21.9.12

As lições de um hematoma

Número 491

Rubem Penz

Ler uma entrevista do Prof. Dr. Luiz Roberto Rigolin na Folha de São Paulo foi uma experiência de regressão: visitei minha vida passada de educador físico. E nem precisei mudar de encarnação, apenas voltar algumas profissões atrás. Na matéria do jornal, Rigolin defende que "estamos criando analfabetos motores". O termo é forte – talvez de propósito –, ainda que, para alguns casos, bastante adequado.

Sua tese recai sobre as crianças de classe média alta e alta, as quais perdem a oportunidade de desenvolver em plenitude seu potencial motor ao não experimentar determinados movimentos no tempo certo. Afinal, do mesmo modo com que capacidades cognitivas são adquiridas em etapas do desenvolvimento, a competência gestual também depende de estímulos múltiplos, adequados e pontuais.

Essa responsabilidade pode ser dividida entre vários culpados. Um deles é o medo: crianças não brincam mais nas ruas, livres para subir em árvores, atirar pedras, competir em brincadeiras como as de pegar ou jogos artesanais, escalar telhados, fabricar seus apetrechos ou lutar. Antes que alguém fique chocado, pergunte aos avós se não era essa a rotina fora da escola. Hoje, isso só acontece em zonas periféricas, e olhe lá. A violência ameaça crianças longe da tutela dos pais ou cuidadores.

Outro responsável é o excesso de zelo. Filhos de lares abastados parecem feitos com esqueleto de cristal, pele de porcelana e confiança delgada como a casca do ovo. Um bibelô cuja menor fissura pode significar a demissão da babá, um processo contra a escola, um drama desproporcional na família ou acusações mútuas em casos de pais separados. Enquanto isso, num passado recente, eu e meus contemporâneos nos esfolamos, nos quebramos (inclusive os dentes) e nos cortamos, entre outros traumas mais ou menos graves. E a consequência foi, ainda, ficar de castigo.

Por fim, ainda temos a confusão entre a educação física e o esporte. Cabe ao profissional alertar que são conceitos diferentes, ainda que complementares. Um desenvolve capacidades gerais, a famosa inteligência motora. Do mesmo modo como é mais fácil aprender uma terceira língua depois da segunda, é mais rápido reproduzir novos fundamentos quando se encontra relações com experiências motoras conhecidas. Depois, quando há um claro pendor (ou desejo), será o momento de se tornar especialista num só esporte. Com vantagens.

Os pais precisam ficar em alerta para o risco do tal analfabetismo motor. Isso influencia da inteligência à autoestima. Mais tarde, a vida real cobrará essa conta. Vida real? – pergunta alguém. Sim! Pois os avatares dessa turminha são ágeis, habilidosos, valentes, fortes, equilibrados, espertos e mortais. Tudo o que gostávamos de ser fora dos videogames.


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19.9.12

Coluna do Metro Porto Alegre em 19.09.2012


007 PERDE LICENÇA PARA ENCANTAR
A mais longa, célebre e lucrativa franquia cinematográfica completa 50 anos: as aventuras do agente secreto James Bond. Criada por Iam Fleming em 1953, foi adaptada pela primeira vez para as telas em 1962 no filme "O Satânico Dr. No", com o espião na pele do ator Sean Connery. De lá para cá, seis intérpretes viveram o papel e mais de 20 filmes oficiais foram produzidos. Mas o tempo deixa suas marcas.
Dá para saber a que geração alguém pertence perguntando qual foi seu primeiro Bond. Adianto o meu: "007, o Espião que me Amava", de 1977. Levarei para sempre na memória a cena inaugural: uma ágil perseguição de esquis na neve austríaca, culminando no salto da montanha, quando se abre o paraquedas com a bandeira britânica. E a música-tema de Monty Norman, com sua guitarra inconfundível na sensualíssima abertura com sombras de mulheres nuas, tiros e fugas. Recém-chegado na adolescência, enlouqueci!
Talvez por isso meu Bond preferido seja Roger Moore, ladeado no pódio por Sean Connery e Pierce Brosnan. O que me agrada em Moore é a canalhice explícita que dota o personagem. Numa análise distanciada, e depois de ter conferido os filmes anteriores e posteriores, considero aquela leveza de James Bond como o desejo inconsciente (ou plano sutil) de aliviar as gravíssimas tensões da Guerra Fria, ainda no apogeu naquele momento.
Sejamos honestos: o espião ganhara licença para matar em defesa do Ocidente capitalista. Nesse mesmo filme, o conflito gira em torno das armadas nucleares soviéticas e norte-americanas, cujo poderio estava por ser manipulado por um vilão inescrupuloso interessado em chantagear os dois lados, convenientemente unidos quando a linda agente russa Anya Amasova torna-se amante de Bond. Na política as partes não se entendiam, mas na alcova o enlace estava garantido.
Os britânicos comemorarão a data com a extensa viagem de uma caixa dourada contendo os 22 filmes já exibidos dentro de aviões, trens, automóvel, navio e até a pé. Nela, atores que participaram das filmagens serão protagonistas da aventura real. Tudo coincidirá com o lançamento do 23º filme oficial, terceiro a ser estrelado por Daniel Craig, um destruidor brutalizado e frio que em nada se irmana ao enigmático Connery, ao divertido Moore, ao sedutor Brosnan.
Assim que estamos: a luta do bem e do mal, seja em Londres, Moscou ou nas ruas de Porto Alegre, perdeu de vez o charme. A crua realidade parece ter matado o encantamento. Todos, agora, parecem vilões. Até 007.

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14.9.12

Dou voltas e Caio

Número 490

Rubem Penz

Foram tantas voltas feitas que deixei para escrever a crônica em cima do laço, na véspera, depois dos 40 do segundo tempo. Não é meu hábito, contudo a semana foi especialmente corrida, temperada com algumas novidades – entre elas uma pequena viagem e a interinidade para comentários sobre literatura numa importante emissora FM (BandNews). Nada do outro mundo, mas atividades que demandaram uma concentração mais apurada pelo caráter inaugural. E esse texto foi ficando para depois, para daqui a pouco, para agora. Quase que para ontem.

