31.10.07

Número 239

RESGATE

 

Há trinta anos atrás, um jogo de futebol entrou para a história de Porto Alegre. Tornou-se notícia, também, no Brasil e no mundo. Não foi o Grenal do Século ou alguma final de Copa Libertadores da América. Foi uma disputa, aliás, que nem chegou a acontecer. Porém, o que estava em jogo, na tarde de 3 de novembro de 1977, alcançava um valor inestimável: a vida de seis meninos, seqüestrados através de um ardiloso encontro esportivo. Ali, de certa forma, foi alterada a vida de todos nós.

 

Para situar os mais jovens, até os anos setenta do século passado, crianças se reuniam para jogar bola na rua, fosse em bairros periféricos, centrais, ou mesmo diante das mansões da cidade. Filhos da classe média rumavam a pé para a escola, saíam de bicicleta para a casa dos amigos e para fazer compras. Bastava dizer aos pais onde estariam nas horas seguintes e partir. Às vezes, nem isso era cobrado. Livres da pressão – da opressão – de uma rotina violenta, qualquer um de nós, meninos na época, poderia ter embarcado na conversa que prometia um campeonato e entregou um crime.

 

As dramáticas notícias de seqüestros vinham por jornais e revistas. No eixo Rio – São Paulo, parecia ser o delito da moda. Na capital gaúcha, eventos esporádicos ainda não chegavam a afetar hábitos salutares de confiar nas pessoas, andar na rua sem medo, crer na sociedade organizada. Comerciantes nem sonhavam com segurança privada diante de suas vitrines; fruteiras deixavam a mercadoria exposta na rua; cinemas cuidavam apenas de quem tentava "furar" na roleta. Em 1977 – incrível! – as casas de Porto Alegre não tinham grades nos jardins, nem os edifícios em suas portarias.

 

Assim, o seqüestro do time de meninos terminou sendo um marco histórico. Vivi o drama de perto, pois eram meus colegas de colégio – alguns de aula. Consternados, muitos lares viram nascer o medo concreto de perder suas crianças em um ato de violência. Comovidos, comemoraram quando surgiram todos a salvo, como que formando um abraço solidário com as famílias das vítimas. Depois, e de maneira acelerada, Porto Alegre foi deixando para trás a ingenuidade que franqueou a prática de um crime hediondo e tão ousado, urdido por um delinqüente amador.

 

O temor que nascia naquele momento, rápido transformou a paisagem da cidade, em consonância com a alma dos habitantes. Riscos concretos somaram-se às lendas urbanas, como a da Kombi na qual se retiravam os órgãos das crianças. Na medida em que eu crescia, e comigo o discernimento, tanto mais alerta ficava ao caminhar na rua. Vi meu bairro se tornar um deserto ao cair da noite – adeus estudantes caminhando para o colégio – e sumiram os cinemas de calçada. Em três décadas, as moradias se transformaram em presídios de segurança máxima.

 

Claro que poderia ser pior. Fosse um desfecho trágico, no aniversário de trinta anos as famílias chorariam o assassinato das vítimas. Doeria como se não houvesse passado o tempo. Ao contrário, sou convidado para um jogo de futebol que celebra a vida, relembra o alívio sentido no retorno dos seqüestrados e comemora, a despeito do sofrimento, a felicidade remanescente. Em campo, aqueles meninos tornados homens.

 

Porém, festa maior existiria para o caso de outro importante regresso: o da liberdade de andar pelas ruas de Porto Alegre sem apreensão; sem o iminente risco de ser morto por um mísero relógio; sem ser vítima de um seqüestro relâmpago; sem temer pela vida de quem amamos. Na época, seqüestraram nossa paz e nunca mais a devolveram. E o pior: pagamos por seu resgate até hoje, todos os dias. Muito, muito caro.

 

***

 

Quer aprender um pouco sobre a escritura de crônicas? Ou, conhece alguém que queira? Durante o mês de novembro, ministro ao lado de Valesca de Assis a oficina O NATAL AO ESPELHO DA LITERATURA – A VOZ DO CRONISTA. Serão 4 encontros, em terças-feiras. Horário: 9h – 11h30min. Local: Centro Cultural Auxílio ao Tema (Pe. Reus, 919 – Tristeza). Matrículas e informações no 3268-1200, ou www.auxilioaotema.com.br . Olha a chance de um Natal diferente...

25.10.07

Número 238



Dividindo a felicidade com os leitores do Rufar:

 

O Y da questão, de Rubem Penz, está entre os finalistas para o 14° Prêmio Açorianos de Literatura, categoria crônica. A indicação, por si, já representa um grande prestígio ao autor: insere seu livro entre os três melhores no gênero, enquanto o habilita a concorrer, também, ao prêmio de Livro do Ano. O resultado final será conhecido em 13 de dezembro, na Noite do Livro. Parabéns, Rubem!

Editora Literalis

 

 

CONTO COM PATROCÍNIOS II

Literatura de resultados – Outdoor

 

A porta está encostada. Mal entra, Eduardo ouve Rita, do quarto, pedir um minuto só, que já estaria pronta. Conhecendo os minutos femininos, ele dá um ok e fecha a porta atrás de si. Atravessa a sala de estar com destino à sacada – busca uma brisa de verão. Apóia-se no parapeito metálico, cruza as pernas, fita o horizonte. Escuta, displicente, o atrito da cidade. Carrega consigo uma resolução.

 

Seu olhar é atraído por um enorme frontlight, daqueles de três tempos, no exato instante do piscar na troca de tela. Brilhante, um Mazzar preto de modelo esportivo se mostra inteiro, provocante, desafiador. Potência, velocidade, perícia, Carla... Sim, é Carla quem Eduardo vê por detrás do automóvel. Ela, sempre vestida de preto, disposta às mais loucas aventuras. Sua voz suave, suas curvas audaciosas, seu controle mesclando precisão e risco. Aquilo não era uma mulher, lembra, era uma máquina!

 

Mal se materializam as sensações, gira o painel. Agora, ele se depara com as panelas em inox Bacci & Lambi, fundo triplo. Aperta os lábios, estala a língua, saliva: surge Patrícia. Se existiu alguém para levar ao pé da letra a estratégia de sedução pelo estômago, foi ela. Mulher de mil sabores, de nuances, temperos exóticos e aroma convidativo. Com ela, não havia café da manhã sem uma surpresa – que dirá o jantar à luz de velas. Agridoce aqui, salgadinha ali, cremosa. Ah, Patrícia, a quente Patrícia...

