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Número 476
Rubem Penz
O amor não é alimento, mas nenhuma refeição jamais nutriu e fez tanto bem quanto aquela preparada com carinho verdadeiro. O amor não ergue paredes, mesmo que inexista ambiente mais acolhedor do que qualquer um onde nos espera o abraço de afeto. O amor nada ensina, treina, instrui ou capacita ao mesmo tempo em que é ele a única lição que jamais deveríamos deixar de aprender e ensinar.
O amor não esquenta – sim, roupas e cobertores ainda serão imprescindíveis durante o inverno. Agora, não haverá pés aquecidos sem antes acalentar a alma. O amor não nos leva daqui para lá, ou de lá para cá: ele nos eleva. O amor nunca foi o responsável pelas cifras na conta bancária (boas ou más). Ao contrário, por ele, ou em sua promessa (concreta ou vã), há quem demandaria fortunas, contrairia dívidas ou aplicaria calotes.
Ninguém aprende andar por amor: quem manda em nossos instintos é a necessidade. Porém, nenhuma caminhada será extenuante ou impossível quando motivada pela paixão. O amor não tem a faculdade de transformar sonhos em realidade – com ele, a realidade é que ganhará ares de sonho. O amor jamais será fonte de status ou projeção social: seu alvo é a dignidade, a virtude, a transcendência.
O amor jamais será causa de sofrimento, sacrifício ou dor. Com ele, toda contrariedade será superada mais suavemente. Dói, sim, o desamor. Um é lupa para a tolerância, o outro faz crescer as diferenças a ponto de deixá-las incontornáveis. Eis um dos maiores perigos do amor: seu poder anestésico pode até causar a morte heroica e solidária. Eis um dos maiores perigos do desamor: sua intolerância ao sofrimento pode até causar a longevidade covarde e egoísta.
Por tudo isso, e pelo que mais e melhor nos disseram os poetas, viver sem amor é passar batido pela vida. Mas só há um amor que podemos cultivar e fazer crescer: o nosso. Primeiro, para consumo interno – amor próprio. Depois, como dizem os profetas, para distribuir a quem esteja ao nosso redor. Os demais amores, no máximo, poderemos ter na base das trocas. E, nessas trocas, o que damos e recebemos? Apenas sementes de amor – promessas que também dependerão de interno cultivar.
A todos, e a mim também, desejo uma alma fértil e um amor vicejante.

Número 475
Rubem Penz
Hoje cedo Cinderela não encontrou o príncipe encantado no ônibus. Na verdade, ficou absorta na janela, contando quantas mulheres estavam de saias e quantas de calças nos carros que passavam pelo coletivo. Descobriu – quem diria? – que há muito mais mulheres que vestem calças.
Também não encontrou o príncipe encantado ao atravessar a avenida movimentada. Chegou à esquina quando o sinal verde já estava piscando, e encontrar alguém assim tão especial é complicado quando se está correndo de salto alto. O máximo de sorte seria ele a encontrar, desde que não estivesse em um carro – ninguém merece ser levada ao pronto-socorro municipal quando o destino desejado é um nobre altar...
Inscrições abertas para a oficina de crônicas Aperitivo Santa Sede (12 terças-feiras, 19h30, a partir de 12/06 no bar Apolinário). Informações e inscrições em rubempenz@gmail.com . Escreva!
No almoço, Cinderela perdeu outra chance de encontrar seu príncipe encantado: junto com Cyntia e Jô, divertiu-se com zarabatanas de caneta Bic e pedacinhos mascados de guardanapo de papel. Os alvos principais foram os carecas. Dois deles ficaram meio indignados e chegaram a ir até elas na mesa para tomar satisfação. Um terceiro reclamou bastante, mas aí com certa razão: o papelzinho rebateu no nariz dele e caiu para dentro da canja de galinha. Aí você pergunta: por que não ficaram olhando para os homens bonitos em busca do príncipe encantado? Simplesmente porque queimariam o filme com eles levando tiros de zarabatana!
