13.1.12

O politicamente correto é...

Número 455

Rubem Penz

O politicamente correto é um sutiã cuja presilha não abre, exigindo desculpas por tamanha inabilidade ao invés de arrancá-lo logo e de uma vez. Politicamente correta é a comida de hospital – saúde divorciada do prazer. Politicamente correto é mãe que não deixa o filho sujar os pés, mãos ou cabelo, pois, onde já se viu? Pode ficar doente... E os outros, o que vão pensar?!

O politicamente correto é máscara de louça para o preconceito.

Politicamente correto é a censura prévia disfarçada de escudo. No fundo, bem no fundo, a pessoa fica tolhida, desconfiada, com medo de ferir os outros e, com isso, acabar ferida de volta. Politicamente correto é camisinha de força para a língua, pois só pode ser loucura chamar um negro de negro, alemão de alemão, gordo de gordo e manco de manco.

Politicamente correto é focinheira em todos os cães.

O politicamente correto é descrito nas letras em miniatura do contrato, aquelas feitas para condenar quando for vantagem para outros, desvantagem para você. Politicamente correto é sepultamento dos vivos. É a morte da malandragem, é o suicídio dos humorados, é a redenção dos covardes, é a vingança dos recalcados. O politicamente correto é uma faca cega, pois não merecemos o manejo de palavras afiadas.

O politicamente correto rebatiza os filhos para ver se ficam mais bonitos.

Politicamente correto é existir grades no paraíso. É passear em ordem unida, é contrição sem arrependimento. Politicamente correto é garantia de úlceras para o futuro, pois ninguém consegue rodar com os freios de mão puxados sem consequências.

Politicamente correto é toque de recolher.

Politicamente correto é aquele modorrento 0 X 0 que espanta o público, é coito interrompido, é manha, fita, choro sem lágrima. Politicamente correto é não poder tomar chuva, nem mesmo no verão. É aquário, gaiola e canil. É esconder o rosto achando que, assim, desaparecemos.

Politicamente correto é fumei, mas não traguei.

O politicamente correto é, dizem, uma tendência que veio para ficar. É mais civilizado. Mais cordato. Amistoso, suave, palatável. É algo que está tomando conta de tudo e formando uma geração que, agindo e reagindo assim, acreditará estar mais protegida das maldades do mundo. Eu discordo do politicamente correto e o combato enquanto nadar contra a corrente não for crime. Mais do que garantir o direito de eu mesmo ser irônico, mordaz, chulo ou ferino, defendo que meus filhos e netos sejam capazes de suportar contrariedades, provocações, desgostos, frustrações – agressões! – e se defenderem.

Politicamente correto é ministrar tranquilizante para quem deveria estar alerta.


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8 comentários:

Marçal de M. Paredes disse...

Ótimo!!! Acho que tens um ótimo tema para teu outro futuro livro!!! Parabéns, camarada!!!

Anônimo disse...

Rubem, talvez não seja politicamente correto o que vou dizer, mas acabei de ler e estou arrepiado. Super, hiper parabéns pelo texto. O politicamente correto sempre É um toque de recolher! Grande abraço. Humberto.

Rubem Penz disse...

Marçal, Humberto, grato!
A pior patrulha é a mais bem intencionada, não acham?
Abraços, Rubem

Anônimo disse...

Gostei muito, Rubem.
Já ouvi alguém dizer, não lembro quem ...: "deus nos livre de quem só quer o nosso bem"

soniareichel@yahoo.com.br

Antonio Braganca disse...

"O politicamente correto rebatiza os filhos para ver se ficam mais bonitos." Esta foi ótima. É bem isto.
Parabéns pela crônica.

Rubem Penz disse...

Obrigado, Antônio!
Abraços, Rubem

Pessoa S/A disse...

Perfeito Rubem,

Roupa engomada, dentes mais brancos, cabelos sem frizz ou volume, exercícios regulares, 0% de gordura trans, sacolas retornáveis, a vida perfeita e o pensamento empobrecido.

Nesta toada, substituiremos nosso sistema nervoso por redes de fibra ótica ao final de uma década.

E seguimos nadando contra a corrente enquanto não é crime.

Abraço!

http://pessoasa.com/

Rubem Penz disse...

Boa!
Do jeito que vai, toda reprodução será assistida...
Abraços contra a corrente,
Rubem

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