 

Novo hiato de luz. Tênis Bluesport Action. Ângela. Conhecera em uma meia-maratona, de passagem. Ela estava de passagem, diga-se com justiça, ferindo de morte sua auto-estima. Por sorte, ainda dava um tempo na dispersão quando ele completou o percurso. Começaram a correr juntos, equilibrando o preparo físico. Não demorou nada até que colocassem seus corpos em outras provas de tirar o fôlego. O combinado sempre era: quem chegasse primeiro, fazia de tudo para o outro chegar também, sem jamais descansar. Bom mesmo era quando chegavam juntos. Muito bom.

 

Outra vez Carla, para acelerar. Muda para Patrícia, para saborear. Agora Ângela, para persistir. Absorto neste moinho de recordações, Eduardo demora até se perceber observado. Vira-se e lá está Rita: toda de vermelho, tomara-que-caia, braços erguidos e apoiados na porta de correr envidraçada. Pose de estrela de cinema. Ela sorri como a dizer – que tal? Eduardo fecha os olhos, conta até dois e os abre novamente. Ainda é Rita, na mesma posição, o sorriso um pouco apagado como quem pergunta – que foi?

 

Eduardo fecha e abre os olhos outra vez, com o mesmo vagar. Rita já não sorri. Suas mãos agora estão na cintura, punhos fechados, cenho franzido. Mesmo irritada, está linda. No bolso esquerdo da calça, ele carrega um par de alianças. Mas está paralisado. Mudo. Buzinadas soam ao longe, na grande avenida, denunciando pressa. Teme piscar outra vez – há o risco de não mais encontrar na frente sua exigente Rita. A vida não é um outdoor.

18.10.07

Número 237

HÁ QUE SE ENTERNECER, SEM JAMAIS PERDER A GROSSURA

 

Ora concordando, ora com o pé atrás, leio artigos neo-feministas com uma freqüência cada vez maior. Sem dúvida, as mulheres, que já devem ser maioria nos bancos universitários, avançam firmes para o domínio das redações. Diga-se de passagem, para o domínio de tudo... Mas esse já é outro assunto.

 

Felizmente, boa parte dos textos são produzidos por mulheres que há muito abandonaram a ira contra os homens. Neles, as autoras tendem a relativizar o papel de vilão imputado ao macho no atacado para identificar, no varejo, apenas os comportamentos condenáveis. Em outras palavras, rumam para o pacifismo sexual. Porém, renitente, a antiga raiva que espumava nas palavras das ativistas de outrora foi substituída por um sentimento muito mais danoso: o desprezo.

 

A pergunta é: por que o homem nascido depois (ou no curso) da revolução feminista mereceria tal desprezo? Uma explicação recai nas possíveis escolhas de tais raivosas na hora de eleger namorados. Radicais, descartam todos os machões do espectro de possibilidades – e macheza não é, nem nunca foi, defeito. Então, acabam com uma amostra, digamos, um pouco viciada. Elas: fortes, decididas, empreendedoras. Eles: frágeis, inseguros, dependentes. Em termos de complementaridade, o casamento é perfeito. Porém, poucos homens se tornam vencedores com os atributos listados. No lugar da paz, o que obtém a feminista com quem não se preza é o controle. E o prêmio? Um banana em casa. Neste momento, ela se recorda de como era imponente o seu pai, de quanta segurança ele inspirava, e vaticina: o homem da atualidade não presta mais para nada.

 

Por outro lado, a reação masculina nestes cerca de cinqüenta anos de propaganda difamatória oscila entre o silêncio e o pastiche – este último destinado a debochar dos artigos feministas. Agindo assim, os homens ajudam a transformar o feminismo em algo totalmente do bem – a luta das oprimidas por direitos igualitários – e o machismo como 100% do mal. E, caro homem, se antes lhe cabia o carimbo de cafajeste, agora seu destino é o lixo reciclável (o lugar onde depositamos tudo o que ficou obsoleto).

 

E aí a novidade: tendem a estar realizadas as mulheres que, ao invés de comprar bonecos novinhos nas prateleiras, estão reciclando os machos jogados no lixo da história. Nossa! – dizem – como esse camarada desprezado é mais forte. Ele fala grosso, mas é capaz de tanta gentileza, não? Humm, tão seguro de si... E, incrível: outros homens o respeitam! Aposto que, com um pouquinho de tarefas domésticas compartilhadas, carinho com os filhos e reconhecimento do meu valor profissional, dará um bom marido.

 

Ah, pois é... Está na hora de inverter o dito de Che Guevara, cabra macho – ainda comentado quarenta anos depois da morte –, e reciclar com inteligência o papel masculino. Para merecer a companhia das melhores damas, hay que enternecerse, pero sin perder la grossura jamás.

 

Convite: Aproveitando o tema, convido a todos para assistirem, na 53° Feira do Livro de Porto Alegre, o evento (Re) Fazendo Gênero – novos rumos para o masculino e o feminino. Mesa comigo, Corina Breton (escritora e tradutora) e Priscila Carvalho (editora do caderno Kzuka/ZH). É dia 02/nov – sexta-feira e feriado –, 16 horas na sala oeste do Santander Cultural. No mesmo dia, 18:30h, no pavilhão de autógrafos, estarei (re) lançando O Y da questão e outras crônicas.

 


10.10.07

Número 236

CONTO COM PATROCÍNIOS

Literatura de resultados – Merchandising

 

João Carlos gira a maçaneta Clavet Veneza II – exclusivo acabamento em estanho – com todo o cuidado: na alta madrugada, o menor ruído fará despertar Maria Lídia, tanto o silêncio do Residencial Flor de Outono – no coração da Boa Vista. Nem respira. Evita até mesmo os pensamentos, que evocam o último sucesso de Máximo Jr., Serei seu, do álbum Poderes – Fonnar Music. Sapatos Pegoraro na mão, calça Digolan e camisa Voar sobre os braços. Menos de seis passos o separam da cama – vestida com lençóis Suavision, tamanho king size. Precisa deitar-se sem que a esposa perceba: já ouviu essa técnica em piadas. O triunfo está próximo.

 

Na metade do percurso, atenta para o rádio-relógio Clicktec Plus: cinco horas e cinqüenta e nove minutos. Às seis, a rádio Caporitã, programa Ontem do Amanhã, com Lourival Loureiro, invadirá o quarto com estridente noticiário. Muito azar! Abandona o plano original e parte como uma flecha para o banheiro, com o cuidado de deixar a roupa no espaldar da cadeira Ricolletto – móveis feitos para durar –, como quem despertara antes da hora.