Antes de voltar do almoço, foi-se, por detalhe, outra oportunidade de encontrar o príncipe encantado. O lugar era até propício: passaram pela praça na direção dos camelôs da calçada oposta. É o mesmo trajeto de nove entre dez funcionários de banco, muitos deles reluzentes estudantes de Administração, Economia ou Marketing. O problema é tirar os olhos do chão quando se está apostando quem pisa apenas nas pedras escuras. Pouca gente faz ideia de quanta concentração é necessária. A Cyntia ganhou. Outra vez!
Em seu trabalho, a chance de encontrar o príncipe encantado era zero: Seu Antenor (velho), Jorginho (e suas espinhas na testa), Anderson (casado) e Kleberson, esse mais pelado do que ela. Pior que vive dando em cima – a chama de princesa. Outro dia apareceu com uma história de passearem no barco que recém inaugurou. Bom programa para encontrar um príncipe. Mas, com o Kleberson ao lado e babando de amores, babaus encantamento.
Ao final da tarde, Cinderela pegou no sono dentro do ônibus e sonhou com o belo e amoroso príncipe. Acordou dois pontos adiante e retornou a pé, morrendo de medo de encontrar outra coisa pelo caminho, nada parecido com nobres mancebos. Depois do jantar, tomou um banho e foi reencontrar seus sonhos na TV. Antes de adormecer, combinou via SMS de irem, ela e suas amigas, para a praia no final de semana.
Felizes para sempre.

Um verdadeiro negociador não nasce quando há o que ser conquistado, e sim na iminência de algo a ser perdido.
Para o primeiro caso, o déspota é mais eficaz.


Número 473
Rubem Penz
Oferecer carona é uma ação de solidariedade e desprendimento. Significa conduzir terceiros em seu veículo de graça, super na boa. Ou, em suave contrapartida, com o desejo de compartilhar da companhia no trajeto. Acontece apenas quando se está com a mente aberta e o coração tranquilo. Em tempos de desconfiança patológica e individualismo crônico (justificáveis face à violência), pessoas dispostas a dar carona são raras como ararinhas azuis. É preciso preservá-las. E a melhor forma de fazê-lo é aprendendo a ser bom passageiro.
Há, basicamente, duas situações de carona: combinada e eventual. A primeira obedece a um trato, a outra segue as leis do acaso. Para ambas existe um manual de etiqueta não escrito. Desrespeitá-lo pode causar no motorista o perigoso arrependimento. Lembre-se: ao se arrepender, o motorista estará matando aos poucos o ânimo de ofertar caronas futuras. Isto é, deixando de reproduzir novas oportunidades, caminho da inexorável extinção.
O mandamento número um de quem pega carona combinada é ser pontual. O pidão consciente estará no local antes da hora aprazada. Também evitará que o motorista precise descer, chamar num interfone ou campainha, ajudar com bagagens. Jamais peça a quem ofereceu carona para que ele mude o caminho original. Adapte-se. Se ele oferecer alguma facilidade, aceite apenas depois da insistência: comece com um "não precisa" ou um "não queria dar trabalho". E, ao desembarcar, agradeça sorrindo – deixe sua melhor imagem seguindo no carro.
Para as caronas eventuais, aquelas pedidas a desconhecidos ou quando um vizinho repara em você esperando o ônibus, o mais importante é a simpatia não invasiva e a gratidão antecipada. Entre já agradecendo e seja tão cordial quanto econômico. Responda mais do que pergunte, fale apenas o indispensável e jamais discuta temas polêmicos. Uma pregação política, esportiva ou filosófica fará o motorista se arrepender até o último fio pubiano por tê-lo deixado embarcar.
Por fim, seja coadjuvante e peça licença para tudo. Jamais tome a iniciativa de trocar a estação de rádio. Não mexa no ar condicionado nem suba (desça) os vidros: diga que está com frio ou calor. Evite ao máximo mover as regulagens dos bancos, use cinto de segurança e, principalmente, não repare em nada. Se o motorista disser que o carro está sujo, responda "nem reparei". Bagunça das crianças? "nem reparei". Pelos do cão por tudo? "atchim, nem reparei". No porta-malas da consciência ele sabe que você reparou (sempre reparamos).
Lembre-se: o arrogante nunca oferecerá carona, enquanto o solícito merece respeito, simpatia e reconhecimento.
PS.: Li que em São Paulo um site oferece uma espécie de agendamento de caronas. É a nova linguagem encontrando o velho hábito para resolver graves problemas.


