26.7.07

Número 225

DOIS PEITOS, DUAS MEDIDAS

 

Sou igual a muitos: Adoro o esporte e tudo o que ele traz de positivo para a sociedade. Por isso, acompanho com atenção Copas do Mundo, Olimpíadas, Fórmula 1, Campeonatos Nacionais de Futebol e, claro, Jogos Pan Americanos. Quando este interesse natural é somado a uma cobertura massiva da imprensa, como é o caso do Pan do Rio, aí mesmo que a tentação de ficar ligado no rádio e na TV cresce.

 

Os anunciantes sabem disso e compram, a peso de ouro, os patrocínios da programação. Também capricham nas campanhas, buscando, para si, inéditos louros comerciais. Comparando os jogos e as propagandas, vejo a existência de peitos muito diferentes. Sim, confesso: Termino por olhar tanto o quadro geral de medalhas quanto o quadro específico que compõe as atletas vencedoras. E, neste último, o volume dos seios.

 

Nas piscinas, nas quadras e nas pistas, percebo mulheres com corpos muito diferentes: Umas bem altas e esguias, outras extremamente fortes e um grupo de atletas no estilo mignon. Todas elas com belezas particulares, nem sempre tidas como padrão, mas com a inegável aparência de saúde. Em meio a tanta disparidade, uma constante chama a atenção: Quem emoldura as medalhas são os seios de porte médio para pequeno.

 

Como ensinou Darwin, o esporte não diminui os seios – são as atletas com glândulas mamárias menores que sobrevivem vencedoras. Desconsiderando as conseqüências de uma dieta controlada e de uma rotina de exercícios extrema, algo que reforça a existência de músculos em detrimento de outros tecidos, a verdade é que peitões, no esporte, só atrapalham.

 

Quando as atletas descem do pódio, entram os patrocinadores. E, durante os comerciais, mais especificamente nas peças publicitárias de cerveja, vejo mulheres em outra modalidade de competição. Neste certame, as fêmeas são todas exuberantes, sorridentes, magérrimas e... peitudas. Elas atiram-se para as câmeras mirando na mosca o imaginário masculino. Com isso (ou melhor, com tudo aquilo), ajudam a vender outro ouro: O dos copos.

 

Decotes mais do que generosos vencem até o mais desatento dos olhares. A cada cena, um ponto, um recorde, um ippon. Em ralos trinta segundos, e sem a chance de se fazer um exame mais detalhado – principalmente tátil –, ficamos com a impressão de que muitas das musas do lúpulo e da cevada não passariam em um antidoping. Mesmo assim, ninguém parece sonhar em desclassificá-las, legitimando o uso indiscriminado de silicone.

 

Não sei até que ponto a turma do marketing mediu o tamanho da preferência masculina em matéria de seios no momento de escolher as meninas das companhias de cerveja. Fico com a impressão de que tentam impor um modelo estrangeiro de beleza que, apesar de chamar a atenção, passaria longe do pódio brasileiro. Eu, pessoalmente, não sou muito fã de air-bag. Minha mulher ideal estaria apta a bater um bolão tanto na quadra esportiva quanto em outros campos. Quer dizer, para o meu gosto, o belo nasce da proporção. Sem essa de dois pesos (peitos!) e duas medidas.

19.7.07

Número 224


A ERA DE AQUÁRIO

 

Faz muitos anos, se não me engano em 1979, o mundo inteiro aplaudiu um musical cinematográfico adaptado do teatro chamado Hair Musical. Na peça, quarentona em outubro, uma música se destacava. Ela cantava a transformação que estava por vir no momento em que o mundo entrasse na Era de Aquário. Todos sabemos assobiar este tema. E, tanto quanto a dança na chuva de Gene Kelly, está firme na memória o ambiente de louvação presente na coreografia executadas pelos hippies.

 

Procurei informações sobre a tal Era e encontrei uma certa controvérsia. Para alguns estudiosos, Aquário regerá o mundo daqui mais de cem anos. Para outros, já está no comando. E, para um terceiro grupo, estamos vivendo um momento de transição entre a Era de Peixes e a de Aquário. Tenho a tendência de acreditar mais na posição moderada dos que defendem a transição por dois motivos: a paz e o amor prometidos estão longe de serem realidade. Mas a revolução tecnológica, típica do predomínio da razão, está em pleno curso.

 

Independentemente dos desígnios do céu, creio que o Brasil já está em sua Era de Aquário particular. Não bem aquela cantada pelos cabeludos dos anos sessenta. Explico: Nossas crianças brincam confiantes em locais desenvolvidos para propiciar segurança, aprimoramento físico e social, muitas vezes assistidas por profissionais de formação elevada e cercadas de cuidados por todos os lados. Bom, isso nos condomínios da classe média para cima, nos clubes e nas escolas particulares. Em outras palavras, os filhos daqueles que nasceram lá nos anos do Hair, e que lutam para garantir uma vida digna para a família, são criados em verdadeiros aquários.

 

Adiante, digo como acontecia a vida infanto-juvenil em Peixes: para comprar um disco, um livro ou uma calça jeans, eu, lambari, pegava um ônibus e rumava ao centro da cidade. Lá chegando, era como estar em mar aberto. Ao meu redor, cardumes de ambulantes vendiam desde agulhas até desentupidores de bicos de fogão; tinha a turma das roupas industrializadas e os hippies a ofertarem seus artesanatos; os vendedores de fitas K7 e aqueles que derrubavam bilhetes premiados nos pés de quem passava. Ciganos, prostitutas, aposentados, malandros, advogados, comerciantes, intelectuais, traficantes, um ecossistema riquíssimo estava na Rua da Praia (cresci em Porto Alegre). Naquele tempo, era preciso estar esperto. Mas, em Peixes, em regra, acontecia nada.

 

Hoje em dia, o mar aberto das avenidas ficou muito perigoso, com assaltos, seqüestros e assassinatos em grande número. A alternativa é circular em um ambiente climatizado, limpo, organizado, selecionado, bem iluminado, repleto de opções de entretenimento, planejado para o bem-estar e, o principal: seguro. Um lugar onde não é possível saber se chove ou faz calor, se já escureceu ou se o sol ainda brilha. Nas cidades grandes e médias, todos os que podem, optam por fazer os programas sociais e de compras no shopping center – uma metáfora perfeita para o aquário.

 

Paz, amor, liberdade, razão. Essas lindas promessas da ordem celeste pouco ou nada influenciam a Era de Aquário brasileira. Aqui, a guerra urbana, o desamor e a irracionalidade enclausuram as pessoas em ambientes preservados artificialmente. São prédios, muros, cercas, cancelas, portas giratórias e ar condicionado – uma vida em aquário. Um bem-estar comprado por poucos e à custa de muito investimento. Na contramão da ordem celeste, a desordem terrena atira os brasileiros no Aquário errado.