 

No mesmo instante em que o rádio dispara, João Carlos abre a ducha Amsterdam Monocomando. Entra no box com portas de vidro temperado Vidrex mesmo antes de o aquecedor de passagem Callidys System deixar a água com a deliciosa temperatura do bem-estar. O frio dota sua voz de um vibrato peculiar, ideal para interpretar a música Serei seu, de Máximo Jr., ainda firme na memória.

 

Maria Lídia vira-se num espreguiçar longo e vê a aparência imaculada do travesseiro Plummar Plus ao seu lado. Sente o indisfarçável odor de whisky Johnny Black – fogo amigo! – vindo da camisa do esposo. De um lado, Lourival Loureiro desfila as condições do tempo, um oferecimento Paragripe Xarope. Do outro, João Carlos uiva "vem cá, meu bem / ser minha também...".

 

A mulher ergue-se com enfado. Arrasta as sandálias Leblon até o banheiro do casal. Sentada no vaso sanitário em Cerâmica Cismar, ela acompanha o vulto embaçado enxaguando a cabeça, agora sem música. Cada qual espera o oponente sacar a primeira palavra. Toalha Corpus Casal. Papel Higiênico Alvo Folha Dupla. Os olhares já estão secos. O silêncio paira sobre as gotículas de vapor. Se não houvesse nas paredes a tinta Lacca Ultra – especial para cozinhas e banheiros –, pontos de mofo seriam testemunhas daquela lenta expectativa.

 

– Se fôssemos personagens de Nelson Rodrigues – diz João Carlos, ostentando um esboço de ereção – você terminaria de baixar suas calcinhas, levantava daí e me abraçava.

 

Maria Lídia entra no jogo. Despe, enfim, a lingerie Bellinha Lycra – carícia plena – e, movimento contínuo, abre a porta do armário Movelbagno, ao seu lado.

 

– Querido, – sua voz é doce e displicente – prefiro ser personagem de Agatha Christie...

 

O último pensamento de João Carlos é lamentar a escolha do armário de banheiro para ser o esconderijo de sua pistola Schaffer Titan – possante recurso, suave recuo.

4.10.07

Número 235

SUA MAJESTADE, O PLURAL

 

Na crônica, temos a tentação de julgar que o leitor sempre concorda conosco. Peço paciência, mas vou escrever a frase outra vez: Na crônica, tem-se a tentação de julgar que o leitor sempre concorda com autor. E, desculpe – é importante –, ainda de uma terceira forma: Na crônica, tenho a tentação de julgar que o leitor sempre concorda comigo. Nas três orações, a mesma mensagem. Nelas, mensagens muito diferentes.

 

Analisando as três frases gêmeas do primeiro parágrafo, leitor atento verificará que o grau de exposição do cronista é crescente. Na primeira oração, com o uso do plural majestático (temos), o autor se esconde na multidão, chamando todo mundo para as fileiras do seu argumento. E, como é comum em uma horda, tudo o que é feito – ou dito – será diluído, para o bem e para o mal. Esta é a forma mais segura de construir um ponto de vista e, por isso, a tentação primeira do escritor. Só tem um problema: é uma pequena mentira. Ninguém passou ao cronista, a priori, uma procuração de plenas opiniões.

 

Na segunda maneira de escrever, o artifício utilizado é o da impessoalidade (tem-se). A opinião é de alguém, talvez do autor, ou de um terceiro que falou para ele, ou mesmo do leitor disposto a pegar o bonde andando. Digerida a premissa – falsa ou verdadeira, não importa –, fica permitida a elaboração de um argumento qualquer, libertando o autor para a construção de sua retórica. A engenhosidade desta configuração faz o leitor se encantar com o cronista. "Nossa, ninguém falou isso antes!" – pensará. E aí está o problema: este "ninguém" que falou antes é o escudo do autor.

 

A última forma de oração lá de cima evidencia a primeira exigência do gênero literário crônica: o discurso na primeira pessoa do singular (tenho). Ali está o autor, aquele que assina o texto, em busca de sua particular argumentação. Também, quem sabe, mirando a concordância do leitor (se bem que muitos cronistas tornam seus leitores fiéis pelo estranho caminho da discórdia). Exposto, sincero e aberto ao contraditório, o verdadeiro cronista contabiliza o proveito e o prejuízo de quem se arrisca em muitas opiniões. Às vezes, soa arrogante. Mas, raramente, covarde.

 

De todos os cronistas que acompanho, admiro especialmente aqueles que constroem seus textos com base na opinião singular. Mesmo antes de me dedicar à escritura do gênero – e a seu conseqüente estudo –, já o fazia de modo intuitivo. Estaria mentindo se dissesse que nunca me vali da impessoalidade ou do confortável plural majestático. Pior: tenho uma obra publicada para me denunciar. Há, sim, momentos em que estas formas são adequadas. O problema está em usar demais, ou mesmo tão somente, estas estruturas espertas.

 

Todavia, não posso deixar de terminar o texto sem falar naquele que, na minha opinião, é o pior tipo de cronista. O que coloca as mazelas do mundo no reino de sua majestade, o plural: não deveríamos fazer isso, agimos mal desta ou daquela forma, erramos ao pensar assim ou assado. Depois, com todos nós sob o manto do tal monarca, o autor tira seu corpo fora e oferece o bom caminho na primeira pessoa, transformando-se em Robin Hood, o arqueiro das flechas de auto-ajuda.

 

Leitor, cuidado com o cronista que usa e abusa do plural majestático. Ele pode ser o mesmo que, no estádio de futebol, atira o rádio de pilhas no bandeirinha, olha para o lado e diz: estamos muito alterados hoje, não é?

28.9.07

Número 234

AUTOMÓVEL DO FUTURO

 

Imagine comigo um consórcio entre montadoras de automóveis, companhias seguradoras e empresas de segurança privada. Seu objetivo: projetar o carro do futuro – um veículo que usa a tecnologia para garantir o bem-estar e a segurança que o cliente merece. Afinal, vivemos dias de guerra urbana... Neste devaneio, as instruções do vendedor ao feliz proprietário poderiam ser algo assim:

 

– Bom dia! Antes de mais nada, além dos parabéns, gostaria de estar dando pequenas orientações prévias, ok? Entre no carro, bata a porta, digite a senha no computador de bordo e aperte o botão azul. São exatos quinze segundos para estar apertando o botão azul, caso contrário o veículo não estará ligando o motor. Mais: estará disparando o pisca-alerta, estará travando portas e vidros e estará ganhando, em menos de oito minutos, a companhia tranqüilizadora de um pequeno batalhão armado. Botões de pânico são coisa do passado – os procedimentos de segurança, agora, são pró-ativos. Chamamos de Procedimentos de Qualificação Prévia (PQP).

