31.12.10

30.12.10

Número 402

Dois garfos

Rubem Penz                

Sempre que chega o final do ano, cronistas de ofício olham para o céu em busca de sinais. Desejam da Estrela Guia a inspiração para, com seu encanto, oferecer aos leitores alguns instantes de meditação e originalidade. Pleito muito justo, pois os balanços e retrospectivas afundam nosso chão com suas pegadas de sangue. Não fujo à regra. E, razoavelmente íntimo da elocução dos arautos, aguço os sentidos, pois as mensagens nos chegam do modo mais insuspeito. Eis a prova:

Em rotina alterada e como há muito tempo não acontecia, neste dezembro almocei em restaurantes todos os dias de semana. Por duas vezes, acompanhado por um dileto amigo. A maior parte do tempo sozinho e com os olhos e ouvidos bem abertos para fugir da má companhia dos fantasmas interiores. Refeições comerciais padrão: primeiro, enfrentando a fila de comensais escolhendo iguarias do bufê – em um extremo as saladas, no outro a indefectível balança. A seguir, na disposição apertada das mesas, compartilhando a troca de palavras entre conhecidos e de silêncios entre estranhos.

Certo meio-dia, depois de cruzar o paraíso (inferno?) das calorias e receber o vaticínio dos quilogramas no prato (R$14,20), apanhei os talheres e me posicionei em uma das contíguas mesas de dois lugares, entre uma senhora bem vestida e igualmente solitária, e um casal de jovens. Quando ia começar a refeição, reparei que havia apanhado dois garfos e nenhuma faca. Por segundos olhei para os talheres gêmeos em minhas mãos, admirando a criatividade das musas para nos mandar recados. Suspeito que devo ter esboçado um pequeno sorriso, gabando-me da grande acuidade.

Afinal, assim é nossa vida! Por vezes, temos à nossa frente pratos bem servidos de saborosas oportunidades e nem todas as ferramentas para tirar proveito. Nesta hora, uma escolha se impõe: ou, inoperantes, lamentamos as escolhas, a sorte, o destino; ou nos movemos em busca daquilo que nos falta. Em algum lugar, ou com alguém, encontraremos o complemento necessário para desfrutar da lauta refeição da vida. Ninguém é autossuficiente ao ponto de depender tão somente de seus recursos. E são as trocas, os movimentos na direção do outro para buscar e oferecer, o maior legado de nossa passagem terrena.

Por outro lado, os garfos, instrumentos preciosos e fruto de nosso engenho e arte, quando em excesso, mostram-se um enorme desperdício. E quantas vezes caímos nessa armadilha? Acumulamos muito de algo que o bastante seria menos pesado e socialmente mais justo. Pois, mesmo sem ser a minha intenção, deixei uma faca sem seu par no restaurante. Numa hipótese extrema, meu ato seria sentido por outro comensal para quem faltaria o abusivo garfo que eu detinha.

Mais: os talheres, livremente oferecidos para que todos apanhem apenas os seus, são como os bens sociais. Somente a ética e o bom senso impedem alguém de tomar todos para si, deixando o entorno comendo com as mãos. Quando uma pessoa, ou um grupo, apropria-se do bem coletivo, é consciente de seu valor e tem a exata noção da falta que fará aos outros. Por isso a corrupção, o clientelismo e o favorecimento ilícito da política brasileira são tão execráveis.

Enfim, naquele mínimo instante, saciado de inspiração e ainda com o sorriso bobo na face, resolvi olhar para os lados. Alheio, o casal de jovens à esquerda conversava sobre trabalho. Porém, a senhora à direita olhava para mim com evidente censura. Pragmática, ofereceu a lição derradeira:

– Viu, só! É isso que dá não prestar atenção no que se está fazendo...

 

23.12.10

Número 401

SAC do Papai Noel

Rubem Penz

Email de resposta modelo 1:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Adorei receber tão boas notícias: notas excelentes no colégio, obediência ao papai e à mamãe, boas maneiras, muita cooperação com o (a, os) irmão (ã, ãos), apetite e disposição no almoço e jantar. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: o orgulho da família e a certeza de estar no caminho do bem. Atenciosamente, PN.

Email de resposta modelo 2:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Gostei bastante de suas notícias: notas com boa média, alguma teimosia que outra quando o papai e a mamãe deram suas ordens, cortesia, convivência pacífica com o (a, os) irmão (ã, aos), razoáveis modos no almoço e jantar. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: o reconhecimento pelo esforço e a certeza de boa vontade. Atenciosamente, PN.

Email de resposta modelo 3:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Suas notícias não chegam a ser as piores: uma que outra nota vermelha, certa dose de stress na relação com o papai e a mamãe, civilidade, atritos contornáveis com o (a, os) irmão (ã, ãos), um pouco de resistência com a comida que foi ofertada. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: a humildade em reconhecer as falhas – esperança de evolução. Atenciosamente, PN.

Email de resposta modelo 4:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Estou alarmado com seu desempenho neste ano: passou raspando no colégio, deixou papai e mamãe em constante sobressalto, litígio permanente com o (a, os) irmão (a, ãos), apetite sempre voltado para as porcarias. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: uma confissão alentadora – pior seria tentar enganar quem tudo vê e tudo sabe. Atenciosamente, PN.

Email de resposta modelo 5:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Folgo em saber que você ainda está em casa, e não em uma instituição para menores infratores: repetência por excesso de faltas, papai e mamãe precisando depor no Conselho Tutelar, más companhias, pau comendo solto com o (a, os) irmão (a, ãos), modos animalescos à mesa. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: a fé na imponderável superação humana. Atenciosamente, PN.

Email de resposta modelo 6:

Querido (a) (nome da criança), sua mensagem é muito importante para nós! Se o que está escrito é fato, significa que mantém família e colégio sob seu controle. Tudo isso será levado em consideração na hora de escolher um presente! Aliás, estou encaminhando seu pedido para alguns amigos em Brasília. Porém, aquilo de maior valor já foi conquistado: tenho pelo menos três siglas avaliando seu histórico. Só não se esqueça de mencionar quem lhe indicou, hein?! Atenciosamente, PN.

 