Porém, como sou alguém de muita sorte – o que jamais dispensa boas doses de juízo –, calhou de estar lendo um livro de crônicas recém-lançado, que folheio pelas bordas para não queimar a alma. Mais: decidi falar sobre ele na rádio, aguçando os sentidos para oferecer algo mais consistente do que o número de páginas ao ouvinte. Melhor: o autor estaria completando 64 anos durante a semana (em 12 de setembro), elevando a escolha ao patamar de efeméride. Perfeito: interrompi a leitura no exato instante em que o grande escritor queixa-se da urgência do gênero, cujo espaço no jornal aguarda nossas palavras.

Estou falando de Caio Fernando Abreu, autor gaúcho de envergadura universal, e seu A vida gritando nos cantos (Ed. Nova Fronteira, 2012). A obra é uma compilação de crônicas publicadas originalmente no O Estado de São Paulo, entre 1986 e 1996, textos galgando o suporte livro pela primeira vez. Uma publicação encorpada que talvez merecesse melhor cuidado em termos de artes gráficas – não que esteja ruim, apenas faria jus a mais. Para não deixar essa parte em todo desmerecida, a fonte escolhida – Brioni – é de confortabilíssima leitura.

De tudo de bom que se possa falar da prosa de Caio F., quero destacar sua virtude enquanto cronista: ele tem o dom de nos transformar em seus amigos achegados. Quase confidentes. Sua construção epistolar e intimista faz sumir o fato de que escrevia para milhares de leitores – parece que somos dois a trocar segredos, que o mundo inexiste. E olha que sequer o conheci em pessoa. De uma linha para outra, falando de si, comentando as angústias do cotidiano paulista dos anos 1980, desconfio que ele saiba de mim também. Muito impressionante. Quase mágico (palavrinha gasta, mas foi a que veio no momento e preciso terminar a crônica).

O título do livro – A vida gritando nos cantos – é um fragmento da crônica Querem acabar comigo, página 90. Nela, ele confessa a dificuldade em oferecer um bom texto ao leitor, uma produção de valor estimável, descrevendo um pouco de sua rotina. Adorei constatar (novamente) que não sou o único a sofrer a dor necessária para que a obra valha o investimento de quem se dispõe a nos acompanhar semanalmente.

Obrigado, Caio: se não bastasse a ótima literatura, você caiu como uma luva para salvar meu prazo!

 


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12.9.12

Coluna do Metro Porto Alegre em 12.09.2012



CHORE, VOCÊ SENDO FILMADO
Há um famoso jardim japonês chamado Ryoan-ji – Templo do Dragão Pacífico –, datado do século 11 e roteiro frequente de visitas. Nele, não existem flores, árvores ou arbustos. É um jardim de areia e rochas. Porém, acima do exotismo de sua natureza, está uma curiosa particularidade: com quinze pedras em seu interior, apenas quatorze são visíveis. Isto é, não importa de onde parta o ponto de vista, uma das pedras estará oculta. Sempre.
Tamanho cuidado em posicionar as peças não pode ser interpretado como coincidência (tudo na cultura oriental parece suscitar lições). Uma das leituras possíveis é a de humildade: o todo jamais será revelado a quem quer que seja. Outra probabilidade recai sobre a certeza de que a verdade absoluta não existe. Também podemos tirar uma lição de fé: é preciso crer na décima quinta pedra sem jamais vê-la, comprovar sua existência, contar com ela. Isso até o domínio dos ares, até o lançamento de satélites, até o Google Hearth.
Hoje, uma criança no Brasil, Austrália ou Finlândia consegue ver Ryoan-ji sem sair de casa e por diversos ângulos, inimagináveis no século 11. Sobretudo, ângulos que subvertem a proposta arquitetônica original. O todo parece estar ofertado para qualquer um; a verdade é pleiteada pelos olhos artificiais que tudo veem; Divina pretende ser a ciência que prova sem crer.  No momento em que o mero infante pode tanto, quando todos nós podemos nessa medida, fica a dúvida sobre a magnitude da visão de quem nos espia de propósito e almeja vantagens com tal poder.
Constatar essa nudez global (e aqui não é chiste) deveria desestimular as pessoas a atenderem ao irônico pedido “sorria, você está sendo filmado”. Ainda que as lentes sejam consideradas vigilantes para nossa segurança, duvido das boas intenções. Fosse assim, a violência teria declinado, e não o contrário – ou você sai para rua de coração leve? Acompanhando o resultado das câmeras, a única certeza que me ilude é a de estar entregue à barbárie. Prometem paz e entregam medo.
Porém, forçado por uma esperança que se justifica apenas na fé, quero crer na invisibilidade da décima quinta pedra. Preciso desesperadamente acreditar na metáfora de Royan-ji. Algo está escapando da tecnologia e permanece oculto. E, quem sabe, é algo bom, capaz de acalmar os espíritos, destronar a cobiça, estabelecer a tranquilidade.
De onde me encontro, quatorze pedras mostram o contrário.

10.9.12

Oficinas com inscrições abetras

Rubem Penz abre inscrições para duas oficinas de crônicas
O publicitário, músico e escritor Rubem Penz oferece a partir de setembro duas oportunidades para quem deseja conhecer e praticar o mais ágil gênero literário: a crônica. Em suas oficinas, depois de breve estudo conceitual, os participantes partem para a produção que explora a grande variedade de estilos presente na obra dos grandes expoentes nacionais. Mais: servem de vitrine para quem deseja se candidatar para a oficina Santa Sede, crônicas de botequim em 2013, cuja produção lança uma antologia por ano.
Aperitivo Santa Sede – no Dado Garden Grill. Encontros quinzenais em setembro, outubro e novembro, sempre nas segundas-feiras, 20h – 22h. Ideal para quem nunca participou de oficinas literárias e deseja investigar seu talento. Também para quem usa a palavra escrita em sua profissão e visa qualidade de estilo. 2 vagas
Crônicas no Templo – promoção do Templo do Oriente. Encontros semanais em setembro, outubro e novembro, sempre nas terças-feiras, 20h30 – 22h15. Concebida para acomodar tanto os novatos em literatura quanto os autores que já participaram de oficinas de outros gêneros (contos, poesia, infanto-juvenil). 6 vagas
Rubem é cronista do jornal Metro Porto Alegre (entre outros veículos) e do Blog Rufar dos Tambores  www.rufardostambores.blogspot.com. Ministra oficinas desde 2008, com destaque para a Santa Sede, crônicas de botequim – cuja safra atual lançará a terceira antologia da série em novembro.
Serviço:
O quê:             Oficina Aperitivo Santa Sede
Quando:         Quinzenal, a partir de 17 de setembro, segundas-feiras, 20h
Onde:                         Dado Garden Grill, Shopping Praia de Belas, Porto Alegre
Valor:              Três parcelas de R$100,00
Informações
e inscrições:   rubempenz@gmail.com ou (51) 9123.5540
O quê:             Oficina Crônicas no Templo
Quando:         Semanal, a partir de 18 de setembro, terças-feiras, 20h30
Onde:             Templo do Oriente Kebaberia, Rua Cel. Bordini, 92, Porto Alegre
Valor:              Três parcelas de R$150,00
Informações
(51) 3325.6138