12.7.07

Número 223

A MARAVILHA ERRADA

 

Até poucos dias atrás, quando alguém creditava a si um valor imenso, desproporcional, argentino, dizia-se: O cara – ou a menina – se acha a oitava maravilha do mundo! A má notícia é o rebaixamento dos megalomaníacos ao pouco honroso décimo quinto lugar, pois foram eleitas mais Sete Maravilhas.

 

As primeiras Sete, as Maravilhas do Mundo Antigo, não foram propriamente eleitas, e sim listadas. Bom, isso até onde se saiba. Ao menos jamais foram encontrados, em algum sítio arqueológico, panfletos com as inscrições "Vote Rodes". A intenção, à época, foi indicar obras magníficas, erguidas pela engenharia humana, todas fundamentais para serem conhecidas e reverenciadas. O turismo, já na Antiguidade, era uma fonte de riqueza.

 

Hoje, no Mundo Moderno e democrático, a fundação New Seven Wonders organizou um concurso para listar as novas Maravilhas. Tal qual uma planetária votação de Miss Escolar, cada família se mobilizou para angariar votos para a sua maravilhazinha querida, considerando-na mais maravilhosa do que a do outro país. O prêmio desta gigantesca quermesse é a esperança de eternizar a sua obra e faturar com os turistas. Muito nobre!

 

Terminada a votação, nenhuma surpresa: O Brasil colocou o Cristo Redentor entre as Sete. Somos bons nisso de eliminar e escolher. Treinamos bastante com o Você Decide, o Big Brother Brasil, o Ídolos, a Dança dos Famosos etc. Pediu para ligar, mandar torpedo ou entrar na Internet, o brasileiro – aquele que é o melhor do Brasil – atende. Justo agora, no momento em que nunca na história deste país aconteceram tantas coisas, o monumento do Corcovado ficar de fora seria um golpe fatídico em nossa auto-estima. Aleluia! Cristo Redentor é cada vez mais imortal! Quase um Grêmio.

 

Na minha particular opinião – e correndo o risco de parecer antipático –, ao compararmos com outros concorrentes, o querido Redentor de braços abertos para a Guanabara é como a Miss Japão: Vence sem convencer. Porém, como se diz no futebol, o que vale é taça no armário e faixa no peito! Os franceses e sua Torre Eiffel tratem de se conformar. A Liberdade dos americanos do norte e a Acrópole grega que se mordam. Que todos os castelos e catedrais da Europa lambam suas feridas. Turistas dispostos a relaxar e gozar, venham a nós! E Cristo ilumine os controladores de vôo.

 

Mas, quem tem todos os motivos do mundo para estar com dor de cotovelo é a cidade de Brasília. Não entendo como a Capital Federal pode ter perdido para o lobby carioca a indicação brasileira no tal concurso. Afinal, desde os Jardins Suspensos da Babilônia, nenhum outro conjunto arquitetônico conseguiu pairar lindo e incólume (impune?) sobre a realidade cruel. Brasília, ela sim, é uma verdadeira Maravilha: Prédios suntuosos nos quais o concreto flutua e o dinheiro evapora. Quanta injustiça...

 

5.7.07

Número 222

 

O TAL COELHO

 

Magia pura: diante de uma platéia agitada, o homem entra no palco de fraque, capa e cartola. Despe-se da capa em uma coreografia grandiloqüente. Avança. Faz uma reverência ampla e, ainda dançarino, apanha com as mãos a cartola que tomba, ensaiada, de sua cabeça. Retorna ao centro do palco para depositá-la em uma mesa. Apanha sua varinha mágica e, três toques depois, retira da cartola um lindo e alvíssimo coelho. Palmas entusiasmadas!

 

Todos os que se propõem a escrever crônicas, contos ou poesias, como eu, também agem como o mágico acima descrito. Isto é, topam subir ao palco metafórico, criar os próprios salamaleques e, para o encantamento do respeitável leitor, tirar muitos coelhos da cachola. Tanto quanto formos competentes, maior será o brilho no olhar do público.

 

O livro é o ápice desta magia. Com ele, nossos truques ganham cenário de luxo – capa sedutora, diagramação caprichada, apresentação, orelha e sumário. Além do mais, galgam uma espécie de vida própria, como se rompessem com o autor para sair encantando sozinhos. É quando nós mesmos nos maravilhamos com a ilusão um dia criada, e que se torna real na mente do leitor.

 

Vivi, ainda agora, a minha primeira noite de autógrafos. Ok: já havia lançado um CD, com show e tudo. E, na época, distribuí autógrafos na qualidade de baterista. Mas, assinar sobre o primeiro livro foi algo de uma força incomum. Custo a crer que foram momentos de verdade, pois nem em minha mais otimista ficção pensaria em passagens tão felizes.

 

Quero agradecer, de coração, a todos os que fizeram parte do espetáculo em que se transformou o lançamento de O Y da questão. Nomeando alguns, por justiça plena: Lóris Brissac – editora; Alex Medeiros – design gráfico; Annete Baldi e Márcia Ivana – seleção das crônicas; Valesca de Assis – orelha; Luís Augusto Fischer – apresentação. Além dos queridos anfitriões Carlo & Sandro Zanetti – proprietários do Z Café. Por detrás de determinados nomes, suas competentes equipes.

 

Por fim, gostaria de demonstrar toda a gratidão aos queridos amigos que no Z compareceram. Afinal, foram os protagonistas de uma mágica que eu jamais imaginei possível. Chegaram de todos os lados para tirarem de uma carinhosa cartola o súbito coelho: era tanta gente que, para os passantes, eu virei um Paulo Coelho!

28.6.07

Número 221

 

TRÊS AMIGOS

 

São três amigos inseparáveis: um, sempre o sujeito certo na hora errada; o outro, aquele errado na hora certa; o cara certo na hora certa é o terceiro. Para cada um deles, o destino prega peças ou favorece. Depende. Assim como depende o futuro para cada um, todos com a sua sina.

         O primeiro parece toda vez estar preparado para as oportunidades que não chegam. Ele não tem preguiça de empreender, nunca lhe faltou capacidade ou dedicação. Ao contrário, é julgado pela maioria dos amigos como uma espécie de gênio incompreendido, alguém meio fora do tempo. Seus projetos não avançam, mas, vira e mexe, todos se surpreendem com algo quase igual acontecendo em outras mãos.

         O segundo, por sua vez, não sabe do que não é capaz. Logo, aceita desafios fora do seu alcance. Como é de se esperar em casos assim, acaba galgando êxitos inexplicáveis até mesmo para o próprio. Quando lhe perguntam como faz, afirma – inocente – que vai aprendendo na hora, deixando fluir... Porém, fica a impressão de que tudo seria mais fácil ou melhor resolvido se, na hora certa, ele tivesse se preparado melhor. Esta hora é aquela que fica sempre para trás.