16.12.10

Número 400

O pecado da carne
Rubem Penz
Dói bastante admitir, mas será muito pior negar as evidências: eu mudei. Não sou mais aquele mesmo pelo qual você se apaixonou logo no primeiro olhar, ao sentir meu calor. Ou pelo menos pareceu estar apaixonada – nossa memória vive a contar histórias convenientes. Para não mudar, sei lá, precisaríamos ter congelado o tempo, ou a mim. Assim mesmo, restaria conservado, mas, neste caso, seria apenas e continuamente uma promessa. Seus lábios não me tocariam enquanto fosse pedra. Por favor, suplico mulher, pare de me olhar assim.
O tempo é implacável e você sabe bem disso. Ele age silencioso sobre nossos tecidos, alterando tudo o que sobre a terra perece. Você também mudou. E isso não é uma cobrança, quem sou eu para cobrar algo... Apenas uma constatação a título de restabelecer a justiça. Se eu mudei mais, ou mais rapidamente – e acho mesmo que sim – ninguém tem culpa. Faz parte de minha natureza, quem sabe, esta relação diferente com as naturais metamorfoses impostas pelo tempo. Pensei que havia um pacto em nossa relação que, antecipadamente, previa que isso viria a ocorrer. Outros no meu lugar mudariam também. Então, por que este desprezo?
Tem mais: se eu mudei agora, já havia mudado antes. E a principal agente da mudança foi você mesma. Eu era de uma feição e você me deixou de outra – à sua feição, diga-se de passagem. Nem me venha dizer que melhorei muito, pois tais parâmetros são variáveis e imprecisos. Estive vassalo de seus caprichos, mas há quem prefira diferente. Esperava que eu dissesse que você é a única no mundo, apenas porque me tem diante de si? Pois vou além e ameaço: se me descartar agora, assim mesmo como estou, haverá quem por mim suspire. E você terá apenas mais trabalho para encontrar quem lhe satisfaça. É pegar ou largar.
Por falar nisso, o que pode ter se alterado, também, foi seu desejo, outrora ávido, urgente. Jamais esquecerei seus gemidos de prazer, sua língua me explorando, a entrega incondicional ao pecado. E o semicerrar dos olhos na saciedade do depois... Meu Deus, quase nem acredito que tamanho deleite tenha sido provocado por mim! Este mesmo que agora lhe causa tédio. Cansou do gostoso aqui? Enfastiou? Terei esfriado? Aqueça-me, então! Vocês sabem que aquecemos muito rapidamente, basta que tenham fogo.
Já sei: é minha aparência, não é? Vocês negam, vivem dizendo que o importante é o que se tem por dentro, essas baboseiras para boi dormir. E nós, patos, porcos, acreditamos bovinamente... Porque queremos! Afinal, como não compreender que a aparência importa sim, e muito: vocês investem tempo e dinheiro se enfeitando a todo o instante. Enquanto isso, eu estou aqui, aos pedaços, nem a pálida lembrança do passado recente. No fundo, sou aquele mesmo que lhe encheu seus olhos. Sim, vocês nos comem, primeiro, com os olhos!
Tenho a solução, e ela é um negócio bom para todas as partes. Mudo radicalmente. Melhor: você usa de criatividade e, com novas receitas, resgata o antigo prazer. Serei tão outro que, com certeza, você vai me engolir sem nem mesmo lembrar de quem, agora, implora por migalhas, sentindo-se o mais rejeitado do mundo. Pare de gastar tanta energia elétrica: tire-me logo da geladeira e me desfie, transformando-me em croquete! Ou me coloque no moedor, fazendo comigo pastéis! Só assim serei um pouco mais do que o desprestigiado rosbife de ontem.

12.12.10

399

NÃO É VOCÊ, SOU EU

Rubem Penz

Pequenas porções de ilusão

Mentiras sinceras me interessam

Cazuza

São muitas as expressões que, quando ditas, devem ser compreendidas exatamente ao contrário. No fundo, elas não passam de tentativas vãs de retardar, iludir, despistar ou confundir. Truques manjados, mas recorrentes e imbuídos de uma esperança comovedora de que ainda possam funcionar. Mensagens que até podemos fingir que acreditamos, no exato instante em que uma luz vermelha começa a piscar no sistema límbico de nosso cérebro: perigo, perigo! Exemplos:

Não vai doer. Seria mais verdadeiro dizer que a dor é pouca, todos até agora suportaram, não se conhece casos de traumas ou desmaios, quando passar nem lembraremos mais. Porém, quem está disposto a ser honesto antes de provocar dor no outro? Quando se é criança, podemos até nos iludir na primeira vez. Depois, muito rapidamente criamos anticorpos.

Agora falta pouco. Frase que costuma saltar da boca daquele que nos conduz, logo que a metade do caminho é rompida. Às vezes até antes. Relatos históricos dizem que fora proferida quando, ao dobrar o Cabo da Boa Esperança, um marujo novato se mostrou ansioso. "Já chegamos à Índia, Capitão Bartolomeu?" "Ainda não, mas agora falta pouco..."

Eu sempre acreditei em ti. Uma das sensações mais prazerosas da vida é a de superar limites. Chegar além do vislumbrado, conquistar o impossível, vencer obstáculos contrariando as mais otimistas previsões. Porém, logo depois, ainda sob o castigo da exaustão ou a vertigem da glória, não faltará aquele que jamais lhe creditou um centavo a proclamar surpreendente fé.

Estará pronto em duas semanas. Intervalo mágico de tempo mais utilizado do que tijolo e cimento na construção civil. O pior é que já escutei esta previsão dita por toda a cadeia laboral envolvida: do servente de pedreiro ao arquiteto. Acho que a conta mental é a seguinte: uma semana é escárnio. Dizer a verdade, suicídio.

Não sou mais aquela pessoa que você conhecia: ela já morreu. Das duas, uma: ou você está diante de um zumbi, ou de alguém, fatalmente, mentindo. Nem os mais dispostos a crer em reencarnação dispensam a passagem efetiva para outro plano espiritual antes de retornarmos como outra pessoa. Crendo, a lógica aponta para um futuro onde nascerá desejo legítimo de morte.

Nunca nem olhei para ela. Se existe algo que os homens fazem por ato reflexo, sem chance de controle, é olhar. Olhamos sempre: de soslaio, acintosamente, no susto, de caso pensado... Até constrangidos, quando sabemos que não deveríamos estar olhando. Agora, o leitor reparou na dupla negação da frase? Significa que o protagonista foi além do mirar.

Prometo que paro. Aí está o exemplo cristalino e bem acabado de perjúrio. E a pergunta que deve nascer dentro da mente, onde os sinais de alerta disparam, é a seguinte: se era para parar, por que começamos?

Não é você, sou eu. Hors concours no sexo feminino. Pare o que estiver fazendo e inicie agora mesmo o seu exame de consciência, já que é você, sim. Mas, relaxe: não vai doer.



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7.12.10

Novo convite!


3.12.10

convite


Número 398

SIM, NÃO, TALVEZ

Rubem Penz

Apesar de sermos todos iguais perante a lei, as diferenças entre homens e mulheres vão muito além da fitinha azul ou cor de rosa grudadas em nossas cabeças de recém nascidos. Isto é fato notório e explorado com razoável frequência. Mesmo assim, nos divertimos muito cada vez que constatamos o abismo que nos une. E foi mirando o penhasco que reparei como é diverso o modo de julgar o sexo oposto. As mulheres são, essencialmente, analíticas. Os homens, simplesmente holísticos.

Por exemplo, imediatamente depois de passado o scanner visual sobre um candidato a candidato afetivo, a fêmea da espécie humana está apta a gerar um relatório contendo de duas a três páginas de extensão. Basta que a amiga puxe conversa:

– Que tal aquele, hein?

– Olha, eu vi só de relance... O cabelo está meio desalinhado, o que traz um ar selvagem, ainda mais com a barba daquele jeito, por fazer. Gamei nas sobrancelhas. Os cílios, então: parecem até postiços. Olhos escuros, pele morena. O nariz poderia ser um pouco mais delicado, mas no conjunto não chega a comprometer. A orelha esquerda tem um furinho: ou ele já usou brinco, ou está sem ele hoje. A boca promete ser o ponto alto. Aliás, os dentes são bem claros e alinhados. Não duvido que tenha usado aparelho ortodôntico na adolescência. Queixo quadrado, forte, com uma leve covinha...