Número 471
Rubem Penz
Era uma vez Pedro, repórter investigativo muito articulado, sempre dedicado a denunciar o que de ruim pudesse ocorrer na aldeia. Certo dia descobre algo muito perigoso. No jornal, a manchete:
"Lobo deixa apenas a carcaça de cordeiro no Sítio Pascoal"
E corre delegado, vereador, prefeito e padre para a cena do crime. Está lá o pobre cordeiro aos pedaços, subtraído pela gula mortal do Lobo. O problema é que o Lobo tem boas relações com a capital – não é bom negócio para a aldeia prejudicá-lo por um cordeirinho de nada. Somem com a carcaça e combinam a versão: alarme falso.
Mas Pedro é um repórter investigativo muito articulado e curioso, sempre dedicado a denunciar o que de ruim pudesse ocorrer na aldeia. No dia seguinte descobre algo muito mais grave. No jornal, a manchete:
"Carcaça de cordeiro do Sítio Pascoal encontrada em cova rasa"
E corre delegado, vereador, prefeito e padre para o local. O trabalho de ocultação da carcaça fora mal feito, mesmo. Não há mais competência na arte de sumir com evidências. Agora, a versão deve ser a de que não fora o Lobo a matá-lo, e sim um bicho de fora, da montanha, com certeza. O jornal estaria pretendendo ligar o cordeiro ao Lobo por interesses escusos.
Mas Pedro é um repórter investigativo muito articulado, curioso e determinado, sempre dedicado a denunciar o que de ruim pudesse ocorrer na aldeia. No terceiro dia descobre algo muito mais comprometedor. No jornal, a manchete:
"Testemunhas teriam visto Juvêncio retirando cordeiro do Sítio Pascoal"
E corre delegado, vereador, prefeito e padre para a casa de Juvêncio, que ganha uma passagem só de ida para a capital. Também articulam uma campanha difamatória para as supostas testemunhas, além de acusar Pedro em pessoa de ter ligações com a prima do dono do Sítio Pascoal – fizeram a 4ª série na mesma escola. O repórter não teria a isenção necessária.
Mas Pedro é um repórter investigativo muito articulado, curioso, determinado e inteligente, sempre dedicado a denunciar o que de ruim pudesse ocorrer na aldeia. No quarto dia descobre algo muito mais surpreendente. No jornal, a manchete:
"Delegado, prefeito, vereador e padre sabem e escondem a verdade"
E corre todo mundo até a prefeitura para formar um gabinete de crise. Era mais do que necessário blindar o Lobo, nem que fosse com alguma dose de sacrifício. Neste momento, um incêndio repentino encurrala o grupo, matando tragicamente as principais lideranças da aldeia.
Pedro, um repórter investigativo muito articulado, curioso, determinado, inteligente e ético, permanece dedicado a denunciar o que de ruim pudesse ocorrer na aldeia. E descobre algo muito mais assustador no quinto dia. No jornal, a manchete:
"Incêndio na Prefeitura não foi um acidente"
Acontece que ninguém mais acredita nas notícias de Pedro.

Número 470
Rubem Penz
Filhos nascem para mudar nosso rumo na vida, para estabelecer nova ordem na escala de valores, para ensinar o que é importante, o que é secundário e o que é imprescindível. Eles nem sempre conseguem cumprir esse objetivo: pais que permanecem focados em si matarão muitas aulas e, com o passar dos anos, suas notas serão insuficientes para prosseguirem na esperada evolução humana. Porém, tal fracasso no enriquecimento de nossa existência, quando ocorrer, não pode ser atribuído aos filhos – sua (nada) simples chegada é a grande lição que oferecem. O restante precisa ser apreendido.
Vejamos um exemplo banal: jogos e brincadeiras esportivas. Desde tempos primitivos, a competição implica em vencidos e vencedores, com todos sabendo em qual dos lados desejamos estar. Aí o pai está diante do filho pequeno, oponente em condições desiguais, mas bravo e cheio de motivação. Surge a dúvida: ganhar ou perder? O destino do jogo é decidido nesse instante. Também aí, começam as lições de vida.