         O terceiro é o cara com uma parte da anatomia virada para a lua. Tudo que escolhe é o melhor, onde chega é bem-quisto, o sucesso o precede e acompanha. Casou com a mulher ideal e, mais importante!, passa a impressão de que ela é quem tirou a sorte grande. Se chega a errar nas escolhas, as conseqüências não lhe prejudicam demais e servem de ótimas lições – algo preparado pelo destino para valer de escada para um acerto vindouro. Corre riscos calculados e acerta a matemática do improvável.

         Os três vivem aqui dentro de mim. Se alternam no comando das ações e costuram as coincidências com o fio do livre arbítrio. Cada um teria motivos para se queixar do outro, seja por sua boa ou má sorte, quem sabe pela imprevidência. Mas são amigos, como já disse. E amigos têm a capacidade de aceitar, perdoar e compreender. Além do mais, se fazem companhia, pois a vida perde a graça quando se está só. Quando olho para o passado, sei direitinho qual deles me aconselhou.

         Com relação ao futuro, um problema: nunca consigo escolher com qual dos três amigos vou dialogar para escolher o próximo passo, pois se parecem demais um com o outro (e todos eles comigo). Mas nem por isso deixo de seguir a intuição, um farol que, com a benção do Céu, nunca me tem faltado. E será assim para sempre. A menos enquanto não aparecer uma quarta personagem, aquela que estraga o dia de qualquer um: o cara errado na hora errada!

 

***

 

         Por falar em amigos, espero encontrar com muitos no dia 3 de julho, no Z Café do Iguatemi, às 19 h, para o lançamento de O Y da questão e outras crônicas . Afinal, os três aí de cima estarão me acompanhando nos autógrafos e, por isso, não poderão me ajudar fazendo número na fila... Já o cara errado na hora errada, este, tomara que continue sem aparecer!

21.6.07

Número 220

 

HISTÓRIAS PARA ACORDAR

 

E ra uma vez, num reino longínquo, Mamãe, chefão do morro que o bosque margeia. Um dia, chamou a bela Chapeuzinho Vermelho para sua casa. Precisava alguém de menor para levar a cesta de doces para a Vovozinha, que morava dali distante. A tal senhora já andava doente pela casa, tanta a vontade de consumir uma cocadinha.

 

Mamãe não queria correr riscos. Na Via-bosque, expressa, era constante a presença de Lobos. Por isso, orientou Chapeuzinho a seguir o caminho do rio, "longo, mas totalmente limpo". Vovó que esperasse. A menina apanhou a cesta e partiu, feliz com o dinheiro por descolar. Cantava:

 

– Pela estrada afora, eu vou, bem sozinha, levar esses doces para a Vovozinha...

 

A pobre Chapeuzinho Vermelho desconhecia até a mais célebre fábula infantil (evasão escolar era comum naquele reino). Então, desobedeceu Mamãe em busca da trilha mais breve. Bem como o previsto, antes da terceira curva, Lobo apareceu. Queria explicações.

 

–        Você aí, como se chama?

–        Chapeuzinho Vermelho – respondeu, cândida.

–        E, na cesta, vai o quê? – perguntou, enquanto erguia o guardanapo de linho com delicadas bordas em crochê azul turquesa.

 

Sem poder escapar da revista, a menina tratou de eximir-se de culpa.

 

–        São doces, mas não são meus... Mamãe quem me entregou. Vão para a Vovozinha, doente, coitada.

–        Ah, bom! – respondeu Lobo, passando a mão no ombro de Chapéu para uma conversa em particular. – Então vamos fazer um negócio: Me dá o endereço da tal Avó, e eu garanto a passagem. Se lhe abordarem, diz que já falou comigo, ok? E, se Mamãe ligar no meio tempo, fala que encontrou um Lobo Mau e tudo bem. Tudo sob controle...

 

Dito e feito. Chapeuzinho Vermelho seguiu a Via-bosque animada com o salvo conduto que recebera. Porém, a menina ignorava o fato de o Lobo ter se adiantado por um atalho até a casa da Vovozinha. Lá, prendeu-a e armou um flagrante, deitado na cama, fazendo-se passar por Vovó.

 

Como todos já conhecem o diálogo do nariz tão grande, vamos direto ao que ocorreu depois: Lobo Mau, na verdade um Cordeiro disfarçado, anunciou a prisão da menina e apreensão da cesta. Todavia, no instante em que deu o bote, um caçador munido de informações privilegiadas – a serviço de Mamãe – iniciou violenta reação. Na troca de tiros, morreram Chapeuzinho, Vovó e o Porquinho caçula. Bala perdida. Atravessou fácil a parede de palha de sua casa, em arquitetura campestre.

 

Imoral na história: Mamãe não chorou a morte de Chapeuzinho. O caçador sumiu. Nos jornais, sequer foi citado o nome da Vovozinha. Para o Porquinho do meio permanecer tranqüilo em seu sobrado, será necessário blindá-lo, especialidade da firma de engenharia do competente primogênito – Porquinho capitalista, riquíssimo. E, de concreto sobre o episódio, apenas o inquérito para apurar se a bala que alvejou o inocente suíno partiu da arma do Lobo Mau. Digo, do Cordeiro. Até segunda ordem, suspenso.

20.6.07

CONVITE



15.6.07

Lembrete

DIA 03 DE JULHO, Y DA QUESTÃO NO Z CAFÉ IGUATEMI 

Número 219

 
 

O RELÓGIO DE OURO

 

Tenho hoje no pulso o relógio que era do meu falecido pai. Ocorreu o mesmo com ele, primogênito em sua casa. Só meio diferente: coube-lhe o relógio do meu avô com vinte e poucos anos. Dessa passagem, sei apenas o que me foi contado, pois na época eu era vaga especulação biológica. Agora, entendo que, quando meu avô faleceu, o pai morreu um pouco com ele também. Sei disso por essa pequena morte que levo no braço. E sei que ele, por ter sido órfão bem mais jovem, morreu muito mais do que eu neste momento da vida.

 

O relógio do meu avô era de ouro. Como disse, mudou-se para o pulso do filho muito adiantado. Não estava nem perto de ser a hora, e o relógio já marcava-lhe o destino. E se a hora estava errada, o destino sofreu muitas alterações. Esse tempo que não existiu matou grande parte dos sonhos do meu pai. Precisou de muitos, mas muitos anos para ele acertar os ponteiros de suas próprias metas. Chegou a temer faltar-lhe as horas para este intento. Me consola ser a testemunha de que partiu em dia com a vida. Só quisera ter sido um pouco mais tarde.