O espaço da crônica não permite que eu avance do queixo até os pés. Aliás, colocar-me no lugar da personagem mulher e, com ela, avançar ao limite da cabeça, já deu uma enorme canseira... Mas foi necessário para o leitor dar-se conta de que tudo o que foi visto pela moça foi registrado. Mais: está pronto para ser interpretado, desdobrado, analisado. Logo, de nada adianta o homem alugar um automóvel importado para impressionar a mulher desejada, se o restante dos sinais aponta para uma condição financeira instável e sujeita a chuvas e trovoadas. Além disso, para conseguir algo, o rapaz precisará dar seu recado com um bom xálalá. E nem assim estará no papo.

No caso de dois homens, uma cena semelhante e com idêntico objetivo teria o desenrolar muito diverso:

– Que tal aquela, hein?

– Eu teria a iniciativa imediata de acasalamento.*

Bom, isso na hipótese de ter simpatizado. Caso contrário, seria:

– Eu não teria a iniciativa imediata de acasalamento.**

Aí está a diferença de ser analítico e holístico: salvo algum pormenor que salte aos olhos – neste caso um "pormaior" –, o homem foca no todo. E com ele é pá, pum. Sim ou não. A mulher percebe detalhes um a um, do estado das unhas à idade do sapato. Além de, para ela, sempre ser talvez.

Melhor? Pior? Apenas diferente. E os estudiosos podem encontrar explicações que remontam o tempo das cavernas. Claro que isto dá pistas da facilidade de atender um e da dificuldade de agradar outra. Nada que seja impossível de contornar, sob pena de extinção da espécie.

*Sendo fiel à oralidade, a resposta tem uma só palavra e é sinônimo de alimentar-se.

**Idem, mais a negação

25.11.10

Número 397

SEM RISCOS

Rubem Penz

Vejo na TV o caos da Segurança Pública no RJ. Antes, li atentamente a reportagem de capa de uma importante revista semanal brasileira. Trata-se de entrevistas (quase uma centena) com homicidas. Investigou-se o que pensam e sentem aqueles que cometem este crime capital. Estão ali os que matam por razões passionais, bandidos que liquidam outros bandidos, valentões alcoolizados, assassinos profissionais e, principalmente, indivíduos que cometem latrocínios – roubo seguido de morte. Detenho-me neste último grupo, pois notei um interessante traço em comum: quem mata quando deseja apenas roubar, o faz quando a vítima reage, ou parece reagir. Em outras palavras, mata quando está em risco.

Tenho por hábito acompanhar entrevistas com autoridades de segurança pública. Seria injusto eu dizer que eles não ligam para o quadro alarmante do momento. Porém, todos os motivos são arrolados para explicar o inexplicável: poucos presídios, leis brandas, falta de inteligência contra o crime organizado, fronteiras permeáveis para a entrada de armas e drogas, miséria, corrupção, desemprego, famílias partidas, crise de valores morais etc. Por fim, em um ponto, bandidos e polícia concordam: o cidadão não deve jamais esboçar a menor reação. Se reagir, morre, diz o ladrão. Se reagir, morre, diz a polícia. A passividade conformada atenua o risco.

A conclusão é simples: com a institucionalização da passividade (e olha que a lei do desarmamento nem passou em plebiscito), com o fim do risco para os bandidos, essa atividade precisa ser denunciada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Num regime capitalista, não podemos admitir iniciativas privadas imunes ao inerente risco de empreender. Se o marginal coloca duas vidas em negociação (a nossa e a dele) e só um lado pode perder, Cade nele! E tem mais: a vida por um simples relógio, boné ou celular é preço abusivo! Procon nele! Nossa vida está valendo muito pouco. A outra, como disse, não está mais em risco.

Avançando o raciocínio, exercer "profissões" sem risco pressupõe estabilidade. Porém, sabemos que estabilidade não é bem assim: deve haver ao menos algum regramento. Concurso público, quem sabe. O bandido precisa comprovar conhecimento e controle emocional para distinguir entre o movimento de soltar o cinto de segurança e uma reação, por exemplo. Senão vai desperdiçar muita bala e queimar por incompetência um cidadão que poderia ser assaltado vinte, noventa vezes durante a vida útil. Estaríamos muito melhor atendidos se houvesse a certeza de que o ladrão precisou estudar, submeter-se a uma seleção, cumprir carreira na pilhagem. Ou, melhor ainda: ser eleito!

Ih, um problema – isso começa a ficar parecido com governo paralelo. Políticos não vão admitir concorrência. O que, por vias tortas, acende uma luz no fim do túnel: talvez combatam a criminalidade salvaguardando seus interesses e, de modo colateral, os nossos.

18.11.10

Número 396

TÚMULO DA POESIA

Rubem Penz

Um filho, uma árvore e um livro. Três chances de você passar pela existência terrena deixando algum legado, pequeno que seja. O filho tendo filhos (e estes outros filhos) faz com que sua carga genética se perpetue. Uma árvore crescerá, oferecendo sombra às gerações vindouras. Também frutificará e, semeando novamente a terra, conferirá à sua iniciativa jardineira ares de perenidade. E, quando você conquista a oportunidade de imprimir pensamentos em uma obra editada, estará contribuindo para a cultura da humanidade. Porém, como até mesmo a melhor receita de bolo pode abatumar, essa coisa de legado envolve riscos. E a posteridade pode trazer dissabores.

Por exemplo, alguém pariu Hitler, para citar unzinho só dos grandes monstros da História. Neste caso, ter pai e mãe explica a existência, mas não imputa responsabilidade. Pelo menos não toda... Quando uma árvore despenca sobre bens ou pessoas, causando graves danos, de nada adianta lembrar a cândida iniciativa de acomodar carinhosamente a pequena mudinha na terra e maldizê-la para todo o sempre. Quem poderia imaginar a tragédia futura? Assim como não devemos condenar grandes nomes da literatura Universal pelo mau uso que incautos fazem de seus escritos.

Quando um músico sofrível executa uma composição do genial Beethoven (trago um alemão para compensar outro*), costuma-se falar que o autor está se revirando no túmulo. Dá para se dizer o mesmo daqueles escritores cuja obra é citada sem critério, inadequada ou incorretamente. Isso quando não trocam a autoria – o que é comum na internet. Muitos são os textos que recebo atribuindo a criação ao Verissimo, Jabor ou Drummond, em uma flagrante fraude autoral. Ainda por cima escrevem de modo errado seus nomes!

Um caso clássico de autor exaustivamente citado, nem sempre com o devido respeito, é o de Fernando Pessoa. Conheci um camarada que, ao dar descarga em banheiros públicos, recita "navegar é preciso, viver não é preciso" enquanto parte sua embarcação. A cultura, no caso, está mais para o sentido laboratorial patologista do termo, do que para a literatura em seu melhor papel. Teria culpa o Pessoa? Nenhuma! (Só para não perder o gancho da escatologia, outro parceiro, ao sentir que alguém liberou um flato, cita Tropa de Elite: "Pede pra sair, número 2!")

Vinícius de Moraes é outro que não deixam descansar em paz. Os últimos versos do belíssimo Soneto da fidelidade são pau pra toda obra: "Que não seja imortal, posto que é chama. / Mas que seja infinito enquanto dure." Inclusive quando se muda, pornograficamente, uma das letras da última palavra, em chula alusão à potência masculina. Bom, neste caso, e pensando bem, se lembrarmos da vida do querido poetinha, talvez ele nem reclame muito. Até se divirta, rindo da perversão.