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6.9.12

Acordos para acordar

Número 489
Rubem Penz
Há uma supervalorização do momento em que vamos dormir. Desde pequenos, somos instigados a cumprir algumas regras ditas "facilitadoras". Quem se tornou pai (mãe) por esses dias bem sabe disso. Dos pediatras aos consultores especializados (com colunas de jornal ou comentários no rádio), passando pelos avós, muitos contribuem com receitas para a hora de deitar. Sagrados tornam-se nossos rituais pré repouso.
Uns recomendam diminuir a luz dos ambientes; desligar a TV, rádio, videogame ou computador; criar rotinas de economia de movimentos; colocar pijamas; escovar os dentes, fazer pipi e botar toda a família na cama ao mesmo tempo... Existem os adeptos ao copo d'água, outros receitam leite, todos desaconselham refeições pesadas e muita carne. E, claro, tem a turma que aconselha a leitura, já bem acomodados debaixo das cobertas.
Porém, o despertar ficará por conta de cada um. Eis um momento em que as receitas esbarram no particular e intransferível. Pode até ser impressão, mas não me lembro de ver o mesmo ímpeto para dar conselhos sobre como encarar o dia que nasce. Logo, para um instante de tamanha fragilidade, há um vazio institucional. No alvorecer, nos deparamos com o império da intuição, do particular.
Por isso, talvez, seja muito (muitíssimo) mais complicado acordar ao lado de uma nova companhia do que levá-la para a cama. Atire o primeiro travesseiro quem nunca teve o desejo de fazer sumir alguém que está ao lado pela manhã. Arrisco o palpite de que alguns solteiros empedernidos assim o são pelo pânico de ceder espaços em sua rotina matinal. Por outro lado, quando a intimidade começa a ser conquistada, o encantamento que separa o fechar e o abrir de olhos marcará a diferença entre a conquista do "felizes" e a garantia do "para sempre".
Há quem pule da cama feito um jato (falante e articulado), enquanto tem gente que deseja matar quem ouse romper o silêncio. Uns programam o despertador para muito antes da hora (e curtem a preguicinha), outros querem dormir até o último instante. Tem aqueles que precisam de café com mesa posta em contraste com os jejuadores. Há adeptos do banho para acordar e os que usam o banho para adormecer. Isso sem falar nos programados (planejam a roupa na noite anterior): gente que jamais entenderá quem baixa todo o guarda-roupa antes de decidir-se por uma mísera calça. Como conciliar tudo isso?
Assunto tão sério deveria constar em acordos pré-nupciais. Tipo, Artigo 1º: jamais fale comigo antes das nove horas. Ou: Quer café? Aprenda a preparar. Ainda: Esqueça as notícias – prefiro música clássica. Fica a ideia aos escritórios de advocacia.



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5.9.12

Coluna do jornal Metro 05.09.2012

BRASIL NAS PARALIMPÍADAS: VISIBILIDADE PARA DEFICIÊNCIAS
Nossos atletas paralímpicos estão, outra vez, empilhando medalhas.  Em cada novo dia dos Jogos de Londres, mais e mais bronzes, pratas e ouros. E, se não bastasse, já batemos recordes mundiais e sobrepujamos favoritos. Outra peculiaridade: ótimos resultados em atletismo. Na comparação com os Jogos Olímpicos, os paratletas brasileiros levam nítida vantagem.
Eis uma boa notícia, mas... É impossível que só eu fique intrigado com essa situação. Deve ter uma explicação para tal fenômeno. Vamos às hipóteses: a primeira, numérica, faria crer que vivemos em uma nação de aleijados. Nunca antes na história da humanidade um país teve tantos cegos, amputados e demais portadores de necessidades especiais para competir. Confere? Não. Então, deve ser por outro motivo.
Já sei: há políticas públicas e ações privadas de pleno amparo ao nosso deficiente (a patrulha politicamente correta abomina esse termo). Aqui, eles encontram estruturas preparadas para acolhê-los, facilitar suas vidas, corresponder às suas necessidades e, então, incentivá-los ao esporte. Confere? Quem anda nas calçadas de nossas cidades, sobe em ônibus ou entra em prédios sabe que não. O motivo é outro.
Quem sabe seja pelo fato de o brasileiro ser especialista em driblar dificuldades? Estamos esquentando... Afinal, ultrapassar obstáculos (reais e metafóricos) está no DNA do povo brasileiro. A malandragem, o jeitinho e o "se dar bem" seriam apenas subproduto de uma cultura de superação, de ir contra a maré. Logo, nossos portadores de necessidades especiais têm garra de sobra para alcançar o pódio Paralímpico, pois vivem no dia a dia a obrigação de vencer apenas por si. Tudo que os atrapalha, fortalece.
Esse raciocínio, por um viés torto, explicaria nosso fracasso nas Olimpíadas: no povo, só temos paratletas. Fique claro, porém: suas deficiências são extrínsecas – não lhes faltam membros ou sentidos. Capengas, subdesenvolvidas, obtusas são as condições de trabalho. Esporte na escola? Só para meia-dúzia (particular). Treinamento especial? Quando há, está distante dezenas de quilômetros de sua moradia. Incentivo? Só o da família (mais conhecido como sacrifício). Grandes patrocínios? Quando (se) for campeão.
A contraprova vem nas tantas medalhas no Hipismo, Vela e outros esportes elitizados ou midiáticos, onde há paridade com o Primeiro Mundo. Fora deste Olimpo, estão nossos deficientes. Ou melhor, nossas deficiências. E os heróis.

