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Número 438
Rubem Penz
"Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais."
Clarice Lispector
Em 11 de setembro de 2001, se por acaso você estava no escritório, tomado por projetos urgentíssimos, vitais, certamente parou de trabalhar no exato instante em que alguém trouxe a notícia: Uma aeronave entrou no alto do World Trade Center. Vejam isso! Vejam isso! E, bem quando pensava em recomeçar as tarefas, houve o choque do segundo avião.
Nas salas de aula, a notícia não tardou. E os professores de história sentiram todo o peso da História. Os de física e matemática puderam calcular a envergadura do fato. Aos professores de línguas faltaram palavras. Os mestres da geografia mediram as consequências, enquanto os de educação física acusaram o golpe. Até hoje, professores de religião, os bons, tentam descobrir como seguraram suas lágrimas.
Em casa, atrasou o almoço. Onde andaria a fome? Os enfermos, hospitalizados ou sofrendo, descobriram-se acompanhados pelo mundo inteiro. As contrações das gestantes estiveram intercaladas com presságios. Queimaram pães pelos fornos do planeta, desandou a maionese. O delírio dos malucos aparentou lucidez. Engarrafamentos foram relativizados, ligamos aos nossos filhos, ligamos aos pais.
Sim, se você estava no carro, ouvindo rádio, diga: conseguiu resistir sem chamar para casa para saber se assistiam o noticiário da TV? Ou, no mínimo, para descobrir se o que diziam era verdade, mesmo? E, chegando a qualquer destino fosse, havia outro assunto senão o ataque às Torres Gêmeas?
As pessoas que circulavam em supermercados ou no shopping durante muitas horas, absortas entre compras necessárias e consultas supérfluas, tinham o rosto sereno como um domingo de sol no parque da infância. Em poucos minutos, o semblante refletiria o tão grande choque. Rasgara-se a terça-feira ao meio.
Eu? Estava em uma loja, comprando material de construção para a casa que hoje habito. Como todos os que não viveram as Guerras Mundiais, custei um pouco a crer na hipótese de ser eu, assim minúsculo, testemunha de algo para ser rememorado por uma quantidade incerta de anos, em todos os países. Caíra o Muro de Berlim fazia pouco tempo, dando-me a experiência de acompanhar a História acontecer nos telejornais da noite. Porém, ao vivo, no instante já, fui pego sem reação. Quando os prédios ruíram, esqueci de mim. E, até hoje, tento compreender aqueles que, de alguma forma, pareciam comemorar.
E você, onde estava? Sei que sabe.

Número 437
Rubem Penz
Geada vestiu de noiva
Os galhos da pitangueira
Coronel & Vasconcelos
Adoro rádio. Escuto sempre que posso. E de tudo: notícias, música, entrevistas, esporte etc. Pulo para cá e para lá nas estações, seja no carro, seja em casa ou numa caminhada. Antes, quando era redator publicitário full time, para me ver feliz, bastava pousar em minha mesa o pedido de criação de um spot (comercial de rádio). Melhorava se podia acompanhar e dirigir a produção. Minha ligação com a música eleva o som para um patamar superior. Aceitando que existem imagens que valem mais do que mil palavras, considero que sons podem, por sua vez, valer mais do que mil imagens.
Esta é a função dos redatores, locutores, sonoplastas, compositores e músicos: inventar um mundo que dispense a visão, aparentemente nosso principal sentido, substituindo formas e cores pela imaginação. Bem narrar um jogo de futebol, por exemplo, é uma arte: equilibrar informações com emoção, levando o ausente para dentro do estádio. O repórter de campo cumpre a função de reprise por outro ângulo, e o comentarista completa a paisagem. Outro detalhe que jamais pode faltar nesse caso é a ambiência: torcida (Ohhhhh!), apito do árbitro, ruídos do contato dos pés com a bola, bronca do treinador. Isso só existe no rádio: na TV, há um excesso de informações visuais que enfraquecem a narrativa. Ou, por vezes, acabam por traí-la. Pode ficar bem chato.