Por fim, outro de quem não largam o pé é Mário Quintana. Em seu Poeminho do Contra, ele diz: "Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho." Verdadeiro lema para quem almeja a perenidade, os versos do poeta dão asas ao destino e põem ovos em qualquer cesta: todos nós podemos reivindicar nossas penas diante daqueles "esses" que atravancam nosso caminho. Mas tudo tem limite – foi o que eu disse outro dia para um marido traído que evocou Mário Quintana para explicar sua mansidão diante do infortúnio conjugal. Aí foi demais! Quintana revirou no túmulo!

*Braunau am Inn, cidade natal do Führer, fica na fronteira de Alemanha e Áustria.


 

12.11.10

Número 395

NÃO ACHO NADA

Rubem Penz

Quem acha vive se perdendo

Noel Rosa

Nos dias correntes, de superexposição, há quem esteja confundindo dois conceitos muito diversos: a opinião e o palpite. Opinião é (ou deveria ser) resultado de uma análise de conjuntura, um ponto de vista fundamentado. Ou, no mínimo, produto de uma consistente reflexão. Neste sentido, ninguém de bom senso opina sobre o que desconhece, nem que seja por autopreservação. Já o palpite é diferente: ele é uma espécie de aposta. Não por acaso, ao jogar na loteria ou nos cavalos, denominamos de palpite nossa fé no sucesso da aposta. Enfim, quem apenas acha é porque, na certa, desconhece.

Vira e mexe me pedem opiniões sobre temas variados. Acho que são os óculos que, carinhosamente, denomino de inteligência artificial. Outro palpite é o ar de bom moço, centrado, que me persegue ora para o bem, ora só para atrapalhar. Isso não vem de hoje e tem se agravado na medida em que os anos de crônica se empilham em minha biografia – nada mais opiniástico do que este gênero híbrido de jornalismo e literatura. Não me iludo ou envaideço. Afinal, pedem-me opiniões aqueles que, com bom aporte financeiro, compram pareceres, diagnósticos, projeções... Mas, cuidado: jamais acreditem em meus palpites. São todos furados.

Tenho lutado diuturnamente para fugir da tentação de achar coisas. Sou o pior palpiteiro do mundo. Para minha esposa, com quem divido a rotina, venho repetindo um mantra: não acho nada. Ainda mais que, lentinho como sou, demorei quase meia vida para me dar conta de que 80% das perguntas das mulheres são absolutamente retóricas. E o índice sobe para 100% quando se refere à aparência, principalmente ao despirem o quinto vestido. Mas, mesmo nas miudezas da vida, naquilo que pouco influenciará nossa história, erro a mão com uma constância desanimadora. E sofro com as consequências, culpando-me num eterno flagelo interno. Pior: quando, malandro, resolvo contrariar meu palpite, esqueço que ir contra o palpite também é um palpite. Falho igual.

Por exemplo, nessa semana. Vínhamos de um dia escaldante e passamos uma noite abafada. Escutei a previsão do tempo com seu alerta para a chegada de uma frente fria destinada a, primeiro, provocar vento e chuva para, depois, nos ofertar frio e geada. Vinha do Uruguai e da Argentina e mudaria o tempo no decorrer do período. Mas passava das nove da manhã e o sol ainda brilhava no firmamento. A patroa tinha um compromisso profissional e me perguntou se deveria levar um casaco. Indaguei a que horas eu a buscaria de volta. No máximo às duas da tarde, garantiu. Caí em tentação. Não escutei a voz da consciência e seu necessário mantra. Palpitei: acho que não...

Quando ligou para ir buscá-la, pediu para que não me esquecesse de pegar o casaco que eu dissera dispensável. Chovia para cima, para baixo e para os lados. A temperatura descera uns dez graus centígrados quase instantaneamente. O tal período da previsão decorrera correndo. Sua gripe piorara a ponto de ela estar afônica do outro lado da linha. Um desastre aquele meu palpite.

Agora, quer saber a minha opinião sobre o fato? Foi tudo culpa minha. Como contrição, devo escrever cinco laudas em corpo oito: não acho nada; não acho nada; não acho nada; não...

4.11.10

Convite para dia 08/11


Número 394

TADINHA

Há quem goste de se colocar na posição de coitadinho. Provocar pena. Fragilizar-se. Diferente dos naturalmente humildes, ou dos inseguros, o coitadinho proposital faz uso metódico de sua posição sofredora. É um profissional da esmola, algo que pode ser (e é) muito mais do que a tradicional ajuda monetária no semáforo. Coitadismo é artifício, é proteção. Instância onde não há cobranças: o coitado nunca tem culpa. Nada mais confortável do que portar um salvo conduto obtido a partir de uma conspiração cósmica contra si.

Quer me deixar indignado? Diga que sou um coitadinho. Já fui vítima de injustiça, de violência, de humilhação. E quem não foi? Sofri feito cão vadio dos males do amor, fui caluniado... Até quiseram a minha caveira. Pequei por omissão e – ah, quanto me custa confessar – fui meio covarde em algumas situações. Coitado de mim? Jamais! Reuni forças e sempre tentei superar as adversidades, consciente de que a vida reserva tropeços para quem se dispõe a caminhar. Tombando, descobri muitos motivos para admirar as pessoas em suas vicissitudes: quanto mais sei de seus calos, mais aprecio sua coragem.

Quer me deixar ainda mais indignado? Chame alguém de coitado reiteradamente. Minha vontade é alertar: "Olha que horror, já estão te chamando de coitado. Faça alguma coisa, correndo!" Mas, quando parece consenso, quando o coitadismo vira escudo, dirijo a revolta para o outro lado: "Coitado, nada! Se faz de vítima para passar bem." Soa para mim como um habeas corpus para a incompetência, para a preguiça, para o masoquismo. Passaporte carimbado para uma vida parasitária. Deus me livre.

Este parecia ser o caso de Tadinha.

Ninguém se lembrava do seu nome: desde pequena, ainda na família, era Tadinha pra cá, Tadinha pra lá. Derrubava o vaso de flores e, tadinha, foi sem querer. Quando batia no rosto do irmão, tadinha, estava só se defendendo. Falava errado, não tinha deveres e ganhava cardápio especial porque, tadinha, era pequena. Cresceu e carregou o apelido para além muros. Levou-o consigo, inclusive, na mochila escolar. E as notas baixas de Tadinha passaram a ser explicadas por perseguições dos professores.

Casou-se com um homem bom. Alguém que compreendeu que, tadinha, era assim tão dada porque os outros abusaram de sua condição ingênua. Durante os votos de núpcias, pairava o silêncio nos bancos da Igreja: Tadinha, de todos, de tantos, escolhera o mais feio, o mais simplório. Mas, tadinha, já estava ficando para tia.

Tadinha não parava em nenhum emprego. Por isso, tadinha, vivia ganhando muita ajuda dos pais – tinha hábitos refinados e bom gosto; além de um marido esforçado, todavia mediano. Por isso, ninguém a culpou quando, tadinha, deu um pé na bunda do homem. Ele nunca estivera à sua altura. Claro que, agora que Tadinha estava com três filhos, o incompetente do ex deveria fazer de tudo para que nada faltasse.

As crianças cresceram meio soltas, pois, tadinha, não dava conta de tudo tão só. O mais velho foi para o mau caminho – acabou preso. Hoje, encontra-se foragido. A do meio se mudou para Minas Gerais. Tadinha não tem notícias da filha ingrata, que dizem estar bem situada na vida. O caçula não! Este está sempre com a mãe. Se bem que, grande coisa... Coitadinho, Tadinho tem muitas dificuldades. Os senhores aí, ou a senhora, não teriam como conseguir uma bolsa de estudos para o pobre garoto?

