16.12.10

Número 400

O pecado da carne
Rubem Penz
Dói bastante admitir, mas será muito pior negar as evidências: eu mudei. Não sou mais aquele mesmo pelo qual você se apaixonou logo no primeiro olhar, ao sentir meu calor. Ou pelo menos pareceu estar apaixonada – nossa memória vive a contar histórias convenientes. Para não mudar, sei lá, precisaríamos ter congelado o tempo, ou a mim. Assim mesmo, restaria conservado, mas, neste caso, seria apenas e continuamente uma promessa. Seus lábios não me tocariam enquanto fosse pedra. Por favor, suplico mulher, pare de me olhar assim.
O tempo é implacável e você sabe bem disso. Ele age silencioso sobre nossos tecidos, alterando tudo o que sobre a terra perece. Você também mudou. E isso não é uma cobrança, quem sou eu para cobrar algo... Apenas uma constatação a título de restabelecer a justiça. Se eu mudei mais, ou mais rapidamente – e acho mesmo que sim – ninguém tem culpa. Faz parte de minha natureza, quem sabe, esta relação diferente com as naturais metamorfoses impostas pelo tempo. Pensei que havia um pacto em nossa relação que, antecipadamente, previa que isso viria a ocorrer. Outros no meu lugar mudariam também. Então, por que este desprezo?
Tem mais: se eu mudei agora, já havia mudado antes. E a principal agente da mudança foi você mesma. Eu era de uma feição e você me deixou de outra – à sua feição, diga-se de passagem. Nem me venha dizer que melhorei muito, pois tais parâmetros são variáveis e imprecisos. Estive vassalo de seus caprichos, mas há quem prefira diferente. Esperava que eu dissesse que você é a única no mundo, apenas porque me tem diante de si? Pois vou além e ameaço: se me descartar agora, assim mesmo como estou, haverá quem por mim suspire. E você terá apenas mais trabalho para encontrar quem lhe satisfaça. É pegar ou largar.
Por falar nisso, o que pode ter se alterado, também, foi seu desejo, outrora ávido, urgente. Jamais esquecerei seus gemidos de prazer, sua língua me explorando, a entrega incondicional ao pecado. E o semicerrar dos olhos na saciedade do depois... Meu Deus, quase nem acredito que tamanho deleite tenha sido provocado por mim! Este mesmo que agora lhe causa tédio. Cansou do gostoso aqui? Enfastiou? Terei esfriado? Aqueça-me, então! Vocês sabem que aquecemos muito rapidamente, basta que tenham fogo.
Já sei: é minha aparência, não é? Vocês negam, vivem dizendo que o importante é o que se tem por dentro, essas baboseiras para boi dormir. E nós, patos, porcos, acreditamos bovinamente... Porque queremos! Afinal, como não compreender que a aparência importa sim, e muito: vocês investem tempo e dinheiro se enfeitando a todo o instante. Enquanto isso, eu estou aqui, aos pedaços, nem a pálida lembrança do passado recente. No fundo, sou aquele mesmo que lhe encheu seus olhos. Sim, vocês nos comem, primeiro, com os olhos!
Tenho a solução, e ela é um negócio bom para todas as partes. Mudo radicalmente. Melhor: você usa de criatividade e, com novas receitas, resgata o antigo prazer. Serei tão outro que, com certeza, você vai me engolir sem nem mesmo lembrar de quem, agora, implora por migalhas, sentindo-se o mais rejeitado do mundo. Pare de gastar tanta energia elétrica: tire-me logo da geladeira e me desfie, transformando-me em croquete! Ou me coloque no moedor, fazendo comigo pastéis! Só assim serei um pouco mais do que o desprestigiado rosbife de ontem.

6 comentários:

Rogerio disse...

Alô Rubem, ficou muito bom esse novo layout, parabéns. Abração. Rogério Gil.

FRIZERO disse...

Um ótimo exemplo do 'estranhamento' de que nos falavam os formalistas russos, e que é a alma da literatura - mostrar algo que nos é comum de uma forma incomum. Excelente, Rubem!

Rubem Penz disse...

Rogério, meu camarada! Vindo de ti é ainda mais importante! Depois, com um chopinho, dou detalhes do conceito desejado (papo de logotipo). Abração, Rubem

Rubem Penz disse...

Beto, sempre vislumbrando além do que está escrito! Tua generosidade é reconhecida. Só me resta agradecer e mandar o maior abraço que um miúdo pode oferecer! Rubem

Anônimo disse...

Espero que já esteja incuída no teu novo formato, pois quero continuar te lendo sempre. Um ótimo final de ano para ti, Márcia e filhos!!!!! Mara

Rubem Penz disse...

Sempre, Mara, sempre!
Boas Festas, beijos, Rubem & Cia

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