20.6.08

Número 269

CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS

De nada adianta remediar as conseqüências sem, antes, combater suas causas. Estaríamos diante de um argumento perfeito e acabado para priorizar políticas públicas se não fosse um pequeno problema: em um país carente como o Brasil, causas e conseqüências estão emaranhadas de tal forma que fica difícil saber onde estão umas e outras. Assim, não tem ponta do fio que se puxe sem enforcar um laço logo adiante. Mas, em algum momento, alguém precisará enfrentar o nó.

Por exemplo: pichações e depredações de bens públicos são, claramente, conseqüências de uma comunidade com valores deturpados, impunidade, baixa auto-estima e falta de educação. Bom, mas valores deturpados são conseqüência da impunidade, que é uma das causas da baixa auto-estima, que, por sua vez, é uma das conseqüências dos baixos investimentos em educação causados, entre outras coisas, pelo enorme e constante dispêndio de capital na reconstrução e limpeza de bens públicos depredados em conseqüência da total impunidade causada por valores deturpados etc.

Outro caso: o número inacreditável de mortes no trânsito é, de forma consensual, conseqüência das manobras imprudentes de motoristas despreparados, alcoolizados ou impunes, dirigindo em vias mal sinalizadas e pouco fiscalizadas. Mas motoristas alcoolizados são conseqüência de vias pouco fiscalizadas, uma das causas da impunidade que permite aos motoristas despreparados fazerem suas manobras imprudentes às vezes causadas por deficiência na sinalização por falta de verbas em conseqüência do grande prejuízo causado por tantas mortes no trânsito de cidadãos produtivos e por aí vamos sem parar.

Vejamos outro problema: a corrupção. Ela só é possível graças à certeza de impunidade de agentes públicos e privados antiéticos com livre acesso às verbas de modo nada transparente. Acontece que a falta de transparência é conseqüência da ação dos representantes públicos corruptos, que agem a serviço de empresários antiéticos e que só existem por causa da impunidade que resulta da falta de transparência, que nasce no rastro do livre acesso às verbas por parte de agentes públicos mal intencionados que são resultado de um sistema corrupto alimentado por doses absurdas de impunidade...

Eu poderia ficar por muitas páginas elegendo um por um dos problemas brasileiros, identificando suas causas e concluindo que elas são, também, pura conseqüência. Porém, os três exemplos acima, vistos na ótica de um leigo, são mais que suficientes para dar a idéia do emaranhado em que vivemos. Para tornar o caso mais dramático, a cada ano o novelo cresce mais, se enreda mais, muito mais nos confunde.

Pensando nisso, lembrei (quisera esquecer...) do tempo de pescador: a mesma linha que alcança grandes distâncias quando arremessada de uma carretilha, nem atinge o chão quando forma um flash – também conhecido como cabeleira. Em outras palavras, na mesma população reside a capacidade de avançar ou enredar-se, bastando escolher entre a ordem ou o caos. Conforme nossos exemplos, uma cidade bonita e limpa poderia atrair turistas, que gerariam empregos, consumo e impostos, que aplicados em educação e infraestrutura fariam crescer a auto-estima e a consciência pública, esta última com a tendência a exigir estruturas políticas mais transparentes para repelir os representantes desonestos e punir quem se dispusesse a subornar o governo.

Bom, mas então basta encontrar os pichadores e depredadores e todos os problemas estarão resolvidos? Não. O raciocínio é o inverso: enquanto não se prevenir e punir sequer as pichações e depredações (crimes ridículos), o nó maior nunca será desatado. Causas e conseqüências, ações e reações, são as duas pontas da mesma linha.

2 comentários:

BlogEscola disse...

*clap, clap, clap, clap*

É isto, Rubem. Ou há lei seguida à risca para tudo, ou não há lei para nada. Dura lex sed lex. Os países que conseguiram atingir um grau civilizado de ordem no mundo são justamente aqueles onde todas as leis têm igual importância.

Rubem Penz disse...

E, ao que parece, no Brasil, as leis tem importância nenhuma...
Grato,
Rubem

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