Há pais que enfraquecem suas posições e entregam todos os jogos. Só o filho vence. A felicidade é ofertada com perdulária gentileza. O pai relembra suas dores nas tantas derrotas e jamais deseja que o filho passe por essa tristeza. São aqueles que, na vida, não aprenderam muito bem a perder. Maus perdedores: é isso que eles são. Logo, quase incapazes de ensinar a perder com altivez.
Também existem os pais que jamais amolecem durante os jogos. A criança precisa crescer forjada na dificuldade, pois a vida não dá moleza a ninguém. Desejam incutir nos filhos o desejo messiânico de superação, dão valor aos feitos do David contra Golias, rezam na cartilha do sofrimento para merecer a redenção (quando não a vingança). São aqueles que, na vida, não aprenderam muito bem a vencer. Maus vencedores: é isso que eles são. Logo, quase incapazes de ensinar a vencer com humildade.
No centro, os moderados: pais que fingem derrotas e, vez por outra, impõem a superioridade como uma espécie de alerta. De um lado, miram o ganho de autoestima que só os reforços positivos podem oferecer. De outro, ensinam sua criança a lidar com as frustrações e limitações inerentes do convívio competitivo. São pais que souberam retirar exemplos das derrotas e das vitórias, lidando com ambas de modo a serem relativizadas.
Mas, e as lições aplicadas pelos filhos nos pais, onde estão? A resposta é: criando dilemas como esses, capazes de revisar conceitos. Quem não sabe perder, recebe a oportunidade de aprender para poder ensinar. Quem não sabe vencer também, só que em vetor contrário. Aos moderados, caberá a lição (igualmente difícil) de se entristecer quando "perde" para o filho e se alegrar quando o bate – fingindo o inverso que se passa no coração.
A última opção é ter sempre algo mais importante para fazer quando o filho convida para jogarem, brincarem, competirem. Ausência que poderá ser decisiva na conquista de muitas vitórias e outros prejuízos.

Número 469
Rubem Penz
Veja bem: atenção para a lareira, aqui é onde ligamos a hidromassagem, o acabamento em bronze antigo do corrimão da escada dispensa polimento, mosaicos de cerâmica marcam a divisão de ambientes, luzes indiretas criam um clima intimista... Sim, corretores de imóveis são especialistas em pinçar aquilo que nos enche os olhos (enquanto esvazia nosso bolso). No fundo, sabem que felicidade doméstica passa longe da sofisticação. Porém, uma agrega valor e a outra, não.
Quem faz a alegria do banheiro, por exemplo? Não é a pia em mármore, a argola dourada para as toalhas de rosto ou o vaso sanitário trapezoidal. Para mim, felicidade é luz direta e ventilação farta. Nada substitui um banheiro bem arejado, escolha dos profissionais de arquitetura ainda em fase de projeto. Banhos de luz e as lufadas de frescor valerão mais do que o piso em porcelanato tão glorificado pelo vendedor. Ali, na rotina das manhãs, na saída do chuveiro, ao lavar o rosto, uma lição cotidiana da diferença entre o que é caro e o que não tem preço (claro, podendo, sempre é melhor termos os dois).
Lembrei-me disso no desabafo de um amigo bem achegado quando trilhou o caminho da área de serviço para me encontrar. Por ele estar vivendo a contingência de mudar-se para uma casa em fase final de obra (conheço o filme), ele olhou para o nosso tanque como o náufrago para as areias da praia. Lustre, freezer, forno, balcão ou cristaleira? Nada... A vida se decide no basal, na essência. Quase gritou: meu reino por um tanque! Ali, naquele operacional e malfadado recanto do lar, estava sua Pasárgada.
Amigo, disse-me, vocês não fazem ideia da falta que faz um tanque. Um lugar para limpar mãos e braços sujos até o cotovelo, para depositar o que jamais caberá numa pia, para lidar com a dimensão do caos. O tanque é o centromédio do lar: pouco aparece e ninguém admite depender dele. Mas, sem um volante voluntarioso (sem um tanque), tudo fica mais difícil. Tanto que os tanques foram se chegando do arrabalde para perto e, por fim, para dentro de casa. No minúsculo apartamento, ele está lá: na cabeça da área, pronto para o serviço pesado.