 

– Depois de digitada a senha, o primeiro aviso sonoro – apito agudo – estará alertando para a colocação do cinto de segurança. Se desobedecido, além do incômodo, estará fazendo subir a prestação do seu seguro de vida. O segundo aviso – um sininho din-dom – estará pedindo para digitar um dos destinos previamente estabelecidos: sua residência, clube, academia, igreja, restaurantes etc. Aqui, a partir da página 36, o manual do proprietário estará ensinando a programar estes endereços, sujeitos à aprovação do PQP.

 

– Escolhido o local de chegada, um sistema ligado aos nossos satélites estará acionando a Central de Palpites (CP), que estará ditando o trajeto com base em variáveis de segurança, de economia de combustível e tempo. É preciso seguir o rumo sugerido de modo fiel, mesmo que pareça ilógico. Aspectos preventivos estarão escolhendo uma entre dezessete rotas ideais, de modo randômico, para evitar-se rotinas rastreáveis – não queremos clientes seqüestrados...

 

– Alertamos que estatísticas de ocorrências policiais poderão estar afetando a sua lista de destinos pré-determinados. Por exemplo: um restaurante hoje classificado no PQP como destino seguro, amanhã pode deixar de sê-lo. Nestes casos, não adianta estar digitando o código diversas vezes – como já ocorreu em clientes histéricos. O procedimento correto é estar pressionando a gerência do restaurante a estar reforçando as garantias do quarteirão.

 

– O painel colorido à esquerda é a parte visível do que chamamos Relatório de Medidas Diversas (RMD). Ele estará indicando o nível de álcool no sangue com base na sua respiração, elevando todos os seguros a cada ocorrência de embriaguez, numa escala crescente. No cinto de segurança existem sensores para medir sonolência e alteração libidinosa – ambas inscritas nas seguradoras como Indicativo de Risco Iminente (INRI). Para estar conferindo os acréscimos de valor na prestação do seguro, digite o número da apólice no computador de bordo. Muito obrigado e, qualquer dúvida, estaremos estando à disposição.

 

Caso o leitor já tenha saudade do tempo em que era possível entrar no automóvel com liberdade para ir e vir, tomar chope de acordo com a consciência e até andar com os vidros abertos, calma: esta crônica, além de exagerar propositalmente no gerúndio, exagera no prognóstico. Ou não?

20.9.07

Número 233

ANTES QUE SEJA TARDE *

Com força popular e com vontade política, a ética há de se espalhar com toda a intensidade. Com força de caráter e com vontade de acertar, a decência há de se espalhar com toda a intensidade. Com a força do voto e com o respeito à vontade de quem elegeu seu representante, a justiça social há de se espalhar com toda a intensidade.

Assim, há de molhar o já seco manancial de esperança que o brasileiro vê minguar a cada dia. Há de enxugar os olhos de quem chorou as vítimas das tragédias repetidas e cruéis, como, por exemplo, do caos aéreo. Há de iluminar os becos, onde a violência e o tráfico de drogas dizimam o futuro de meninos e meninas, tanto de forma direta, quanto por balas perdidas. Antes que seja tarde.

Há de assaltar os bares, principiando por aqueles das Universidades – fóruns de livre pensar, indutores de consciência e formadores de uma elite que precisa ser resgatada, e não demonizada. Há de tomar as ruas, em manifestações claras de repúdio à política venal e corporativista. Há de visitar os lares, reduto primeiro no qual se cultiva o juízo do que é certo e errado, e de onde a educação emerge como formadora. Antes que seja tarde.

Há de rasgar as trevas das votações secretas no Senado Federal; as maracutaias engendradas na ante-sala do Poder Executivo; a corrupção e o favorecimento escuso que germina nas Casas Legislativas, Prefeituras e Governos Estaduais. Há de abençoar o dia em que a Justiça não puna apenas o ladrão de galinhas, alcançando com igual rigor os criminosos de colarinho branco. Há de guardar as pedras arremessadas por radicais de todos os matizes, capazes das atitudes mais atrozes e ilegais por sentirem-se justificados por fins nobres. Antes que seja tarde.

Há de deixar semente do mais bendito fruto na terra e nos ventres do Brasil, que depende, ainda e como nunca, de pessoas capazes de levar o desenvolvimento social e econômico para cada um dos rincões da nação. Sem assistencialismo, mas com oportunidade. Sem apadrinhamento, mas com a valorização dos méritos. Sem preconceitos de qualquer espécie, mas com o respeito às individualidades. Antes que seja tarde.

Há de fazer alarde em uma imprensa livre, fiscalizadora, opinativa e plural – sim, pois à informação jamais deve imputar-se uma falsa aura de imparcialidade. Há de libertar o sonho repleto de esperança da nossa mocidade, ao legar bons exemplos e mea-culpas. Antes que seja tarde.

Por fim, há de mudar os homens que decidem os caminhos da nação brasileira. Rápido! Antes que a chama da ética se apague. Antes que a fé na democracia e nas instituições nacionais se acabe. Antes que seja tarde.

* Crônica escrita com base na obra de Ivan Lins e Vítor Martins, de mesmo nome, composta em (e para) outros tempos, mas com uma atualidade perturbadora.

13.9.07

Número 232

UM NOME SINGULAR

 

Vou tratar de um tema que todos conhecem bem: nossos nomes. Existem duas formas de escrever o nome próprio de alguém: a certa e a errada. Porém, existem nomes com diversas grafias e, para estes, são três, quatro ou cinco as maneiras de escrevê-los. Surge, assim, uma nova categoria: a forma certa, a errada e a possível. Veja o meu caso: há o Rubem, o Ruben e o Rubens. Eu, por escrito, sou o primeiro. Contudo, os outros, como direi, são quase meus nomes. Tanto que atendo por eles sem pestanejar – nem dou ouvidos ao sibilar no final.

 

A visão é muito mais severa neste julgamento de certo e errado: quando olho para a folha – ou para a tela – as variantes do meu Rubem desagradam. Não morro por causa disso, claro. Mas adoro quando adotam o modelo correto. Se o equívoco acontece em documentos, cartazes e certificados, diligente, peço para que seja corrigido. Mas em cartas, e-mails e mensagens triviais, até em dedicatórias – paciência, o autor já escreveu –, faço vista grossa. Ninguém tem culpa de existirem vários Rubens (aí é o plural). Respondo as mensagens eletrônicas na grafia com a qual fui batizado e bola para frente, esperando um dia ganhar por insistência. Ou não.  