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31.8.12

O causo da mangueira assombrada

Número 488

Rubem Penz

O folclore brasileiro é riquíssimo em histórias. Muitas delas nascem mais perto da gente do que se supõe. Por exemplo, no caso (ou melhor, no causo) de existir uma mangueira assombrada lá para os lados de Santana do Livramento, fronteira do Brasil com o Uruguai. Quem conta essa passagem é o tio Darci, que não é meu parente, e sim do grande amigo João (outro João, não aquele do Lupicínio Rodrigues em Cevando o amargo).

Pois tudo aconteceu com o próprio tio Darci, que jura ser verdade. Exausto em uma tropeada longa, calhou de, numa tarde nublada, anoitecer mais cedo justamente próximo de uma mal afamada mangueira. Nenhum tropeiro pousava lá bem por isso: juravam ser assombrada. Pior, a aparição era de uma alma penada mulher, desejosa dos homens que paravam por aquelas bandas. Uma versão gaudéria do canto da sereia.

Metade pelo cansaço, metade por não acreditar em coisas do outro mundo, tio Darci acomodou a boiada, apeou do cavalo, acendeu o fogo e cevou o mate, desafiando a lenda. Chover, não chovia – ficava só na promessa. Promessa em forma de vento inconstante. No abandono do Pampa ali estavam, solitos, ele e os animais. Quem sabe na tutela do Nosso Senhor.

Quando escureceu de vez e o silêncio ficou interrompido só pelos soluços dos gravetos queimando, uma voz fugidia se fez notar, carregada por uma lufada do vento alquebrado: "Vem meu amor...". Era baixinho, ainda que suficiente para intrigar o gaúcho. Tio Darci seguiu cuidando a panela que cozia o arroz de carreteiro. Outro ventar e novo convite: "Vem meu amor...".  Caso sério. Sem dúvida, voz de mulher. Mulher bonita. E, por mais que o homem negasse a possibilidade, aquele melodioso convite prosseguia insistente: "Vem meu amor...".

Chegara a hora de dividir o povo entre os que honravam suas bombachas e os covardes. E ele não estava disposto a cerrar fileiras com os que dali corriam como piás. Pegou o facão na mão direita, um lampião na esquerda e saiu atrás da voz. Primeiro, na direção da qual vinha o vento, para ver se este era o culpado. Que nada: dali, só o silêncio. Seguiu volteando feito ronda de milico até chegar num capão de árvores baixas. Era o lugar sombrio de onde vinha o convite: "Vem meu amor...".

Pois bem certinho, sob um espinilho de copa baixa, não é que tinha um disco velho partido na metade, ainda daqueles de 78 rpm? Era bater o vento, sacudindo os galhos da árvore, e um dos espinhos corria num pedacinho do disco: "Vem meu amor...". Cabe dizer que, mesmo em mau estado, deu pra ler o nome do fantasma: uma tal de Carmen Miranda.


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29.8.12

Coluna do Jornal Metro 29.08.2012


GREVE DE SEXO E OUTRAS SEM-VERGONHICES
Está no noticiário: hoje, faz 24 horas que as togolesas entraram em greve de sexo. A ideia é abster-se de abastecer maridos para convencê-los a derrubarem o regime opressor. A inspiração vem das liberianas, e do fato de o Presidente gostar muito dos esportes de alcova. Assim, elas não amolecerão durante uma semana, na esperança de que os homens endureçam.
Que usem o ímpeto para a derrubada do governo – argumentam as ativistas, joelhos fechados em piquete. Em riste, apenas os punhos – ecoam as palavras de ordem. Armados, só se for para a luta – ordenam sem dó nem piedade. Se desejarem muito meter algo, que metam logo o pé na porta do Palácio – bradam as mais dispostas a levar essa história de trocadilhos além da fronteira do bom gosto.
Fiz uma rápida enquete com os amigos de bar sobre essa manchete. Um deles comentou que, na casa dele, uma semana sem sexo não seria greve, e sim uma bênção, pois está exaurido de tanto fazer. Por algum estranho motivo, ninguém acreditou. Quando ameaçamos ligar para a patroa e conferir a história, o desmentido veio rápido.
Outro, cabisbaixo, confidenciou para o grupo em voz miúda: no meu caso, sexo de sete em sete dias não é greve, está mais para operação padrão... Parece que ele não ergue a bandeira com tal frequência desde o tempo dos Caras Pintadas. Para motivá-lo à insurgência civil, bastaria a promessa de retorno à normalidade constitucional, mesmo que, em alguma medida, provisória.
Um terceiro invejou a situação africana. Para ele, deixar de fazer sexo em causa tão nobre é algo magnífico. Por aqui, qualquer motivo tolo já suscita paralisações. Foi tomar um chope com os parceiros na sexta-feira? Greve. Coincidiu ter futebol na TV quarta e quinta? Greve. Deu carona à nova colega de repartição porque chovia muito, ficando preso num engarrafamento e perdeu a hora? Greve. Assim é difícil negociar!
Chamado a tomar posição nesse enrosco, procurei ser conciliador. Sem ter o que tirar nem por quanto ao mérito da iniciativa togolesa, a solução poderia estar nas mãos dos homens. Ora, que prometessem, por um lado, uma passeata aqui, outra acolá. Em troca, exigissem uns 30% de disposição – apenas para serviços essenciais. Afinal, o importante é cair o governo, não a moral da tropa.
Enquanto isso, no Brasil, a sem-vergonhice pública não faz greve nem tira férias. E nós, passivos.

24.8.12

Reparando

Número 487

Rubem Penz

Reparar é um dos sinônimos de olhar. Carrega consigo, porém, outro ponto de vista: é um olhar crítico. Reparando, estamos de alguma forma colocando um juízo de valor, comparando com determinado padrão estabelecido, analisando. Enfim, mais atentos do que supõe o olhar descompromissado.

Há alguns vícios de profissão que fazem com que pessoas reparem nos corpos dos outros. Ao professor de Educação Física jamais escapa uma escoliose, por exemplo. Dentista nenhum é imune à análise de nosso sorriso, mesmo no encontro informal. Policiais de folga no serviço antecipam-se apenas com base em atitudes suspeitas.

E, como a compulsão sexual move a vida do planeta, mulheres costumam reparar nos homens que passam. Eles, ainda mais, nas mulheres que desfilam.