Longe de mim fazer a apologia do pobre, mas limpinho; do simples, mas honesto; do improvisado, mas funcional. Só quero lembrar que tudo na vida tem (ou deveria ter) prioridades, e estas não precisam passar necessariamente pelo poder aquisitivo. A quase pronta casa do meu amigo e sua querida esposa é linda, luminosa, aconchegante. Tem uma vista belíssima e inexpugnável, ambientes bem bolados e todo o conforto que se possa pensar. Mesmo assim, o lar não pode ser considerado plenamente habitável sem um prosaico tanque na área de serviço.
Dá até uma vontade de mudar de atitude: ao receber visitas, levá-los pela casa a mostrar o quadro de luz, o tanque, a dispensa, a caixa d'água, o aquecedor de passagem. Tudo antes da espaçosa sala de estar que, como diria o corretor, é composta dois amplos ambientes a formar um "L" com a sala de jantar.
O luxo é aparente, mas frio como ouro. O conforto é invisível, mas quente como o abraço.

Número 468
Rubem Penz
Elas agora andam em bando. Não, não andam: voam. Voam para fora de casa e aterrissam nos bares em ruidosos bandos. São como enxames ocupando mesas que precisam ser movidas para dar lugar a mais e mais delas. Ninguém mais quer (ou tem) sossego. E falam, e riem, e olham para os lados, para frente, para trás. Dominam a cena. Sabem o nome dos garçons e fazem deles gato e sapato. Nos olhos dos moços, o espelho para medirem o potencial de sedução, para treinarem as artimanhas. Tudo com plena permissão.
Elas agora fumam parelho. Tragam com sofreguidão e soltam a fumaça para o alto. Fazem do vício outrora introspectivo um manifesto. Assumem o papel do menino que buscava no cigarro o passaporte para a vida adulta. Correm o risco do fósforo, sapateiam nas brasas. Celebram a antifertilidade das toxinas e da morte. Nem lembram mais se entraram nessa por querer ou por precisar. O fato é que sem precisar, parecem querer; sem querer, parecem precisar. O Ministério da Saúde as diverte.
Elas agora também bebem. E como! Umas com sabedoria, outras contra a natureza, na onda. Pagam suas contas, pagam para ver, por vezes apagam. Socorrem-se na vertigem, perdoam-se nos excessos. Já houve prisão, hoje há pressa. Sobem as apostas, blefam, blasfemam. Não poupam palavrões, ou se poupam, ou nos poupam. Ai do homem que resolva julgá-las. Guardam na ponta da língua a réplica mais ácida: os homens, em termos de álcool, ou de escândalos, pregam moral sem cuecas.
Elas agora rapinam. Miram, farejam, perseguem. Escolhem a presa e escolhem as armas. São num só tempo isca, armadilha e caçador. Gatas que não se contentam em comer a vítima – primeiro, brincam com ela. Manobram, chantageiam, manipulam. Chegaram lá de uma vez por todas: ao comando. Lambem o sabor da tirania, experimentam novas saciedades. E gostam. Eles também gostam.
Jogo empatado, elas por elas, bola ao centro.
Claro que elas não são todas elas. São algumas delas. Parecem muitas porque aparecem mais. Assim como eles também nunca foram todos desse jeito – ou todos iguais, por maior que fosse a campanha em afirmar a regra. O bom, o louvável, é que eles sempre puderam. Hoje elas também podem. Desejar está permitido. Ir ao limite está permitido. Ultrapassá-lo, também. Sem recriminações, cobranças, fogueira, patrulha, compaixão.
Talvez alguns ainda se choquem com tamanha mudança. Eu, não. Da mesa onde estou, apenas admiro. Ali estão elas por elas. Lindas. Felizes. Ou não. E até nisso estamos em igualdade.

Número 467
Rubem Penz
Cada geração de crianças (cada família) tem sua Páscoa pessoal, intransferível. O sentimento é sempre o mesmo, os símbolos pouco mudam, as mensagens permanecem. Porém, a maneira como tudo acontece vai se moldando aos costumes, ao orçamento, ao tempo.
Aqui, algumas das coisas que fizeram parte das minhas páscoas infantis:
Ovo cozido colorido. Sempre tinha em nossos ninhos. Eram fervidos em água com corantes e a casca ficava vermelha, roxa, verde, azul. O bacana é que a clara também restava colorida, em tom sobre tom.
Cascas de ovo pintadas, recheadas com amendoim doce e tampadas com papel de docinho. Verdadeiras obras de arte. Isso ainda é bem comum em algumas comunidades fundadas por imigrantes europeus, especialmente fora das grandes cidades.
Galinha de açúcar. Era um ninho com uma galinha branca e azul claro, cercada de pintinhos amarelos, toda feita apenas de açúcar. Comer tudo de uma vez só era tarefa para poucos. Eu voltava umas três vezes antes de terminar, colocando os pedaços babados na geladeira. Eca.
Barba de pau. Ninhos com barba de pau colhida nas árvores dos pátios, tudo perfumado com flores de macela. Essa não só fica difícil para os dias de hoje, como soa antiecológico. Quando me dou conta de que peguei essa época, me sinto com cem anos de idade.
Cestos de vime. Cada um tinha o seu, guardado pelas mães de ano para ano. Grandes, resistentes, fundo de madeira, feitos para durar por toda a infância e ainda ficarem íntegros para ser emprestados (doados) para quando os filhos crescessem. Verdadeiras obras de arte.
Moedas, garrafas e cigarros. Devemos presentear crianças pequenas com garrafas de licor feitas de chocolate (por dentro, açúcar cristalizado), moedas e cigarros de chocolate? Pois nós ingerimos álcool, fumamos e fomos piratas com moedas de ouro, tudo sob o patrocínio de pais, tios e avós. Politicamente incorreto, saborosamente delicioso.
Beijo Africano, Beijo de Moça, Kri Crocante e azedinhas com figuras. Inesquecíveis e saborosos beijos. O Kri era uma das delícias Nestlé, e as tais balas azedinhas, depois de um tempo, ficavam nos formatos de flor dentro da boca. Uns vidrinhos bons de cortar a língua!
Coelhos de marzipan (massapão ou maçapão, dependendo do livro de receitas). Nunca apreciei, mas jamais disse isso à tia Elaine, quem mais gostava de nos presentear com a iguaria. Menos mal que eles sempre serviram de moeda de troca por uma barra de chocolate branco, predileção pouco usual.
Chica. Uma cadela Fox Miniatura especializada em roubar bombons e chocolates dos nossos ninhos. Quieta, subia nas mesas e balcões usando poltronas, sofás e cadeiras como escada. Crime descoberto apenas mais tarde, no momento de arredar as poltronas para faxina. Ali, restavam as embalagens caprichosamente abertas com os dentes e com as patinhas.
O leitor certamente terá outra lista.

Número 466
Rubem Penz
Quem muito viaja está acostumado com casas de câmbio: lojas em que uma moeda é vendida ao preço de outra. Nessa relação de comércio, há moedas mais caras e outras com valor menor. Quando vamos para algum lugar diferente, é preciso estar com a moeda local, mas sem perder a noção de medida, pois nossos proventos não fazem câmbio. Aí o turista fica lá fazendo suas contas, para saber se determinado produto ou serviço está pela hora da morte ou barato demais.
Algo parecido ocorre em outros âmbitos. Esses dias um amigo disse que, ao fazer aniversário, recebera cerca de trezentos cumprimentos de amigos pela rede social. Número impressionante, maiúsculo, grandiloquente. No mesmo dia, ganhou uns cinco ou seis telefonemas. E não teve dúvida de que esses telefonemas valeram muito mais do que as três centenas de recados. Porém, um camarada apareceu no escritório de surpresa para simplesmente lhe dar um abraço – gesto solitário que valeu ainda mais do que os telefonemas. Tudo uma questão de câmbio.
Quer dizer, valores são muito relativos. Dependendo do lugar em que estivermos, no momento de fazer o câmbio afetivo, trezentos pode valer um, ou até menos do que um. O que não desmerece em nada aquele abraço virtual, ou o telefonema tão carinhoso. É só um problema de relação entre as moedas. Fossem trezentos amigos até o escritório abraçar o aniversariante, para ao menos igualar o feito, precisaríamos de umas noventa mil mensagens. E eu estaria diante de alguém muito, mas muitíssimo querido.
Ainda há os casos de moedas raras: ali, o preço não está no valor de face, mas em sua preciosidade ou afetividade. Numa hipótese tola, pois impossível, quantos recados de Facebook seriam necessários para empatar com o abraço de meu pai, já falecido? Asseguro que nem os recordes de seguidores das celebridades chegariam perto de tal valor, ao menos para mim. Como exemplo mais corriqueiro, os abraços dos filhos são muito valiosos. E, para receber o aconchego de alguém que amamos, dispensaríamos na troca centenas de ligações telefônicas.
Pode parecer que estou desvalorizando os sinceros e queridos cumprimentos que recebo no meu dia de nascimento, ou os que eu mesmo ofereço no cotidiano aos amigos aniversariantes das redes sociais. Mas não é nada disso. O valor muda apenas quando viajamos para o mundo real e passamos pela casa de câmbio. É preciso compreender que são moedas diferentes por natureza. Ou uma amizade real poderá ser conquistada tão somente com um clique no botão de aceito? Nunca. Há que investir mais, muito mais.
Arrisco uma tese em que o esquecimento real, vindo com um tardio pedido de desculpas, ao vivo ou por telefone, ainda vale mais do que a fria lembrança virtual. Mas aí os amigos de fé, aqueles que me conhecem de verdade, já desconfiam que eu possa estar advogando em causa própria. Afinal, sou campeão de lapsos em datas de aniversário.

Número 465
Rubem Penz
Era uma casa amarela, dois pisos, nenhuma identificação na fachada. Bem poderia ser uma residência particular, uma clínica, um escritório, um prostíbulo, um cassino clandestino. Mas não era nada disso. Ali funcionava um clube. Um clube secreto. Toda noite o portão de ferro art deco era destravado para entrarem, uma a uma, pessoas que falavam uma senha ao interfone.
A senha tinha uma particularidade: mudava todos os dias. Como era passada adiante, ninguém sabia ao certo. Certo, mesmo, é que o sistema funcionava, pois jamais entrara alguém que não deveria estar ali. Quando o sol desenhava o contorno do horizonte e os garçons começavam a empilhar as cadeiras sobre as mesas, olhos e ouvidos se dirigiam ao Adroaldo, o barman, responsável pela escolha da palavra chave:
– Adroaldo, qual é a senha?
– Albatroz.
Clóvis, de todos o mais detalhista, mantinha uma lista de todas as senhas desde a abertura do clube. Sobre ele pesava a obrigação de jamais deixar uma palavra se repetir. Mas Adroaldo era de uma originalidade infalível:
– Adroaldo, qual é a senha?
– Virabrequim.
Na ocasião em que Clóvis fora hospitalizado, Heleno tomou para si a incumbência e, dia após dia, anotava a senha inédita: cumeeira, miragem, fuzil, rubi, endométrio, joio, orvalho, quibe, cedilha...
Um mistério, a habilidade de Adroaldo: senhas sempre fáceis de guardar e difíceis de serem adivinhadas. Alguns malandros, percebendo a dinâmica, até tentavam: alface, cizânia, braile, redondilha. Ninguém jamais acertou. Na madrugada, vinha Adroaldo: Pipa. Mas de vinho ou papagaio? – alguém indaga. O barman nunca respondia. O caso dele era com a senha, não com significados ou sinônimos.
Até o dia em que Adroaldo não apareceu no trabalho. Falecera. Mal súbito. Deixara como último legado a irônica e macabra senha da noite: miocárdio. No clube, muitos brindes em sua memória. Saudade, melancolia. E, na promessa de manhã, quando as cadeiras começaram a subir sobre as mesas, ninguém sabia para quem dirigir o olhar, de quem ouvir a próxima senha.
Miguelão, que atendera no bar, tomou a tarefa para si:
– Aquarela!
Alguns segundos depois, Heleno vetou: aquarela fora a senha em 17 de outubro de 1975. Felpa, disse Miguelão. Senha de 1982, em 3 de agosto. Sabonete! Essa apareceu em 1979, 2 de abril. Ilíaco? 7 de fevereiro de 1969. Pluma? Recente: 2002, 11 de março. Em mais de quarenta anos, Adroaldo não repetira uma só senha. Naquela amanhecer, Miguelão tentou vinte e três delas sem êxito.
– Senha! – gritou Fabinho, desesperado.
