivo de júbilo para nosso departamento de Criação;

3. Em respeito aos muitos êxitos angariados graças à atuação de Vida Inteligente ao longo dos séculos e séculos amém;

4. Reconhecendo que não há planos para um substituto semelhante no curto e médio prazo, ou mesmo fabricante concorrente;

Noticiamos o início de um inadiável procedimento de recall, particularmente indicado aos modelos que saíram da fábrica até o final do Século XX.

Nossos laboratórios constataram um gravíssimo e recorrente problema na peça denominada Consciência, que vem apresentando muitos defeitos nas seguintes situações de uso:

1. Diante de lucro abusivo. Defeito: primeiro, desliga-se por critérios escusos. Depois, parece se apagar de vez – mesmo quando acionada pela coletividade, a Consciência jamais responde outra vez.

2. Diante do poder. Defeito: trabalha de modo variante e em grandeza inversamente proporcional: quanto mais poder, menos Consciência; quanto menos poder, mais Consciência. E de nada adianta toda Consciência do mundo sem nenhum poder.

3. Diante da miséria. Duplo defeito: se a miséria é do outro, a Consciência não dispara a esperada solidariedade. No máximo tem alcançado níveis mínimos – insuficientes – de compaixão. Quando é o portador de Vida Inteligente que se encontra em situação de miséria, a Consciência quebra em forma de ponta, ferindo quem estiver por perto.

4. Diante da Natureza. Defeito: a Consciência não lê as prioridades de longo prazo do meio ambiente, comandando ações contrárias à preservação da espécie, todas elas no âmbito do conforto e menor esforço.

Além disso, testes nas bancadas dos direitos e dos deveres estão apresentando leituras antagônicas, claro sinal de desequilíbrio: em direitos, a Consciência gera reclamatórias e protestos com e sem fundamento. Na plataforma dos deveres, liga-se e se desliga seguindo o comando da conveniência, o qual não foi projetado para melhor cumprir essa tarefa.

Por tudo acima exposto, caso você tenha nascido no Século XX, perca uns minutos do seu valioso dia encaminhando sua Consciência para um profundo exame e, quem sabe, substituição gratuita. Não precisa, necessariamente, dirigir-se até a oficina autorizada – item optativo no certificado de garantia. Basta fechar os olhos e ficar em silêncio por alguns instantes, pensando na vida.

Contando com a adesão de todos, muito obrigado.

PS: quem nasceu no Século XXI pode muito bem estar com os mesmos defeitos de Consciência, só que ainda escondidos pela imaturidade. Em poucos anos avaliaremos a necessidade de outro recall.

 



--
Visite o blog do autor em
www.rufardostambores.blogspot.com

13.8.10

Número 382

DEUS E O DIABO NA SALA DE ESTAR

Ela jamais pensara em contratar um profissional desse tipo, mas temia ficar mal falada entre as amigas – em breve seria a única a não recorrer aos serviços de um deles. Cercou-se de mil recomendações sobre Gustavo: colocar alguém para dentro de casa, nos dias de hoje, não deveria ser algo feito sem muitas precauções.

Nervosa, porém decidida, esperava sua chegada para as dez da manhã. Enquanto isso, pipocou de peça em peça da casa – consultou e-mails no escritório, fez uma nota na lista de supermercado grudada na geladeira, correu até o banheiro para ver se a toalha do júnior estava estendida, foi ao quarto para ligar ao marceneiro e lembrá-lo que havia desmarcado a visita de hoje (Deus nos livre!). Por fim, acabou voltando para o computador... Minutos eternos!

Gustavo chegou britânico. Alto, forte e, mais do que tudo, sorridente como homem em comercial de carro esportivo. Disse que conhecia o prédio, pois atendera alguém durante o verão passado inteiro. Desde os meados de outubro, na verdade. Ela não queria detalhes. Bateu palminhas como quem diz e daí, o que fazemos primeiro, mas foi contida em seu ímpeto por um olhar mais sério: combinações prévias antecederiam qualquer movimento da parte deles dois – partindo do pressuposto que seriam apenas eles, senão o preço mudaria, é claro.

— Primeiro: onde a senhora quer?

— Senhora não. Por favor, use você!

— Sim, melhor: onde você quer?

— Como assim, onde? – parecia morrer de tão nervosa.

O rapaz respondeu que era polivalente. Valia mais o conforto e ela sentir-se bem. Uma cliente, por exemplo, escolhera a cozinha. Outras, menos inibidas, pediam que fossem para a varanda. Por ele, tudo bem.

— Aqui na sala, pode ser? – ela perguntou meio sem graça.

— Ótimo! Será com música?

A dona da casa pensou por um segundo, mas correu em responder que não, ou sim se ficar estranho do outro jeito. O mais importante, pensava, era ficar livre dos detalhes das outras, que ele soltava sem o menor pudor. No futuro, falaria dela, também? Ao menos não citava nomes... Enquanto ele tirava a jaqueta e as calças, ela tomou coragem:

— Desculpe a ansiedade: podemos começar agora, não é? Eu estou pronta desde as oito e meia!

