22.10.08

Número 288

ACHADOS E PERDIDOS

O que é a leitura de crônicas, senão uma visita periódica à sala de achados e perdidos? Dessas que fazemos pela força do hábito, quase como o abrir da geladeira para dar uma espiada na própria fome. Ou, quem sabe, movidos pela clara impressão de que estamos a todo o momento perdendo coisas no caminho, distraídos ou apressados, e que, com certeza, alguém juntou para nós.

É nessa sala de achados e perdidos que encontramos, por exemplo, a nossa infância. Aquele medo do escuro, a teatralidade do Natal, o ataque de risos durante a missa. A amizade descomprometida do colega de escola, a primeira paixão e, logo em seguida, a descoberta de que, naquela altura, ainda não estávamos preparados para as conseqüências do amor. Encontramos a mãe jovem, a irmã implicante, as chegadas e partidas do pai. Lembranças que pareciam perdidas até nos depararmos com elas ali, na crônica.

É nessa sala de achados e perdidos que encontramos os postais da viagem inesquecível chamada juventude. Paisagens que nem existem mais – a começar pela nossa própria silhueta –, mas que a memória registrou em fotos divertidas, relatou tudo em detalhes ali no verso, endereçou para a eternidade e deixou para o tempo a tarefa de selar. Encontramos muitos sonhos caídos de nossos bolsos sem que tenhamos notado sua ausência – que falta faz uma niqueleira na hora de guardar os centavos da vida – os quais agora perderam sua validade. Mas, na crônica, são resgatados para a nossa coleção.

É nessa sala de achados e perdidos que encontramos aquele detalhe que ainda ontem estava bem na nossa frente e, displicentes, deixamos que fosse levado pelo vento (ainda assim, mantenha as janelas abertas). Encontramos a mentira do político, a beleza da cura, a simplicidade do gesto, a violência das palavras, o encantamento da solidariedade. Encontramos também, meu Deus!, o sorriso franco que nem imaginávamos ter perdido. Encontramos os primeiros passos do filho, o ranço do chefe, o batom da esposa, ovos de gema cor-de-laranja, máscaras, sujeira embaixo do tapete. Como um espaço tão pequeno de texto pode abrigar tanta coisa perdida?

É nessa sala de achados e perdidos que encontramos uns aos outros, todos em busca do que, em algum tempo, nos escapou. É quando ela vira, também, sala de bate-papos, com suas polêmicas e celebrações; revelações e preconceitos; partilhas e apropriações indébitas. Encontramos muita discordância, algumas inamistosas. Mas coincidências e identificações em número superior ‒ ainda bem! Encontrar-se na crônica é uma experiência tranqüilizadora: significa que não estamos loucos e os outros também pensam/sentem o mesmo que nós.

E o cronista é este sujeito meio à toa que vive perdido e, ao mesmo tempo, vive de achados. Se ninguém soltasse aquela frase peculiar, se todos guardassem os temores apenas para si, ou se o acaso não espalhasse os papéis em nossas mesas, o cronista estaria frito. É quando junta uma ilusão antes de ela entrar na boca-de-lobo, ao reparar em uma sutileza esquecida no espaldar da cadeira, no instante em que é o único que viu a graça rolando escada abaixo, nestes momentos o cronista se torna o fiel depositário do cotidiano. No jornal, no blog ou no livro, a porta desta sala de achados e perdidos estará sempre franqueada para quem se dispuser a ler. Bisbilhotar o que os outros perderam, ou mesmo procurar um espelho. Assim, sem muita pretensão, como quem abre a geladeira para averiguar a própria fome.

5 comentários:

Anônimo disse...

Que beleza de texto, Maninho! Pura poesia em prosa...

c'

Rubem Penz disse...

Obrigado, Carla!
Beijo para ti!
Mano

André Luis Mansur disse...

Uma bela analogia, muito bem desenvolvida. Realmente, você dá uma dimensão à crônica que ela merece. Quando penso em escrever uma crônica, mesmo que seja sobre um fato atual, não tem jeito: preciso remexer nos meus ´armários´ e me perder, ou me achar, no que vou me encontrar por lá.

Grande abraço.

Rubem Penz disse...

Pois é, Mansur,

O fazer crônico é um tema que rende até crônicas. E gosto de explorá-lo (sem exageros).

Abraço Porto-alegrense,
Rubem

André Luis Mansur disse...

Metalinguagem é isso aí. E se os grandes cronistas são capazes de escrever grandes crônicas até sobre os fatos mais irrelevantes (pelo menos teoricamente), por que não do ato de fazer a crônica?

Abraços.

Postar um comentário

Deixe aqui sua opinião.