 

O nobre metal que emoldurava o relógio do meu avô foi um fardo para aquele braço jovem. Tanto que o pai acabou perdendo-o numa caçada – história que ouvi dezenas de vezes, dita com um ruminante e inconformado sofrimento. No fundo, é provável que o relógio nunca tenha chegado a lhe ser justo no pulso. E afundou, justamente, em um banhado, como quem busca a sepultura. Mas quem disse que ele deixou o pulso do pai? Não: mesmo ausente, pesou-lhe para sempre o infortúnio.

 

O relógio que me coube não é o de ouro. Muito melhor não ser aquele. Rogo para que não seja! Espero ter recebido o relógio certo, bem no tempo. A relíquia cujo maior valor seja estimativo, que mesmo em que pese na saudade, seja leve na lembrança. Um relógio que me informe as horas, os minutos e os segundos como quem fala de outros tempos. Que me oriente do mesmo modo como meu pai fazia, para que minhas futuras mortes sejam mais suaves, chegadas na hora marcada.

 

Agradeço à mãe por estar com esse relógio no pulso, agora. Influenciou em sua decisão o fato de eu mesmo tê-lo presenteado ao pai, cinco ou seis Natais atrás. E não lhe parecia justo o relógio parar na gaveta. A mãe sempre conta, emocionada, que o pai pedia muito pelo relógio quando estava na UTI – um dos tantos carinhos proibidos no hospital. Lá, só o relógio de ouro se fazia presente, assombrava-lhe o pulso, marcava a hora da morte. Aquele mesmo que nunca deveria ter sido seu tão cedo. E que o pai findou por devolver para o meu avô, quero crer, em justa hora.

7.6.07

Número 218

 
 
DIA 03 DE JULHO, DIA DE Y NO Z

TEMPO PARA NAMORAR

 

Anos 50 – Ao som de Elvis Presley, José pede Maria em namoro. A moça, antes de pensar em aceitar, precisa falar com a mãe. A mãe, antes de permitir, consulta o marido. O marido, antes de mais nada, pede para conhecer o tal rapaz. José se apresenta ao pai de Maria. Sofre um interrogatório severo: se estuda ou trabalha, filho de quem é, quais são as suas intenções. Sabe das regras para freqüentar a casa – um lar de família. Para saírem juntos, apenas na companhia da tia Dulce, e olhe lá.

 

Anos 60 – Ao som dos Beatles, José pede Maria em namoro. A moça aceita e passam a se encontrar às escondidas, atrás da Igreja. Também a namorar nos recantos discretos dos salões de baile. Até que o fato, em forma de fofoca, chega aos ouvidos dos pais dela. Maria fica um mês de castigo, em casa. Durante este tempo, troca bilhetes de amor eterno com José e convence a mãe de quanto o ama. Quebrada a resistência, a mãe passa a argumentar com o marido, que enfim aceita receber José para um almoço. José pede Maria em namoro outra vez, agora oficialmente. Recebem a permissão. Mas andam sob o olhar vigilante de Mário, irmão de Maria.

 

Anos 70 – Ao som dos Jackson Five, José pede Maria em namoro. A moça aceita e José passa a buscá-la na escola, a combinar sessões de cinema e tardes no parque. Freqüentam reuniões dançantes e festas de clubes, trocando carícias nos recantos mais escuros dos salões. Quando já estão firmes, e com os rumores já ecoando nos ouvidos da família, resolvem assumir o compromisso, dando a notícia em casa. O pai dela consente, desde que não atrapalhe nos estudos: baixando as notas, o castigo será ficar em casa. E estipula meia-noite como horário limite para a menina estar em sua casa (ou José fora dela).

 

Anos 80 – Ao som do Pink Floyd, José e Maria começam a namorar. Uns dias depois, ela avisa em casa que vai para uma praia de Santa Catarina no feriadão com a turma. O pai pergunta quem mais vai. Ela cita as amigas de sempre e "mais um pessoal". José faz parte do pessoal, é claro.Todos se encontram na Estação Rodoviária. Logo depois, em um camping de Bombinhas, Maria e José dividem a barraca Brisa II. Na volta, José passa a freqüentar a casa de Maria e chamar o pai da moça de Sogrão . Terão alguns meses pela frente para que os pais se acostumem com a idéia de eles passarem o próximo verão acampando juntos. O que de fato acontece.

 

Anos 90 – Ao som do U2, José e Maria mudam da categoria "ficante fixo" para namorados. Nessas alturas, José já está cansado de freqüentar a casa da família. A diferença é que ele passa a, eventualmente, dormir lá também, para o desespero do pai. A mãe diz ao marido que eles não estão fazendo nada diferente do que os dois já fizeram. O pai diz ser essa a razão do desespero. Mas, fazer o quê? Na rua anda tudo tão perigoso... Ao menos conhecem o rapaz e Maria gosta tanto dele. José e Maria atam e desatam o namoro dezessete vezes.

 

Ano 2000 – Ao som dos Beatles, José pede Maria em namoro. Ela, antes de pensar em aceitar, precisa falar com os filhos...

 

 

TEMPO PARA NAMORAR – Trilha Nacional

 

1950 – Ao som de Elizeth Cardoso, José pede Maria em namoro. A moça, antes de pensar em aceitar, precisa falar com a mãe. A mãe, antes de permitir, consulta o marido. O marido, antes de mais nada, pede para conhecer o tal rapaz. José se apresenta ao pai de Maria. Sofre um interrogatório severo: se estuda ou trabalha, filho de quem é, quais são as suas intenções. Sabe das regras para freqüentar a casa – um lar de família. Para saírem juntos, apenas na companhia da tia Dulce, e olhe lá.

 

1960 – Ao som de Roberto Carlos, José pede Maria em namoro. A moça aceita e passam a se encontrar às escondidas, atrás da Igreja. Também a namorar nos recantos discretos dos salões de baile. Até que o fato, em forma de fofoca, chega aos ouvidos dos pais dela. Maria fica um mês de castigo, em casa. Durante este tempo, troca bilhetes de amor eterno com José e convence a mãe de quanto o ama. Quebrada a resistência, a mãe passa a argumentar com o marido, que enfim aceita receber José para um almoço. José pede Maria em namoro outra vez, agora oficialmente. Recebem a permissão. Mas andam sob o olhar vigilante de Mário, irmão de Maria.

 

1970 – Ao som de Rita Lee, José pede Maria em namoro. A moça aceita e José passa a buscá-la na escola, a combinar sessões de cinema e tardes no parque. Freqüentam reuniões dançantes e festas de clubes, trocando carícias nos recantos mais escuros dos salões. Quando já estão firmes, e com os rumores já ecoando nos ouvidos da família, resolvem assumir o compromisso, dando a notícia em casa. O pai dela consente, desde que não atrapalhe nos estudos: baixando as notas, o castigo será ficar em casa. E estipula meia-noite como horário limite para a menina estar em sua casa (ou José fora dela).