Outro caso emblemático é o do correspondente de guerra. A escolha das palavras, as pausas, a gravidade ou a urgência transformam nosso estado de espírito. Muito mais do que na TV, o enunciado de notícias de rádio vindas do front é refém do talento do jornalista, de sua habilidade e carisma. Aqui vale a lembrança de Orson Welles, que levou os norte-americanos ao pânico transmitindo, com acento jornalístico, uma adaptação de A guerra dos mundos, obra de Herbert George Wells. Os ouvintes creditaram que nosso planeta estava sendo invadido por extraterrestres sem que um único mosquito mais suspeito fosse visto. Os ouvidos são um dos melhores atalhos para a fé.
Em se tratando de Rio Grande do Sul, especificamente agosto gaúcho, tão mais útil do que botar o nariz para fora da janela pela manhã, é escutar a previsão do tempo. Não que o inverno dispense os sons naturais: vento cortante, chuva impiedosa, granizo saltitante, silente geada. Às seis horas da manhã, perto de zero grau, nem cachorro se aventura a latir. Precisa setembro avançar – bem vindo! – para os sabiás anunciarem o relaxamento climático. Assim como já me disseram que paulistas odeiam o enunciado Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul associado ao termo frente fria, nos arrepiamos só de ouvir falar em Argentina e Uruguai. E os meteorologistas adoram citar o Prata.
Se o papo de rádio, sonoplastia e inverno parece não fazer muito sentido, explico a razão de ser dessa crônica. Uma das rádios pelas quais zapeio nas manhãs apresenta o boletim do tempo dito por uma experiente profissional cujo sobrenome é Valente. Algo que, por si, já é piada pronta ou, no caso, nome que condiciona o destino (como tanto gostava o saudoso Moacyr Scliar). Todavia, não basta. O que realmente impressiona é que ela parece estar constantemente gripada!
Escutar que dificilbente a demperadura alcançará os guinze graus, e uba bassa de ar bolar avança da Argendina vale mais do que mil imagens. Sem dúvida, contamina o texto de verdade! Outro dia, até uma tossida fez parte do noticiário. Valentes, também somos nós, que deixamos as cobertas para encarar o Vento Minuano!




Número 433
Rubem Penz
Fez-se a luz, Adão, costela, Eva, paraíso etc. Todo mundo conhece o percurso do Homem, ou o tanto de água que rolou debaixo da parreira até dar no que deu. Mas sempre há nuances a serem exploradas por quem se dedica a investigar o insuspeitado. E não custa nada remontar a cena que alterou o rumo das coisas para, com isso, tirar lições. Do princípio:
Antes de tudo, era o caos. Algo como sexta-feira, dezenove horas, chovendo cântaros, dois acidentes envolvendo caminhões, véspera de feriadão. Saldo bancário no vermelho, ponteiro da temperatura do carro no vermelho, semáforo piscando no vermelho, um descontrolado atolando o dedo na buzina. Num momento parecido com esse, o Criador, em sua elevada benevolência, ao som de um coral de anjos e inspirado pelo mais puro sentimento, resolveu pôr ordem no galinheiro. E fez-se a luz; também surgiu a Natureza com seus vales e montanhas; oceanos, lagos, nuvens e areia brancas. Tudo pronto para o eleito: o Homem.
Logo após o sopro de vida na argila inerte, nasceu Adão, aquele que era feliz e não sabia. Vivia no que mais tarde seria convencionado chamar de CNTP (condições normais de temperatura e pressão). Clima goiano: amanhecia numa temperatura amena, esquentava um pouco no bom sol, chovia confortavelmente e, à noite, era sempre recomendável se cobrir. Sem umidade ou rinite, sem ácaros, sem roupa que nunca seca no varal ou um gole da maldita para enfrentar o vento Minuano.
Impossível ficar melhor? Eis que de sua costela nasce Eva. Ah, a mulher! Evolução da espécie, arte final para seu rascunho, companheira criada por Deus para estar sempre ao seu lado, mas que, por excelência de projeto, estaria sempre à sua frente. Movimentos de uma felina, charme de uma felina, unhas de uma felina, humor de uma felina... E memória de elefante. Adão já não mais precisava se preocupar em fazer agrados ao Criador – bastava atender Eva e seu dia estaria tomado, suas noites garantidas, o mundo em completo sentido. Deus poderia tirar suas férias em paz, afinal.