— Ainda falta o mais importante: vamos fazer falando ou em silêncio?

— Qual a diferença? — perguntou desculpando-se, era sua primeira vez.

— Bom, falando eu digo qual a posição, o que faremos, como faremos, proponho variações, dito o ritmo, encorajo... Tudo aquilo, sabe?

— Sei, sim, claro. Parece ótimo. Mas, e em silêncio?

— Ah, gosto mais! Mas precisa de olho no olho, confiança, sensibilidade, toque. Eu começo e a se... Digo, você me segue. Eu troco você troca. Eu acelero...

— ... e eu quero assim, e quero agora! – puxando o homem pelo braço.

Normélia tinha razão: Gustavo não era um personal. O diabo era deus!

 



--
Visite o blog do autor em
www.rufardostambores.blogspot.com

5.8.10

Número 381

O CRAVO E A ROSA

Diz a cantiga popular que o cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada. E, como acontece quando dois amantes digladiam, o cravo saiu ferido e a pobre rosa despedaçada. No segundo verso, o cravo ficou doente e, condoída, rosa foi visitar. O cravo teve um desmaio e a rosa se pôs a chorar. Pura tragédia shakespeareana! Flores significando juventude, doenças aludindo a impossibilidade do “felizes para sempre”, temperada por tardio arrependimento pela desavença. Perfeição! Mas há detalhes sórdidos que permeiam essa história.

Fontes bem adubadas me confidenciaram que o pivô da briga entre o cravo e a rosa foi o sedutor gerânio. Begônia, amiga invejosa dos namorados ‒ e que não via um cravo fazia horas ‒, dissipou pelas patas de uma abelha o boato de que gerânio convidara rosa para entrelaçarem raízes atrás do xaxim das orquídeas. Cravo ficou pistilo da vida e foi tomar satisfações com sua querida. Quanto mais ele a acusava, mais murcha ficava a pobre flor. Teria morrido seca se não fosse socorrida por petúnia, a petulante. Esta, que não era exatamente flor que se cheirasse, ao menos tinha uma qualidade: defendia as mulheres de modo incondicional. Ainda mais uma corola como a rosa.

Foi quando o jogo começou a virar: petúnia resgatou uma desconfiança antiga, a qual implicava cravo em um suspeitíssimo brinquedo de bem-me-quer e mal-me-quer com a margarida, lá atrás da sirigaita samambaia. Cravo ficou branco. Porém, como todo homem com culpa no cartório, defendeu-se acusando: essa história teria sido criada pela maria-sem-vergonha, depois de eles terem rompido seu conturbado relacionamento. Cravo queria saber como flores de buquê tão refinado poderiam dar ouvidos àquela florzinha desqualificada e rampeira? A resposta de petúnia não deixou seixo sobre seixo: só poderia falar mal da maria-sem-vergonha quem jamais tivesse namorado com ela. Isto é, não sobrou ninguém... Até os inços se entreolharam.

O caule engrossou de vez no momento em que o girassol confirmou ter visto cravo rumando para trás da samambaia. Mas nada falara antes porque, ao girar, ficou de costas, e não soube o que teria acontecido lá. Temia, enfim, levantar falso testemunho. Logo, cravo saiu ferido em sua dignidade. E rosa, vermelha de vergonha, ficou despedaçada de decepção... Begônia, a falsa, enquanto consolava a amiga rosa, olhava com excitação para aquelas folhas em formato de coração do safado do gerânio. Petúnia e girassol prometeram tirar tudo em pétalas limpas com a samambaia, já que margarida fora colhida faz tempo, deixando, à época, cravo bastante aliviado. Lágrimas de chuva encharcaram toda terra por muitos dias ‒ murchava um amor perfeito.

Mas o tempo e as minhocas sempre movem a terra do pátio... E, nas voltas do destino, o entristecido cravo se viu à beira do canteiro, tomando orvalho ao lado do desafeto gerânio. Brotou um certo companheirismo masculino e gerânio disse que sabia como cravo teria rosa de volta: bastaria beber uma dose alta de herbicida, ficando doente. Rosa viria correndo para seu caule. Assim aconteceu: rosa, aos prantos e com cravo desmaiado em seus braços, jurou amor eterno. Quando seu escolhido acordasse, proporia reconciliação.

Todo jardim olhava enternecido para a cena de romance. Por isso, ninguém reparou que o beagle da vizinha pulou a cerca para enterrar seu osso bem debaixo da sacada. A coisa foi violeta! Lado a lado, morreram o cravo e a rosa. Muito, muito triste. Porém, muito, muito belo...

PS: Para não dizer que só falei de flores, um grande abraço aos meus amigos papais pela passagem de seu dia. Façam de seus exemplos de vida a maior semeadura; colham no olhar dos filhos o valioso presente!