 

1980 – Ao som de Djavan, José e Maria começam a namorar. Uns dias depois, ela avisa em casa que vai para uma praia de Santa Catarina no feriadão com a turma. O pai pergunta quem mais vai. Ela cita as amigas de sempre e "mais um pessoal". José faz parte do pessoal, é claro.Todos se encontram na Estação Rodoviária. Logo depois, em um camping de Bombinhas, Maria e José dividem a barraca Brisa II. Na volta, José passa a freqüentar a casa de Maria e chamar o pai da moça de Sogrão . Terão alguns meses pela frente para que os pais se acostumem com a idéia de eles passarem o próximo verão acampando juntos. O que de fato acontece.

 

1990 – Ao som de Marisa Monte, José e Maria mudam da categoria "ficante fixo" para namorados. Nessas alturas, José já está cansado de freqüentar a casa da família. A diferença é que ele passa a, eventualmente, dormir lá também, para o desespero do pai. A mãe diz ao marido que eles não estão fazendo nada diferente do que os dois já fizeram. O pai diz ser essa a razão do desespero. Mas, fazer o quê? Na rua anda tudo tão perigoso... Ao menos conhecem o rapaz e Maria gosta tanto dele. José e Maria atam e desatam o namoro dezessete vezes.

 

2000 – Ao som do Caetano Veloso, José pede Maria em namoro. Ela, antes de pensar em aceitar, precisa falar com os filhos...

 

 

31.5.07

Número 217

GRANDE ENCICLOPÉDIA 1° DE ABRIL – PARTE II

 

Este é, ouso afirmar, o livro mais raro que temos na biblioteca de casa. Como já disse, foi comprado de um turco sorridente na Tríplice Fronteira, em um sebo que ficou aberto por cerca de quinze minutos. Sua capa não apresenta um design inovador para a época (2062): feita de um material sintético que imita o couro, apresenta um azul muito escuro. O título, em baixo relevo, está todo escrito em letras maiúsculas, com uma tipologia sóbria dotada de leves serifas. Pequenos e sistemáticos arranhões nas letras me fazem crer que, um dia, elas tiveram outro tom. Talvez dourado, como era comum em antigas enciclopédias. Ou não, já que o exemplar é em todo surpreendente. Acompanhe outros verbetes:

 

• Dóris Casoy – Bailarina, modelo e apresentadora de TV. Sua passagem midiática foi marcada por um enorme poder de indignação, evidente já nas passarelas e fotografias de moda. Segundo consta, foi de Dóris Casoy o mais famoso bordão contra o escandaloso mau gosto de alguns papas da alta costura: bastava vestir algo ridículo para bradar "isso é uma vergonha". Depois de altos e baixos como apresentadora de TV, ressuscitou para a fama ao sobreviver a uma queda de oito andares. Chegou a ser cotada, por motivos óbvios, para voltar ao Fantástico (o Show da Vida). Ou apresentar o Acredite se quiser. Mas preferiu dedicar-se a um programa assistencial denominado Dóris Apara Maiores, no qual ela colocava telhas de amianto nos andares térreos de prédios de suicidas em potencial.

 

• Nelson Nerd – O menor maior cantor que o Brasil conheceu. Junto com a arte, nutria uma obsessão pela informática – segundo Nelson, apoiado por todos os parentes Nerds, uma vertente do conhecimento que rumava para a sua envergadura ideal. Investiu parte dos ganhos advindos de seu desproporcional sucesso em empresas destinadas às novas mídias, cada vez mais reduzidas. Há relatos de que seu centrinho de pesquisas estava no caminho de antecipar-se às grandes corporações no desenvolvimento da tecnologia MP3 e MP4, quando Nelson jogou tudo para cima (na medida do possível, é claro). Vendeu suas patentes e propriedades, abandonou os fãs e foi cantar em Liliput. Dizem que se tornou o maior artista do lugar.

 

• Simon & Guarabyra – Dupla que nasceu de um trio: Simon, Dylan (Bob Dylan) & Guarabyra. Os compositores e cantores foram os criadores de uma nova vertente da música, vinda do casamento do folk norte-americano e do spiritual caipira, denominada Rock Santeiro. Tornaram-se referência mundial ao compor a trilha da novela "A primeira noite de um cabra safado" (história de um motorista de táxi brasileiro em Nova Iorque – Dustin Hoffman – que se apaixonava por uma coroa – Vera Fischer). Influenciaram outra dupla, esta nacional, que também saiu de um trio: Sá, Rodrix (Zé Rodrix) & Garfunkel. A dupla Sá & Garfunkel, após se antecipar ao aquecimento global cantantando ... o Sertão vai virar mar..., traduziu de Simon e Guarabyra o sucesso mundial Bridge Over Troubled Water . Em bom português: Brinque de outro troço, Walter.

25.5.07

Número 216

PEDÁGIO INVERTIDO

 

Bem-vindos à mais nova polêmica sobre a educação brasileira: a proposta de o Governo Federal premiar a aprovação dos alunos carentes com dinheiro vivo no final do ano letivo, via Bolsa-Família. As autoridades esperam, assim, combater dois problemas com um só disparo (munição sacada no bolso do contribuinte, é claro): evasão escolar e miséria. A idéia não será mais passar de ano, e sim passar no caixa. Uma espécie de pedágio ao contrário: passou, recebeu. Faço uma força enorme para crer que os tais çábios* que nos governam têm sempre razão. Assim, vou seguir-lhes o exemplo e instituir, em casa, um programa semelhante para meus filhos. Explico.

 

Não mais vou investir meu precioso tempo ensinando para as crianças a importância de se fazer refeições balanceadas. Eles não precisam conhecer as particularidades de cada grupo de alimento, as vantagens das frutas, verduras e legumes frescos; o problema da ingestão exagerada de açúcares e carboidratos; as conseqüências do uso abusivo do sal, entre outras boas orientações para toda a vida. Faço assim: eles comem tudo o que lhes é servido e, no final do ano, prometo pagar-lhes R$204,00**.

 

O filho mais velho, que está usando aparelho odontológico, não precisará mais fazê-lo de modo disciplinado por conhecer seus benefícios. Ele não necessita saber que o cuidado com os dentes é uma questão de saúde, afetando desde a digestão, passando pela respiração e chegando até à postura, prevenindo doenças futuras. Eu não vou dizer para ele que, sendo diligente no uso do aparelho, o tempo de tratamento diminuirá. Digo apenas que, colocando-o, no final, ele ganhará R$204,00.