Finalmente. Jamais o termo senha havia servido de senha. Porém, na noite seguinte, sete estranhos acertaram a palavra, algo que a obviedade faria prever, mas o desespero deixou que acontecesse.
Heleno chegou a propor a troca de sistema, quem sabe com controle biométrico. Mas o clube havia se tornado folclórico justamente pela inexpugnável sequência de palavras chave. Além do mais, Clóvis, de sua clínica de saúde, mandara um torpedo: se mudassem o sistema, ele fugiria apenas para incendiar a casa.
Faz três meses que a casa amarela está com suas janelas e seu portão de ferro fechados. O mato cresce no pequeno jardim. Dentro, móveis estão brancos de pó. O piano desafina. Jaz uma história. Também sete corpos ocultos pelo tabuado.

Número 464
Rubem Penz
Há uma regra não escrita, mas que parece ter validade mundial ontem, hoje e sempre: quando o leitor esbarra em um erro ortográfico ou de gramática, o livro inteiro desce um degrau no conceito. Milhares de palavras íntegras e orações perfeitas são maculadas por um deslize. Ou, o que é pior: as ideias expostas, a história contada, as teses defendidas sofrem um abalo sísmico. Quando a compreensão é atingida pelo erro, vá lá, estamos diante de muitos graus na Escala Richter. Porém, na maioria acachapante dos casos, a falha passa despercebida por muita gente, e em nada afeta o conteúdo. O que minimiza o fato, mas não destrói a questão de que haverá desmerecimento.
Por isso sempre fui e sempre serei um fã incondicional dos revisores. Eles estão ali para garantir a saúde do texto oferecendo uma segunda opinião. Os brilhantes, e não são muitos, leem palavras, frases e parágrafos permanecendo vigilantes ao sentido. Manuseiam as vírgulas com a delicadeza de um ourives; notam os acentos como um maestro a escutar cada detalhe da orquestra; caçam falhas de digitação como a tricotadeira que não perde um só ponto. São atentos como o analista, seguros de que o discurso poderá trair o desejo do escritor (para o bem ou para o mal). Então, apontando a falha no ato, darão ao autor a rara oportunidade de pensar melhor antes de o livro ser impresso.
Sei que não é fácil receber o original de volta da revisão. É triste ver que poucas páginas escapam virgens – o que exige muita humildade no momento de aceitar e recusar as modificações sugeridas. A primeira reação é um enorme "não é possível, eu redijo bem, o revisor quer escrever por mim". Depois, aos poucos, domamos a fera e baixamos a crista, reconhecendo que a vaidade sempre foi péssima conselheira. Quando redator publicitário, eu implorava por revisão considerando o próprio autor o menos qualificado para o trabalho. Numa agência consegui que a coordenadora de produção lesse os textos, e muita dor de cabeça foi evitada. Desconfie dos que odeiam revisores: se achar infalível é a primeira de muitas outras falhas. E a maior delas.
Pena que na vida não tenhamos essa figura tão útil a marcar em vermelho nossas palavras e atitudes. Para muitos, revisor de plantão seria luxo. Para outros, porém, necessidade. O problema é que o revisor acabaria mal visto ou mal interpretado justamente por quem mais precisa.
– Olha lá que linda! Vou chegar nela e dizer "Que tal darmos as mãos para mim dançar contigo"?
– O certo seria "eu dançar contigo".
– Eu dançar com você? Jamais!
– Você não entendeu: é "eu" com ela.
– Nada disso! Vi primeiro. Além do mais, sou o autor da cantada. Você, no máximo, revisa.
– Tá bom, tá bom. Vou sugerir outra forma, já que você não alcançou: que tal "dançarmos juntos".
– Ih, olha aí o cara! Só pode estar de brincadeira. Homenagem atroz, só comigo e duas mulheres, compreendeu?
– Ménage à trois. É francês.
– Só podia ser mesmo: coisa de fresco. Levo outro homem para cama e, quando vejo, a vaca torce o rabo.
– É a porca quem torce o rabo. A vaca vai para o brejo.
– Bem isso. Olha lá: outro cara pegou a menina na frente de eu.
– Na minha frente.
– Que seja, então, na frente de nós dois. Ei, espera, aonde você vai?
– "Mim" precisa de um uísque...