 

 

29.10.10

28.10.10

Número 393

DEPOIS DO CAIS VEM A ÁGUA

Rubem Penz

Já são incontáveis os anos de espera para os porto-alegrenses verem a sua área portuária revitalizada e finalmente integrada à cidade. Ao olhar para Buenos Aires e seu Puerto Madero, ou para o Porto de Lisboa, dois bons exemplos, submergia a inveja. Agora, a expectativa parece estar chegando ao fim. Em alguns momentos temi que isso nunca viesse a ser realidade, por mais que fosse um sonho coletivo. Porém, ainda no fervor da comemoração, o próximo passo se impõe. E ele é, na verdade, um mergulho, pois deve acontecer dentro das águas do Guaíba. O Brasil precisa acordar para as hidrovias.

O Cais Mauá, lindo projeto dos urbanistas Jaime Lerner e Fermín Vázquez, é o recém nascido de uma cidade mãe traumatizada por muitos abortos espontâneos. A política brasileira, e mais fortemente a gaúcha, costuma interromper os planos de longo prazo a cada troca de governo. Como ainda não tivemos governadores reeleitos no RS, significa que nenhum plano de maior fôlego, concebido para cumprir uma gestação longa, tinha chance de chegar a bom termo. Precisou um governo feminino fazer o lógico: permitir que a mesma equipe que já vinha tecendo os complicados entendimentos para vermos renascer a área costeira continuasse seu trabalho. Algo para além das siglas partidárias e visando o bem comum.

O principal traço do projeto para o Cais Mauá é a acessibilidade. Em outras palavras, a devolução de caminhos para que a cidade de Porto Alegre e o Guaíba sejam novamente integrados. Parece até mentira: mesmo com porto em seu nome, a capital gaúcha esteve ceifada do convívio com as águas que compõem sua paisagem central durante décadas. Muitas gerações deixaram de ser moldadas pelo carinho das margens, algo muito determinante na personalidade dos homens. Seríamos menos secos de afeto caso jamais erguêssemos muros entre o solo e a água – basta reparar na leveza e afabilidade dos povos litorâneos.

Mas agora que estamos chegando às bordas de um novo tempo, há que se mergulhar para dentro do Guaíba. Uma cidade com graves problemas viários não pode seguir desperdiçando traçados em hidrovias. Seja para fins turísticos, seja para transporte de carga e passageiros, o leito do Guaíba e de seus afluentes esperam por embarcações. Quem viaja pelo Brasil e pelo mundo vê o quanto de praticidade e beleza o transporte hidroviário oferece. Além do mais, é menos poluidor. Se integrado com outros modais, poderá deixar muitos automóveis guardados na garagem. Também é o caso de estimular os esportes náuticos, tais como remo e vela, e o banhismo, cada vez mais próximo com o gradual avanço do tratamento dos efluentes.

   Porto Alegre será uma das sedes da Copa 2014. Estará inserida em um contexto global só comparável ao momento em que acolheu o Fórum Social Mundial. Brasileiros por todo o mundo querem ter orgulho de nossas cidades. Caberá ao governador eleito um mergulho sério nestas questões. E ao prefeito a disposição de prosseguir remando para o mesmo lado: ambos para frente, de preferência – não merecemos retrocessos diante de tão lindo filho que a cidade acolhe em seus braços. Vamos partir do Cais Mauá para mergulhos mais profundos e voos mais altos. O sol que se põe no Guaíba há de testemunhar o nascimento de novos dias.


22.10.10

Número 392

BONDE CRÔNICA

Rubem Penz

Há uma memorável crônica de Paulo Mendes Campos com o seguinte título: Por que bebemos tanto assim? Fala de bares, é claro, e traz algumas pérolas. "É preciso escolher bem o nosso bar, pois tão desagradável quanto tomar um bonde errado é tomar um bar errado." Em nove de março, convidei um grupo seleto de escritores para, com eles, tomarmos um bar como quem toma um bonde: tínhamos um ponto de partida, uma trajetória a percorrer e um destino a cumprir. Cabia a mim ser o motorneiro da turma, aquele encarregado de levá-los a tal ponto que escrevessem crônicas para compilarmos em uma antologia. Partia a oficina Santa Sede.

A certa altura do texto, Paulo Mendes Campos cita Baudelaire: "É preciso estar sempre bêbado – de vinho, de poesia, de religião." Santa Sede! Foram meses embriagados pelo ímpeto criativo. Saber beber guarda um parentesco com saber escrever. Questão de medida, ritmo, sabor, tempo. Também de torpor, ebriedade e delírio. Fui garçom vigilante – jamais deixei que o copo dos oficinandos esvaziasse. Dependendo do tema proposto, vinha a reclamação: a dose de dificuldade estava além da conta... Mas, ao final, todos resistiam bem. Ora ficamos tontos, ora apenas alegrinhos. Nosso trabalho foi muito sério e pouco sóbrio.

"Um bar legal precisa apresentar cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida." Sim, isso é Paulo Mendes Campos. Quando pensei em abrigar a oficina em um botequim, precisava de um bar legal – por isso o Matita Perê. Desejava que a boemia imprimisse nos textos tanto sabor quanto o carvalho à bebida. Nossas qualidades também precisavam ser cinco: boa circulação de ideias, propriedade nos apontamentos, crônicas bem servidas, bons autores e... boa bebida. Juntando tudo, tivemos algumas noites nota dez. Na média, o bar e a oficina nos fizeram passar muito bem.

Em tom professoral, Mendes Campos alerta que "quem vende bebidas deve ser linchado quando exige de seus fregueses comportamento de casa de chá". Quando a oficina começou, eu sabia que estaria, vez por outra, na selva das opiniões. Desejava isso, no fundo. O ambiente acadêmico e os centros culturais são locais excelentes para abrigar oficinas. Mas a crônica, e a poesia, têm algo de indomável em seu âmago. "A vida ao rés do chão", conforme diz Antônio Cândido. Lidar com a descontração crônica das bolachas de chope, e nem assim perder a lucidez, estava na mesa. Colarinho branco, só o dos copos. Mas o chá sempre esteve liberado – tolerância plena com as diferenças.

Já no final da crônica, Paulo Mendes Campos acerta na mosca: "Transpondo a porta do bar, o homem age com toda a pureza e inocência, buscando fugir ao sofrimento, tentando cumprir a sua vocação para o prazer...". É isso! Melhor, só mesmo se levar junto seus amigos, todos no mesmo intento. Dez meses atrás, embarquei uma turma de vocacionados num bar como se tomassem um bonde. Oficina Santa Sede. Cumprimos todo o trajeto dando curvas nas dificuldades, apreciando textos como quem está diante de paisagens, firmes para que jamais faltasse energia. Aos escritores, minha imensa gratidão por usarem minha companhia.
Agora, em nosso derradeiro ponto, a certeza de que tomamos o bar certo – um botequim bonde crônica, com perdão do inevitável trocadilho. E começa a viagem dos leitores! Convido você para ler Santa Sede, crônicas de botequim, Ed. Literalis, 238 páginas, 80 crônicas de oito autores inspirados. Autógrafos no boteco Matita Perê, nosso anfitrião, dia 26, terça-feira, 19h. Fica na Rua João Alfredo, 626, Cidade Baixa, Porto Alegre. Apenas sua leitura fará o livro cumprir o melhor destino. E, como está escrito na contracapa, "O Ministério da Saúde adverte: ler faz bem para a saúde".