 

Quem inveja esta minha tripla grafia é o Luís Antonio. Não, não: o Luiz Antônio. Ou seria Luís Antônio? Já sei: Luiz Antônio! Ai, ai... Peço ao Luiz Antonio, caso esteja lendo o texto, que me perdoe, pois quando o nome é composto, o problema (e a dúvida) se multiplica. Além do mais, na língua falada, nenhum dos Luizes se diferencia do outro. Nem os Antonios. Logo, para quem escuta, tanto faz. E quando chega a hora de escrever é um Deus-nos-acuda! Complicado, não? Olha que nem chegamos aos sobrenomes.

 

O H é uma letrinha madrasta em se tratando de confusões nominais. Principalmente quando sem som. Helenas, Heloísas e Heitores que o digam. Uma das passagens mais engraçadas que já soube em matéria de H me foi contada pelo grande amigo Helio Vicente. Parece que aconteceu diante de uma atendente de crediário. Ele ditou para ela o seu nome: Helio. Ela começou a escrever "El...", quando foi interrompida: – Moça, desculpa, é com H – disse ele. A profissional ergueu os olhos com enfado, como quem pensa que é claro que só pode ser com H, está me tirando para burra? E lascou na folha: "Elho"!

 

A livre tradução dos estrangeirismos, marca nos dias atuais, está causando um verdadeiro reboliço nos nomes escritos. Não sei onde andam os tradutores que ainda não viram o filão de mercado que é atuar em cartórios de registros naturais. A falta deles está abrindo uma lacuna para dezessete maneiras diferentes de escrever Michael, por exemplo. Doze delas em guris com idade de jogar futebol. Nenhuma como o correto Miguel, óbvio. Em casos assim, acertar o nome do sujeito por escrito passa a valer ponto de loteria. Johnny, o diminutivo de John (João), também varia muito na escrita. Mas, Joãozinho, nem pensar... Outro nome campeão de possibilidades é o da princesinha de Mônaco: Stephanie. Algum tradutor sabe qual é o sinônimo deste nome em bom português?

 

 

Se você tem um nome que pode ser escrito de várias formas, ou um nome estrangeiro, ou um complicado, pense bem: que paz ser simplesmente Ivo, Eva, Maria e José. Também, por outro lado, que tédio... Como este não é o meu caso, até já criei duas frases feitas para acertarem meu nome. Antes de escreverem, quando me perguntam se o final é com "n ou m", respondo: é com "m" de Márcia – e ganho um pontinho com a patroa.   Agora, quando nada perguntam e escrevem Rubens, eu corrijo: não é plural, sou um só. Piada infame, porém funcional.    

5.9.07

Número 231

SOBRAM ABACAXIS. FALTAM ABACAXIS.

 

Quanto pior, melhor. Esta parece ser a regra da comunicação em massa. Programas de auditório e sites de entretenimento (tipo youtube) se abastecem de figuras bizarras e transformam o grotesco em fama instantânea. O mais novo exemplar genuinamente brasileiro, gaúcho de Nova Prata, é o pseudocantor-compositor-dançarino Helio dos Passos. Irretocável modelo da fórmula. Para entender, perca cinco minutos no google procurando por este abacaxi. Nem um segundo a mais, por favor!

 

Não é muito difícil encontrar exemplos de pessoas sem a menor noção do ridículo. Gente que, embriagada pelo prestígio de ser, por instantes, o centro das atenções, expõe-se ao riso e à chacota do grupo. Imaginam ser esta a chave do sucesso. No ambiente escolar, os líderes negativos da turma são os primeiros a identificar alguém com este perfil e, de modo sádico, inflar seu ego. Se o menino ou a menina não estiver atento, cairá na armadilha e será lembrado para sempre por ocupar o indigno trono do bobo alegre.

 

Afirmo que este Helio pertence ao seleto grupo dos completamente sem-noção, mesmo que ele venha a discordar de mim. Posso adivinhar seus argumentos: "Não componho, danço ou canto tão mal assim. Sou autêntico e esse meu jeito agrada as pessoas. Represento o povo. Sou um herói na cidade e quem me critica tem apenas inveja". O problema é que ele compõe, dança e canta pior, mas muito pior do que imagina. E quem lhe dá espaço em mídia de massa faz o mesmo papel do líder negativo da sala de aula: ilude para ter de quem zombar.

 

A glamourização do bizarro germina nos acessos direcionados aos adolescentes e jovens, e isso está longe de ser um acaso. Quem vive o período da auto-afirmação adora rir dos outros (vide MTV). Quanto mais ridículo, melhor. Lembra-se da Sônia do www e da Solange do BBB? É isso. Na esteira desta constatação, muito artista garante o seu sustento. Basta recordar, por exemplo, dos Mamonas Assassinas. Ou, para os mais antiguinhos, do Ultraje a Rigor. Ambos faziam questão de apresentar espetáculos burlescos. Mas existem diferenças abissais entre estes conjuntos musicais e os casos como o do Helio: os grupos compunham boas paródias, executadas com total domínio técnico. O caricato era método. Helio dos Passos, atenção, se leva a sério.

Para concluir, muito mais lamentável do que a cruel exploração da falta de talento do diligente Helio, ou de sua própria satisfação com a zombaria que provoca, é a ausência de um bom amigo para lhe aconselhar. Alguém de confiança e que não tema a verdade: meu velho, sua música está muito ruim. Aquele mesmo que, numa sala de aula, evita a troça e atua para livrar o colega mais ingênuo da humilhação. E isso pode ser feito mesmo na TV. Se bem me lembro, o Chacrinha, mestre do bom-humor, nunca aplaudia a evidente falta de noção do calouro incapaz em seu programa. Premiava-lhe com o meritório anonimato, depois de uma generosa buzinada e um educativo abacaxi.

30.8.07

Número 230

A COBRAR

 

Juarez, cinqüenta e dois anos, engenheiro de vendas, casado, dois filhos, enfarta com as chaves do carro na mão. A morte não estava em seus planos de, digamos, curto prazo. Ainda mais naquele dia: retornaria para casa com uma notícia fundamental. Por isso, faz de tudo para ser recebido em instâncias superiores.

– Com licença, eu gostaria de falar com o senhor...