 

Economizarei um esforço gigantesco em cobrar aprendizado escolar, também. Afinal, gasto boa parte do meu tempo demonstrando que o progresso é resultado de investimento pessoal constante e disciplinado. Aponto o conhecimento como a chave que abre as portas para uma vida plena, ao contrário da ignorância – a maior das barreiras. Ensino que cumprir as tarefas, ser pontual, ordeiro e esforçado é uma obrigação estudantil. Quem sabe o mais correto seja prometer, ao final do período letivo, R$204,00, caso passem de ano.

 

Sair no frio bem agasalhado; dizer com licença e obrigado; olhar para os dois lados antes de atravessar a rua; guardar os brinquedos e material escolar depois do uso; segurar corretamente os talheres... Tudo pode ter um preço e, ao final do ano, valer outros R$204,00. No fim da crônica, meus filhos terão aprendido uma grande lição: como faturar R$816,00. Pavlov, e seu cão que salivava ao tocar a sineta, será o meu orientador educacional. Mais: vou fazer igual ao Governo – uma vaquinha entre amigos e parentes para essa quantia vultosa não sair do meu bolso. Çábio é distribuir o dinheiro dos outros!

 

P.S.: Como o Governo sempre cancela os reajustes salariais dos professores, eles ficarão no comando da cancela deste pedágio invertido, vendo passar alunos e verbas.

 

*   Çábio é uma expressão de autoria original de Millôr Fernandes.

** R$204,00 é, segundo a imprensa, o valor em estudo para a aprovação.

17.5.07

Número 215

VOTOS NUPCIAIS

 

Passou o tempo do lar ditatorial. Hoje, na classe média, família e democracia são conceitos casados. Ou, ao menos, deveriam ser. Em casas onde todos trabalham, quanto maior a intimidade com os procedimentos democráticos de convivência, mais harmonia é experimentada. Porém, não pensem que isto é fácil. Dar voz – e voto – para pai, mãe e filhos, exige uma boa dose de preparo. E, claro, há quem exagere na dose. Tipo o casal na manhã de sábado – desjejum mais tranqüilo, filhos dormindo até tarde, leitura do jornal. A esposa abaixa o suplemento de arquitetura:   

 

–         Arnaldo: não agüento mais! Quando vamos fazer a bendita reforma na área de serviço?

Sem tirar os olhos da página de esportes, ele responde:

–         O processo está tramitando na subcomissão de obras...

–         Sim, querido, isso eu sei! Mas já tem quase dois anos e nada de ele avançar para a ordem do dia.

Neste momento, os dois já se olham.

–         Marisa, não tenho culpa. Não é a única matéria estacionada. Ainda mais agora, em tempos de aperto. Nosso salário mal e mal dá para despesas ordinárias da pasta, como troca de lâmpadas, pequenos reparos, jardinagem... – volta para a leitura. E sugere: – Uma saída é o desvio de verbas destinadas a supérfluos. Salão de beleza, por exemplo.

–         Ah, muito fácil para você avançar na receita dirigida aos outros! Fazemos isso e, depois, quando lascar o esmalte, aparecerem cabelos brancos e sobrarem uns pelinhos inconvenientes, serei eu quem ficará devendo explicações ao eleitorado! – baixa o jornal do marido. Desafia: – Por mim, cortamos a verba do futebol.

–         Impossível! Faz tempo que retirei esta rubrica de "lazer e cultura" e coloquei na pasta da saúde. Saúde mental! – retorna à leitura. – E, como já foi votado anteriormente, saúde tem prioridade nesta casa.

–         Que ódio! Jamais engoli esta manobra de plenário. Sua e do Júnior! Ninguém me convence de que não compraram o voto da Alicinha com uma promessa de suplementação orçamentária na cantina da escola.

 

Fim-de-semana comprometido. Marisa, inconformada com o descaso de Arnaldo, parte para o contra-ataque. Tranca a pauta de vez. E, à noite, quando ele tenta um acordo de líderes, ela manobra com a base e se retira da sala de votação. Urna lacrada. Sem quorum, o marido só pensa na ditadura.

11.5.07

Número 214

SUPERFILHOS

 

Diz que a mãe do Homem Invisível nunca vê o filho no Dia das Mães. Um exagero, com certeza. Ele sempre vai até a casa dela. Só não aparece, para testar o sexto-sentido da coroa. E, como adivinhações não é o seu forte, ela passa o domingo inteiro pulverizando farinha para cima e tentando pegar a orelha do herói metido a moleque. Principalmente quando precisa ir ao banheiro. O cara não se enxerga!

 

O Batman, sabemos, é órfão de pai e mãe. Ainda criança, viu seu mundo virar de ponta-cabeças com a morte da família – isso nos dá pistas da estranha mania de ser homem-morcego. Por isso, no Dia das Mães, oferece ao Alfred, de presente, panos-de-prato pintados com lindas frutas sorridentes. Pobre homem. Só quem assume a maternidade de corpo e alma sorri de volta para uma maçã, uma pêra ou um moranguinho. Mas o mordomo tem culpas a expiar no cartório. No mínimo, por permitir o rapaz de sair com a cueca por cima da calça.

 

A casa materna do Multi-homem fica lotada no segundo domingo de maio. A velhinha cozinha tão bem, mas tão bem, que o filho, ao invés de repetir os pratos, repete-se para comer ainda mais. Toma todos os lugares à mesa! Justo ela que fazia piada das amigas com filhos gêmeos... Mas essa não é a maior sacanagem: o mão-de-vaca leva, no tal dia, um único presente! No mesmo bairro, quando a mãe do The Flash pisca, o filho já foi embora.

 

O Homem-de-ferro nunca visita a mãe. Evita as situações emotivas para não chorar – água salgada é um veneno para quem luta contra a ferrugem. Outro que abandona a velha é o Homem Aranha: eles brigaram por causa do preconceito da mãe com uma de suas namoradas, a Viúva-negra. Bem diferente do Homem-de-gelo, que tenta estar com a mãezinha todo ano e, derretido por ela, escorre em minutos pelo ralo da cozinha.

 

O Charada ganha, todos os anos, um indulto para sair da prisão no Dia das Mães. E o que ele faz com isso? Arma uma pegadinha para cima da coitada! Ninguém consegue resolver o enigma de aquela senhora ainda gostar do estrupício... Diz que o Incrível Hulk fica bem calminho no colo da mamãe, enquanto ela lê para ele, com muita paciência, "O menino do dedo verde". E, só a mãe do Coisa ainda continua achando o menino bonito.

 

No domingo, ninguém precisa ser capaz de saltar, ventar, congelar, voar ou subir pelas paredes para salvar o dia. Basta fazer uma visita para a mamãe, ou dar-lhe uma pequena lembrança. Garanto que ela ficará supercontente.