Pois, Adão e Eva, insatisfeitos com aquilo que parecia perfeito, entediados com tanta harmonia e fartos de beleza, ambicionaram o fruto proibido. E logo ali, adiante da cerca, estava a macieira do vizinho. Nela, auspiciosa, a suculenta maçã. A mulher disse vá até lá e apanhe uma para mim. O homem ponderou que poderia dar galho. Ela fez beicinho, mas ele parecia irredutível. Então, cochichando ao ouvido, Eva prometeu alguma coisa que Deus não deveria ouvir. E Adão saltou por sobre a cerca feito cão que ouviu a sineta de Pavlov. Só que o vizinho viu. E sua mulher, uma verdadeira cobra, indignada, fez queixa para o síndico do Condomínio Horizontal Paradiso.
Barraco! De um lado, Adão defendia-se com a tese de que seria um grande pecado apodrecerem as maçãs no pé sem que ninguém apanhasse. De outro, a cobra rebatendo que o casal não merecia habitar o Paradiso – deveriam ser expulsos. Eva subiu nas tamancas e disse que vizinhos intolerantes do tipo que prega regras apenas para os outros transformaram o Paradiso em um inferno. Blasfêmia: tudo o que o síndico esperava para tomar o partido da cobra. E assim, em breve resumo, fica explicado porque deu no que deu.

Número 432
Rubem Penz
Muitos profissionais implicados na cadeia produtiva da comunicação devem estar satisfeitos (ou aliviados) com a lenta, ainda que certa, morte do www, abreviação de World Wide Web (rede de alcance mundial). É o nome do serviço que propiciou a maior revolução em termos de trocas de conteúdo que se tem notícia desde Gutenberg. Espécie de prefixo que precisamos digitar antes de acessarmos uma página na internet. Ou, na verdade, precisávamos.
Quem deseja entrar em minha página, por exemplo, pode escrever na barra de acesso rubempenz.com.br e, automaticamente, aparecerá o www compondo o endereço completo. Pode experimentar, funciona! Então, por qual razão eu precisaria divulgar meu endereço com a desconfortável sigla, correndo o risco de pagar um mico para milhares de ouvintes de rádio os telespectadores? Ou ninguém ouviu uma pessoa enrolar a língua para citar seu site? Tem até um vídeo clássico de uma senhora sofrendo para se referir a um determinado endereço, febre de acessos por um tempo.
Convenhamos que dábliudábliudábliu é um travalíngua pouco sonoro e muito feio. Só não é pior do que suas alternativas em português: doblevêdoblevêdoblevê e vêduplovêduplovêduplo. Todos eles servem muito bem aos locutores como aquecimento para a articulação das palavras, mas não ajudam no texto. Piora quando o www é citado por alguém com má dicção em entrevistas ou matérias jornalísticas. Verdadeiro martírio que está se tornando dispensável.
Há outro aspecto na questão: todo www dito com conforto consome no mínimo dois segundos de áudio em um spot ou filme comercial. Isto significa quase 10% do tempo disponível nos tradicionais trinta contratados. Reconhecendo nos publicitários o talento dos minicontistas, ou seja, pessoas capazes de compor universos em espaços diminutos de texto, não há razão plausível para desperdiçar tempo e dinheiro. Tal como os bons poetas, o autor da mensagem deve perseguir a forma mínima de máximo significado. No miniconto, na poesia e na publicidade, menos é mais.
Pode-se defender o www por seu caráter pedagógico: nem todos os receptores da mensagem estão familiarizados com os acentos do mundo digital. Mas até a pedagogia tem seu tempo necessário – tudo o que vem depois é dispensável. Um exemplo clássico, mesmo que recente, é a reformulação da telefonia no Brasil após a privatização. Durante anos escutamos as pessoas dizerem "zero operadora onze" antes de um número de São Paulo. As empresas que brigassem entre si para ganhar a eleição dos prefixos. Agora que todos já sabem que a ligação não se completa sem os dois dígitos operantes, pararam de falar em operadora.
O próximo passo é deixarmos também de escrever o www. Ao menos em impressos: cartões de visita, prospectos, catálogos. Em escala planetária, já pensaram quanta tinta podemos economizar? E o tempo de digitar www na comunicação virtual seria melhor aproveitado com um "olá". A mesma quantidade de letras transformando a internet em um ambiente menos árido.
Bom, tanta história apenas para comemorar com os leitores a felicidade de me sentir desobrigado a pronunciar dábliudábliudábliu daqui para frente. No futuro, acharemos muita graça dessa expressão. E, como na Era Digital o futuro chega rápido, lhe convido a dizer www em voz alta. É de matar, ou melhor, de morrer de rir!