         Pedro olha o recém chegado por cima de seus óculos de leitura. Dá um longo suspiro e atende com a santa paciência:

– Você diz, o Nosso Senhor?

– Não, não: com o senhor mesmo. – o homem se achega, confiante. – Me chamo Juarez e lhe indicaram para resolver o meu problema.

– Desculpe-me, filho – explica o Santo – aqui não há mais problemas.

– Justo! Este é o caso: se eu acho que tenho um problema, é a prova de que não estou aqui, como dizer, por inteiro.

         Nuvem adentro, já ao lado de Pedro, Juarez dá claros sinais de sua determinação. O Santo abandona o livro e resolve atendê-lo com meio sorriso.

– Ok. E qual seria este seu problema?

– Eu preciso falar com a minha esposa, digo, viúva – apontando para a Terra.

Pedro é categórico:

– Impossível! – desviando o olhar de volta para a sua leitura. – É contra as regras.

– O senhor não entendeu: é importante! Quando morri, tinha algo a dizer que mudará o destino da minha família! E eu pago bem!

– Filho – Pedro volta-se para Juarez em tom de advertência – é você quem parece não entender este seu novo momento... Além do mais, está esquecendo de um detalhe mortal: seu dinheiro ficou todo do lado de lá – e estende a mão para baixo.

Quando São Pedro retorna ao livro para dar o assunto por encerrado, resmungando contra o anjo que deixara o novato passar, Juarez tenta a última cartada:

– Então ligamos a cobrar! Isso: Ana Lúcia jamais recusaria a minha chamada!

 

Ana Lúcia, quarenta e nove anos, contabilista, viúva, mãe de dois filhos, passeia na calçada com Marvin, seu Yorkshire. Toma um tremendo susto ao ser abordada, de sopetão, por uma cigana:

– Madame, madame: Eleonora vê o passado, o presente e o futuro... E alguma coisa diz para Eleonora que a senhora precisa saber de algo muito, muito importante! – uma pausa, olhos nos olhos, voz grave: – É sobre o falecido...

Marvin, latindo e avançando nas pernas da cigana, precisa ser contido no colo. Ana Lúcia tonteia a ponto de balançar em suas convicções: como saberia tal mulher da recente morte de Juarez? Mas, em um resgate de lucidez, pergunta:

– Hummm... e como é que é isso?

A Cigana estende suas mãos em um gesto dúbio, talvez para pegar nas mãos de Ana Lúcia e ler o futuro, talvez para receber adiantado:

– São duzentos reais...

 

São Pedro recoloca o telefone no gancho. Olha condoído para Juarez.

– Sinto muito, filho: desligaram.

23.8.07

Número 229

A COMISSÃO

 

Atualmente, a população humana está na casa dos bilhões, e não pára de crescer. Por isso, mesmo reconhecendo a onipotência Divina, desconfio que o Todo Poderoso está recorrendo a uma Comissão para auxiliar na tarefa de criar homens sempre inéditos e particulares. Algo como uma equipe de cinema, cada um com uma especialidade. Ao menos essa seria uma explicação convincente para os diferentes talentos e vocações de cada um.

 

Os homens criados sob forte influência dos roteiristas, por exemplo, seriam aqueles que sempre sabem o que dizer. Comediantes natos, políticos rápidos, sedutores incorrigíveis, os filhos dos roteiristas são aqueles que têm as respostas na ponta da língua. Sempre com os melhores argumentos.

 

Está com inveja? Pois, que tal os descendentes dos diretores: além de dominarem o texto, capricham no timing e na entonação. Nasceram para estar no comando. São tão convincentes e ensaiados, que passam para os outros a idéia de que tudo está sendo filmado o tempo inteiro. Nunca são pegos de surpresa: vivem em um constante déjà vu.

 

Os homens que nascem da cabeça dos figurinistas têm muito estilo. Não importa se são neohippies, pósyuppies, prépunks: tudo o que vestem lhes cai bem. No inverno ou no verão, para festas ou no trabalho, eles estão corretíssimos e atraem os olhares. Quando ficam em crise total, parados defronte ao closet (sim, guarda-roupa é para os outros), o que fazem? Ditam uma nova tendência de moda.

 

Quando brota das pranchetas dos diretores de fotografia, o camarada se parece com um camaleão. Não tem um estilo: tem todos. Com isso, fica como que mimetizado ao ambiente, circulando como se fosse o detalhe que faltava para compor o quadro. Dificilmente chama a atenção para si. Nem por isso deixa de ter a importância reconhecida. Afinal, carrega consigo o poder da harmonia.

 

Peculiar, também, é o destino de quem se origina das planilhas dos produtores. Estas pessoas não são charmosas, não falam bem ou chamam a atenção com facilidade. Em compensação, sabem lidar com a informação como ninguém. E, captando recursos de toda a ordem (monetário, material e humano), fazem de si alguém de inestimável utilidade. E, é claro, de muita influência.

 

Os homens que são criados pelos financiadores são conhecidos pelo apelido carinhoso de "filho do homem". Provêm de contas numeradas de bancos estrangeiros e, muito família, delas nunca se desligam. Não são charmosos, ou articulados, ou líderes. Nem precisam ser. Ricos, espertos e ríspidos, não encontram dificuldade em exercer o mais feroz dos poderes: o monetário.

 

Mas, como falei, estamos na casa dos bilhões. E, por mais roteiristas, diretores, figurinistas, diretores de fotografia, produtores e financiadores que estejam supostamente trabalhando na Comissão do Criador, jamais dariam conta de tantas tarefas. Então, se você não tem o dom da palavra, o charme que todos invejam, a presença de espírito, muita grana ou outras qualidades descritas acima, faça como eu: conforme-se em ter sido projetado por um estagiário.

 

Sim, na Comissão, há milhares deles.

17.8.07

Número 218

CONDENADOS

 

Está na resolução n° 245 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran): a partir de agosto de 2009, todos os carros zero quilômetros deverão sair das montadoras já equipados com rastreadores e bloqueadores antifurtos. De acordo com as autoridades, tais equipamentos permitem recuperar até 90% dos veículos furtados. Com isso, ao proprietário será facultado gastar mais (contratando o controle do veículo 24 horas por dia, via satélite), ou menos (caso opte por um bloqueio simples, via celular) para buscar seu carro de volta. Prender ladrões e receptadores, aplicando corretamente os impostos, nem pensar.

 

Esta fórmula invertida de resolver o problema da segurança pública, isto é, repassando a (dupla) conta e o gerenciamento para o cidadão, poderá servir de modelo para os demais órgãos governamentais. Afinal, temos culpa de nascer no Brasil. E culpa maior em caso de mérito –   como é a situação dos afortunados que conseguem comprar um carro novo. Nos moldes do Contran, viriam estas outras resoluções:

 

Resolução da Secretaria de Obras: a partir de tal data, toda construção residencial seria obrigada a conter, em seu projeto, grades em todas as janelas e portas. Mais: cerca elétrica e arame farpado; alarme com sensores de presença em cada peça e monitoramento (operado por empresas ou via celular); canil e guarita na calçada. Afinal, mais de 90% das casas arrombadas não contam com a metade destas garantias.

 

Resolução da Secretaria de Comércio e Serviços: a partir de tal data, só receberia alvará de funcionamento o estabelecimento que apresentasse, em seu projeto, um sistema de monitoramento interno via circuito fechado de TV. Além disso, deveria conter portas com detector de metais, botões anti-pânico em locais estratégicos e guarita à prova de balas. Para o caso de bares e restaurantes, seria exigida a apresentação dos diplomas de Ninja de seus garçons; aos cozinheiros, Curso de Atirador de Facas. Heliporto e telefone vermelho dentro de uma queijeira – para falar direto com o Batman. As estatísticas indicam que mais de 90% dos casos de assalto seriam evitados com tais equipamentos.

 

Resolução do Conselho Tutelar: a partir de tal data, todo bebê que nascesse em lar brasileiro deveria ganhar uma pulseira de rastreamento via satélite. Nela, um chip programável informaria aos pais, com preços módicos, a freqüência da criança nas aulas, com quais amiguinhos ela tem andado e se foi ao banheiro hoje (e quanto tempo lá permaneceu). Para o caso das mães que trabalham fora, informaria se chegou perto do fogão e tomadas elétricas; ou mesmo se ficou todo o tempo na frente da TV. Pesquisas indicam que mais de 90% dos casos de delinqüência juvenil, acidentes domésticos e prisão de ventre seriam prevenidos.

 

Outros projetos: a obrigatoriedade de cintos de castidade para todas as mulheres, a fim de prevenir estupros. Detectores de mentira individuais, para escapar de estelionatos. Coletes à prova de bala em qualquer traje (principalmente uniformes escolares), para escapar de balas perdidas. Toque de recolher nas doze badaladas.

 

Então, no momento em que todas estas portarias entrassem em vigor – agosto de 2009, quem sabe, junto com a inspiradíssima resolução 245 do Contran –, os governantes poderiam, enfim, abrir de vez as portas das prisões. Teria sido mais fácil e barato monitorar, cercear e enjaular todo mundo.

 

Exagero ou premonição?

9.8.07

Número 227

ÓRFÃOS

 

É complicado ser órfão no Dia dos Pais: um patinho feio que será esquecido por todos os anúncios e cartões da data. Pai morto não ganha furadeira ou espeto de churrasco. E, muito menos, pagará a conta do presente que o filho lhe comprar. Mas existe muita gente que encontra mais motivos para chorar do que para sorrir no segundo domingo de agosto. À revelia dos departamentos de marketing.

 

Entre os amigos pessoais que perdi e a maior tragédia aeronáutica do Brasil, nenhum outro Dia dos Pais me avizinhou com tantos falecimentos como esse de 2007. Dos tantos órfãos que surgiram ao meu redor, embalados por fatalidades pessoais e coletivas, cada qual sofrerá a dor da separação de modo particular, apanhado pela fatalidade em momentos distintos da existência.

 

Como é o caso de um pequeno amigo, bebê lindo e de olhos azuis, que ganhou do pai os mais afetuosos abraços do mundo, mas terá essa lembrança impressa apenas no coração, e não na memória. Quem lhe deu a vida partiu muito cedo, antes mesmo de ganhar, em retribuição, o valioso porta-lápis pintado com tinta têmpera na sala de jardim de infância. Caberá à mãe, aos tios e amigos, a incumbência de contar as histórias do pai, para garantir-lhe a presença. Justo (injusto!) um pai conhecedor de tantas histórias que mereciam ser compartilhadas.

 

No dia dezessete de julho, data do vôo TAM3054, muitas outras crianças também perderam os pais. E o fato de algumas serem crescidas, levando para adiante boas lembranças paternas, não será de modo algum suficiente consolo. Ao contrário, receberam da vida um ensinamento duro e precoce: o de que o papai super-homem não é invencível. Todo cuidado será necessário para que o medo não seja a companhia destes pequenos.

 

Igualmente, jovens e adolescentes, às pencas, acabaram por se despedir para sempre de seus velhos nada velhos no aeroporto. Com isso, deixarão de receber preciosos conselhos que fariam questão de ignorar para, mais tarde, compreender. Sobre seus ombros, pesará o amadurecimento instantâneo imposto pela orfandade. Já tendo passado por isso, mesmo que em outro momento da vida, garanto: Quando morre o pai, parecemos envelhecer décadas em um instante. Torço para que todos suportem a carga.

 

Porém, de todas as mortes que assaltaram minha (nossa) rotina nesses dias, existe uma que traz consigo a maior de todas as dores. Ela é uma orfandade ao contrário: a que se impõe ao pai no sepultamento do filho. Afinal, na medida em que o homem se torna perpétuo em sua descendência, morre seu futuro quando o destino lhe ceifa o herdeiro. Esta é a maior provação pela qual pode passar um pai.

 

Sou pai, e temo mais pela vida dos filhos, do que pela minha própria. Desde que o primeiro me chegou ao colo, ainda na sala de parto, conheci a maior alegria do mundo. Ela só encontra magnitude rival com a responsabilidade que nasce junto com aquela vida que ajudamos a gerar. Cumpro meu encargo enfrentando o desgaste da educação, o tolhimento da liberdade, as renúncias voluntárias. Nenhum sacrifício, diga-se.

 

Nesse Dia dos Pais, quero me solidarizar com os órfãos, crianças e jovens, marcados em perdas recentes. E, principalmente, com os pais que se despediram de seus filhos muito antes da hora, dor imensa. Vocês não estão estampados em nenhum cartaz de loja. Mesmo assim, conhecem como ninguém o significado das palavras presente e lembrança.

2.8.07

Número 226

A LINHA TÊNUE

 

Bezerra entra na loja de armarinhos do Turco. Primeira vez. Seu ar é de desconfiado. Freguesa, é sua Madalena – comprara lá desde os lençóis do enxoval, passando pelas fraldas dos filhos e, mais recentemente, os guardanapos escolares dos netos. Mãos para trás, os olhos para o alto, um leve cantarolar nos lábios. Em poucos passos já está no balcão, diante de Aziz, que lhe sorri encantador.

– Bom dia, freguês! – ele abre os braços com as mãos espalmadas para cima. – O que procura, seja o que for, temos por bom preço!

Bezerra responde o cumprimento com um meio sorriso. Solta as mãos. Fixa o olhar no vidro do balcão. Percorre com o dedo indicador os diversos escaninhos lotados de carretéis. Estaria, na verdade, atrás de algo muito difícil: uma linha a qual todos se referiam, mas que nunca mais vira. Uma linha tênue. Teria dessas?

– Depende, freguês. Depende... – puxa de cima da mesa o carretel de linha verde. – Dessa aqui, por exemplo, agora mesmo levaram um pouco: é a linha tênue que separa a boa intenção da incompetência. Interessa?

Sem tirar os olhos da vitrine, Bezerra nega com a cabeça. Dá duas batidinhas de unha e aponta para a cor de laranja. Ergue o olhar.

– Está mais para essa...

– Ah, a linha que separa a letargia da classe média da ignorância diante do perigo constitucional. Faz tempo que ninguém a percebe. Perdoe a curiosidade, mas o senhor está desconfiando de algo?

– Não, não. Gosto do tom, apenas. Tem bastante dela, ainda?

– Carretel único, freguês, bem no fim – desconversa. – Mercadoria que não gira, comerciante algum repõe.

O Turco puxa a gaveta para si em busca de alternativas:

– Olha, para ser franco, bastante tenho dessa, amarela – apanha o carretel e alcança para Bezerra. – Vê se gosta: é a linha tênue que separa a pretensão de inocência da investigação isenta. Faz anos que está na moda!

– Vê a minha idade, seu Turco! – franze o cenho, olha nos olhos. – E homem velho liga para moda?

Aziz corre com as mãos atrás de algo melhor para oferecer. Pára na linha preta. Muda de idéia: apanha a cinza. Ela separaria a consciência crítica da informação pura e simples.

–        Gostei. Meu genro, por exemplo, nem faz idéia que ela possa existir.

Nesse momento, Bezerra tira uma pequena amostra de linha do bolso. Coloca sobre o vidro. Vai ao assunto:

– Essa, a linha tênue que separa a ação política descomprometida da corporação partidária, o senhor tem para vender?

O Turco olha em volta. Estão a sós. Pede licença, sai de trás do balcão. Fecha a porta de vidro da loja. Tranca. Passa correndo e pede com as mãos que o aguarde, diz que está no estoque. Ruma para os fundos.

Bezerra fecha as mãos e comemora. Pega o telefone celular. Busca na agenda do aparelho o nome do amigo repórter de jornal. Chama o número e desiste. Guarda o celular. Pára defronte a vitrine de lingeries, passeia com os olhos.

Espia a porta por onde sumiu Aziz. Volta a apanhar o telefone. Disca para casa. Toca diversas vezes. Ninguém atende. Caminha até a porta de vidro com as mãos nas costas. Ainda segura o celular. Cantarola. Retorna para o balcão. Repara: O Turco levou a amostra! Liga para o repórter. Toca uma vez. Duas, três vezes.

Escuta uma sirene. Parece que é a Polícia.

26.7.07

Número 225

DOIS PEITOS, DUAS MEDIDAS

 

Sou igual a muitos: Adoro o esporte e tudo o que ele traz de positivo para a sociedade. Por isso, acompanho com atenção Copas do Mundo, Olimpíadas, Fórmula 1, Campeonatos Nacionais de Futebol e, claro, Jogos Pan Americanos. Quando este interesse natural é somado a uma cobertura massiva da imprensa, como é o caso do Pan do Rio, aí mesmo que a tentação de ficar ligado no rádio e na TV cresce.

 

Os anunciantes sabem disso e compram, a peso de ouro, os patrocínios da programação. Também capricham nas campanhas, buscando, para si, inéditos louros comerciais. Comparando os jogos e as propagandas, vejo a existência de peitos muito diferentes. Sim, confesso: Termino por olhar tanto o quadro geral de medalhas quanto o quadro específico que compõe as atletas vencedoras. E, neste último, o volume dos seios.

 

Nas piscinas, nas quadras e nas pistas, percebo mulheres com corpos muito diferentes: Umas bem altas e esguias, outras extremamente fortes e um grupo de atletas no estilo mignon. Todas elas com belezas particulares, nem sempre tidas como padrão, mas com a inegável aparência de saúde. Em meio a tanta disparidade, uma constante chama a atenção: Quem emoldura as medalhas são os seios de porte médio para pequeno.

 

Como ensinou Darwin, o esporte não diminui os seios – são as atletas com glândulas mamárias menores que sobrevivem vencedoras. Desconsiderando as conseqüências de uma dieta controlada e de uma rotina de exercícios extrema, algo que reforça a existência de músculos em detrimento de outros tecidos, a verdade é que peitões, no esporte, só atrapalham.

 

Quando as atletas descem do pódio, entram os patrocinadores. E, durante os comerciais, mais especificamente nas peças publicitárias de cerveja, vejo mulheres em outra modalidade de competição. Neste certame, as fêmeas são todas exuberantes, sorridentes, magérrimas e... peitudas. Elas atiram-se para as câmeras mirando na mosca o imaginário masculino. Com isso (ou melhor, com tudo aquilo), ajudam a vender outro ouro: O dos copos.

 

Decotes mais do que generosos vencem até o mais desatento dos olhares. A cada cena, um ponto, um recorde, um ippon. Em ralos trinta segundos, e sem a chance de se fazer um exame mais detalhado – principalmente tátil –, ficamos com a impressão de que muitas das musas do lúpulo e da cevada não passariam em um antidoping. Mesmo assim, ninguém parece sonhar em desclassificá-las, legitimando o uso indiscriminado de silicone.

 

Não sei até que ponto a turma do marketing mediu o tamanho da preferência masculina em matéria de seios no momento de escolher as meninas das companhias de cerveja. Fico com a impressão de que tentam impor um modelo estrangeiro de beleza que, apesar de chamar a atenção, passaria longe do pódio brasileiro. Eu, pessoalmente, não sou muito fã de air-bag. Minha mulher ideal estaria apta a bater um bolão tanto na quadra esportiva quanto em outros campos. Quer dizer, para o meu gosto, o belo nasce da proporção. Sem essa de dois pesos (peitos!) e duas medidas.