3.5.07

Número 213


PRAGA DIZIMA BODAS

 

Perdão pela ruminância do tema, mas tive uma iluminação. Creio com sinceridade que o Papa Bento XVI condenou os segundos (terceiros, quartos) casamentos por afrontarem um preceito católico: a união sagrada perante Deus. Ok. Mas, digamos que, sei lá, o Pontífice tenha recebido por esses dias a visita do Sr. Fritz, o mais velho joalheiro suíço ainda vivo, este portador de uma reivindicação da categoria:

 

–           Zezinho (diminutivo de Joseph Alois), tu sabes que eu e o teu pai fomos muito amigos. Nunca te pedi nada enquanto eras Cardeal. Mas agora, Papa, podes nos dar uma forcinha: estamos na iminência de perder os clientes de Bodas, filho. Ninguém mais fica casado. Isso é uma praga!

 

Praga ou não, a verdade é que, há médio prazo, as festas de Bodas de Prata, Pérola, Rubi, Ouro ou Diamante, para ficar nas mais cotadas, tendem a terminar extintas. Com o fim, os presentes alusivos jamais serão trocados. O Sr. Fritz tem razão para se queixar. As próprias Bodas intermediárias andam esquecidas. Imaginem o seguinte diálogo:

 

–             Glória! Alceu! Deixa-me apresentar o Paulo, meu namorado. Sabe, meu anjo, incrível!, esses dois estão casados há... nossa, quantos anos, Glorinha?

–             Comemoraremos Bodas de Hematita em novembro, querida – responde, dirigindo terno sorriso ao par.

 

Desnecessário dizer que a amiga, a tal namorada do Paulo, precisou entrar no Google para descobrir o tempo de matrimônio do casal. Mas vou poupar o leitor deste trabalho: em novembro, 28 anos.

 

Se isso (do Sr. Fritz ir ao Vaticano) realmente aconteceu, acho que a estratégia foi mal montada, tanto que o Papa sofreu críticas de muitos formadores de opinião. Caso o joalheiro viesse a me consultar, eu aconselharia rever-se os sistemas de Bodas. Acompanhe o raciocínio: quando saímos de um casamento para outro, não abandonamos os filhos, certo? Então, por que abandonar o tempo de Bodas? Assim, quem rompe nas Bodas de Renda, parte em segundo casamento direto para o Marfim. Igual ao tempo de aposentadoria. De união em união, a mulher receberá o colar de pérolas (30 anos) que bem merece!

 

Claro, não é tão simples. Contar só o tempo de matrimônio da esposa é discriminação. No caso de ambos virem de uniões passadas, é preciso somar os tempos e dividir por dois. Tipo a Marilda: dois anos com o Jair, sete anos e meio com o Ricardo, meio ano com a Dulce (heterodoxo, mas deixa a conta inteira). Total: 10. O Sílvio: quatorze anos com a Maria Aparecida e dois com a Doralice. Total: 16. Então, 10+16=26:2= Bodas de Turmalina. No primeiro aniversário do casal Marilda e Sílvio, comemora-se as Bodas de Rosas.

 

Gente! Até os planos de saúde, com medo de ficarem sem clientes, estão comprando as carências das pessoas. Qual a razão de as Bodas não aderirem a este cálculo? E, quem está com receio de afastar um pretendente por estar numa Boda muito avançada, que faça uma promoção: de Bodas de Louça por Bodas de Latão. Só até sábado, não perca!  


--
Visite o blog do autor em
www.rufardostambores.blogspot.com

26.4.07

Número 212


GRANDE ENCICLOPÉDIA 1º DE ABRIL

 

Este é, talvez, um dos livros mais raros que temos na biblioteca de casa. Para se ter uma idéia, a data da edição é 2062. Comprei em Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira, em um sebo que ficou aberto não mais do que quinze minutos. Explico: entrei no lugar atraído por um exemplar nº 1 do Recruta Zero. O dono, um turco sorridente, pediu cinqüenta dólares pelo gibi. Achei caro. Mas o insistente vendedor não me deixou sair sem comprar algo. Aflito, dei de mão no primeiro livro de um balaio com a placa US$0,75. Saquei um dólar. Ele não tinha troco. Pediu que voltasse depois. Mais tarde, quando retornei, a loja estava fechada. Ninguém em volta conhecia o turco, ou a tal livraria. Perdi vinte e cinco centavos de dólar. Compartilho um pouco do que ganhei, transcrevendo verbetes aleatórios:

 

• Papa Carmelo XVI – sumo Pontífice da Igreja Caótica. Exerceu seu papado de meados dos anos oitenta do Século XX até o ano 12 do Século XXI. Fruto do casamento intelectual do Papa Rebento XVI com o Irmão Carmelo Soares. Ficou eternizado na memória dos fiéis por ter erradicado a praga do segundo casamento entre os caóticos. Seus métodos eram preventivos: valia-se de uma planilha absurdamente completa do auxiliar Batista (1948-2032). Estudava, então, as chances de êxito de todos os primeiros casamentos encaminhados para a sua Igreja. Se o casal era incompatível, não fazia a cerimônia, e ponto. Em tese, não existindo o primeiro, jamais haveria o segundo casamento. Terminou, enfim, com o: casa, separa, casa, separa, casa, separa. – Una piaga! – dizia. – Io non caso!

 

• Diego Armando do Nascimento (Peladona) – Maior jogador de futebol de todos os tempos. Com dupla cidadania, foi multicampeão do mundo, às vezes pela Argentina, outras defendendo o Brasil. Uma de suas principais características era a forma de comemorar os gols que marcava com a mão: repetia o gesto de socar a bola enquanto pulava e corria na direção das arquibancadas. Os árbitros até desconfiavam que ele estava de gozação, mas não tinham coragem de anular nenhum de seus tentos. Depois de aposentar-se dos campos, passou a ter sérios problemas de saúde, todos ligados ao consumo de drogas. Assumidamente portador de disfunção erétil, ganhou copa franca por ser garoto-propaganda de um laboratório. Em função de overdoses, vivia internado em clínicas tratando-se de priapismo. Entiendes?

 

• Michael Luther King – Astro de rock e mártir da luta contra a desigualdade entre os seres humanos. Menino negro, Norte-Americano e destaque do grupo Luther Five, ele dedicou sua existência para provar que todos poderiam ser iguais: nem negros, nem brancos. Nem homens, nem mulheres. Destemido e altruísta, aplicou no próprio corpo uma série inimaginável de experimentos médicos e científicos para transformar-se na primeira coisa mais estranha do mundo. Não desistiu nem mesmo quando efeitos colaterais fizeram cair-lhe o nariz e criar-lhe guelras não funcionais (por isso, passou a ser visto com lenços no pescoço). Investiu a enorme fortuna amealhada nos milhões de álbuns vendidos pelo planeta em sua obsessão. Infelizmente, não conheceu a igualdade em vida. Porém, morreu igual.


