19.3.09

Número 309

AMAR AINDA É?

Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei

Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Quando eu conheci o amor, amar era saber o nome e o sobrenome dela. Talvez até o nome da mãe, do pai e dos irmãos. Era transformar seu endereço em passagem para todos os destinos, fazer amizades na turma dela, aparecer nos sábados à tarde só para jogar um vôlei. Amar era somar cinco ou seis motivos para andar à sua volta quando, na verdade, o motivo era um só.

Amar era trocar correspondência. Receber dela a letra de Leãozinho, do Caetano, e responder com versos de Meu Bem Querer, do Djavan. Aliás, amar era ter uma música só para os dois, tal qual os pares das telenovelas. Escutar o mesmo tema uma tarde inteira ao lado dela, como se a poesia pudesse dar conta do passado e do futuro. Amar era ser fiel: a mesma música jamais serviria de trilha para outro amor.

Amar era descobrir encantos possíveis, pois nem todos os dotes nos eram franqueados. Assim, era preciso decorar o formato dos dedos dos pés, perder-se nas penugens da nuca, trilhar cada curva das orelhas, mergulhar nos olhos, curtir todos os segundos de um beijo. Brincar muito, pois, em jogos de sedução, as mãos podiam medir cada palmo de recusas e permissões. Amar era contar os sinais da pele com os dedos, fazer cócegas, dar sustos.

Amar era viver no eterno sobressalto da insegurança. Desconfiar do cochicho da amiga, principalmente quando seguido de sorrisos maliciosos. Temer a aproximação dos meninos mais velhos, manobrando exércitos para delimitar território. Morrer de paixão sem jamais declarar-se. Negar até a morte o que estava escrito na testa. Amar era tentar conhecer o outro no exato momento em que a própria anatomia se mostrava uma estranha.

Amar, para os meninos, era desejar o corpo e barganhar com a alma. Para as meninas, ao contrário, era desejar a alma e negociar com o corpo. Daí o sofrimento dos homens: desde os primeiros ensaios do que era amar, as trocas estavam flagrantemente desequilibradas. Isso explica, mas não justifica, a desonestidade daqueles que surrupiavam a contrapartida. Amar, então, era chorar o desamor nos ombros dos amigos. Amigos que, em alguns casos, morriam de amor em segredo.

Amar era, também, odiar. Odiar, antes de tudo, a própria inexperiência. Odiar o deboche dos outros, as dúvidas ruminantes, as recusas, os enganos. Odiar o ciúme, efeito colateral presente em quase todas as primeiras paixões. Sentir um ódio enorme por continuar amando quando jurávamos nunca mais amar. Amar era odiar o amor não correspondido e aprender a lidar com essa frustração.

Por fim, quando eu descobri o amor, amar era olhar com total desdém para as figuras Amar é..., criadas pela neo-zelandesa Kim Grove Casali, sucesso absoluto entre as meninas nos anos 70. Mesmo assim, comprar para elas cartões e outras lembranças com a adocicada mensagem decorada com infantilizados bonequinhos nus. Com isso, amar era aprender a fazer concessões, driblar nossa natureza de ogro, desde que ajudasse a conquistar a amada.

Será que hoje amar ainda teria chance de ser assim?

6 comentários:

Lucas Schutz disse...

Creio que amar é, acima de tudo, compartilhar, acho que tu escreveu isso em algum lugar ali, mesmoq ue subentendido.

Muito legal.

_____________________________
Lucas Schutz
http://geradordeimprobabilidade.blogspot.com/

Rubem Penz disse...

Lucas,
Quem sabe, amar é subentender...
Valeu, abraço,
Rubem

Sergio Oliveira disse...

Outro show de texto!

Agora, será que é impressão minha, coisa da idade, que avança, ou o sentimento de posse que nos assolava anda diminuindo mesmo?

Abração!

Sérgio

Rubem Penz disse...

Sérgio,
obrigado! E sobre o sentimento de posse, diminui de modo saudável. Afinal, uma das vantagens da idade é a consciência de que a posse é ilusória.
Abraço,
Rubem

Anônimo disse...

Rubem, trabalho o dia todo com mulheres, pois como ´,sou ginecologista e tenho uma adolescente maravilhosa em casa com 14-15 anos, grande data.Posso parecer piegas ou quem sabe uma eterna sonhadora que o amor é lindo e vale a pena, mas honestamente acredito sim que este amor de cumplicidade, ansiedade no encontro , ternura, carinho, o olhar contemplativo ainda existe e têm seu lugar.Acredito que por mais rápidos que estejamos sendo em nossos relacionamentos, as mulheres e também os homens ,ainda querem um amor igual ao cantado pela bossa nova. Um amor comprido, um amor demorado, um amor, um amor declarado e cheio de desejos e expectativas. Escuto milhares de reclamações em relação aos homens, mas também observo mulheres a beira de um ataque de nervos querendo ser e ter tudo, mas não conseguindo ser nem ter e não se dando conta que o tudo na vida é estar de bem com a vida, de bem consigo mesma e de bem com o coração.Na verdade o que todos desejam é ter paz no caração, é ser valorizado e sentir amado, se sentir desejado, se sentir importante para alguém ou para muitos, mas com alguma retribuição de carinho.Muitos procuram a perfeição e não se dão conta que todos temos grandes defeitos, mas pequenas e importantes qualidades.Sempre que escuto ou vejo minha filha falando com suas amigas sobre seus amores, a imrpressão que tenho é de que nada mudou. Os desejos são os mesmos a ansiedade do encontro, ou desencontro, o perfume da conquista e também tem as músicas sim, elas não são com a mesma melodia que as nossas, mas também falam de amor, mesmo que algumas falem de um amor quente, sexy.Elas também falam de fidelidade, de não deixar que os meninos se passem, embora tenho certeza que o desejo é de que eles travem uma batalha de mãos e dedos para ver até onde vão e até onde suportamos o desejo irracional que temos quando adolescentes. Tenho observado muito as adolescentes, claro que um grupo específico, mas o que vejo não é nada ruim e sim um grande sentimento de reconhecimento de conquista de AMAR É...Rubem, desculpe este amontoado de palavras, sem muita lógica ,mas quero dizer que acredito.
Um abraço,Jaque.

Rubem Penz disse...

Jaque,
Bom saber de ti que AMAR ainda É... a mesma coisa. Pode mudar o entorno (msn, celular, ficantes etc), mas os sentimentos prevalecem.
Muito grato pela leitura e estupendo comentário!
Abraços,
Rubem

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