Número 430
Rubem Penz
Ei, você que está sem tempo; que está sem saco; sem paciência: tudo parece pesar sobre seus ombros? Família, compromissos, dívidas, metas, microvarizes, macroeconomia... Tarefas de ontem para hoje ou, pior, de hoje para ontem. Enxaqueca, pressão alta, índices de colesterol e Dow Jones a preocupar. Clientes, pacientes, impacientes... Você sabe onde foi parar aquele seu sorriso fácil, inocente e franco?
Ele está bem aí, no seu rosto. Só precisa do espelho certo para aparecer.
Eu já comecei a resgatar meu sorrir. Tenho sorte: retiro o espelho mágico de tempos em tempos da gaveta. Fui apresentado para ele faz dez anos e não pretendo esquecer jamais de sua existência. Descobri no olhar dos amigos de infância o reflexo do meu melhor sorriso. Aquele que tenho mais verdadeiro. Melhor: notei que todos ainda sorriem do mesmo modo diante dos meus olhos. E falam bobagens, recordam histórias, mostram a criança que jamais deixará de existir. Ao menos para quem a deseja viva.
Muitos espelhos me aguardam em outubro.
Há uma tradição na escola em que cursei o ensino fundamental e médio: a cada intervalo de dez anos, os formandos preparam uma festa. Nada de extraordinário, apenas música, algo para comer e beber, um salão enfeitado. Porém, a experiência de encontrar centenas de amigos de infância transforma completamente o cenário. Juro que nenhuma festa de casamento, batizado, Natal ou Ano Novo supera o índice de sorrisos do reencontro. Sorrisos-espelho.
Um encontro marcado comigo mesmo, aos dezessete anos (ou menos).
Nem todas as escolas incentivam este espírito de geração, de turma, de colegas para vida inteira. Sou alguém de sorte. Meus companheiros também. Assim que começamos a organizar o evento, os mais sensíveis se deram conta de que beberão o elixir da juventude: diante de nossa geração, somos todas as idades, inclusive (principalmente) as que ficaram bem para trás. Resgataremos apelidos, vamos nos lembrar dos professores, das roupas e bravatas. Mais: ofereceremos e tomaremos de volta olhares sobre um período formador de nossa história.
Serão poucas horas que valem dez anos de espera.
Nesta década, desde o último encontro, a vida não parou: entre nós, houve sucessos e fracassos, muitas perdas – algumas tão doídas que brotam lágrimas enquanto escrevo –, nascimentos, formaturas, casamentos, separações, viagens de ida ou de volta. Assunto não faltará caso o presente entre na ordem do dia. Uns podem se surpreender com o menino tímido que hoje é um astro, ou com a moleca transformada em autoridade. Outros, talvez a maioria, reconhecerão no amigo de infância o caminho já traçado em tempos idos: tão bom em matemática, a carreira acadêmica caiu-lhe feito luva.
Do Colégio Anchieta para a vida, sem perder-se das lembranças.
Os espelhos de classe já circulam entre colegas: nossas fotos em 3 X 4 nas turmas, ordenados pelo alfabeto. Ali estou, trinta anos atrás. E os outros, até os que já não mais estão por aqui. Especialmente eles... Nem todos sorriem nas fotos. Mas posso apostar que estarão felizes ao entrarem no salão. Meninos e meninas. Crianças grandes que encontrarão tempo, saco e paciência para dar um nó na rotina e um golpe no calendário. Sorrir tão largo que, de ponta a ponta, alcançará de 1981 até 2011. Como por encanto.
E você: descobriu seu espelho mágico?

Número 428
Rubem Penz
Era um apartamento muito engraçado. Não tinha teto: à noite, o que tinha era um tablado de dança flamenca. Única explicação para tanto salto batendo sobre a cabeça. Mas não parava por aí, não. De manhã, caso resolvesse recuperar o sono perdido sob influência andaluz, o teto virava algo parecido com uma pista de boliche. Há quem tenha compulsão em mudar toda a mobília de lugar, agravada pela incapacidade de elevar os móveis do chão. Logo, a expressão "uma manhã que se arrasta" ganhava outros contornos.
