15.9.11

Perguntas que já contêm respostas

Número 439
Rubem Penz
Há perguntas com respostas embutidas, ocultas, tácitas. Nem precisariam ser feitas, mas fazemos. Algumas são clássicas. Outras, denunciadoras. No fundo, servem apenas para nos conformarmos. Ou, quando o estratagema cola, para tirar o corpo fora. Senão, vejamos:
Eu preciso mesmo ir?
Está na cara que precisa. Quem pergunta sabe muito bem disso. Eis a razão de perguntar. Porém, o que está sendo sonegado é: eu não quero ir. Se o interlocutor diz sim, você vai obrigado. Caso a resposta seja não, fica (sem culpa).
Tem que ser agora?
Súplica típica dos homens. Acontece no calor da hora, colada no prazo ou mesmo em seu prejuízo. Quase sempre é respondida (por elas) com ironia: não, quem sabe demora mais dois anos...
Posso deixar assim?
Podendo, não seria preciso nem perguntar. Deixava e pronto, sem dar ou pedir permissão. Tentativa inútil. Ou, claro, a intenção é que outro deixe diferente – do jeito que deveria ficar.
Vai dar problema?
Claro! Você sabe que vai. Se não der, foi por pura sorte. É a voz da sua consciência gritando o alerta: assim, vai dar problema. Você pergunta para terceiros apenas para ter uma segunda opinião.
De quem é a vez?
Digamos que tenha uma mesa de cartas. Todos concentrados. Quando, de repente, alguém pergunta: de quem é a vez? Óbvio: é de quem perguntou!
Você quer, mesmo? (Às vezes, junto com: tem que ser agora?)
Típica feminina. O outro não aguenta mais de tanto querer. Esteve disposto a qualquer negócio para ser atendido. E vem o último pedido de confirmação. Não precisava. É crueldade.
É comigo?
Todos estão olhando para você. Não há mais ninguém por perto. Já foi a vez de todo mundo. Seria com quem mais? Então, por que razão perguntar?
Vai doer?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai demorar?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai ser caro?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vou me arrepender?
Vai. Talvez um pouco, talvez muito. Você pergunta na vã tentativa de se iludir.
Vai durar?
Não. Claro que não.

***

Aperitivo Santa Sede – introdução à crônica Leve e descontraída como o próprio gênero, é a oficina ideal para quem deseja abrir o apetite literário. Começa dia 03/10 e as vagas são limitadas! Inscrições e detalhes: rubempenz@gmail.com ou (51) 9123.5540.

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9.9.11

Primeiros passos na crônica

Aperitivo Santa Sede - introdução à crônica

 Estão abertas até o dia 30 de setembro as inscrições para a oficina Aperitivo Santa Sede – introdução à crônica, ministrada pelo escritor e músico Rubem Penz. Serão oito encontros, às segundas-feiras, das 20h até às 22h, oferecidos para os apreciadores, leigos ou não, exercitarem os encantos do gênero.
A proposta segue os moldes da oficina Santa Sede – crônicas de botequim, realizada à mesa de um bar, buscando reproduzir um dos aspectos essências do estilo: a conversa fácil e descontraída. Nesta edição, os encontros acontecem no bar Apolinário. As vagas são limitadas.

O que: Aperitivo Santa Sede – oficina de introdução à crônica
Quando: de 03/10 até 28/11/2011, segundas-feiras, das 20h até às 22h
Onde: Apolinário, Rua José do Patrocínio, 527, Cidade Baixa, Porto Alegre
Informações e inscrições: rubempenz@gmail.com ou pelo fone (51) 9123.5540

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Onde você estava em 11 de setembro?

Número 438

Rubem Penz

"Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais."

Clarice Lispector

Em 11 de setembro de 2001, se por acaso você estava no escritório, tomado por projetos urgentíssimos, vitais, certamente parou de trabalhar no exato instante em que alguém trouxe a notícia: Uma aeronave entrou no alto do World Trade Center. Vejam isso! Vejam isso! E, bem quando pensava em recomeçar as tarefas, houve o choque do segundo avião.

Nas salas de aula, a notícia não tardou. E os professores de história sentiram todo o peso da História. Os de física e matemática puderam calcular a envergadura do fato. Aos professores de línguas faltaram palavras. Os mestres da geografia mediram as consequências, enquanto os de educação física acusaram o golpe. Até hoje, professores de religião, os bons, tentam descobrir como seguraram suas lágrimas.

Em casa, atrasou o almoço. Onde andaria a fome? Os enfermos, hospitalizados ou sofrendo, descobriram-se acompanhados pelo mundo inteiro. As contrações das gestantes estiveram intercaladas com presságios. Queimaram pães pelos fornos do planeta, desandou a maionese. O delírio dos malucos aparentou lucidez. Engarrafamentos foram relativizados, ligamos aos nossos filhos, ligamos aos pais.

Sim, se você estava no carro, ouvindo rádio, diga: conseguiu resistir sem chamar para casa para saber se assistiam o noticiário da TV? Ou, no mínimo, para descobrir se o que diziam era verdade, mesmo? E, chegando a qualquer destino fosse, havia outro assunto senão o ataque às Torres Gêmeas?

As pessoas que circulavam em supermercados ou no shopping durante muitas horas, absortas entre compras necessárias e consultas supérfluas, tinham o rosto sereno como um domingo de sol no parque da infância. Em poucos minutos, o semblante refletiria o tão grande choque. Rasgara-se a terça-feira ao meio.

Eu? Estava em uma loja, comprando material de construção para a casa que hoje habito. Como todos os que não viveram as Guerras Mundiais, custei um pouco a crer na hipótese de ser eu, assim minúsculo, testemunha de algo para ser rememorado por uma quantidade incerta de anos, em todos os países. Caíra o Muro de Berlim fazia pouco tempo, dando-me a experiência de acompanhar a História acontecer nos telejornais da noite. Porém, ao vivo, no instante já, fui pego sem reação. Quando os prédios ruíram, esqueci de mim. E, até hoje, tento compreender aqueles que, de alguma forma, pareciam comemorar.

E você, onde estava? Sei que sabe.

 


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2.9.11

Bil ibagens

Número 437

Rubem Penz

Geada vestiu de noiva

Os galhos da pitangueira

Coronel & Vasconcelos

Adoro rádio. Escuto sempre que posso. E de tudo: notícias, música, entrevistas, esporte etc. Pulo para cá e para lá nas estações, seja no carro, seja em casa ou numa caminhada. Antes, quando era redator publicitário full time, para me ver feliz, bastava pousar em minha mesa o pedido de criação de um spot (comercial de rádio). Melhorava se podia acompanhar e dirigir a produção. Minha ligação com a música eleva o som para um patamar superior. Aceitando que existem imagens que valem mais do que mil palavras, considero que sons podem, por sua vez, valer mais do que mil imagens.

