1.6.12

Era outra vez

Número 475

Rubem Penz

Hoje cedo Cinderela não encontrou o príncipe encantado no ônibus.  Na verdade, ficou absorta na janela, contando quantas mulheres estavam de saias e quantas de calças nos carros que passavam pelo coletivo. Descobriu – quem diria? – que há muito mais mulheres que vestem calças.

Também não encontrou o príncipe encantado ao atravessar a avenida movimentada. Chegou à esquina quando o sinal verde já estava piscando, e encontrar alguém assim tão especial é complicado quando se está correndo de salto alto. O máximo de sorte seria ele a encontrar, desde que não estivesse em um carro – ninguém merece ser levada ao pronto-socorro municipal quando o destino desejado é um nobre altar...

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No almoço, Cinderela perdeu outra chance de encontrar seu príncipe encantado: junto com Cyntia e Jô, divertiu-se com zarabatanas de caneta Bic e pedacinhos mascados de guardanapo de papel. Os alvos principais foram os carecas. Dois deles ficaram meio indignados e chegaram a ir até elas na mesa para tomar satisfação. Um terceiro reclamou bastante, mas aí com certa razão: o papelzinho rebateu no nariz dele e caiu para dentro da canja de galinha. Aí você pergunta: por que não ficaram olhando para os homens bonitos em busca do príncipe encantado? Simplesmente porque queimariam o filme com eles levando tiros de zarabatana!

Antes de voltar do almoço, foi-se, por detalhe, outra oportunidade de encontrar o príncipe encantado. O lugar era até propício: passaram pela praça na direção dos camelôs da calçada oposta. É o mesmo trajeto de nove entre dez funcionários de banco, muitos deles reluzentes estudantes de Administração, Economia ou Marketing. O problema é tirar os olhos do chão quando se está apostando quem pisa apenas nas pedras escuras. Pouca gente faz ideia de quanta concentração é necessária. A Cyntia ganhou. Outra vez!

Em seu trabalho, a chance de encontrar o príncipe encantado era zero: Seu Antenor (velho), Jorginho (e suas espinhas na testa), Anderson (casado) e Kleberson, esse mais pelado do que ela. Pior que vive dando em cima – a chama de princesa. Outro dia apareceu com uma história de passearem no barco que recém inaugurou. Bom programa para encontrar um príncipe. Mas, com o Kleberson ao lado e babando de amores, babaus encantamento.

Ao final da tarde, Cinderela pegou no sono dentro do ônibus e sonhou com o belo e amoroso príncipe. Acordou dois pontos adiante e retornou a pé, morrendo de medo de encontrar outra coisa pelo caminho, nada parecido com nobres mancebos. Depois do jantar, tomou um banho e foi reencontrar seus sonhos na TV. Antes de adormecer, combinou via SMS de irem, ela e suas amigas, para a praia no final de semana.

Felizes para sempre.


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5 comentários:

Fraga disse...

A crônica é ótima e divertida.
Pena que tanto os príncipes como as princesas são apenas contos de fadas.
Dizem que devemos ter bom tempo para acreditar em personagens de histórias e em contos infantis, como a maturidade e o tempo adequado de desacreditar deles e não perder o encantamento pela vida.

Rubem Penz disse...

É isso que vejo na vida da Cinderela, Fraga: muito encanto!
Valeu, abraços, Rubem

Tati disse...

Q Bárbaro, Rubem! Lindo conto contemporâneo. Faltou ela explorar o caminho da floresta. Abração, Tati

Rubem Penz disse...

Obrigado, Tatiana!
Abraços, Rubem

Anônimo disse...

Olá, Rubem,
Que criatividade! Sempre encontrando o lado avesso das histórias, que se tornam mais interessantes do que as originais!
Muito interessante e divertida.
Abraços,
Jussara Lucena

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