30.7.10

Número 380

FIOS DE ESPERANÇA

Conhecer Montevidéu, assim tão tarde como aconteceu comigo, apenas fez crescer a vergonha que eu já tinha de nunca ter estado lá. Desde os primeiros metros na capital uruguaia, a arquitetura bem preservada grita ao visitante de primeira viagem: viu só o que você estava perdendo? Soma-se, ainda, o afeto e a simpatia dos nossos vizinhos para com os brasileiros, uma rede hoteleira compatível com qualquer poder aquisitivo, o trânsito sereno, os museus, as lojas e atrações em geral. Para piorar, só o fato de esta cidade estar a míseros oitocentos quilômetros de onde moro... Porém, de tudo o que me enterneceu – e não foi pouca coisa – algo saltou à vista: a capital do Uruguai (aliás, o Uruguai inteiro) é zona de preservação ambiental de um ser que está em vias de extinção. O bigodudo.

Com um pouco de acuidade visual, sempre haveremos de encontrar bigodudos em todo o planeta. Há bigode alemão, chinês, mexicano, argentino, texano, africano, russo, espanhol, francês, português (o único unissex)... No Brasil, também vemos um bigode aqui e outro ali, especialmente no Rio Grande do Sul. A própria estátua do Laçador, figura altiva que recepciona os visitantes de Porto Alegre, é um gaúcho pilchado a contento: da bota de garrão de potro até o vasto bigode. Por isso, não se pode afirmar que os bigodudos se foram da face do planeta. Mas é evidente seu rarear. Bom, menos no Uruguai.

Quase a metade dos garçons de Montevidéu, por exemplo, usa bigode. E também os motoristas de táxi que, além de cinto de segurança, carregam bigodes para afiançar penhor. Entre vendedores ambulantes, feiristas, aposentados passeando pela Rambla, trabalhadores do porto e frequentadores dos bares e cafés, a proporção pode facilmente chegar aos cinquenta por cento de peludos. O próprio funcionário aduaneiro que nos recebeu em Rio Branco ‒ separada da brasileira Jaguarão por uma linda ponte ‒ ostentava bom bigode. Isso já era um indício que desprezei. Porém, mesmo com tamanha representatividade, um dado preocupa: os bigodudos estão envelhecendo e há poucos deles entre os jovens. Quase nenhum, aliás.

Chegamos ao ponto: fios de barba continuam nascendo debaixo do nariz de todos os homens. Mas em um mundo globalizado, até o menino uruguaio, acostumado a ver o bigode do pai, do tio e do avô, tem dificuldade de se imaginar usando um igual. Na TV e no cinema, quase ninguém mais usa. E se as meninas suspiram por rapazes de cara lavada, a vaca vai para o brejo de vez: não há ímpeto tradicionalista que suplante a necessidade biológica de reprodução. O que pode estar acontecendo no Uruguai ‒ aqui a esperança ‒ é a adoção madura do bigode. Isto é, depois de casar e ter filhos, o uruguaio resolve tomar as rédeas do destino e deixar crescer o desejado bigode. Uma espécie de rebeldia às avessas, e que salva o bigodudo da extinção.

Confesso que em minha (duradoura) fase imberbe, sonhava um dia usar bigode. Via em fotos antigas que um exemplar dele nascera no rosto do meu pai ainda na juventude, acompanhando-o por toda a vida. Quis o destino, porém, legar-me pouca barba. E, em uma época em que a moda era manter limpíssimo o espaço entre os lábios e o nariz, pior seria usar um quase bigode (sujeira de feijão, conforme ditado antigo). Hoje, talvez os fios que tenho já estejam em quantidade compatível com a estética ‒ fato reforçado pela predominante tendência masculina do estilo barba por fazer. Mas depois de tantos anos de cara limpa não sei se me reconheceria no espelho. Sinto que para usar bigode, farto ou miúdo, só partindo para morar no Uruguai ‒ algo que a formosa Montevidéu, com seu charme sedutor, convida.

19.7.10

Número 379

ONDE ESTÁ A FORTUNA?

Ser milionário é possuir uma mansão. Ou melhor, duas, três mansões. Um palácio? Quem sabe ser dono de uma ilha, ou mesmo de fazendas que, facilmente, poderiam ser confundidas com países europeus pela extensão. Vários apartamentos em Nova Iorque, Paris, Londres, Tóquio... Prédios inteiros nos endereços mais valorizados do mundo. Lá, obras de arte dignas de constar em catálogos de qualquer museu de primeira grandeza. Vistas de cartão postal em todas as janelas. Sim, é possível medir a fortuna de alguém por suas posses imobiliárias.

Por outro lado, milionário que é milionário tem aviões. Pássaros de metal em cujo interior habitam avanços da engenharia (velocidade, autonomia de voo, segurança) e muito luxo. No ar, escritórios, motéis, salas de ginástica, centros de entretenimento. Ou brinquedos caros: jatos esportivos para poucas pessoas e muita emoção. Helicópteros podem ser um bom indicativo de fortuna ‒ nada de estar sujeito às intempéries do trânsito das metrópoles. Automóveis blindados, luxuosos, raros, exóticos... Milionários, quando em quatro rodas, igualmente voam, e isso também pode ser uma noção de ganhos nas alturas.