Era o que sempre acontecia com o Joel. Porém, enquanto ele reparava na gata flanando pelas calçadas, sua mulher reparava nele reparando. Quando se viu flagrado, olhou para a esposa com aquela cara de – quê foi? Quê foi digo eu – respondeu ela furiosa, desejando saber se ele perdera alguma coisa naquele jovem traseiro. Mas o homem não se deu por vencido:

– Ah, querida, vai dizer que você não viu?

– Vi o quê, Joel?

– A moça! Será que ela não percebe que o jeans de cós tão baixo desfavorece suas pernas curtas?

Jogada de mestre! Joel descobriu um alvará para olhares furtivos: comentar algo sobre a roupa. Porém, seus conhecimentos mal passavam do cós – precisava pesquisar mais. Trocou a assinatura da revista de esporte por uma de moda, acompanhou tendências na TV, descobriu um novo mundo.

– Olhando o quê, Joel?

– O decote desfavorece os ombros dela... Aquela camisa solta disfarça o culote da outra... O corte de cabelo destoa com o formato do rosto da do meio... A mais jovem deveria aprender a caminhar de saltos...

Quando tudo parecia perfeito em sua estratégia, surgiu um terrível efeito colateral. Hoje, Joel não mais consegue mirar as mulheres apenas com olhos de gula. Por mais que deseje, não se concentra em peitos e bundas como outrora. Quando vê, já está reparando na roupa...


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21.8.12

Oficinas: inscrições abertas, vagas limitadas


Rubem Penz abre inscrições para duas oficinas de crônicas

O publicitário, músico e escritor Rubem Penz oferece a partir de setembro duas oportunidades para quem deseja conhecer e praticar o mais ágil gênero literário: a crônica. Em suas oficinas, depois de breve estudo conceitual, os participantes partem para a produção que explora a grande variedade de estilos presente na obra dos grandes expoentes nacionais. Mais: servem de vitrine para quem deseja se candidatar para a oficina Santa Sede, crônicas de botequim em 2013, cuja produção lança uma antologia por ano.

Aperitivo Santa Sede – no Dado Garden Grill. Encontros quinzenais em setembro, outubro e novembro, sempre nas segundas-feiras, 20h – 22h. Ideal para quem nunca participou de oficinas literárias e deseja investigar seu talento. Também para quem usa a palavra escrita em sua profissão e visa qualidade de estilo. 9 vagas

Crônicas no Templo – promoção do Templo do Oriente. Encontros semanais em setembro, outubro e novembro, sempre nas terças-feiras, 20h30 – 22h15. Concebida para acomodar tanto os novatos em literatura quanto os autores que já participaram de oficinas de outros gêneros (contos, poesia, infanto-juvenil). 6 vagas

Rubem é cronista do jornal Metro Porto Alegre (entre outros veículos) e do Blog Rufar dos Tambores  www.rufardostambores.blogspot.com. Ministra oficinas desde 2008, com destaque para a Santa Sede, crônicas de botequim – cuja safra atual lançará a terceira antologia da série em novembro.

Serviço:

O quê:             Oficina Aperitivo Santa Sede
Quando:         Quinzenal, a partir de 17 de setembro, segundas-feiras, 20h
Onde:                         Dado Garden Grill, Shopping Praia de Belas, Porto Alegre
Valor:              Três parcelas de R$100,00
Informações
e inscrições:   rubempenz@gmail.com ou (51) 9123.5540

O quê:             Oficina Crônicas no Templo
Quando:         Semanal, a partir de 11 de setembro, terças-feiras, 20h30
Onde:             Templo do Oriente Kebaberia, Rua Cel. Bordini, 92, Porto Alegre
Valor:              Três parcelas de R$150,00
Informações
(51) 3325.6138




17.8.12

Corte e costura


Número 486
Rubem Penz
Está magoada, ofendida, quase em depressão. Dez anos, diz a si mesma. Dez anos! Uma história. Muitas histórias. O começo e seus projetos – sonho de uma longa vida em comum. Entrara de cabeça. Aos poucos, porém, as águas do casamento ficaram revoltas, turvas, e o mergulho deixou de ser assim tão seguro. Busca na solidão do apartamento uma boia, um tempo para retomar o fôlego. Uma direção para onde nadar.
Tesoura nas mãos – terapia – corta minuciosamente aquelas fotos em que aparecem os dois, separando cada parte do casal em montinhos distantes. Natal, Ano Novo, aniversários. Sorrisos fedem a escárnio, abraços parecem estupros, beijos salivavam fel. É preciso segurar a tesoura para evitar a castração. Deseja o poder dos vodus. Quer odiar menos, mas amara demais.
Acomoda-o, caco por caco, num envelope pardo, tamanho A4. Não é novo, está amassado em uma das pontas e começando a puir na dobra. Serve para seus propósitos. Ele não merece mais. Endereça o destino e não informa remetente: é óbvio. Até ele saberá. Na agência de correios mais próxima, carta comum, por favor – não há o que valha registrar.
Dá voltas pelo bairro. Deseja perder-se. Vai ao shopping, entra no cinema, visita a irmã. Quando volta, à noite, encontra o tapete aspirado, as toalhas trocadas, a cama feita e nenhum sinal de si – sumiram suas metades. Na certa a faxineira considerou lixo aquela papelada partida. Passada a ira momentânea, pensa: melhor. Que apenas ele fique com os destroços da relação. Que faça sozinho o rescaldo. Que sofra.
Na madrugada, sonha com suas perdidas fotos e acorda com taquicardia. Confundem-se ficção e realidade – agora escuta o barulhento caminhão do lixo passando ali defronte, fim de qualquer esperança de resgate. Saíra perdendo já nas primeiras horas da separação: ele com paisagens parciais, ela sem nada. Ele, bem ou mal, inteiro. Ela no lixão da cidade. Ele, destinatário nominado. Ela, remetente desconhecido.
A semana custa a passar. Desconfia que será desse jeito para sempre. Demora-se na cama. Tem saudade, teme o futuro. Terminar talvez tivesse sido precipitado demais. Mas, e o orgulho? A faxineira lhe traz um envelope. Branco. Impecável. Quem touxe? Seu marido, ué, que veio aqui quarta-feira passada, também, buscar umas coisas. Abre com pressa. Dentro, apenas um rolo de fita Durex pela metade.