Ninguém podia entrar nele, não. Ao menos sem antes passar por um gradeado de quase três metros de altura à beira da calçada. Ali, um porteiro eletrônico com aquele ruído de linha aberta dava a impressão de que alguém mais escutava a conversa. Depois, outra barreira: a porta do prédio, sempre trancada a sete chaves, com ordem expressa de assim permanecer a qualquer horário. Por fim, mais uma grade, agora diante da porta do apê. Qualquer semelhança com presídios e celas é mera coincidência com nossa (in)segurança pública...
Ninguém podia dormir na rede, porque no apartamento não tinha paredes. O que ele tinha, com boa vontade, eram estruturas divisórias. Pendurar quadros já era uma temeridade, que dirá uma rede... Qualquer broca de maior calibre arrombaria a parede do vizinho. Essa, aliás, era a explicação para não ser necessário som na TV, caso ao lado estivessem ligados no mesmo programa. Também a resposta para sabermos há quantas andava o relacionamento afetivo uns dos outros: primeiro a DR, depois a briga e, mais tarde, a reconciliação. Às vezes, uma segunda reconciliação.
Ninguém podia fazer pipi sem que o ruído circulasse pelo fosso de luz, anunciando para todos no prédio o volume do jato. Essa era a melhor notícia. Pior, mesmo, eram os momentos de indisposição intestinal. Ou quando algum acidente de percurso exigia que chamassem o Hugo – eufemismo simpático para o ato de regurgitar em abundante jorro. A rádio fosso de luz, recuperando-se dos ruídos fisiológicos, transmitia os hits de chuveiro de todos os moradores. Também a terceira reconciliação pós DR, agora sobre a pia ou dentro do box.
Era decorado com humilde esmero: na sala, um sofá de dois lugares herdado de uma tia, caixa de maçã apoiando a TV de 14' e mesa dobrável com quatro cadeiras. No quarto, o colchão repousava direto no carpete, defronte ao armário de duas portas. Na cozinha, a infalível geladeira Frigidaire branca que um dia fora da família.
E era pago com sofrido esmero – quase a metade do salário sumia entre aluguel e condomínio. O restante tinha finalidade bem mais nobre: cerveja para receber os amigos e vinho para impressionar as meninas. Ah, claro: comida suficiente para se manter vivo.
Mas era curtido com muito esmero! Todos aqueles que tiveram apartamentos parecidos com esse, ou mesmo um JK, descobriram a dor e a delícia de ser independente. A delícia vinha do despojamento juvenil, algo tão fora de moda. E a dor também, é claro. Um banho meio frio que o diga.
*Crônica inspirada em A casa, de Vinícius de Moraes

Número 426
Rubem Penz
Xampu Esteserve para os lisos: fórmula exclusiva para quem mal segura as pontas. Ideal em casos de escrúpulos em excesso, um pouco de ímpeto e quase nada de talento na cabeça. Use de olhos fechados: como tudo na vida dos lisos, também arde um pouco. Desaconselhado para quem tem luzes, indicado para os descoloridos. Exclusiva tampa que sai fácil: para enxaguar e aproveitar até a última gotinha. Embalagem econômica: 1 litro ou 5 por preço de 4. O único que faz espuma até com água salobra.
Xampu Esteserve para os secos: fórmula desenvolvida para os muito resistentes de todas as cores, cortes e tamanhos. Ideal para casos de ímpeto em excesso, um pouco de escrúpulos e quase nada de talento na cabeça. Uso frequente: desestressa e renova a aparência. Corrige a falta de brilho e contém as ondas mais rebeldes com o uso continuado. Embalagem customizada: 500 mililitros. É sempre o primeiro que vem na cabeça de qualquer um. Quando não o único.
Xampu Esteserve para os ondulados: fórmula desenvolvida para os mais brilhantes, porém quebradiços. Ideal para os casos de talento em excesso, escrúpulos em alguma medida e quase nada de ímpeto na cabeça. Harmoniza os movimentos realçando o volume. Ajuda a suportar o bafo constante dos secadores. Em três embalagens: pequena (para viagens), média (individual) e grande (família). Confie em sua ação restauradora.