20.4.07

Número 211

O PESADELO ACABOU

 

Notícia: Sandy e Junior anunciam o final da carreira de dupla. Final brasileiro, é certo: eles começam um novo projeto acertado com a MTV, que garantem ser o último. Em nossas bandas, com o perdão do trocadilho, nem as ações definitivas, como é o caso de final, deixam de ser lentas, seguras e graduais. Quem já passou dos quarenta sabe do que estou falando. Louvemos a notícia e seu valor simbólico.

 

Em dezessete anos de carreira, os irmãos cantores bateram a casa dos quinze milhões de discos vendidos. Contra estes números não há argumento: eles são a imagem e o som do sucesso. Acompanhados de profissionais competentes desde a primeira nota aguda, Sandy e Junior se revelaram artistas em constante amadurecimento e merecedores de suas conquistas. Impossível assistir a um show dos meninos sem ficar fascinado com o espetáculo. Ninguém é obrigado a gostar da música da dupla, mas a todos cabe reconhecer seus méritos.

 

Dito isto, por que comemoro o fato de eles se separarem? Óbvio: Sandy e Junior não podem ser mais representativos do que considero a pior fase da Música Popular Brasileira (MPB). Eles são os filhos prodígio do formulismo das gravadoras, do sucesso enlatado, da tentativa vil de sepultar o grande mérito da sonoridade nacional: sua pluralidade. Para piorar, prostituindo uma raiz bastante autêntica – a música sertaneja do Sudeste e Centro-Oeste. Os meninos não são culpados por fazer tanto sucesso. Nós somos.

 

Em 1991, exato ano em que os filhos de Xororó e Noely iniciaram a carreira conjunta, vivíamos no país a era Collor. A lenta e gradual democracia virara realidade e, com isso, deixava de ser a utopia salvadora que impulsionou uma geração magnífica de músicos. Em 1989, caíra o Muro de Berlim. Estava montado o cenário para um mergulho no torpor do fim da festa. Por um lado, tudo parecia já ter sido dito. Por outro, o silêncio das vozes dissonantes favorecia os negócios. A MPB veiculada nas rádios, em regra, tornou-se uma pasta brega. Abriu-se a porta para o mau-gosto. Um pesadelo. Parece piada, mas coube ao importado Rock salvar a pátria verde-amarela.

 

Não há bossa-nova que sempre dure, nem onda sertaneja que nunca termine. Hoje ouço a Sandy cantando Tom Jobim e Cole Porter. O Junior, com pendência pop, Soul Music. O salto que pretendem dar em direção ao público adulto é o mesmo que os está afastando da raiz caipira-romântica. Isso não é coincidência. Os ventos renovadores da internet enfraqueceram o poder das gravadoras e, mesmo sem se extinguirem, os Brunos & Marrones da vida perderão a força que os fazia absurdamente hegemônicos. Por sua vez, emepebistas que pareciam fazer música às escondidas (da mídia), aos poucos, retornam para as FMs, trilhas de novelas e teatros. Posso ver o sorriso largo da Elis Regina lá no céu. O sonho não acabou.

 

==== /// ====

 

Por falar em música, dia 27 de abril, sexta-feira, estarei com o Grupo Versão Brasileira* no auditório da Livraria Cultura – Bourbon Country, 2º piso –, às 19:30h. Para o show, standards de jazz e composições próprias. Ingresso: 1Kg de alimento não perecível.

 

Fica o convite!

 

* Felipe Braga (sax) Antônio Xavier (violão e guitarra)

Marcelo Leal (contrabaixo) Rubem Penz (bateria)

12.4.07

Número 210


O GORDO E O MAGRO

 

Não existe número mais magro do que o um (1). O mais gordo, por sua vez, é o zero (0). E, mesmo sendo tão diferentes na aparência, adoram se reunir para, juntos, formarem uma dupla muito festeira. Há quem diga que o zero não vale nada – tudo bem, tem um fundo de verdade nisso. E mais: que o um, sozinho, também é pouco. Mas estes dois números são fundamentais em diversas comemorações.

 

O um é um magro de nascença. Em arábico ou em romano, lá está a unidade em forma de palitinho. Ele é o tal número que marca o primeiro: primeiro ano, primeiro beijo, primeiro sutiã. É, enfim, aquele que a gente nunca esquece. A própria matemática começou com o um. Talvez por este caráter precursor, venha a ser tão famoso e convidado para participar das dezenas, centenas, milhares etc. Em todo lugar, sempre cabe mais um (como dizia outro comercial, este de desodorante). Outra coisa importante: ele nunca divide os outros números, pode fazer a conta. Se tiver que diminuir, perde-se pouco.

 

Já o paradoxal zero é uma figura rara. Ele é enorme de gordo e, ao mesmo tempo, vazio. Na realidade, se formos pensar bem, não passa de uma abstração. Não soma nada, mas, estando junto, multiplica por dez, por cem, por mil. Nunca diminui. Se tiver que dividir, acaba sozinho. Por isso, quem sabe, gosta mesmo é de estar acompanhado. Quando se quer acabar com uma briga, nada melhor do que lembrar dele, e começar tudo do zero. Outra coisa: se ele nos couber ao final, não fica nada – nem mágoas, nem saudade.

 

Lembrei destes números – o magro e o gordo – por causa da aflição que cerca o jogador Romário nestes dias que antecedem ao milésimo gol de sua carreira. São páginas e mais páginas de jornal impressas com o Baixinho. São repórteres e fotógrafos se acotovelando na boca do túnel a cada jogo do Vasco. Um exército na torcida a favor do centro-avante e outro contra esta febre matemática. Goleiros mais nervosos que piá em fila de vacina. E o que falta para começar a festa e acabar com a agonia? Falta o último convidado: o numero um em forma de gol. E quem virá com ele? O zero. Aliás, três deles, para, enfim, fechar o milhar.

 

Pobre nove: parece não valer nada. Nem em dupla, trio ou quarteto. O pessoal só pensa nos dez anos, nos cem dias, nos mil gols, no milhão de dólares. Festa boa tem o um e muitos zeros. O número gordo e o número magro. A conta cheia. O girar do odômetro. A marca histórica!

 

Com sorte, o Romário vira esta página em maio, na primeira rodada do Brasileirão. Afinal, o assunto rendeu o bastante. Para mim, a ponto de perder a graça. E por falar nela – a graça – quem nunca a perde é a dupla Stan Laurel e Oliver Hardy, os verdadeiros Gordo e Magro. Juntos, são assim ó: 10!


--
Visite o blog do autor em
www.rufardostambores.blogspot.com