10.8.12

Dois corações


Número 485
Rubem Penz
Assisto o desempenho dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos com dois corações, e acho que não sou o único. Um torce para eles de modo fervoroso, apaixonado, intenso. O outro, seca. Mas seca muito: deseja que não ganhem nem bronze. De preferência, que façam fiascos.
(Londres 2012 atende ao coração quente e também ao frio)
Não adianta: quando nossas cores entram nas quadras, nas pistas, piscinas, tatames ou campos, sou tomado pelo sentimento patriótico. Meu passado acadêmico traz a compreensão de quanto é custoso e raro ser um atleta de altíssimo nível – nível olímpico. Isso é um plano de vida e implica enormes sacrifícios pessoais em busca da glória improvável. Afinal, no ápice só tem lugar para um, ou uma, e a peneira é milimétrica. Há muita emoção ao ver a bandeira no alto, o hino ecoando e um brasileiro (irmão de solo) comovido.
Porém, o mesmo patriotismo, quando combinado com o senso crítico, imediatamente aciona o desejo de que nossos resultados não mascarem o quadro triste do esporte nacional. Vivemos em um país continental e miscigenado, dois dos mais fortes ingredientes para o sucesso nas diversas modalidades olímpicas. Não nos falta material humano (aliás, abunda) nem clima dócil. Logo, deixamos de ser uma potência esportiva por outros fatores, todos ligados à esfera política. Nossos feitos, pífios, são consequências do descaso na educação (principalmente) e na saúde, preceitos constitucionais do poder público.
Maior raiva surge com o oportunismo dos governantes tão logo aparecem novos heróis. Pousam para fotos, discursam, sorriem e faturam benefícios pessoais ou partidários. Pior: enaltecem no guerreiro ou guerreira o fato de superarem as dificuldades cuja responsabilidade recai sobre seus ombros, sem confessar ou expiar-se. Esquecem que a glória olímpica é apenas a cereja do bolo cuja massa, recheio e cobertura se faz com milhares de jovens saudáveis, com boa formação moral, distantes do crime e da droga. O desporto salva e dignifica vidas desde a base até a elite.
Quero um dia unificar meus corações. Quero chorar abraçado na bandeira verde e amarela. Quero, acima de tudo, abandonar o destaque em outros rankings vergonhosos, tais como o da desigualdade social, das agruras na saúde pública e dos fiascos na educação. Chega de ver meu país no pódio da corrupção, da violência e da malandragem. É: quero só torcer, sem secar. Parece querer demais?

3.8.12

Inimigo íntimo


Número 484
Rubem Penz
Existem pessoas que cultivam com enorme apreço seus desafetos, nutrem com zelo as picuinhas, sorvem com prazer a menor chance de implicar com o outro. Tire a dúvida: coloque-o num balneário deserto um final de semana inteiro. Céu azul, temperatura agradável, água fresca, ninguém por perto. Paz? Que nada, inferno! Felicidade é alguém oferecendo um bom motivo para a discórdia – o que ocorre com frequência quando o tema é futebol.
Soube que isso sempre acontecia entre dois vizinhos de apartamento, seu Antônio Maria e Juarez. Torcedores de clubes rivais, nenhum perdia a oportunidade de festejar em alto brado suas glórias, ou de tripudiar sobre o insucesso alheio. Bastava um dos times fazer ou levar um gol para o vizinho beneficiado subir o volume do rádio, colocar a cabeça para fora da janela e gritar com endereço certo: Toma boneca, essa é pra aprender! Lá e cá, sempre a mesma irritante frase: Toma boneca, essa é pra aprender!
Houve uma quarta-feira de campeonato regional em que eles se encontraram no elevador. Juarez tinha um pacote de latinhas de cerveja nas mãos – providência a ser gelada para a noite de clássico. Provocaram-se discretamente, cada qual mais confiante do que o outro, ambos com medo da possível flauta. Temor procedente, pois o jogo foi muito parelho e se manteve em zero a zero até os 42 do segundo tempo. Num lance de bola parada, o time do seu Antônio Maria selou o placar. Juarez estranhou o silêncio.
O velho morava só, e Juarez disse para a esposa que havia algo errado acontecendo. Ligou para a portaria perguntando se o vizinho havia saído de casa. Não. Correu até a porta ao lado e chamou com insistência. Nada. Sem pestanejar, pediu ajuda e forçaram a fechadura. Ele estava desmaiado no banheiro. Correram para o pronto-socorro. Graças a Deus não passara de um susto, mas ficou hospitalizado para investigar as causas da perda dos sentidos.
A verdade é que Juarez prestava muita atenção ao vizinho, mesmo que isso só fosse perceptível em dias de futebol. O que fez, certamente foi determinante na recuperação de seu Antônio Maria. Este que, aliás, soube do resultado do jogo apenas na quinta-feira à tarde. Ainda baixado para exames, ao receber a visita do rival, fez questão de chamá-lo para um abraço. Era comovente vê-lo tão agradecido. Então, ao ouvido, balbuciou: Tomou ontem, né boneca?