Xampu Esteserve para os normais: fórmula para os tipos totalmente indefinidos. Ideal para os casos de escrúpulos em excesso, um pouco de talento e nada de ímpeto na cabeça. Também é condicionador – molda, amacia e evita os nós. Não encrespa com os lisos nem passa reto quando a coisa está enrolada. Embalagem de 680 mililitros e refil econômico. Até sábado, na compra de três unidades, grátis uma saboneteira de parede para você parar de juntar o sabonete do chão, Mané!
Xampu Esteserve para os oleosos: fórmula desenvolvida para os tipos escorregadios. Ideal para casos de muito talento, algum ímpeto e carência congênita de escrúpulos na cabeça. Nunca deixa cheiro por onde passa. Condiciona na medida para a passagem incólume do pente fino. Trata dos fios desde a raiz, fortalecendo até as pontas – algumas vezes duplas, outras triplas ou formando quadrilhas. Embalagem redonda com 200 mililitros, oval com 500 mililitros e cilíndrica de litraço. Este é o xampu mais usado por quem tem chapinha sempre à mão.
Xampu Esteserve para lavar perucas: fórmula ultra secreta desenvolvida para lavagens fora do box. Ideal para casos de muitíssimo ímpeto, algum talento e nem sombra de escrúpulos na cabeça. É o único feito sob encomenda para lavagens de terceiros, aqui ou no exterior. A embalagem discreta encobre sua forte cor de laranja. Também encontrado em pastas pretas. Precauções: cuidado, este produto está à venda somente em nossa caixa postal. Imitações dão um nó Federal. Mantenha fora do alcance de quem deseja sua cabeça.

Número 424
Rubem Penz
– Deixa de ser relaxado, guri!
Eis uma das mais frequentes falas que eu escutava na infância, dita, especialmente, pela mãe. Motivos? Variavam muito: meus cadernos podiam estar com orelhas de burro, os cadarços do tênis desamarrados, a cama desfeita, a escrivaninha caótica, os temas por fazer, o cabelo despenteado, roupa suja no canto do quarto etc. ao infinito. Relaxar, definitivamente, não era um comportamento admissível. Muito menos justificável.
Lembrei disso agora porque estão em cartaz os problemas de autoridade, de limites e de educação no âmbito familiar, com reflexos sentidos na escola e na sociedade. São dificuldades surgidas bem no momento em que foi abandonada a rigidez do passado para ser instaurada uma relação bem mais, digamos, relaxada no trato pessoal. Tiramos da pauta as antigas (por vezes ásperas) ordens, substituídas por serenas combinações. Porém, caso os pais queiram de volta o firme comando, correm o risco de ter como resposta:
– Deixa de ser estressado, pai!
Então hoje há filhos relaxados e pais estressados? Diria que sim, e exatamente o contrário também: os adultos se tornaram uns relaxados e a meninada acaba por viver sob consequente stress.
Aquele "relaxado" da minha infância não existia em oposição ao tenso, e sim ao descuidado, indisciplinado, descomprometido. Bem o problema que aparece na postura de muitos pais. Afinal, educação é algo que exige cuidado, disciplina e, acima de tudo, comprometimento. Em outras palavras, não se pode relaxar. Só tem credibilidade para ditar regras aquele que as tem para si, cumprindo-as. Isso vai desde a toalha pendurada no lugar até o parar no sinal vermelho. E, acima de tudo, é preciso atribuir tarefas e posturas, cobrando-as mil vezes se for necessário. Duas, três mil vezes até.
Mas o que dizer de uma meninada cada vez mais desobediente, agressiva, malandra? Seriam eles, então, muitíssimo relaxados? Depende. Se eles cresceram sem ser responsabilizados (mil vezes) pela ordem no quarto, pelo asseio, pelas notas escolares, pela obediência à autoridade etc., a resposta até pode ser não. Para ser relaxado é preciso ter atribuições. E, como sequela dessa renúncia involuntária aos deveres, nasce o stress juvenil: incapacidade de lidar com a frustração, com o limite, com as cobranças que, um dia, acontecerão. Aos mimados, crescer dói em dobro.
Recorrendo ao impreciso e, por vezes, injusto recurso da generalização, resumiria a ópera educacional do momento como uma tragédia em dois atos (ou melhor, duas omissões): pais estressados e relaxados, criando filhos relaxados e estressados. Ambos dispostos a culpar o professor, a escola ou o método pedagógico pelo mau espetáculo oferecido. E o Brasil, depois, reclama dos fracassos na bilheteria...