15.10.10

Convite para noite de autógrafos


Número 391

FUMAÇA DE FRANGO

Quando a mamãe sorridente do comercial de supermercado retira o frango dourado do forno, cuidando para não queimar as mãos na assadeira, a coisa não é bem assim. Durante a gravação a ave não só está fria, como também envernizada e banhada por produtos químicos. São efeitos especiais para fazer aparecer a belíssima fumaça branca que, do outro lado da tela, fará brotar água na boca.

Tudo bem: na TV não existe temperatura, só a impressão de temperatura; não existe sabor, só a impressão de sabor; não existe perfume, só a impressão de perfume. Televisão é imagem, som e fantasia. Mentiras bem montadas para que sejam mais críveis do que a verdade cozida ou crua.

E propaganda política, será que segue a mesma lógica?

Odeio dar uma de Mister M e estragar a ilusão de quem acredita fielmente no que vê e escuta dos candidatos durante o período eleitoral (se é que pessoas assim estão lendo essas palavras). Porém, afirmo com poucas chances de estar equivocado: o que mais vemos nas propagandas partidárias é fumaça de frango.

São cenários milimetricamente montados para serem mais palatáveis aos olhos e ouvidos do que a vida real. Artifícios técnicos capazes de preencher as lacunas sensoriais e induzir o telespectador a acreditar que as pessoas ali estão quentes, saborosas e perfumadas. Isso é certo? É errado? Nem uma coisa nem outra: é propaganda de TV, a alma do negócio eleitoral.

A partir do momento em que nos damos conta de que tudo é falso (precisa ser falso já que é TV), a próxima indagação deve ser a seguinte: aquela fumaça tão sedutora está ali porque o candidato (ou candidata) é quente, e por isso precisa mostrar que é quente; ou porque é frio (fria), e por isso precisa desesperadamente mostrar que é... quente?

Aos marqueteiros essa questão é irrelevante. Para eles, pouco importa que a pessoa seja frango, peixe ou gado; esteja quente, fria ou congelada; seja palatável, insossa ou mesmo intragável. Para os homens de propaganda, a imagem contratada não é um pedido, é uma ordem correspondente a um preço. Tudo é técnica, tudo ardil. Homens, quando coisificados, ganham tantas camadas de verniz e banhos químicos quanto forem necessários para parecerem saborosos no final.

Mas, e agora, o eleitor deve acreditar no quê?

A resposta é simples como fritar um ovo: o eleitor deve prestar menos atenção na propaganda, e mais na biografia dos envolvidos. Isso vale para qualquer pleito, para todos os candidatos, em primeiro e segundo turno. Para as escolhas ao poder executivo e ao legislativo também. Vale até mesmo para o síndico do prédio, a quem confiamos a administração do nosso pequeno mundo.

Fácil! Todo candidato tomou decisões no passado, fez escolhas; esteve (está) ao lado de uns, combateu outros. Errou e acertou; posicionou-se ou se omitiu; evoluiu ou retrocedeu; tentou muito esconder-se. Isso, em princípio, não qualifica nem desqualifica ninguém, pois o que é mérito para um eleitor pode ser demérito para outro. Aquilo que aparece na biografia de alguém apenas é o que é, doa a quem doer. O resto é fumaça.

Fácil? A dificuldade começa quando, em política, até mesmo as biografias parecem etéreas... E a mamãe pátria sorri, oferecendo aos filhos aves pintadas de verniz.

 

13.10.10

Convite Santa Sede


8.10.10

Número 390


ESTERILIDADE

Rubem Penz

Os pais foram tudo para Regina. Diz que viveu anos de verdadeira realeza durante a infância: quando pedia, ganhava. Quando desejava, acontecia. Quando implicava, era aquilo nunca mais. Para todas as escolhas ela tinha preferência. Dormia até quando julgasse suficiente, deitava quando queria – jamais teve o sono violado. À mesa, só lhe era servido o que trazia prazer. Escolhia o roteiro das férias, o programa do final de semana, o canal de TV, a música e tudo mais. Ela é convicta: seus pais foram tudo para ela.

Mas, uma dúvida me intriga: quem teriam sido os seus pais?

Isso porque toda hora nossos amigos relatam maravilhas familiares. Um, disse que os pais ouviam música clássica durante as manhãs de domingo. Era o único dia da semana em que não havia hora para levantar, desde que os filhos não abusassem – medida complicada, mas que era de alguma forma compreendida por todos. Então, ele despertava ao som de Beethoven, Liszt, Strauss, Vivaldi... Esse amigo confidenciou que sente muita saudade daquelas manhãs de domingo, e que a mata quando, vez por outra, repete o ritual de sua infância. Também gosta de contar aos filhos outras histórias peculiares sobre seus avós. Regina nunca soube dizer a preferência musical dos seus pais. Lembraria de alguma rotina especial de domingo?

Outro camarada, que adora viajar, falou que foi dar asas ao desejo apenas na adolescência. Seus pais tinham muitos bichos: canário belga, pintassilgo, periquito, coelho, galinhas, tartaruga e dois cães. E não eram ricos a ponto de contratar alguém para cuidar dos animais. Logo, passavam as férias em casa. A partir de um momento, ele passou a aproveitar a folga dos estudos para ajudar na limpeza das gaiolas, colher ovos, sair com os cães para passear. Com isso, ganhou uns trocados da mãe e fez sua primeira viagem ao litoral, para um camping. Garantiu-nos que foi o máximo! No ano seguinte, deu aulas particulares, ajudou com os bichos, lavou carros e ficou quase um mês longe de casa. Regina lembra que ganhou hamster, cachorro e gato quando pediu. Mas não recorda de quem cuidou deles quando enjoou. Teriam sido seus pais?

Às vezes, os amigos acham que Regina não parece ser de nossa época. Todos citamos de cabeça alguns radialistas, apresentadores de TV e comentaristas – nenhum ela conhece. Nossos pais, sempre que estavam no carro, escutavam programas de notícias. Também escolhiam o canal de TV durante o jantar. Cantamos de cor umas cortinas musicais engraçadas, imitando vozes e bordões a ponto de ficarmos até melancólicos com essas lembranças. Falamos de jornalistas mortos como quem comenta sobre um tio ou um padrinho. Será que os pais dela nem ligavam para as notícias?

Pois é... Regina viveu anos de verdadeira realeza durante a infância. Só não tem muita certeza se é apta a ter filhos. A ideia de atender-lhes todos os desejos, dar-lhes tudo o que pedem e estar sempre ao dispor lhe apavora. Prefere apenas continuar cuidando das suas coisas, fazendo o que gosta, indo para onde quer a qualquer tempo. Deve isso aos valores de berço. Assim como seus pais foram outrora, Regina é tudo para ela.

Pensando bem, quem seriam seus filhos?

1.10.10

Número 389

NOEL, ADONIRAN E GARDEL

Rubem Penz

Quem é você, que não sabe o que diz?

Meu Deus do céu, que palpite infeliz...