Porém, um amigo trouxe uma medida muito mais sensível, muito mais sutil e arejada de se descobrir se alguém é realmente milionário. Ela lhe foi confidenciada por um arquiteto ‒ aquele raro tipo de profissional que casa conhecimento técnico com sensibilidade artística. E, magistralmente, ela provém de um gesto prosaico, habitat natural da crônica. Para tanto, me pediu para visualizar a cena:

Passos tranquilos cruzam um lobby deixando rastros de reverberação. Entram em uma sala ampla, cujos ambientes combinam com harmonia o clássico e o contemporâneo. A luz está perfeita e o aroma é de flores. O dono dos passos, seja qual for a hora do dia ou da noite (de qualquer fuso horário do planeta), apanha um copo e ruma certeiro até o balde de gelo no canto da sala. Abre a tampa e, com uma das mãos, retira três pedras de gelo totalmente secas e soltas uma das outras. O tilitar das pedras no cristal provoca um pequeno rufar enquanto dançam. Deseja um drinque.

Quem já guardou pedras de gelo no baldinho, ou conhece um pouco de física, sabe que a natureza conspira contra a cena descrita. Gelo ao tempo, antes de virar água, tende a fundir-se. O verdadeiro milionário conhece leis da física. Mas não imagina que vá molhar os dedos ou precisar escavar da rocha uma pepita translúcida de frescor. Ele é movido pela certeza transcendental de que, dentro de um balde de gelo, haverá apenas pedras de gelo. E há! Alguém, em algum momento, das entranhas da mansão, estará vigilante para que o dono da casa encontre boas pedras de gelo no baldinho. Agora e sempre, sem jamais ser surpreendido por uma insônia da madrugada ou chegada extemporânea. Secas e soltas, prontas para tilitar.

Dinheiro transbordando, posses deslumbrantes, brinquedos caros de gente grande, obras de arte, lindas mulheres... Tudo pode ser falso ou transitório. Escravizador até, na medida em que a ânsia de acumular riquezas seja tamanha que a vida acabe em segundo plano. Também um belo haras, uma fundação no nome do pai, lugares reservados nos restaurantes da moda e nos clubes exclusivos, iates, dependendo da pessoa, serão apenas fardos. Na verdade, na essência, no fundo do fundo, um milionário legítimo é aquele que mergulha a mão em seu baldinho de gelo sem olhar. E lá, não importa onde ou quando, obedientes, estarão pedras secas e soltas. Santé!

15.7.10

Número 378

EXPLORANDO A CAMADA PRESSÁGIO

Em vinte de abril, ao explodir a plataforma marítima de extração de petróleo Deepwater Horizon, teve início aquele que já se inscreve como o maior desastre ambiental da história norte-americana. A mancha de óleo que devasta uma área gigantesca do Golfo do México acarreta um prejuízo na ordem dos milhões de dólares para a empresa British Petroleum (BP), mas de incalculável repercussão para o meio ambiente. Em virtude de um vazamento que pode bater na casa dos 60 mil barris por dia, e que já dura quase três meses, verdadeiras operações de guerra se instauraram na região, envolvendo toda a comunidade científica, em busca de um modo de estancar a fuga de óleo. Paralelamente, esforços de mesma proporção visam dirimir seus efeitos maléficos, recolhendo o óleo derramado, impedindo que a mancha se alastre e salvando os animais já vitimados.

Nossa brasileiríssima Petrobras é reconhecidamente uma das mais competentes empresas multinacionais dedicadas à prospecção e exploração de petróleo em águas profundas. No mais recente êxito de suas pesquisas, foram descobertos mananciais expressivos de óleo na altura da camada pré-sal. Em razão disso, para breve nosso país poderá fazer parte do seleto grupo dos grandes produtores de petróleo. No momento, claro, em que a tecnologia permitir a extração desta riqueza ‒ algo que está a caminho, com certeza. Com tanta tradição e conhecimento, era de se esperar que os engenheiros, técnicos e cientistas brasileiros estivessem assessorando de alguma forma os apavorados ingleses por conta do desastre da Deepwater Horizon. Imaginei a manchete: jeito brasileiro impede catástrofe ambiental. Como não tenho notícias de nada relevante neste sentido, fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Sempre que estou sobre uma ponte, bendigo os engenheiros. Diante de uma plataforma marítima de exploração de petróleo, então, só me falta propor a canonização destes profissionais. Construções que em tudo se assemelham àquelas idealizadas por escritores de ficção científica, tais plataformas abrigam o que há de mais avançado em termos tecnológicos. Também são locais em que se trabalha com níveis de segurança notáveis, respeitando normas rígidas no que diz respeito à prevenção de acidentes. Sou fã incondicional dessa turma! Porém, mesmo com tudo isso, o desastre no Golfo do México acende uma luz vermelha a brilhar em nossa costa. Teríamos nós, brasileiros, recursos financeiros e humanos para fazer frente a uma tragédia de igual proporção? E os acionistas da Petrobras: aguentariam os prejuízos? Para o bem da natureza e para a felicidade geral da nação, gostaria que as respostas fossem que sim. A bem da verdade, temo que não.