Esta é a função dos redatores, locutores, sonoplastas, compositores e músicos: inventar um mundo que dispense a visão, aparentemente nosso principal sentido, substituindo formas e cores pela imaginação. Bem narrar um jogo de futebol, por exemplo, é uma arte: equilibrar informações com emoção, levando o ausente para dentro do estádio. O repórter de campo cumpre a função de reprise por outro ângulo, e o comentarista completa a paisagem. Outro detalhe que jamais pode faltar nesse caso é a ambiência: torcida (Ohhhhh!), apito do árbitro, ruídos do contato dos pés com a bola, bronca do treinador. Isso só existe no rádio: na TV, há um excesso de informações visuais que enfraquecem a narrativa. Ou, por vezes, acabam por traí-la. Pode ficar bem chato.

Outro caso emblemático é o do correspondente de guerra. A escolha das palavras, as pausas, a gravidade ou a urgência transformam nosso estado de espírito. Muito mais do que na TV, o enunciado de notícias de rádio vindas do front é refém do talento do jornalista, de sua habilidade e carisma. Aqui vale a lembrança de Orson Welles, que levou os norte-americanos ao pânico transmitindo, com acento jornalístico, uma adaptação de A guerra dos mundos, obra de Herbert George Wells. Os ouvintes creditaram que nosso planeta estava sendo invadido por extraterrestres sem que um único mosquito mais suspeito fosse visto. Os ouvidos são um dos melhores atalhos para a fé.

Em se tratando de Rio Grande do Sul, especificamente agosto gaúcho, tão mais útil do que botar o nariz para fora da janela pela manhã, é escutar a previsão do tempo. Não que o inverno dispense os sons naturais: vento cortante, chuva impiedosa, granizo saltitante, silente geada. Às seis horas da manhã, perto de zero grau, nem cachorro se aventura a latir. Precisa setembro avançar – bem vindo! – para os sabiás anunciarem o relaxamento climático. Assim como já me disseram que paulistas odeiam o enunciado Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul associado ao termo frente fria, nos arrepiamos só de ouvir falar em Argentina e Uruguai. E os meteorologistas adoram citar o Prata.

Se o papo de rádio, sonoplastia e inverno parece não fazer muito sentido, explico a razão de ser dessa crônica. Uma das rádios pelas quais zapeio nas manhãs apresenta o boletim do tempo dito por uma experiente profissional cujo sobrenome é Valente. Algo que, por si, já é piada pronta ou, no caso, nome que condiciona o destino (como tanto gostava o saudoso Moacyr Scliar). Todavia, não basta. O que realmente impressiona é que ela parece estar constantemente gripada!

Escutar que dificilbente a demperadura alcançará os guinze graus, e uba bassa de ar bolar avança da Argendina vale mais do que mil imagens. Sem dúvida, contamina o texto de verdade! Outro dia, até uma tossida fez parte do noticiário. Valentes, também somos nós, que deixamos as cobertas para encarar o Vento Minuano!

 


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26.8.11

Último recurso

Número 436
Rubem Penz
Per saecula saeculorum, promovemos esforços civilizatórios. Nada contra a natureza – tudo a favor da humanidade. Desde os primeiros dias de vida, busca-se domar o animal e impor o predomínio da razão, o controle sobre os instintos, a polidez. Do polegar opositor, passando pela possessão do fogo, pela invenção da roda, pelo uso transistor, até desembocar na capacidade do chip (para citar saltos gigantes), todo o ânimo tecnológico foi acompanhado, necessariamente, pela mediação da ética. Mas a fera segue ali, oculta. Quando tudo é em vão, ela é nosso o último recurso.
Das teses para a realidade, a notícia saiu em todos os jornais: médica equipa o muro de sua residência com seringas supostamente infectadas com o vírus HIV. Como pode? – pergunta a sociedade, perplexa. Quem esperaria essa atitude dos que pertencem à elite da civilização, com nível escolar superior, condição social elevada, carreira dedicada à ciência em uma de suas faces mais nobres? O que faria a pessoa com tais qualidades agir com tamanha abominação? Pois ela não age – reage. Ela teme. E nem é ela: é a fera.
Toda vítima, quando encurralada pelo predador, tem duas escolhas: morte, ou morte com luta. Na segunda opção, há um fio de esperança. O combate, mesmo desigual, segue os desígnios da incerteza, podendo reservar um desfecho surpreendente. Quem sabe disso não é a razão, especialista em avaliações de risco. É o instinto. É a fera. É o desespero, o descontrole. Ninguém pode simplesmente condenar a vítima quando, inferiorizada, revida de modo extremo. À vida, nos agarramos com unhas e dentes – e facas e revólveres e seringas.
Ao falharem os poderes instituídos pela civilização (governo, justiça, polícia), permitindo que vivamos encurralados por grades, acuados e dominados pelo medo, a fera desperta. A incapacidade de socializar uma minoria – covarde, violenta, brutal – nivela todos por baixo. O Sedex em nossa porta pode ser um assaltante; o funcionário da telefônica, da luz, da água, da farmácia, também. A ordem é: desconfie de quem passa por você na rua, de quem pede as horas, de quem está ao seu lado no banco, de quem conversa contigo na internet. Dá-lhe muros e cadeados! Viva na selva: ao menor ruído, corra que é um tigre! Não confie em mais ninguém.
Em pleno século 21 não deveria mais ser assim. Entre os homens, bastaria uma porta fechada indicando o limite, como ocorre quando nos resguardamos dos animais. Aos pares, educação, boas oportunidades, decência, irmandade. Aos poderosos, responsabilidade, limites, compensações (impostos), solidariedade. Aos doentes, tratamento. Aos miseráveis, caridade. Aos aflitos, consolo. Aos criminosos, sanções. Aos honestos, liberdade. Listando assim, parece até fácil. Como explicar, então, a paranóia de uma cidadã jogada às suas próprias feras, o último recurso? A ponta das agulhas é apenas a parte visível do iceberg.

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19.8.11

Fundo perdido

Número 435
Rubem Penz
Levou os meus planos, meus pobres enganos
Os meus vinte anos, o meu coração
                                                                                               Chico Buarque

"Entreguei-lhe os melhores anos de minha vida". Eis uma frase clássica, dita e repetida por mulheres ao longo da história de muitos relacionamentos, bem no momento em que eles chegam ao fim. Uma cobrança, sem dúvida. Porém, com um agravante: tal dívida jamais poderá ser saldada. Nem amortizada, nem perdoada, nem convertida. Estamos falando de tempo – aquilo que não retorna jamais. Daí sua trágica contundência.


Bom, uma das estratégias masculinas para escapar dessa cobrança é negar a dívida: "Foi uma troca – os meus pelos seus. E você entregou por iniciativa própria, por conta e no risco". Já adianto que nem sempre funciona, mesmo que obedeça a uma lógica irretocável. A questão é que elas sempre acham que valem mais, doam-se mais, abdicam mais. Taco a taco só existiria em uma relação homossexual – perdoem o chiste.


Outra maneira de sentir-se desonerado é a de (tentar) reverter o quadro: "Se ao meu lado aconteceram os melhores anos de sua vida, então sou credor". E agora? Quem recebeu de quem? Quem deu o quê? Estando tão bom, não há nada a ser cobrado. Ao contrário, a mulher deveria agradecer: "Obrigada pelos melhores anos de minha vida". Por nada, por nada – diria o ex – foi um prazer e uma honra ser o responsável por sua felicidade. Para, depois, esperar pelo vaso que viria voando na direção da cabeça.


(Já sei: estou me afundando. Tentarei o resgate.)


Pena que, na vida, a coisa não seja assim tão simples. Quando elas nos dizem que entregaram os melhores anos da vida delas, estão dizendo que foram os melhores anos de nossas vidas. E foram. Nada supera o tempo passado ao lado de quem está apaixonado por você, acarinhando, mimando, estimulando. Na paixão, alcançamos o ápice do amor próprio: desejamos quem também nos deseja. Ser querido é o aditivo mais poderoso do universo. Supera o álcool, as drogas, a adrenalina. Supera tudo. É tão bom que vale o sacrifício.


Mas, supondo que houve paixão dos dois lados, o que transformaria ambos em credores, por qual motivo as mulheres tanto se queixam dos tais "melhores anos" que lhes parecem sonegados? A resposta está na palavra juventude. A lisura da pele e a firmeza das carnes são ativos de grande prestígio entre as fêmeas. Isso desde a época dos contos de fadas, ou das cavernas, até hoje (o cirurgião plástico agradece). Basta lembrar o pesadelo da Rainha Má diante da fresca Branca de Neve – é o espelho quem acusa o declínio de sua jovialidade, não o rei, que até morrera.


Por isso, a masculina tábua de salvação é apelar ao Chico, unanimidade entre as mulheres, para encontrar a resposta final ao dilema. Na música A Rita, ele reproduz a mesmíssima queixa: o rapaz lamenta a perda dos vinte anos, dos planos, dos pobres enganos e do coração. Os durões não admitem, mas sofremos lupicínios ao ter o coração partido. Assim, caro homem, quando ela o acusar de ter investido mal a juventude em sua carteira de ações, revide na mesma moeda: diga que suas aplicações também se depreciaram no fundo (perdido) do poço. E que, pior, bem pior, lhe restou mudo o violão. Ou alguém duvida que sejam elas a nos inspirar?

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12.8.11

Pai: que negócio é esse?

Número 434
Rubem Penz
Pelo menos até aprovarem a clonagem humana, está prejudicada a ideia de firma individual – a forma legal que dispensa sócio para o empreendimento de uma companhia limitada. E onde se lê sócio, compreenda-se pai. Mesmo que muitas mulheres torçam o nariz, a boa norma só admite uma criança humana a partir de dois gametas com personalidade biológica próprias. Então, entre os homens disponíveis no mercado, é preciso escolher o mais adequado para tal fim.
Filho é, sim, um empreendimento. Aliás, uma iniciativa de longo, longuíssimo prazo. Contempla um enorme risco, pois nem todo o capital anímico do mundo garante seu sucesso ou do filho. Se bem que há avaliações muito variadas para o termo sucesso: ele pode ser medido em felicidade, em saúde, bondade, em riqueza, inteligência, honestidade, paz... Ser pai é um negócio para lá de complicado. E fica cada vez mais estranho na medida em que a sociedade contempla novas estruturas, diferentes daquelas do tipo empresa familiar.
Há os pais no estilo sócio minoritário. O rapaz entra com 1% e olhe lá. No fim das contas, está ali apenas para a fecundação e para constar no registro em cartório. Se o filho tiver competência para ser milionário, pode apostar que, cedo ou tarde, o papai cobrará algum dividendo. Para o caso de a criança dar prejuízos na praça, o pai minoritário alegará que jamais gerenciou a coisa e, assim, não tem qualquer culpa. Porém, o que mais ocorre é a vida simples, cotidiana. Desta, o sócio minoritário auferirá em carinho a contrapartida na ínfima participação.
Vivemos uma época de pais no estilo associado. Neste caso, o filho não é biológico, origina-se de capital externo. Mesmo quando o enteado lhe chama de papai, sabe que é fruto de um ex-sócio. Pode ter sido um sócio minoritário ou, bem ao contrário, ter entrado com valores elevados de expectativa no momento da fundação, quero dizer, fecundação. Mas, por motivos variados, acabou em outro ramo. Quando vai tudo bem, a criança sai ganhando: dois pais ao invés de um. Em outros casos, pode surgir uma certa concorrência, por vezes desleal.
Há pais majoritários. Ora por viuvez, ora por terem ganhado a guarda na separação, ora por pura vocação em ocupar todos os espaços dentro de casa, os majoritários são por vezes confundidos com mães. Isso não quer dizer que sejam afeminados. Na verdade, são masculinamente maternais. No fundo, no fundo, gostariam mesmo é de uma sociedade equânime com a parceira. Ou com o parceiro, uma vez que cresce a participação homossexual na composição societária. Agora de papel passado!
Existem bancos de esperma para as mulheres optarem pela sociedade anônima. Ali, investidores a fundo perdido colocam seu capital disponível, julgando ter riqueza capaz de fomentar novos empreendimentos com muita competência. Interessante perceber que doar esperma é ao mesmo tempo uma ação e uma omissão. É ser, em cada negócio, menos do que o sócio minoritário. E, ao mesmo tempo, nutrir o desejo de diversificar seu patrimônio enormemente.
E o lucro? Bom, em termos de dinheiro, ser pai não dá lucro algum. Ao contrário, filhos são verdadeiros canais por onde escoa a riqueza da família – segundo o último Senso, a mãe está participando como nunca na água deste rateio. Ao mesmo tempo, o abraço, o beijo, o sorriso, o amor de um filho tem valor que nenhum dinheiro no mundo compra. E quanto mais o homem se enfronha nos balanços, mais vê que esse negócio de ser pai vale muito a pena.
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5.8.11

O pecado mora ao lado

Número 433

Rubem Penz

Fez-se a luz, Adão, costela, Eva, paraíso etc. Todo mundo conhece o percurso do Homem, ou o tanto de água que rolou debaixo da parreira até dar no que deu. Mas sempre há nuances a serem exploradas por quem se dedica a investigar o insuspeitado. E não custa nada remontar a cena que alterou o rumo das coisas para, com isso, tirar lições. Do princípio:

Antes de tudo, era o caos. Algo como sexta-feira, dezenove horas, chovendo cântaros, dois acidentes envolvendo caminhões, véspera de feriadão. Saldo bancário no vermelho, ponteiro da temperatura do carro no vermelho, semáforo piscando no vermelho, um descontrolado atolando o dedo na buzina. Num momento parecido com esse, o Criador, em sua elevada benevolência, ao som de um coral de anjos e inspirado pelo mais puro sentimento, resolveu pôr ordem no galinheiro. E fez-se a luz; também surgiu a Natureza com seus vales e montanhas; oceanos, lagos, nuvens e areia brancas. Tudo pronto para o eleito: o Homem.

Logo após o sopro de vida na argila inerte, nasceu Adão, aquele que era feliz e não sabia. Vivia no que mais tarde seria convencionado chamar de CNTP (condições normais de temperatura e pressão). Clima goiano: amanhecia numa temperatura amena, esquentava um pouco no bom sol, chovia confortavelmente e, à noite, era sempre recomendável se cobrir. Sem umidade ou rinite, sem ácaros, sem roupa que nunca seca no varal ou um gole da maldita para enfrentar o vento Minuano.

Impossível ficar melhor? Eis que de sua costela nasce Eva. Ah, a mulher! Evolução da espécie, arte final para seu rascunho, companheira criada por Deus para estar sempre ao seu lado, mas que, por excelência de projeto, estaria sempre à sua frente. Movimentos de uma felina, charme de uma felina, unhas de uma felina, humor de uma felina... E memória de elefante. Adão já não mais precisava se preocupar em fazer agrados ao Criador – bastava atender Eva e seu dia estaria tomado, suas noites garantidas, o mundo em completo sentido. Deus poderia tirar suas férias em paz, afinal.

Pois, Adão e Eva, insatisfeitos com aquilo que parecia perfeito, entediados com tanta harmonia e fartos de beleza, ambicionaram o fruto proibido. E logo ali, adiante da cerca, estava a macieira do vizinho. Nela, auspiciosa, a suculenta maçã. A mulher disse vá até lá e apanhe uma para mim. O homem ponderou que poderia dar galho. Ela fez beicinho, mas ele parecia irredutível. Então, cochichando ao ouvido, Eva prometeu alguma coisa que Deus não deveria ouvir. E Adão saltou por sobre a cerca feito cão que ouviu a sineta de Pavlov. Só que o vizinho viu. E sua mulher, uma verdadeira cobra, indignada, fez queixa para o síndico do Condomínio Horizontal Paradiso.

Barraco! De um lado, Adão defendia-se com a tese de que seria um grande pecado apodrecerem as maçãs no pé sem que ninguém apanhasse. De outro, a cobra rebatendo que o casal não merecia habitar o Paradiso – deveriam ser expulsos. Eva subiu nas tamancas e disse que vizinhos intolerantes do tipo que prega regras apenas para os outros transformaram o Paradiso em um inferno. Blasfêmia: tudo o que o síndico esperava para tomar o partido da cobra. E assim, em breve resumo, fica explicado porque deu no que deu.

 


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29.7.11

A morte do www

Número 432

Rubem Penz

Muitos profissionais implicados na cadeia produtiva da comunicação devem estar satisfeitos (ou aliviados) com a lenta, ainda que certa, morte do www, abreviação de World Wide Web (rede de alcance mundial). É o nome do serviço que propiciou a maior revolução em termos de trocas de conteúdo que se tem notícia desde Gutenberg. Espécie de prefixo que precisamos digitar antes de acessarmos uma página na internet. Ou, na verdade, precisávamos.

Quem deseja entrar em minha página, por exemplo, pode escrever na barra de acesso rubempenz.com.br e, automaticamente, aparecerá o www compondo o endereço completo. Pode experimentar, funciona! Então, por qual razão eu precisaria divulgar meu endereço com a desconfortável sigla, correndo o risco de pagar um mico para milhares de ouvintes de rádio os telespectadores? Ou ninguém ouviu uma pessoa enrolar a língua para citar seu site? Tem até um vídeo clássico de uma senhora sofrendo para se referir a um determinado endereço, febre de acessos por um tempo.

Convenhamos que dábliudábliudábliu é um travalíngua pouco sonoro e muito feio. Só não é pior do que suas alternativas em português: doblevêdoblevêdoblevê e vêduplovêduplovêduplo. Todos eles servem muito bem aos locutores como aquecimento para a articulação das palavras, mas não ajudam no texto. Piora quando o www é citado por alguém com má dicção em entrevistas ou matérias jornalísticas. Verdadeiro martírio que está se tornando dispensável.

Há outro aspecto na questão: todo www dito com conforto consome no mínimo dois segundos de áudio em um spot ou filme comercial. Isto significa quase 10% do tempo disponível nos tradicionais trinta contratados. Reconhecendo nos publicitários o talento dos minicontistas, ou seja, pessoas capazes de compor universos em espaços diminutos de texto, não há razão plausível para desperdiçar tempo e dinheiro. Tal como os bons poetas, o autor da mensagem deve perseguir a forma mínima de máximo significado. No miniconto, na poesia e na publicidade, menos é mais.

Pode-se defender o www por seu caráter pedagógico: nem todos os receptores da mensagem estão familiarizados com os acentos do mundo digital. Mas até a pedagogia tem seu tempo necessário – tudo o que vem depois é dispensável. Um exemplo clássico, mesmo que recente, é a reformulação da telefonia no Brasil após a privatização. Durante anos escutamos as pessoas dizerem "zero operadora onze" antes de um número de São Paulo. As empresas que brigassem entre si para ganhar a eleição dos prefixos. Agora que todos já sabem que a ligação não se completa sem os dois dígitos operantes, pararam de falar em operadora.

O próximo passo é deixarmos também de escrever o www. Ao menos em impressos: cartões de visita, prospectos, catálogos. Em escala planetária, já pensaram quanta tinta podemos economizar? E o tempo de digitar www na comunicação virtual seria melhor aproveitado com um "olá". A mesma quantidade de letras transformando a internet em um ambiente menos árido.

Bom, tanta história apenas para comemorar com os leitores a felicidade de me sentir desobrigado a pronunciar dábliudábliudábliu daqui para frente. No futuro, acharemos muita graça dessa expressão. E, como na Era Digital o futuro chega rápido, lhe convido a dizer www em voz alta. É de matar, ou melhor, de morrer de rir!


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22.7.11

Tratamento de choque

Número 431
Rubem Penz
Um amigo foi submetido a um tratamento de choque. Altíssima voltagem. E com consequências permanentes para a compreensão das circunstâncias ao seu redor. Ao nosso redor. Contarei sua história.
Em recente viagem de trabalho ao exterior, fora do eixo das grandes metrópoles, ele resolveu dar uma passeada por um bairro residencial para bem aproveitar um repouso. E seguiu por uma alameda qualquer, apreciando a fileira de árvores, os gramados bem aparados, os canteiros de flores, janelas abertas, casas bem cuidadas e sem luxo. Cães, crianças e adultos em distraída convivência, absortos com seus afazeres e sequer reparando no atento caminhante.
A idílica sequência de passos, ao invés de prazenteira, foi sendo tomada de uma angústia crescente, sem que ficasse claro o motivo. O mal estar impôs a reflexão: o que há de errado na paisagem, nas pessoas? Por que me perturba viver uma cena que já assisti milhares de vezes em filmes ou na grade de programação da TV por assinatura? Eis a palavra chave: grade. Faltavam grades. Não havia muros, cercados, portões. Nem tramelas, cadeados, correntes. O choque.
Furtos, assaltos, violência física e psicológica, crimes contra a vida e maldades em geral não escolhem lugar ou vítima. Muito menos são exclusividade de países, estados ou cidades. Meu camarada não estava chocado com a existência de um mundo ideal, livre da crueldade dos homens. O grande baque foi perceber que naquela cidade ninguém culpava o cidadão pelos crimes dos quais seria uma vítima em potencial. Em nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, fomos todos condenados.
Vivemos em prisão perpétua e regime semi-aberto: sim, é preciso deixar a cadeia para trabalhar. Antes de sairmos, fechamos a cela, atravessamos as grades e, bem educados, damos bom dia ao carcereiro. Quanto pior for nosso delito, também conhecido pelo nome de prosperidade, maior será a segurança: cerca elétrica, alarmes, muros, sensores de presença, câmeras de vigilância, rastreamento eletrônico, veículo blindado. Trilhões de Reais investidos neste sofisticado sistema prisional.
Não sendo o suficiente, a população ainda precisa suportar a imposição de diversas regras de conduta por parte de técnicos privados e agentes públicos: não ande com muito dinheiro no bolso e separe as cédulas dos documentos; antes de acionar o portão da garagem, investigue os arredores em busca de movimentos suspeitos; não atenda desconhecidos ou dê esmolas; mantenha os vidros do automóvel fechados; evite rotinas e mude trajetos; desconfie de entregas de flores ou mercadorias; investigue o passado dos prestadores de serviços etc. Ao descuidado, o castigo virá cedo ou tarde.
Depois do choque, meu amigo constatou que fomos cozidos tal qual o sapo mergulhado em água fria: lentamente, fogo brando. Trinta anos atrás, poucas eram as casas com muros intransponíveis, grades e segurança. As crianças de todas as classes sociais deixavam a escola a pé, andavam de bicicleta pelos bairros, jogavam bola no terreno baldio. Sentávamos nas calçadas para curtir o final de tarde, porta aberta. Jovens circulavam pela madrugada indo das festas para casa. Já havia ricos, pobres e miseráveis; bandidos e polícia; virtudes e pecados. O que não existia era a pena de prisão imposta ao inocente, cuja culpa pode ser a pretensão de um dia voltar a morar em uma alameda calma, arborizada e livre. Crime hediondo.

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14.7.11

Espelho Mágico

Número 430

Rubem Penz

Ei, você que está sem tempo; que está sem saco; sem paciência: tudo parece pesar sobre seus ombros? Família, compromissos, dívidas, metas, microvarizes, macroeconomia... Tarefas de ontem para hoje ou, pior, de hoje para ontem. Enxaqueca, pressão alta, índices de colesterol e Dow Jones a preocupar.  Clientes, pacientes, impacientes... Você sabe onde foi parar aquele seu sorriso fácil, inocente e franco?

Ele está bem aí, no seu rosto. Só precisa do espelho certo para aparecer.

Eu já comecei a resgatar meu sorrir. Tenho sorte: retiro o espelho mágico de tempos em tempos da gaveta. Fui apresentado para ele faz dez anos e não pretendo esquecer jamais de sua existência. Descobri no olhar dos amigos de infância o reflexo do meu melhor sorriso. Aquele que tenho mais verdadeiro. Melhor: notei que todos ainda sorriem do mesmo modo diante dos meus olhos. E falam bobagens, recordam histórias, mostram a criança que jamais deixará de existir. Ao menos para quem a deseja viva.

Muitos espelhos me aguardam em outubro.

Há uma tradição na escola em que cursei o ensino fundamental e médio: a cada intervalo de dez anos, os formandos preparam uma festa. Nada de extraordinário, apenas música, algo para comer e beber, um salão enfeitado. Porém, a experiência de encontrar centenas de amigos de infância transforma completamente o cenário. Juro que nenhuma festa de casamento, batizado, Natal ou Ano Novo supera o índice de sorrisos do reencontro. Sorrisos-espelho.

Um encontro marcado comigo mesmo, aos dezessete anos (ou menos).

Nem todas as escolas incentivam este espírito de geração, de turma, de colegas para vida inteira. Sou alguém de sorte. Meus companheiros também. Assim que começamos a organizar o evento, os mais sensíveis se deram conta de que beberão o elixir da juventude: diante de nossa geração, somos todas as idades, inclusive (principalmente) as que ficaram bem para trás. Resgataremos apelidos, vamos nos lembrar dos professores, das roupas e bravatas. Mais: ofereceremos e tomaremos de volta olhares sobre um período formador de nossa história.

 Serão poucas horas que valem dez anos de espera.

Nesta década, desde o último encontro, a vida não parou: entre nós, houve sucessos e fracassos, muitas perdas – algumas tão doídas que brotam lágrimas enquanto escrevo –, nascimentos, formaturas, casamentos, separações, viagens de ida ou de volta. Assunto não faltará caso o presente entre na ordem do dia. Uns podem se surpreender com o menino tímido que hoje é um astro, ou com a moleca transformada em autoridade. Outros, talvez a maioria, reconhecerão no amigo de infância o caminho já traçado em tempos idos: tão bom em matemática, a carreira acadêmica caiu-lhe feito luva.

Do Colégio Anchieta para a vida, sem perder-se das lembranças.

Os espelhos de classe já circulam entre colegas: nossas fotos em 3 X 4 nas turmas, ordenados pelo alfabeto. Ali estou, trinta anos atrás. E os outros, até os que já não mais estão por aqui. Especialmente eles... Nem todos sorriem nas fotos. Mas posso apostar que estarão felizes ao entrarem no salão. Meninos e meninas. Crianças grandes que encontrarão tempo, saco e paciência para dar um nó na rotina e um golpe no calendário. Sorrir tão largo que, de ponta a ponta, alcançará de 1981 até 2011. Como por encanto.

E você: descobriu seu espelho mágico?


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8.7.11

Futebol, essa obsessão

Número 429
Rubem Penz
Quando tinha quinze anos, ainda nas categorias de base, tropeçou em um fio e entrou no campo pulando duas vezes com o pé direito. Naquela tarde, marcou o mais belo gol de sua iniciante carreira – meia bicicleta, logo atrás da marca do pênalti, no ângulo. Dali para frente, jamais dispensou aqueles dois pulinhos que lhe deram tanta sorte.
Em outra oportunidade, nas finais do campeonato regional, ao dar seus dois pulinhos, desequilibrou-se e rolou em uma cambalhota. Quase morreu de angústia. Suava frio perfilado para a fotografia. Porém, marcou dois golos, o segundo aos quarenta e dois do segundo tempo, garantindo a vitória. Ah, que dúvida: adotou a cambalhota.
Era sua primeira partida na Seleção Sub-17. Deu seu dois pulinhos, a cambalhota e aplaudiu de volta as manifestações da torcida. Naquele jogo, não só fez dois golos, como também foi escolhido pela crônica especializada como o melhor em campo. Quem foi que disse que dormiu à noite? Já amanhecia quando teve convicção de quantas palmas batera na entrada em campo.
Sentado no banco de reservas, aguardava com esperança pela chance de compor entre os profissionais, quando uma mosca quase pousou em seu rosto. Enojado, sacudiu as mãos, a cabeça e, surpresa!, chamou a atenção do técnico. Passava dos trinta e cinco do segundo tempo. Deu dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas e substituiu o número dez. Mudou o jogo, revertendo um empate vexatório.
Estréia como titular no time. Todos os parentes na arquibancada. Pediu, ou melhor, implorou para ser o último da fila no momento de entrar em campo. Deu dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas e sacudiu com violência a cabeça e as mãos ao entrar em campo. A torcida, obviamente, estranhou. Ouviu-se um apupo. Olhando para as sociais, identificou o pai, a mãe e a avó. Saltou e acenou usando toda sua envergadura. Na primeira jogada, mal apitara o árbitro, já estava marcando um gol. O seu mais rápido gol!
Escutou pelo rádio: saíra a convocação para a seleção nacional e seu nome estava na lista! Um amistoso, longe da Copa do Mundo, contra um selecionado obscuro da Europa Oriental, mas era a oportunidade. Fazia muito frio. No primeiro treino, depois de entrar em campo com dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas, uma simbólica espantada de mosca e sete polichinelos, deu uma corridinha no mesmo lugar para reforçar o aquecimento. Então, testemunhou uma lesão grave no titular absoluto de sua posição. Imediatamente trocou de colete e viu asfaltada sua estréia como meia atacante da seleção. Adotou a corridinha.
Hoje, Ivanilson tem trinta e seis. Faz três anos que foi repatriado, depois de passar doze jogando nos maiores clubes do mundo. Já foi a quatro Copas. Vende saúde. É sempre determinante nas partidas. Também o único que dispensa aquecimento antes de entrar em campo. Fica ali, divertindo a torcida com novecentos e oitenta e quatro movimentos, integramente repetidos em ordem, algo que já consome quase vinte minutos.
Até abandonar a bola, crê que chegará aos mil amuletos.

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1.7.11

Rua dos Bobos, nº zero/ap.101

Número 428

Rubem Penz

Era um apartamento muito engraçado. Não tinha teto: à noite, o que tinha era um tablado de dança flamenca. Única explicação para tanto salto batendo sobre a cabeça. Mas não parava por aí, não. De manhã, caso resolvesse recuperar o sono perdido sob influência andaluz, o teto virava algo parecido com uma pista de boliche. Há quem tenha compulsão em mudar toda a mobília de lugar, agravada pela incapacidade de elevar os móveis do chão. Logo, a expressão "uma manhã que se arrasta" ganhava outros contornos.

Ninguém podia entrar nele, não. Ao menos sem antes passar por um gradeado de quase três metros de altura à beira da calçada. Ali, um porteiro eletrônico com aquele ruído de linha aberta dava a impressão de que alguém mais escutava a conversa. Depois, outra barreira: a porta do prédio, sempre trancada a sete chaves, com ordem expressa de assim permanecer a qualquer horário. Por fim, mais uma grade, agora diante da porta do apê. Qualquer semelhança com presídios e celas é mera coincidência com nossa (in)segurança pública...

Ninguém podia dormir na rede, porque no apartamento não tinha paredes. O que ele tinha, com boa vontade, eram estruturas divisórias. Pendurar quadros já era uma temeridade, que dirá uma rede... Qualquer broca de maior calibre arrombaria a parede do vizinho. Essa, aliás, era a explicação para não ser necessário som na TV, caso ao lado estivessem ligados no mesmo programa. Também a resposta para sabermos há quantas andava o relacionamento afetivo uns dos outros: primeiro a DR, depois a briga e, mais tarde, a reconciliação. Às vezes, uma segunda reconciliação.

Ninguém podia fazer pipi sem que o ruído circulasse pelo fosso de luz, anunciando para todos no prédio o volume do jato. Essa era a melhor notícia. Pior, mesmo, eram os momentos de indisposição intestinal. Ou quando algum acidente de percurso exigia que chamassem o Hugo – eufemismo simpático para o ato de regurgitar em abundante jorro. A rádio fosso de luz, recuperando-se dos ruídos fisiológicos, transmitia os hits de chuveiro de todos os moradores. Também a terceira reconciliação pós DR, agora sobre a pia ou dentro do box.

Era decorado com humilde esmero: na sala, um sofá de dois lugares herdado de uma tia, caixa de maçã apoiando a TV de 14' e mesa dobrável com quatro cadeiras. No quarto, o colchão repousava direto no carpete, defronte ao armário de duas portas. Na cozinha, a infalível geladeira Frigidaire branca que um dia fora da família.

E era pago com sofrido esmero – quase a metade do salário sumia entre aluguel e condomínio. O restante tinha finalidade bem mais nobre: cerveja para receber os amigos e vinho para impressionar as meninas. Ah, claro: comida suficiente para se manter vivo.

Mas era curtido com muito esmero! Todos aqueles que tiveram apartamentos parecidos com esse, ou mesmo um JK, descobriram a dor e a delícia de ser independente. A delícia vinha do despojamento juvenil, algo tão fora de moda. E a dor também, é claro. Um banho meio frio que o diga.

*Crônica inspirada em A casa, de Vinícius de Moraes


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23.6.11

Um olhar por onde pisamos

Número 427
Rubem Penz
Estamos vivendo um tempo de contradições inexplicáveis. Por um lado, nada anda mais esvaziado em sentido do que nossas agremiações político-partidárias: desde a redemocratização brasileira, é cada vez mais frequente sobreviverem de alianças esquizofrênicas, ideários de ocasião, loteamento de cargos e polêmicas de fachada. Por outro lado, nunca antes tais estruturas detiveram tanto poder, espalhando seus tentáculos em todos os níveis.
Vicejam no noticiário rivalidades partidárias permeando eleições de entidades de classe e estudantis; em conselhos administrativos, tutelares ou consultivos; na escolha de diretorias em empresas públicas, autarquias e fundações; na indicação para tribunais, representações diplomáticas e econômicas... Enfim, os membros de uma sigla ou outra disputam cada milímetro de comando e de influência, ora acusando o oponente disso e daquilo, ora compondo acordos de mútuo benefício.
A última fronteira administrativa a ser cruzada pelos partidos talvez seja o condomínio onde moramos. Mas, no ritmo em que os vampiros avançam sobre o sangue social, nem as assembléias condominiais escaparão.
– Questão de ordem! – brada Oswaldo do 202. – Estamos faz meia hora discutindo o suposto cocô do dachshund da dona Zaida, enquanto questões fulcrais da administração esperam na pauta. Como o fato de nosso prestador de serviços de jardinagem ter contratos com todos os condomínios administrados pelo partido do síndico!
– O senhor diz isso porque não foi o seu Persa que acabou emporcalhado por um filho de pés sujos! – rebate Jurema do 901.
– Com licença, eu estou me dirigindo à mesa: não converso com os neo-liberais que moram nas coberturas.
– Só se for aqui nesse prédio! No Colinas Verdejantes, do outro lado da rua, três das quatro coberturas são habitadas por seus correligionários. Todos sabem!
– Por favor, gente! Vamos voltar ao assunto do momento – suplica o presidente da mesa. – Quem vota a favor de termos 12 câmeras vigiando as áreas internas, e que as imagens sirvam de prova para multar os donos de cães?
– Sem nenhum acréscimo à taxa condominial? – pergunta seu Jair do 605.
– Impossível – corrige o síndico. – Não temos previsão orçamentária para fazer frente a essa nova despesa legislativa.
– Revise os contratos superfaturados das floriculturas... – diz Oswaldo.
– Eu não vou ficar aqui escutando acusações sem provas de gente ligada à máfia dos elevadores! Com licença que estou perdendo a transmissão do jogo do meu time lá em casa.
– Pois eu espero que leve uma goleada, corrupto sem-vergonha!
– Secretário, faça constar na ata essa ofensa! E pode escrever aí que eu desafio a oposição a sentir o peso dos meus argumentos ali fora!
– Só se for agora!
(...)
– Putz, só um instante que eu pisei numa m...

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16.6.11

Rótulos

Número 426

Rubem Penz

Xampu Esteserve para os lisos: fórmula exclusiva para quem mal segura as pontas. Ideal em casos de escrúpulos em excesso, um pouco de ímpeto e quase nada de talento na cabeça. Use de olhos fechados: como tudo na vida dos lisos, também arde um pouco. Desaconselhado para quem tem luzes, indicado para os descoloridos. Exclusiva tampa que sai fácil: para enxaguar e aproveitar até a última gotinha. Embalagem econômica: 1 litro ou 5 por preço de 4. O único que faz espuma até com água salobra.

Xampu Esteserve para os secos: fórmula desenvolvida para os muito resistentes de todas as cores, cortes e tamanhos. Ideal para casos de ímpeto em excesso, um pouco de escrúpulos e quase nada de talento na cabeça. Uso frequente: desestressa e renova a aparência. Corrige a falta de brilho e contém as ondas mais rebeldes com o uso continuado. Embalagem customizada: 500 mililitros. É sempre o primeiro que vem na cabeça de qualquer um. Quando não o único.

Xampu Esteserve para os ondulados: fórmula desenvolvida para os mais brilhantes, porém quebradiços. Ideal para os casos de talento em excesso, escrúpulos em alguma medida e quase nada de ímpeto na cabeça. Harmoniza os movimentos realçando o volume. Ajuda a suportar o bafo constante dos secadores. Em três embalagens: pequena (para viagens), média (individual) e grande (família). Confie em sua ação restauradora.

Xampu Esteserve para os normais: fórmula para os tipos totalmente indefinidos. Ideal para os casos de escrúpulos em excesso, um pouco de talento e nada de ímpeto na cabeça. Também é condicionador – molda, amacia e evita os nós. Não encrespa com os lisos nem passa reto quando a coisa está enrolada. Embalagem de 680 mililitros e refil econômico. Até sábado, na compra de três unidades, grátis uma saboneteira de parede para você parar de juntar o sabonete do chão, Mané!

Xampu Esteserve para os oleosos: fórmula desenvolvida para os tipos escorregadios. Ideal para casos de muito talento, algum ímpeto e carência congênita de escrúpulos na cabeça. Nunca deixa cheiro por onde passa. Condiciona na medida para a passagem incólume do pente fino. Trata dos fios desde a raiz, fortalecendo até as pontas – algumas vezes duplas, outras triplas ou formando quadrilhas. Embalagem redonda com 200 mililitros, oval com 500 mililitros e cilíndrica de litraço. Este é o xampu mais usado por quem tem chapinha sempre à mão.

Xampu Esteserve para lavar perucas: fórmula ultra secreta desenvolvida para lavagens fora do box. Ideal para casos de muitíssimo ímpeto, algum talento e nem sombra de escrúpulos na cabeça. É o único feito sob encomenda para lavagens de terceiros, aqui ou no exterior. A embalagem discreta encobre sua forte cor de laranja. Também encontrado em pastas pretas. Precauções: cuidado, este produto está à venda somente em nossa caixa postal. Imitações dão um nó Federal. Mantenha fora do alcance de quem deseja sua cabeça.


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9.6.11

Dá-me um Cornetto!

Número 425
Rubem Penz
Diga-me quais são teus comerciais favoritos e eu te direi quem és. Não há escapatória: somos apaixonadamente saudosistas e, dos tantos afetos acumulados, amamos loucamente os comerciais que passaram em nossa juventude. Tanto quanto as músicas preferidas, as novelas, as escalações do time do coração. No mesmo nível dos livros que fizeram nossa cabeça, dos filmes, dos bares, da turma de amigos. Num estalar de dedos o tempo retorna e soltamos jingles e diálogos inteiros de cor.
Pude testar isso faz alguns dias. Sem nenhum planejamento, apenas buscando em grupo ideias para a atividade escolar da sobrinha mais velha, lancei a possibilidade de eles resgatarem alguns clássicos da propaganda nacional. Acho que o primeiro filme de que lembrei foi aquele do Fernandinho, o das camisas US Top. "O mundo trata melhor quem se veste bem", dizia o locutor. Duvido que alguém com mais de quarenta anos tenha esquecido a ascensão meteórica do Fernando dentro da empresa, em meros 30 segundos. Uma pérola!
Detonei o estopim para explodirem diversos filmes em nossas mentes. O clássico estrelado pelo Carlos Moreno vendendo Bombrill, por exemplo. De tão bom, gerou uma série maior do que todos os Rambos, Indiana Jones, Guerra nas Estrelas e Duros de matar juntos! Foi tão explorado, a ponto de acompanharmos a escalada da calvície do ator e sua entrada no Guinness Book. Outra série lembrada, igualmente simples na feitura e genial na criação, foi a da Brastemp. Nossa memória, quem diria, ainda é uma Brastemp!
Aí passamos aos jingles. Ponto para a Varig: continua nos emocionando com sua estrela brasileira no céu azul, iluminando de norte a sul. Todos os conceitos apresentados no filme ganhavam força com a melodia doce e enternecedora. Voar naquela companhia era o mesmo que ser ninado pela mamãe. Em tempos de pós-apagão, perdemos o glamour dos aeroportos, o conforto, o carinho com os passageiros... E que tal um Cornetto para refrescar? Quem diria que, tão jovens, sairíamos entoando uma melodia operística cada vez que comprássemos um simples sorvete. Mas, na verdade, era impossível evitar a versão parodiada de O sole mio, clássico do cancioneiro italiano. Que delícia!
Como isso continuou é fácil de adivinhar: um comercial levou a outro e a outro e a outro e a outro. Num instante, meus filhos e minha sobrinha já não estavam tão interessados. Nem minha mãe, cuja nostalgia afetiva recai nos reclames do rádio, com certeza. Mas nós, quarentões, passamos pelos Cobertores Parayba, pelo primeiro sutiã, pelo Star Sax (Kraftwerk!), pelo comercial de fim de ano da Rede Globo e muito, muito mais.
Assim como invejo as pessoas que viveram o melhor momento da música brasileira durante sua mocidade (o que eram os Festivais dos anos 60?), tenho certeza de que serei invejado por ter assistido a melhor geração de publicitários do Brasil no apogeu criativo. Sem mais delongas: Corneeeeeeeeeetto mio!

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2.6.11

Resumo da ópera

Número 424

Rubem Penz

– Deixa de ser relaxado, guri!

Eis uma das mais frequentes falas que eu escutava na infância, dita, especialmente, pela mãe. Motivos? Variavam muito: meus cadernos podiam estar com orelhas de burro, os cadarços do tênis desamarrados, a cama desfeita, a escrivaninha caótica, os temas por fazer, o cabelo despenteado, roupa suja no canto do quarto etc. ao infinito. Relaxar, definitivamente, não era um comportamento admissível. Muito menos justificável.

Lembrei disso agora porque estão em cartaz os problemas de autoridade, de limites e de educação no âmbito familiar, com reflexos sentidos na escola e na sociedade. São dificuldades surgidas bem no momento em que foi abandonada a rigidez do passado para ser instaurada uma relação bem mais, digamos, relaxada no trato pessoal. Tiramos da pauta as antigas (por vezes ásperas) ordens, substituídas por serenas combinações. Porém, caso os pais queiram de volta o firme comando, correm o risco de ter como resposta:

– Deixa de ser estressado, pai!

Então hoje há filhos relaxados e pais estressados? Diria que sim, e exatamente o contrário também: os adultos se tornaram uns relaxados e a meninada acaba por viver sob consequente stress.

Aquele "relaxado" da minha infância não existia em oposição ao tenso, e sim ao descuidado, indisciplinado, descomprometido. Bem o problema que aparece na postura de muitos pais. Afinal, educação é algo que exige cuidado, disciplina e, acima de tudo, comprometimento. Em outras palavras, não se pode relaxar. Só tem credibilidade para ditar regras aquele que as tem para si, cumprindo-as. Isso vai desde a toalha pendurada no lugar até o parar no sinal vermelho. E, acima de tudo, é preciso atribuir tarefas e posturas, cobrando-as mil vezes se for necessário. Duas, três mil vezes até.

Mas o que dizer de uma meninada cada vez mais desobediente, agressiva, malandra? Seriam eles, então, muitíssimo relaxados? Depende. Se eles cresceram sem ser responsabilizados (mil vezes) pela ordem no quarto, pelo asseio, pelas notas escolares, pela obediência à autoridade etc., a resposta até pode ser não. Para ser relaxado é preciso ter atribuições. E, como sequela dessa renúncia involuntária aos deveres, nasce o stress juvenil: incapacidade de lidar com a frustração, com o limite, com as cobranças que, um dia, acontecerão. Aos mimados, crescer dói em dobro.

Recorrendo ao impreciso e, por vezes, injusto recurso da generalização, resumiria a ópera educacional do momento como uma tragédia em dois atos (ou melhor, duas omissões): pais estressados e relaxados, criando filhos relaxados e estressados. Ambos dispostos a culpar o professor, a escola ou o método pedagógico pelo mau espetáculo oferecido. E o Brasil, depois, reclama dos fracassos na bilheteria...


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