Noel Rosa

Este ano, eu, o violonista Maurício Marques e o cantor Dudu Sperb fomos selecionados para Circuito Arte Sesc – Cultura por toda a parte, promoção do SESC/RS. Juntos, formatamos um espetáculo cujo objetivo é resgatar um pouco da vida e da obra de dois grandes mestres da Música Popular Brasileira (MPB) – Adoniran Barbosa e Noel Rosa. Ambos completam centenário de nascimento, motivo mais do que razoável para fazer subir o interesse do público e, claro, dos agentes encarregados pela divulgação. O comparecimento tem sido excelente, o que muito nos honra e alegra.

Desde o princípio, nosso trio esteve diante de um terrível dilema: com tantas e tantas músicas dignas de registro, qual escolher? Ou, melhor (digo, pior): quantas magníficas deixar de fora... Somente Noel, com suas mais de trezentas canções, preencheria umas duas horas a fio sobre o palco. Com Adoniran o quadro é semelhante, acrescida a garantia de participação do público cantando junto. Mas a solicitação era de uma hora de show, com um "chorinho" de vinte minutos, e olhe lá.

A solução foi pesquisar detidamente a biografia dos compositores para, em um roteiro justíssimo, coser numa só trama os amores, dores e alegrias com a obra poética, trajetória pessoal e legado artístico de Noel e Adoniran. Assim, fazer emergir temas fundamentais, mesmo sem ser tão conhecidos para, com eles, trazer à tona a personalidade dos artistas e o estilo de vida do Brasil da primeira metade do século passado.

Por exemplo: Filosofia, grande sucesso de Noel, cuja letra surpreende ainda mais por ter sido composta em tenra idade, foi a primeira música que João Rubinato (Adoniran) cantou até o fim em um programa de calouros. Logo, o pontapé inicial de sua própria carreira. Por isso, mereceu não só entrar no roteiro, como dar nome ao show. E seguimos com tal critério para Três apitos, Iracema, Saudosa Maloca, Palpite infeliz, Até amanhã etc. Escolhas delicadas, mas conscientes. Como também tudo o que dizer para que o público compreenda a abrangência, profundidade e relevância dos dois compositores.

Claro que, com tantas restrições impostas pelo tempo, Filosofia, canções de Adoniran e Noel vale mais como ponto de partida para quem deseja tomar contato com o legado de ambos. Porém, graças ao talento de meus companheiros, e sem temer a vaidade, nosso trabalho é preciso, acautelado, relevante. Em respeito aos homenageados, jamais cometeríamos a leviandade de subir ao palco com menos do que correção. Por isso, cheguei a ficar perplexo quando, em uma das cidades, nosso motorista veio me confidenciar:

– Olha, uma senhora adorou o espetáculo, mas pediu para avisar que Noel Rosa não nasceu no Rio, não. É mineiro, segundo o que lhe garantira uma amiga de lá.

Não consegui encontrá-la para agradecer a dica. Diria que sim, Noel é mineiro. Adoniran, também. Assim como são eles potiguares, catarinenses, pernambucanos, gaúchos... São filhos do Brasil inteiro, mesmo que um tenha vindo ao mundo em solo carioca, outro em terras paulistas. Suficientemente grandes por seus legados, eles dispensam o mistério e a polêmica de Carlos Gardel, aquele que é reivindicado por três nações.


Filosofia, canções de Adoniran e Noel / foto: Bugra Pacheco


24.9.10

Número 388

CERVEJA DE PANELA

Rubem Penz

Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino

Baby, Didi e Pepeu Gomes

Foi-se o tempo em que uma moça deixava a casa dos pais apenas para se casar. Durante este período, ainda recente em nossa memória, lar era quase sinônimo de família. Tanto que havia toda uma preparação, o enxoval. Nele, conjuntos completos de roupa de cama, mesa e banho; jogos de jantar, baixelas, faqueiro etc. Também o divertido chá de panela. O rapaz? Não, ele não se preocupava com nada disso. O negócio dele era estudar e trabalhar. Um bom emprego era tudo o que um homem precisava para constituir uma família. Ah, e uma noiva, de preferência.

No pós-feminismo, por coincidência ou não, sobejam os lares de solteiros. Se antes havia uma espécie de linha direta da mão do pai para a do noivo – e da mãe para a da noiva –, agora quem parte para sua casa o faz com seus próprios pés e pelas próprias mãos. As meninas foram à luta e conquistaram seu lugar no mercado de trabalho. Logo, não precisam mais de um marido para garantir-lhes o sustento. Porém, não perderam de todo suas habilidades de donas de casa. Digo de todo por conhecer mulheres que, como reza o ditado, não sabem fritar um ovo. Mas, em regra, seus apartamentos são um exemplo de ordem e correção.

Para os moços, a parte do sustento sofreu poucas alterações. A novidade da solteirice independente é não terem mais ninguém para aquela mãozinha nas tarefas domésticas. Nossa liberdade, portanto, passa pelo processo inverso: rumamos para a conquista do lar. Para cada mulher que atinge sua valorização com um cargo de gerência ou diretoria, há um homem se vangloriando em saber qual o melhor amaciante na prateleira do supermercado. Umas sofrendo as pressões de planilhas com maus resultados, outros cuidando para não ver frustrada a receita do jantar.

Porém, existe uma diferença conceitual que ainda precisa ser superada: as feministas lutavam pela igualdade por sentirem-se diminuídas no papel de mães e donas de casa. Assim, é muito mais difícil para o homem ostentar com orgulho sua habilidade para, por exemplo, esticar os lençóis. Há algo impregnado no tecido social dizendo para ele que isso é tarefa menor. Homem que é homem, nos padrões machistas, não arruma a cama: arruma uma namorada que faça para ele. Ou, no mínimo, paga uma empregada. É bem difícil promover avanços quando eles parecem retrocessos...

Essas reflexões surgiram pelo súbito interesse que tive em montar uma lista tipo "chá de panela" para um rapaz que veio de outro Estado para cá apenas com seus livros e roupas. Em minutos, e de memória, elenquei mais de trinta utensílios indispensáveis para um lar, desde a área de serviço, passando pela cozinha e chegando ao banheiro. A intimidade com a rotina doméstica me assustou. O ímpeto em ajudar outro homem a ter uma casa decente, sentimento quase maternal, apavorou-me. O fantasma do machismo espreita nossa alma.

Resolvi o dilema com duas constatações tranquilizadoras: o item primeiro da minha lista é um conjunto de ferramentas. Nem escrevi chave de fenda, Phillips, alicate, chaves de boca, martelo etc., por considerar masculinamente óbvio. Depois, achei melhor chamar de "cerveja de panela". Perfeito mesmo, só se o evento coincidir com um Gre-Nal na TV: o negócio é garantir o quorum.

16.9.10

Número 387

DE CABO A RABO

Rubem Penz

Lembro daquela tarde como se fosse hoje: o parque estava cheio e o céu aberto. No horizonte, nuvens em rabo-de-galo prometiam chuva em, no máximo, 48h. Mas quem pensava tão longe enquanto a primavera juvenil brilhava no firmamento? Eis que, de rabo de olho, noto a chegada da mais bela das mulheres. Do grupo que passeia sorrindo, é a única de rabo-de-cavalo. E tenho um fraco por pescocinhos que nem lhe conto... Tomei coragem e puxei conversa: só me faltou abanar-lhe o rabo.

Para total surpresa, ela me deu confiança. Meu ego subiu como um pipa, as pernas amoleceram feito rabilola, seria ela quem me colocaria na linha? Sim, pois sempre fui do tipo que não podia ver rabo de saia... Quedei-me e me afoguei com seu canto de sereia – aquele ser mítico, busto de mulher e rabo de peixe. Fervi como se um rabo quente estivesse em minhas veias. Em pouco tempo estávamos enrabichados.