Tais presságios não significam que um acidente abalará alguma de nossas plataformas petrolíferas, longe de mim! Muito menos causará um desastre ambiental comparável ao que estamos testemunhando na costa norte-americana. O problema é que, se acontecer, um país que deve ao povo investimentos adequados em educação, saúde, transporte coletivo, segurança e infraestrutura, terá cacife para fazer frente às demandas necessárias? O discurso de potência econômica emergente combina com as reais possibilidades de arcar com eventuais contratempos?

Confesso que estaria mais seguro se a comunidade científica brasileira concentrasse mais investimentos, competência e inventividade em fontes de energia ecologicamente limpas e seguras ‒ vento, sol, marés... Em um país continental, no maior depositário de água doce do planeta, para quem guarda verdadeiros tesouros em termos de biodiversidade, por tudo o que vem acontecendo em consequência da pesada mão do homem, valerá a pena correr tantos riscos investindo cada vez mais em uma matriz energética que deve ser abandonada? Faltam respostas: infelizmente, minha sondagem não é profunda o bastante para ultrapassar a camada presságio.

7.7.10

Número 377

BALANÇO AFRICANO

Existem duas formas de analisar em forma de balanço os resultados da Seleção Brasileira de Futebol ‒ e de seu treinador ‒ em sua passagem pela Copa do Mundo 2010: créditos e débitos nas colunas graças a e apesar de. Quem gosta do Dunga, respeita seu trabalho, valores e ideias, tende a repousar as múltiplas conquistas na coluna graças a, enquanto a coluna apesar de guardará as derrotas, problemas e decepções. Quem desgosta do Dunga, não concorda com seus pensamentos, ações e métodos ‒ odeia-o até ‒, fará o movimento contrário.

Os fãs do ex-capitão serão rápidos em contabilizar as 42 vitórias nos 60 últimos jogos na coluna do graças a. Lá estarão, também, os títulos da Copa América com uma das melhores campanhas de todos os tempos. A Copa das Confederações, as goleadas inesquecíveis, como aquela sobre Portugal, uma boa Olimpíada e o espírito de equipe também estarão na coluna graças a, bem como o resgate do necessário apego à camisa amarela de nosso selecionado ‒ ou alguém esqueceu o enfado que dominava nosso último time, enjoado de tanto dinheiro, fama e badalação? Para a coluna do apesar de, restarão algumas derrotas (6), a desclassificação perante a Holanda e o evidente medo de ousar.

Quem considerou a nova Era Dunga ‒ agora como técnico ‒ um fracasso, sob pena de ser desonesto, jamais esquecerá os números positivos. Porém, creditará tudo na coluna do apesar de. Afinal, quem mais além do Brasil seria capaz de abastecer a sua e tantas outras seleções com atletas de alto nível? Quantos craques e bons jogadores ficaram de fora dos 23 escolhidos, todos capazes de mudar os resultados? Assim sendo, ganhar certames menores seria mera obrigação. Algo que um poste faria também, se fosse escalado como técnico. Mas as derrotas, essas não: elas estariam na coluna do graças a, com todo (de)mérito. Principalmente a última, nas quartas de final da Copa do Mundo. Graças a Dunga, contra aquilo que parecia ser um consenso nacional, os meninos do Santos ficaram assistindo a Copa no Brasil. E morremos por falta de talento.

O temperamento de Dunga, sua eterna postura defensiva e firme, também é algo que cabe em uma coluna ou outra. Quem aprecia tal retidão, considera que perdemos em 1990 apesar dela e, graças a ela, vencemos em 1994. Estranhamente, os mesmos acontecimentos estarão creditados em colunas opostas por aqueles que não gostam da maneira dunguiana de encarar o esporte e a vida. Uns e outros, porém, concordam em um ponto: precisa ser muito Dunga para batizar uma geração fracassada e, logo depois, tornar-se o capitão do time que erguerá a taça. Na sequência, haja coragem para aceitar o desafio de treinar um novo grupo, abandonando o conforto de estar ‒ em parte ‒ redimido, sabendo que um só entre os 32 selecionados será campeão.

Dunga realmente não é alguém que habita os meio-termos. Com ele, tudo parece ser oito ou oitenta. Por isso, entre os méritos e as culpas, poucos comentaristas esportivos escaparão da armadilha de personalizar o debate, dividindo-se ‒ dividindo-nos ‒ entre os que gostam e os que desgostam do técnico. E engordarão e emagrecerão as colunas do graças a e do apesar de conforme a simpatia. De forma indelével, esse rapaz escreve com letras maiúsculas seu nome na história do futebol brasileiro. Passarão muitas décadas e, ainda assim, o debate sobre a personalidade de Dunga e sua trajetória será quente. Ainda mais que novos capítulos ainda estão por vir, já que o protagonista nem chegou aos cinquenta anos de idade.

Antes de concluir, é preciso definir meu ponto de vista nesse balanço de Copa. Julgo que tudo, entre vitórias e derrotas, aconteceu graças ao Dunga, sua comissão técnica, seu grupo de jogadores; em pleno acordo com as deliberações de vestiário e coerente com as atitudes em campo. E tudo também se deu apesar deles. Afinal, cantando outro hino, estavam adversários imbuídos do mesmíssimo desejo de vencer, beneficiados/prejudicados/regidos pela absoluta falta de lógica do futebol. Escalando Fernando Pessoa improvisado em raciocínio lateral, analisar o futebol é preciso, jogar bola não é preciso.

30.6.10

Número 376

ENQUANTO TEMPO

Por seres tão inventivo e pareceres contínuo

Tempo, tempo, tempo, tempo,

És um dos deuses mais lindos

Caetano Veloso

Reparando bem, olhando daqui e dali, a crônica nada mais é do que o texto enquanto tempo. Ou, de trás para adiante, o tempo enquanto texto. Uma volta de ponteiros na página: sempre igual, sempre diferente, pois em cada passagem se refere a outro período. Um gênero literário para todos carregarmos no pulso e consultar quando der vontade, seja na forma analógica (impresso) ou digital. Por quê? Pela simples razão de ser preciso. Quando? Assim que tivermos uma brecha em nosso próprio tempo.

Como o saltitar dos segundos, a crônica é feita de minúcias, de miudezas. Grãos de vida escorrendo na ampulheta da História. Num piscar de olhos, o tema aparece diante do escritor e o seduz. Depois, não importa quantas horas ‒ ou mesmo dias ‒ serão necessários para que ele aborde o assunto em seu blog ou na coluna do jornal: quando o texto ficar pronto, a instantaneidade será enfim restabelecida. Então, o tempo da crônica estará de volta ao corriqueiro pra já.

Mas, se a crônica é um texto enquanto tempo, a que tempo nos referimos? Depende. Pode ser o passado: muitas crônicas são escritas a partir de lembranças do autor, vindas de uma história que escutou de um amigo ou mesmo resgatando um lugar que não mais existe. Pode ser, também, o tempo presente, para comentar a notícia que deu agora mesmo no rádio ‒ você ouviu? E nada impede que uma crônica tome por base uma pesquisa ou descoberta científica e, assim, projete nosso futuro.

Por falar nisso, existem crônicas que morrem com o tempo, enquanto outras sobrevivem a ele. Em um extremo, o texto que o cronista escreve sobre um fato tão, tão, tão imediato que, se não publicar no dia, nunca mais publicará: perde o sentido, morre antes de nascer. No outro, obras sublimes como um poema, eternas como um romance, contundentes feito contos ‒ crônicas para serem lidas por mais de uma geração com o mesmo prazer, com igual atualidade, fruição e pertinência. Entre os extremos, retratos sempre fiéis ao nosso tempo, imagens para nunca mais e para sempre.

Na hora de escrever, o cronista poderá fazê-la parecer um conto, um artigo, uma poesia. Algumas nos deixarão com aquela inquietação típica em quem gosta de classificar tudo: será isso uma crônica, mesmo? Ela também poderá se parecer conosco ou ser a cara de alguém que conhecemos. A crônica pode contar uma história sua, minha ou nossa, assim como você tem pleno direito de discordar do cronista em número e grau. Uma só coisa a crônica não pode ser: infiel ao tempo. Assim, estará traindo sua essência, sua magia e a própria razão de existir.

Citando novamente Caetano, (...) te ofereço elogios, tempo, tempo, tempo, tempo, nas rimas do meu estilo.

24.6.10

Número 375

ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

Eu me amo, eu me amo,

Não posso mais viver sem mim

Ultraje a Rigor

A adolescência é o momento ideal para todos se casarem. Isso já nos primeiros sinais de puberdade ‒ quanto mais cedo, melhor. Respirar fundo, concentrar-se e falar muito sério: Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe. Depois, encontrar no fundo dos olhos daquela pessoa que está ali, do outro lado do espelho, um olhar de aceitação. Os desafios que aguardam quem entra na juventude, hoje mais do que nunca, serão melhor superados depois deste casamento.

A fidelidade, por exemplo, será testada muito rapidamente. Basta o menino ou a menina estar diante de um dos tantos dilemas de consciência típicos da idade: convidam-no para entrar no carro que fará um racha, para comprar uma garrafa de vodka, dar um tapinha em um cigarro artesanal, subir para um apartamento desconhecido e entrar numa festa para a qual não se foi convidado... A lista é grande! Então, alguém lá no fundo lhe diz: não vá, não faça, pode dar problema. Caso lembre que prometeu para esse mesmo alguém, no espelho de casa, ser-lhe fiel, poderá recusar sem medo, numa boa, até agradecendo. Mais tarde, se a maturidade o aconselhar diferente, já não será reflexo de inocência.

Amar-se e se respeitar também são votos bastante úteis. Quem tem uma auto-estima elevada dificilmente cairá nas armadilhas ou nas chantagens dos aproveitadores, pessoas que sempre escolhem subjugar os mais frágeis. Estará imune, ou ao menos fortalecido, contra apontamentos pejorativos (baixo, gordo, fraco, feio) e mais consciente de que as diferenças existem para enriquecer nossa vida. Basta perguntar-se: será que o mundo seria melhor se todos fossem iguais, pensando da mesma forma, vestindo as mesmas roupas? Depois de conquistar uma relação amorosa e de muito respeito consigo, ficará mais fácil e mais saudável lidar com o outro, com suas necessidades e diferenças.

Quando prometemos, lá aos doze ou quatorze anos de idade, estar conosco na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, inoculamos a vacina contra aquele que é um dos mais danosos sentimentos: a autocomiseração. E estar imunizado significará lidar com bom humor, coragem e leveza frente a uma série de pequenos infortúnios típicos da juventude. Ou seja, teremos decepções amorosas e superaremos; veremos frustrado um plano (vestibular, viagem, estágio), mas tentaremos de novo; assistiremos ao lançamento de um produto eletrônico de última geração e nem assim jogaremos o nosso fora; sairemos de casa sempre com o dinheiro contado, porém dispostos a nos divertirmos, etc. Enquanto se é criança, os pais fazem de tudo para que nada nos falte. Na juventude, conviver com a falta é buscar nela o estímulo para as conquistas.

Escrevendo assim parece fácil, mas não é. Quem disse que viver é uma barbada? Diante das agruras, nada é mais reconfortante do que uma boa companhia. Por exemplo, e antes de tudo, a companhia da nossa consciência. Quem estiver casado com a imagem do espelho, sendo-lhe fiel e parceiro, ainda mais tendo formado esse laço em boa idade, estará mais preparado para o conjunto de decisões do amadurecimento. Inclusive na hora de impor a si necessárias mudanças, já que ninguém é perfeito. O sacerdote deste casamento é o livre arbítrio. Os filhos, as consequências de nossos atos. E o prazo? Até que a morte nos separe.

16.6.10

Número 374

ESSÊNCIA

Para o Irmão Arnaldo

(1913-2010)

É lendária a história na qual subimos, após muito sacrifício, até a mais alta das montanhas para encontrar o homem sábio. Com ele, estariam guardados os segredos do sucesso, da felicidade, do amor, da paz, da harmonia, enfim, da vida em sua plenitude. No entanto, cada um que alcança tal cume, depara-se com alguém em vestes simples, sem domínios ou bens. Nem servos, luxo, conforto, tecnologia, badalação. Estranhamente, são reconhecidos no homem atributos que construíram sua lenda. E, apenas então, defrontados com o óbvio, todos compreendemos a diferença entre o aparente e o essencial.

Nunca fui à montanha. Quis o destino que a montanha viesse até mim, oferecendo o privilégio de conviver, desde a mais tenra infância, com um homem sábio de carne e osso, mas do qual emanam verdadeiras lendas. Estou falando do Irmão Arnaldo Isidoro, ou, para mim, apenas tio Irmão, falecido dia dez de junho aos noventa e seis anos. Em seus oitenta anos de vida religiosa, recém comemorados em singela missa na Casa de Saúde dos Irmãos Lassalistas, Irmão Arnaldo guiou a vida de todos os que estiveram consigo, compartilhando sem medir sacrifícios ‒ e sem auferir proveito pessoal ‒ o divino dom da sabedoria.

É fácil imaginar que, caso optasse pelo caminho do empreendedorismo, o Irmão Arnaldo, José Fridolino Schmitz de nascimento, teria se tornado um homem rico. Quem sabe riquíssimo. Sua capacidade administrativa esteve comprovada em toda biografia, seja em Minas Gerais, São Paulo ou no Rio Grande natal. Por exemplo, nos muitos anos na direção do Pão dos Pobres de Santo Antônio, instituição responsável pelo acolhimento e educação de milhares de meninos órfãos e carentes em Porto Alegre. Ciente de que os atributos do espírito sucumbem diante do frio, da fome e do abandono, dedicou sua energia para garantir o conforto e a educação das crianças, formando um legado de riqueza que certamente não caberia em medidas de ouro.

Também a política deixou de contar com alguém de carisma e capacidade de liderança incontestável. Exilado das funções públicas pela eleição do caminho católico, nem assim Irmão Arnaldo deixou de circular em todas as esferas de influência. Na Casa Lassalista, foi Provincial por duas oportunidades. Durante sua rotina, recebia e era recebido por governadores, prefeitos, deputados e senadores sem visar promoção pessoal, apenas em pleitos humanitários. Mesmo assim, ou talvez por isso, recebeu diversas homenagens, com destaque para a Medalha Cidade de Porto Alegre, em 1985; Cidadão Emérito de Porto Alegre, em 1988, e Professor Emérito, no mesmo ano.

Se a constituição de família estivesse no destino do tio Irmão, dou o testemunho de que ele seria um pai inigualável. Primeiro, pelo amparo que sempre ofereceu aos irmãos e sobrinhos, assumindo com dedicação paternal a orientação de todos nós. Mas, principalmente, pela vida de educador, assumida desde os tempos de juventude, na sala de aula, até o último dia dedicado ao orfanato. Incontáveis consideram-se como sendo seus filhos.

Estamos, por fim, todos órfãos da companhia do Irmão Arnaldo, mas carregaremos adiante seu legado e seu amor. Foi um homem que partiu do mesmo modo como viveu, sem riqueza ou poder. Em suas últimas palavras, a derradeira e sublime lição: olhava em nossos olhos e dizia “muito obrigado”. Sim, Deus sabe que apenas agradecia aquele a quem devemos tanto. Alguém que nos poupou até mesmo do esforço de subir a mais alta das montanhas em busca da sabedoria em sua mais pura essência.


10.6.10

Número 373

GUIA DO COMENTARISTA INSTANTÂNEO

É chegada a Copa do Mundo e você, que não gosta, entende ou acompanha futebol, na certa será convidado para assistir os jogos com os colegas de trabalho. Pior: com o chefe. E agora? Como fazer amigos e influenciar pessoas em uma situação tão adversa? Pois tenha sucesso e garanta seu status com o Guia do Comentarista Instantâneo, uma compilação de frases que jamais deixarão você passar por ignorante. Essa é a mais perfeita combinação de obviedades e platitudes futebolísticas ‒ expressões que farão sentido em qualquer partida. Para tanto, basta saber se o jogo está empatado, se o seu time está perdendo ou ganhando. Dica: o placar costuma aparecer no alto da tela da TV. Boa sorte!

1. Enquanto o jogo está zero a zero:

* Quem abrir o placar forçará o oponente a sair mais para o jogo.

* Esse empate nos dá a falsa impressão de termos a partida sob controle.

* Não dá para vacilar na defesa...

* Ainda está faltando um pouco de qualidade no último passe. (coringa)

* O gol que não marcarmos pode fazer falta logo adiante.

* Em jogo assim, é preciso ganhar o meio de campo.

* Ligação direta entre defesa e ataque é pouco eficaz: o adversário estará sempre de frente para a bola.

* Estou preocupado: quem não faz, toma. (um clássico)

* Centro-avante sozinho é meio gol.

2. Ao levar um gol:

* Eu disse que não se podia vacilar na defesa!

* O melhor é empatar antes que eles gostem do jogo! (e alguém odeia estar ganhando?)

* Precisamos avançar os alas, mas sem descuidar da cobertura.

* Ainda tenho a esperança numa bola parada...

* Tem que ter mais aproximação: fazer o dois/um. Desloca e recebe!

* Só não deixem os defensores no mano-a-mano!

3. Se empatar:

* Eu disse que seria de bola parada! (se o gol nasceu de falta ou escanteio)

* Eu disse que precisava de aproximação! (se foi em troca de passes)

* O caminho era lançamento nas costas da zaga! (se foi ligação direta, mesmo incorrendo em clara contradição – o gol apaga tudo).

* Agora estamos mais perto da virada.

* Onde entrou um (gol), entram mais.

* Tá, mas ainda não estamos ganhando... (dã!)

4. Quando se está na frente no placar:

* Tem jogo pela frente, um a zero é perigoso, não dá para relaxar...

* Dois a zero é o placar mais perigoso: se achar que já ganhou, babaus!

* É, mas não adianta nada se eles não souberem por que estão ganhando.

* Aiaiai... continuo com medo daquele gol perdido: pode fazer falta depois.

* Agora é só cercar. Mas sem falta! Sem falta!

* Precisam compactar mais o meio de campo (coringa).

* Se não tomarmos nenhum gol, já ganhamos! (óbvio dos óbvios)

5. Sobre a arbitragem:

* Na Libertadores isso nem seria falta.

* Só quero vê-lo respeitar os mesmos critérios... (diz tudo sem dizer nada)

* Cuidado para não fazer pênalti – esse juiz, não sei...

* O cara ficou pendurado no cartão amarelo! No segundo, rua!

* Olha lá: quem dava condições foi o mesmo que levantou a mão pedindo impedimento! (é quase sempre assim)

* A zaga não pode ficar em linha: desconfio deste bandeira.

* Quero só ver quantos minutos teremos de desconto. Quero só ver!

Terminada a partida, volte para a lista e mude algumas palavras por sinônimos, inverta a ordem direta, ou mesmo decore tudo igual para o jogo seguinte. Afinal, bastará acrescentar: Precisam compactar mais o meio de campo! Outra vez!