27.7.12

As vísceras da paixão


Número 483
Rubem Penz
Quando Pedro me fala sobre Paulo,
sei mais de Pedro que de Paulo
Sigmund Freud
Uma parcela considerável da imprensa sobrevive de fofocas. Principalmente aquela dedicada a acompanhar a vida dos fulanos ditos celebridades, os famosos “famosos”. Todavia, seja no esporte, coluna social, editoria de cultura ou política, a verdade é que ninguém resiste a uma nota sobre o comportamento alheio. Sempre assim: na caminhada, o que dá maior ibope é o tropeção.
Por falar em tropeço, uma das oportunidades mais aguardadas por repórteres é quando um casal de destaque se separa. Especula-se sobre as razões, procuram rumores de quem possa ser o pivô do rompimento, posicionam os microfones para colher declarações emocionais. Famosos “profissionais” se esquivam com assessores de imprensa especializados no jogo de mostrar e esconder. Outros agem no fogo dos acontecimentos, na dor da mágoa.
O que alguém revela de seu ex-cônjuge, para quem e em quais circunstâncias, diz muito sobre o caráter. No casamento, há um despir-se radical. Dividir a intimidade com alguém destrói qualquer fantasia de perfeição – caem as máscaras e a humanidade surge em sua magnífica imperfeição. Nenhum outro terá maior privilégio do que o cônjuge: será dele a mão na testa amparando a cabeça diante da privada – a escatologia é o grande desafio do amor. Por isso precisamos confiar.
O que fazer quando o amor acaba? Escolher as palavras para não deixar que as vísceras da relação, agora morta, alimentem os urubus. Sepultar as dores de modo que apenas a paz esteja visível diante da lápide. Heidi Klum é a mulher mais maravilhosa que conheço, teria dito Seal ao separar-se. Ele (nada santo) perdeu algo deixando só flores neste túmulo? Nada: ganhou! Uma mulher esperta verá nisso um mérito.
Na contramão, Lissandra Souto, espinafrando o Tande depois de longo matrimônio, depôs tanto ou mais contra ela do que contra ele. O rapaz tem culpas no cartório? Claro que sim, tal como ela e eu também. Ao faltar-lhe com respeito, em público e para os abutres, oferece a si própria em sacrifício.
Aliás, Lissandra me fez lembrar um pouco as palavras de Chico Buarque: (...) me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua. Mas, claro, isso já é especulação minha. Pura fofoca!

20.7.12

Romeu & Julião

Número 482

Rubem Penz

Shakespeare me perdoará. Primeiro, pelo trocadilho do título. Depois, pela dessemelhança com sua história, desperdiçando o chiste. Mas juro que isso tudo aconteceu.

Nossa história começa no dia em que a família de Rodrigo chega para morar na vizinhança e, já no primeiro dia, desentende-se com o dono da casa ao lado. Um motivo bobo, a manobra desastrada do caminhão de mudanças, desencadeia uma discussão áspera e o mal está feito. Alheio a tudo, o menino Rodrigo conhece Júlio, ou, como condiz ao amplo porte físico, Julião. Tornam-se amigos.

Por mais que um patriarca reclamasse do outro, ou que erguessem muros mais altos para sequer se olharem, os filhos ficam cada vez mais amigos, a ponto de serem apelidados pelo professor de história, que morava defronte, de Romeu & Julião. O apelido pega e Rodrigo vira Romeu para o bairro inteiro. No colégio, o nome está correto na lista de chamada, mas, de colegas a mestres, todos chamam Rodrigo de Romeu. Romeu & Julião. Inseparáveis.

No começo, Romeu ainda pequeno, a família o proíbe de ir à casa de Julião. O que não adianta em nada, já que os dois ficavam na rua o tempo todo. Na juventude, Romeu desconsidera a ordem e passa tardes e noites do outro lado do muro. Ele e muitos mais: Julião morava numa casa de italianos do tipo acolhedora, com cozinha grande e comida farta – ideal para adolescentes. Promovem festas até tarde, normalmente interrompidas pela polícia (supunham que era o pai do Romeu quem chamava os home).

Bom, quem espera por um romance gay, agora se decepcionará: o que separa os amigos é, primeiro, o Exército: Julião resolve seguir carreira, para decepção do professor, homem de esquerda, eternamente ressentido com a caserna por causa do passado recente. O tiro de misericórdia é dado por Ana, colega de Romeu na faculdade, moça que o arrasta para um bairro distante, onde ele volta a ser Rodrigo. Por fim, quando Julião é transferido para o Espírito Santo, a dupla fica unida tão somente por recordações e raros encontros.

Da última vez que se falaram, e nem faz muito, o assunto foi o passamento do professor. Câncer. A mãe do Romeu e pai do Julião também estavam falecidos. Parece que o tempo e as mortes suavizaram o atrito entre as famílias. Há quem diga mais: que na grande cozinha italiana tem sempre outro prato à mesa, além do da viúva. Coisa de romance... Mas ninguém comenta isso com Romeu & Julião. Não é bom facilitar: aquela outra história termina em tragédia.

 


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18.7.12

Notícia musical



Folia do Divino, música em parceria com Marcelo Delacroix, foi selecionada como finalista do Festival de Música Unijuí/FM Cultura.


Agora, a fase mais competitiva: os votos que decidirão são os dos ouvintes. Portanto, convido todos a ouvir. E votar!


http://www1.unijui.edu.br/noticias-unijui-fm/14551-selecionadas-as-musicas-do-2-festival-de-musica-da-unijui-fmrw




Sobre Folia do Divino:
Aos versos resultantes de minuciosa pesquisa na tradição religiosa luso-brasileira, somam-se melodia que relembra as ladainhas interioranas e batidas percussivas de raiz. O resultado é uma canção sem tempo definido: ora soando antiga, ora trazendo o frescor da novidade. Letra: Rubem Penz. Música: Marcelo Delacroix. Na percussão: Mimmo Ferreira.

13.7.12

Dos pesadelos

Número 481

Rubem Penz

Sonhamos acordados e, igualmente, temos muitos pesadelos rondando nossa vigília. Mais: se vários sonhos são comuns a todos, há, também, pesadelos compartilhados. Um deles – dos mais frequentes – é o medo de que ninguém apareça na festa que você organiza com tanto apreço. Confesso meu pânico.

Enquanto quem convida está ocupado com os preparativos (contratando a comida, colocando a bebida no gelo, ajustando os detalhes da decoração), não há clima para temeridades, ou tempo, ou espaço. O foco está em prevenir sobressaltos de última hora, garantir a qualidade dos serviços, estar pontual no cronograma. Cumpridas todas as tarefas, nasce a dúvida: e se ninguém vier?

Pensa-se no prejuízo material, sim. No desperdício de comida, também. Mas o que realmente apavora é o abalo emocional que sofreremos caso ninguém apareça. São minutos que duram horas. As mãos ficam molhadas, os pés inquietos, o pensamento rumina cenários de catástrofe. Por instantes estamos reféns da solidão, e o primeiro amigo será tão importante quanto a silhueta de um navio no horizonte do náufrago. Ele, o primeiro, reconhecerá no abraço recebido o acerto em ter chegado assim cedo.

Mas, se em festas de salão ou residenciais o mico de ser esquecido é ameaçador, ele ao menos tem a vantagem de ser privado. Semana passada estive exposto à mesma angústia, com o agravante de estar em público. Explico.