No dia em que ela me levou até sua casa pela primeira vez, entrei com o rabo entre as pernas. Seu pai, um rábula rabugento, disse que deu um pé na bunda de todos os outros pretendentes. Ela sorriu. Eu, não: que o velho não viesse, pois daria um rabo-de-arraia antes de ele encostar um dedo em mim. Ninguém merece sogro ardido feito rabanete! Mas, por falar em comida, a sogra foi um doce... Levou o marido para ver TV no quarto e só apareceu na sala para nos servir rabanada. E ainda prometeu que me receberia em seu aniversário com uma feijoada completa – com direito a orelha de porco, joelho de porco e outra parte do porco que posso deixar subentendida nessas alturas da história.

O tempo riscou o destino rápido feito rabo de cometa. De intimidade em intimidade fui, enfim, intimado: precisávamos nos casar. Não havia escapatória, pois já tinha o rabo preso. Claro que, no fundo, desejava isso: encontrara a mulher da minha vida, esperar por quê? Na Igreja, de braços com a sogra, vi aquele monumento branco surgir no lado oposto à nave... Que véu enorme, disse. Que decote enorme, disse. Que rabo enorme, levei uma cotovelada. É cauda o que tem no vestido, explicou a sogra. É sinônimo, me defendi. No lugar do rabo-de-cavalo, o penteado alto: continuava ali o meu pescocinho...

Veja você que chegamos aos dias de hoje. Não digo que a vida até aqui foi um mar de rosas – houve, sim, uns arranca-rabos normais, como em qualquer relacionamento. Mas posso dizer que passamos bem. Em termos financeiros, como sou médico urologista, nada nos faltou: a carestia, que para muitos põe o orçamento no pescoço, para nós é água que mal bate no rabo. Por isso, minha mulher é reconhecidamente alguém de sorte. Não tem dia, não tem hora nem lugar em que nós passamos sem que eu escute ao apontarem para ela: olha lá, que rabo tem aquela! O vizinho, o açougueiro, o padre... Até o rabino. As outras mulheres – me divirto! – beliscam seus maridos sem parar. Devem fazer isso de inveja de minha rabudinha, que a todos sorri.

Eu? Sim, sou um homem de sorte. Confesso sem medo que tenho um baita rabo. Há quem diga que até mais do que isso.

 

9.9.10

Número 386


BODAS DE PRATAS DA CASA

Rubem Penz*

Circula no meio literário brasileiro uma observação bem-humorada, segundo a qual basta que se levante uma pedra aqui no Rio Grande do Sul para encontrarmos dois escritores. Evidente exagero. Porém, o número de gaúchos publicando nas melhores editoras do país, indicados ou vencedores de concursos nacionais e internacionais, com suas obras traduzidas e – importante! – abastecendo o mercado com bons livros a cada ano demonstra um fundo de verdade nisso tudo. Da quantidade, sabemos, nasce a qualidade.

Tal fenômeno pode ser explicado em parte pela existência de muitas oficinas literárias por estas plagas. Dentre elas, a mais representativa de todas: a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), ministrada pelo escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil. Ela, que é a mais antiga em atividade de forma ininterrupta em território nacional, acaba de completar 25 anos de existência. E, para comemorar a data, reuniram-se alguns escritores que por ela passaram para a Aula Inaugural do segundo semestre do curso de Letras da PUC. Dentre oito centenas de egressos, tive a honra de ser um dos seis nomes que compuseram a mesa.

Foi uma oportunidade invejável para os convocados, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Jaime Cimenti, Marcelo Spalding, Robertson Frizero e eu, em nome dos demais, agradecermos o privilégio de cursar a Oficina do Assis, como também chamamos. E de testemunhar diante do Magnífico Reitor, professor homenageado, mestres e alunos, o quanto seus dois semestres de duração foram importantes em nossa vida pessoal e literária. Sem combinarmos nada, um complementou o que o outro decidiu ressaltar, dando uma ideia do que nos acrescentou cada seminário, exercício, referência ou dica proposta pelo mestre.

Outra coincidência valiosa: bastaria a leitura de qualquer fragmento da obra dos autores ali presentes para trucidar a tese de que oficinas literárias formam escritores padronizados, todos urdidos à semelhança do professor. É abissal a distância entre seis, sessenta ou seiscentos de nós, pois o talento, acrescido de técnica, evidenciou ainda mais nossas diferenças, fortalecendo traços individuais. Algo que também pode ser comprovado nas Antologias que já alcançam a marca de 40 – esta mais recente com lançamento marcado para sábado, 17h, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping.

Concluo com o grande consenso da solenidade de aniversário: mesmo que da Oficina de Criação Literária da PUCRS não houvesse saído escritores respeitáveis, e são vários os acima da média, sua existência estaria plenamente justificada pelo surgimento de oitocentos excelentes leitores. Leitores críticos, preparados, sensíveis, exigentes, experimentados, detalhistas. Leitores capazes de valorizar o labor dedicado a cada palavra que compõe o bom conto, poema, romance ou crônica, pois conscientes do tempo e do esforço despendido. Logo, para que aqueles dois escritores que estão debaixo da pedra conquistem um lugar ao sol literário, será demandado muito empenho. Também por isso, obrigado professor Luiz Antonio de Assis Brasil!

*Aluno da turma de 2007

3.9.10

Número 385

NÃO SEI EM QUEM VOTAR*

Rubem Penz

 

Esta é uma obra dedicada ao nosso sistema político e partidário que, mesmo imperfeito, não pode ser responsabilizado pelas falhas dos homens que o denigrem ainda mais a cada pleito. Nasceu para ser interpretada por um eleitor e um político – candidato ao Legislativo ou Executivo, tanto faz. Como foi escrita para ambos, é possível depreender o nome da dupla: Caracu. O político é o cara. O eleitor entra com o talento que lhe resta.

 

Eleitor: — Eu sei que vou votar...

Político: — Eu sei que vais votar...

Eleitor: — Por toda a minha vida eu vou votar...

Político: — É nossa salvação regimentar.

Eleitor: — Em cada escurtínio eu vou votar...

Político: — Encare o sacrifício de votar.

Ambos: — Democraticamente, assim se vai votar!

 

Eleitor: — E cada voto meu

Político: — E cada voto teu

Eleitor: — Será

Político: — Será

Eleitor: — Pra mal dizer

Político: — Pra eu poder

Eleitor: — eu não saber votar...

Político: — só me locupletar...

Ambos: — ... por toda minha vida!

 

Eleitor: — Eu sei que vou chorar

Político: — Eu sei que vais chorar

Eleitor: — A cada ausência tua, vou chorar

Político: — A cada ausência minha, vais chorar

Eleitor: — Mas cada falcatrua há de custar

Político: — Mas cada falcatrua há de gerar

Eleitor: — Bem mais que tua ausência me custou

Político: — Bem mais do que a campanha me custou

 

Eleitor: — Eu sei que vou sofrer

Político: — Eu sei enriquecer

Eleitor: — A eterna desventura de viver

Político: — Na eterna boaventura de viver

Eleitor: — A espera de te ver ao lado meu

Político: — A espera de viver salvando o meu

Ambos: — Por toda nossa vida...

 

*Paródia propositalmente sofrível, pois sofrida, de Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes