10.10.07

Número 236

CONTO COM PATROCÍNIOS

Literatura de resultados – Merchandising

 

João Carlos gira a maçaneta Clavet Veneza IIexclusivo acabamento em estanho – com todo o cuidado: na alta madrugada, o menor ruído fará despertar Maria Lídia, tanto o silêncio do Residencial Flor de Outono – no coração da Boa Vista. Nem respira. Evita até mesmo os pensamentos, que evocam o último sucesso de Máximo Jr., Serei seu, do álbum Poderes – Fonnar Music. Sapatos Pegoraro na mão, calça Digolan e camisa Voar sobre os braços. Menos de seis passos o separam da cama – vestida com lençóis Suavision, tamanho king size. Precisa deitar-se sem que a esposa perceba: já ouviu essa técnica em piadas. O triunfo está próximo.

 

Na metade do percurso, atenta para o rádio-relógio Clicktec Plus: cinco horas e cinqüenta e nove minutos. Às seis, a rádio Caporitã, programa Ontem do Amanhã, com Lourival Loureiro, invadirá o quarto com estridente noticiário. Muito azar! Abandona o plano original e parte como uma flecha para o banheiro, com o cuidado de deixar a roupa no espaldar da cadeira Ricolletto – móveis feitos para durar –, como quem despertara antes da hora.

 

No mesmo instante em que o rádio dispara, João Carlos abre a ducha Amsterdam Monocomando. Entra no box com portas de vidro temperado Vidrex mesmo antes de o aquecedor de passagem Callidys System deixar a água com a deliciosa temperatura do bem-estar. O frio dota sua voz de um vibrato peculiar, ideal para interpretar a música Serei seu, de Máximo Jr., ainda firme na memória.

 

Maria Lídia vira-se num espreguiçar longo e vê a aparência imaculada do travesseiro Plummar Plus ao seu lado. Sente o indisfarçável odor de whisky Johnny Black – fogo amigo! – vindo da camisa do esposo. De um lado, Lourival Loureiro desfila as condições do tempo, um oferecimento Paragripe Xarope. Do outro, João Carlos uiva "vem cá, meu bem / ser minha também...".

 

A mulher ergue-se com enfado. Arrasta as sandálias Leblon até o banheiro do casal. Sentada no vaso sanitário em Cerâmica Cismar, ela acompanha o vulto embaçado enxaguando a cabeça, agora sem música. Cada qual espera o oponente sacar a primeira palavra. Toalha Corpus Casal. Papel Higiênico Alvo Folha Dupla. Os olhares já estão secos. O silêncio paira sobre as gotículas de vapor. Se não houvesse nas paredes a tinta Lacca Ultra – especial para cozinhas e banheiros –, pontos de mofo seriam testemunhas daquela lenta expectativa.

 

– Se fôssemos personagens de Nelson Rodrigues – diz João Carlos, ostentando um esboço de ereção – você terminaria de baixar suas calcinhas, levantava daí e me abraçava.

 

Maria Lídia entra no jogo. Despe, enfim, a lingerie Bellinha Lycra – carícia plena – e, movimento contínuo, abre a porta do armário Movelbagno, ao seu lado.

 

– Querido, – sua voz é doce e displicente – prefiro ser personagem de Agatha Christie...

 

O último pensamento de João Carlos é lamentar a escolha do armário de banheiro para ser o esconderijo de sua pistola Schaffer Titan – possante recurso, suave recuo.

4 comentários:

Robertson disse...

Genial é pouco! Creio que não falta muito para a literatura chegar a esse estágio do capitalismo selvagem - será que não chegou ainda? Tenho cá minhas dúvidas...

Há tempos eu não ria tanto ao ler um texto. Só espero que as empresas que citaste no conto te paguem devidamente pelo espaço publicitário...

Rubem Penz disse...

Beto, nem me arrisquei a olhar no google com medo de descobrir que alguma marca inventada existe...

Muito grato, abração,
Rubem

Robertson disse...

Pois vai lá, dá uma olhada e pede o teu cachê, porque esta crônica é uma das mais inventivas e geniais que li recentemente.

O que realmente me encanta na tua escrita é o frescor, amigo. Leio uns e outros em "Zero Hora" e dá raiva de ver como se repetem, como se copiam mutuamente, como se auto-elogiam... Na falta do que falar, são esses os caminhos mesmo. Mas teu texto é sempre novo - no final, é inevitável a sensação de que é aquilo mesmo, de que estamos a ler algo em que sempre acreditamos mas nunca colocamos em um texto. Isso é uma qualidade extraordinária em um cronista, algo que jamais ficará datado.

P.S.: Rumo ao Açorianos!

Rubem Penz disse...

Bondade sua!

E conto com a torcida!

Abraço,
Rubem

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