Programei um jantar entre queridos amigos – a velha e invencível combinação de boa mesa e melhor papo. Como de costume, a lista de presença virtual cresceu feito capim em verão chuvoso. Que alegria! No dia e hora aprazados (aliás, quinze minutos antes, para dar tempo de contornar eventualidades), lá estava eu, solitário, ocupando uma mesa para trinta lugares. Trin-ta lu-ga-res... Ao redor, o restaurante começou a encher.

Paranoico, imaginava os outros a lamentar minha situação, quem sabe por já terem passado por igual suplício. A toda hora o garçom vinha na mesa e me oferecia qualquer coisa – não sei se dividindo a dor ou apenas vendendo seu peixe. Até a chegada da primeira companhia, nem mesmo o excelente chope me fazia feliz. Enfim, com ela, acendeu a luz no fim do túnel. Ah, e o jantar bombou.

Histórias de aniversariantes solitários em meio a bolos, velas e balões vicejam como lendas urbanas. Nunca passei por isso e, mesmo assim, morro de medo a cada festa. Queria ser seguro e confiante como o leitor que agora me rotula de dramático. Mas sou um fraco. O único consolo seria algum comentário confessando igual pesadelo. Você, por exemplo, já viveu esse apuro?


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6.7.12

Trevas

Número 480

Rubem Penz

Portas, grades, muros, arames farpados... Cercas físicas e elétricas, correntes e cadeados. Tudo o que protege da escuridão nos separa, também, da luz. Alguém precisa dar mais atenção à influência das tantas barreiras físicas no ânimo de nos aproximarmos uns dos outros. Em pleno Século 21, voltamos à Idade das Trevas, época de violência e medo.

Ninguém me convence de que o isolamento cada vez maior e sua consequente intolerância não nascem de uma contaminação psicológica dos limites contundentes em nossas propriedades, especialmente em grandes centros urbanos. Se o outro vem da fronteira estabelecida entre o bem e o mal, e estou seguro de habitar o lado do bem, ele é, a priori, uma ameaça.

Para mim, o recado transmitido por uma porta sólida, gradeada e com um olho mágico sempre foi evidente: estou desobrigado de atender. Vejo o outro lá fora, mas permaneço oculto em minha toca, acuado, indisposto. Ao sair, recorro ao vidro escuro do automóvel, novo manto da invisibilidade. Tudo é feito para escapar do constrangimento da exposição.

Também o recado de um muro alto é claro: você não é bem-vindo. Seu olhar deve permanecer de fora, não quero ouvir o som que você produz, em nada me interessa quem está do outro lado. Além do mais, a ignorância sobre o entorno é reconfortante: poupa-nos de todo e qualquer impulso de solidariedade. Desculpa-nos de eventuais omissões.

O recado de um porteiro eletrônico é frio como a voz metalizada: convença-me de quem é você, diga o que deseja, seja convincente. O recado do agente de segurança que nos prende em eclusas é explícito: desconfio de você a ponto de cercear arbitrariamente sua liberdade pela simples ousadia de querer entrar. O recado de uma cerca elétrica é ameaçador: perigo! E o cão que ladra avisa que morderia antes mesmo da invasão, pois foi treinado para farejar, em todos, potenciais inimigos.

Assim, para sairmos de nosso lar em direção à casa de alguém é preciso, primeiro, ter coragem para enfrentar a Floresta Má do espaço público. Depois, aceitar o fato de que o feitiço desta floresta nos transforma em seres potencialmente perigosos, para os quais todos os recados convergem: vá embora! Por fim, carregar como antídoto uma poção com doses elevadas de paciência, perseverança, simpatia e fé.

Duvida? Leia os soturnos manuais de segurança para conferir quais foram nossas "conquistas" civilizatórias. Ali, o cabal reconhecimento ao poder das trevas. Ali, nada do que mais almejo: a cálida e reconfortante luz das almas.


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29.6.12

Cardápio

Número 479
Rubem Penz
Caso tenha feito reserva, seja bem-vinda. Desde já alertamos que a casa trabalha exclusivamente com menu confiança, franqueando ao chef as escolhas conforme os melhores ingredientes do momento. Esperamos dar-lhe motivos para voltar com frequência. Bom apetite!
Aperitivos
Sorrisos – brinde da casa. Temos desde os mais discretos até os escancarados. Sorrisos de soslaio, francos, amarelos, cúmplices, nervosos, indisfarçáveis. As porções são generosas e retornam tantas vezes quanto forem necessárias.
Cumprimentos – nem precisa pedir, acompanham os sorrisos. Beijos para clientes tradicionais da casa. Abraços para o público em geral, desde que haja alguma intimidade. Franquia de apertos de mão.
Conversa despretensiosa – ofertamos desde a mais light (condições climáticas), passando pelas apimentadas (recheio de segundas intenções), substanciosas (cultura, lazer, filosofia de botequim) e, também, pesadas (política).
Entrada
Conversa pretensiosa – tempero leve. Verdes para colher maduro. Informações úteis, inúteis ou fúteis regadas de malemolência. Porção ligeira, mas para ser degustada sem pressa. Também conhecida por preliminares.
Primeiro prato
Elogios ao molho de sedução – iscas. Especialidade da casa. Porção envolvente com intenções generosas colhidas do fundo do coração. A casa não trabalha com intenções artificiais, transgênicas ou cultivadas por interesses secundários. Falsas, então, nem pensar – até nos ofende!
Prato principal – para ser servido fumegante: corpo e alma ao molho franco. Recomendado apenas para paladares finos e comensais de alto nível. Slow food na fiel acepção do termo. Aos olhos mais apressados, o prato dá ares de alta gastronomia, porém, seu maior segredo está na simplicidade. Ou seria o contrário? Não tem preço.
Sobremesa
Bufê – jamais faltará doçura. Temos papo de anjo, bem casados e Romeu & Julieta. Nenhuma porção é adoçada artificialmente.
Bebidas não alcoólicas
Tipos e marcas variadas – tanta conversa costuma deixar a boca seca.
Bebidas alcoólicas
Beijos destilados, do outro lado, por todos os lados! Inclusive (aliás, principalmente) licorosos.
Café e chá
Sempre, mas sem colher – ninguém mais costuma dar.
Condições de pagamento
Fazemos questão de parcelar a perder de vista. Aceitamos todos os cartões.

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